Deambulação maniqueia: o visível e o invisível

Greta Garbo: o riso

Há o visível e há o invisível. Temo que se queixem de algum exagero conceptual nestas crónicas. Ora, eu prefiro ser rude e apontar com o dedo a ser acusado de conluio com qualquer dos falecidos filósofos franceses das últimas décadas. Despido de pós-modernismos, com um dedo aponto para Greta Garbo, com outro para Marilyn Monroe.

É lendária a invisibilidade de Greta Garbo. Era, se quisermos, uma anti-Marcelo, que nunca lhe roubará, por mais rouco que um dia esteja, a patética réplica: “I want to be alone.” De tão ausente, quando Garbo aparecia, logo um véu zen amansava a sala. Patrões dos estúdios, tipos de vozeirões tonitruantes, mesmo os nossos CEO das telecomunicações ou de empresas do audiovisual converter-se-iam em modelos de delicadeza e sottovoce, se por engano fossem convidados a vê-la.

Até os méritos de Garbo eram invisíveis. Hollywood demorou cinco anos a descobrir que ela falava. E foi preciso um alemão, Ernst Lubitsch, para descobrir que ela ria. Garbo já mostrara a Lubitsch sorrisos tristes, trocistas, alegres, francos, gentis, mesmo sarcásticos. Contara-lhe até, com divertida ternura, que acompanhara o maestro Leopold Stokowski, um dos seus amores, em digressão a Nova Iorque. Ela esforçava-se por passar despercebida. E ele, a fincar a ponta dos pés na fama, também. Só que, e vejamos o doce sorriso de Garbo, a ele ninguém o reconhecia mesmo, o que lhe provocava uma fúria de primeiro-ministro. Lubitsch adorou a ligeireza narrativa de Garbo e queria-a a fazer “Ninotchka”, o filme de três soviéticos que, controlados por uma vigilante camarada, acabam por se corromper em Paris. Mas saberia ela rir?

Pediu para rir no dia seguinte. E assim foi: “Ernst, estou pronta.” Riu. Era um riso de encher de sol uma manhã de Inverno e, já Lenine tinha morrido, Garbo foi a camarada Ninotchka, a comunista que até os comunistas gostariam de amar.

Em Marilyn tudo era visível. Era tanto o esplendor das formas, que punha uma sala aos gritos, fosse a entrar, fosse a sair. Ainda Marilyn tinha um só pé no estrelato e uma actriz da aristocracia hollywoodiana, Constance Bennett, vê-a a sair de uma daquelas festas de champanhe e vaidade. Todos os olhos se pregaram na ondulação das costas de Marilyn. Bennett, ofendida por tão móvel visibilidade, disse: “Esta putinha tem todo o seu futuro atrás dela.”

Marilyn carregando o seu futuro, segundo Constance Bennett

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