O homem democrata na cama

Angie Dickinson: olhares e requebros

Bem sei, ó horror fatal do nosso tempo, que a mulher e o homem acabaram, o próprio sexo foi extinto, o género é fluído e os genitais são um percalço que atesta a irrelevância da biologia. Mas deixem-me, num acesso ululante de nostalgia, falar de Angie Dickinson. Ela foi no ano pré-histórico de 1959, a mulher. Assim, conceptual, substantiva, absoluta: a mulher. Capaz de tornar quente a Guerra Fria, que agora voltou na forma de úlcera chamada Putin.

Ela foi, insisto, a última mulher hawksiana. Sabe do que falo quem a tenha visto de collants negros, em “Rio Bravo”, numa vilória de western, rodeada de homens com um revólver em cada anca e uma Winchester nos braços. Howard Hawks filmou-lhe o cabelo, o mais belo cabelo cor de champanhe da história do cinema, a boca de absinto, e Angie Dickinson converteu-se num misto de doçura e desejo, misto explosivo com mecha lenta, saboreado em muitas palavras e silêncios, olhares e requebros, mãos e aquelas emotivas e longas pernas.

Angie era mulher, carregada de sexualidade sem pressas, interessada pelo homem, com um propósito pedagógico de o beijar e despir, restituindo-o à sua primeva condição. Com um bizarro requisito, quase constitucional: queria que o homem fosse democrata. Angie adormeceu muitos homens, mas que fosse do conhecimento dela nunca dormiu com um republicano.

E nem sei se vos surpreendo: se ela beijava John Wayne em “Rio Bravo”, não foi a esse gigante republicano que concedeu favores, mas a Frank Sinatra, democrata genuíno. Durante dez anos foram amantes. Sinatra parava o seu Dual-Ghia, automóvel raríssimo, descapotável, que imagino vermelho incandescente e branco imaculado, nas traseiras da casa de Angie. De manhã, os homens da recolha do lixo paravam o camião e Angie ficava encantada a vê-los rabiar à volta do faiscante espadalhão.

O que eu quero dizer é que Angie queria Sinatra na sua cama e não o queria em mais lado nenhum. Já fora casada e casaria, depois, com Burt Bacharach, o compositor da canção viciante que é “Raindrops Keep Falling in My Head”. Em nenhum dos casamentos encontrou a felicidade que teve nas noites fortuitas – e, como Angie cultivava o irónico oxímoro, foram mesmo muitas noites! “Era maravilhoso, quase perfeito”, ouvi eu com estes meus ouvidos, bem melhores do que os meus olhos, dizer à voz rouca de Angie.

E o que ela fez questão de explicar é que não se amavam para casar. Queriam o corpo, a língua, ventre e pernas, o riso, o suor um do outro. E esse desejo intermitente, insustentável e logo apaziguado, durou dez anos. É verdade: na sala de estar de Angie, agora com 90 anos, está um totem de Sinatra em tamanho real. Mas na estante está também uma fotografia, mais discreta, mas inescapável, de John Kennedy, o presidente a que uma bala, em Dallas, no Texas, conferiu a indesejada imortalidade.

Sinatra apresentou-os. É possível, aliás, que tenha sido Sinatra a apresentar a Kennedy todas as mulheres que ele conheceu. Dickinson, com militância vibrante, veio participar na campanha eleitoral e foi a sete estados com o presidente. O que ganharam, John e Angie, nesses sete estados em que a vitória lhe escapou? A fotografia na sala de Angie está muda e calada. Angie sorri, e diz que chegou a escrever cem páginas sobre a relação dos dois. Destruiu-as porque, jura, ninguém acreditaria que não tinha havido nada. Sobre o nada escreveu o esquecível filósofo Jean-Paul Sartre 700 páginas. Estou certo de que seriam bem mais excitantes as desaparecidas cem páginas sobre o nada de Angie Dickinson.

Paula Rego, a pureza mais cruel

As Meninas, velha e nova edição

Hoje, quando o mundo se despede de Paula Rego com uma vénia, não consigo deixar de me lembrar que a minha vida de editor lhe deve muito. Ainda não existia a Guerra e Paz, tinha eu acabado de fundar, com amigos, a Três Sinais editores, uma musa ou um deus – e disso é que já não me lembro – plantou na minha pobre cabeça a ideia de que devia fazer um livro que combinasse a pintura de Paula Rego e a escrita de Agustina. Com uma gentileza serena, Paula Rego, ao telefone, aceitou, prometeu que faria novos slides de mais de uma centena de criações suas e, de Londres, remeteu todos os contactos para Manuel de Brito, seu braço direito na Galeria 111.

Começava aí a aventura de uma das mais belas edições que já fiz, As Meninas. Das Meninas da obra de Paula Rego, escreveu Agustina que «têm o rosto das criadas que andavam pela casa da Ericeira e que tinham duras mãos capazes de assassinarem alguém.» Paula Rego, a artista, tinha essa consciência assassina ou, e em tudo continuo a citar Agustina, a pureza mais cruel. Essa pureza e essa crueldade vão fazer falta ao mundo. Fica a tremenda obra cheia de gritos e medos. Um pequenino livro da Guerra e Paz, As Meninas, é um humilde, mas belíssimo testemunho que eu, seu editor, guardarei como um tesouro.

Cito outra vez Agustina: «Assim passamos e as coisas passam por nós.»

Alforrecas do céu

as alforrecas da minha infância

Voltarei a esta estória as vezes que for preciso. Ninguém pára o prazer da repetição da velhice

Uau. Foi este o clamor de Luanda nesse começo dos anos 60. Da boca da multidão saiu um grito buelo, como em Luanda se dizia, – um grito pasmado, a regurgitar admiração. Nessa manhã de colonialíssimo Verão caíam anjos do céu. Despejava-os o avião a que nós, candengues, chamávamos “barriga de jinguba”.

Já Leonardo Da Vinci desenhara anjos desses. É porventura lenda, mas conto na mesma. Logo no incipiente século IX, em Córdova, um mouro saltou de uma torre, sustentado apenas num manto que se encheu de ar, garantindo-lhe uma queda com pequenos danos. Não se sabe o nome desse mouro, mas eu sei os nomes dos meus amigos, candengues mouros de Luanda, aprendizes de Da Vinci. Esperem por eles: cairão do céu, daqui a mais um parágrafo.

Ora, a minha torrencial sede de justiça obriga-me a dizer a verdade. O primeiro pára-quedista foi francês. Ainda no século XVIII, André-Jacques Garnerin desenhou e fez depois em seda o primeiro pára-quedas que ligou a uma cesta, na qual se montou. Um balão de ar levou-o a mil metros de altura. Aí, a roçar o manto de Deus, Garnerin cortou as amarras que ligavam a cesta ao balão e o enorme pano de seda abriu-se, enchendo-se de um orgulhoso vento. Foi uma descida turbulenta, mas Garnerin aterrou como se, menino ou borracho, alguém lhe tivesse posto a mão por baixo.

Os meus amigos e eu, toda a cidade de Luanda, descobrimos os pára-quedistas dois séculos depois. Chegaram, mandados para Angola e em força pelo professor Salazar, que enjoava a andar de avião e, por isso, jamais se arriscaria à vertigem e a tanto arrebatamento. Em Luanda, arrebatamento patriótico e guerra à parte, o espectáculo de centenas de alforrecas do céu, descendo lá do alto, enxameando o horizonte, fez rir e chorar e incendiou o nosso imaginário de meninos. O Nelinho, Lando e Zé Victor, com os seus sábios oito ou nove anos de vida, voltaram a casa pendurados no sonho. Queriam também ir ao céu e voltar.

Foram a casa das respectivas mães: nesse tempo, em toda a prevenida casa de família havia cordas, rolos de fio, panos, nylon e poliestireno, vulgo plástico. Sonegaram, traficaram e clandestinamente reuniram tudo o que era preciso para, num arroubo artesanal, fazer um pára-quedas.

Reparem, a Vila Alice, bairro desse cometimento que iluminaria a nossa infância, era um pequenino estaleiro. As ruas a ser asfaltadas, cada talhão com novas vivendas em obras. Colorido pára-quedas na mão, Nelinho, Lando e Zé Victor subiram a um prédio em construção. Tinham comido feijão com arroz como se fossem príncipes, tal qual a canção suicida de Chico Buarque. Olharam lá de cima. Cá em baixo, três montes da dourada areia do Bungo, prometiam amaciar qualquer queda. Intrépido, Zé Victor quis ser o primeiro. Onde amarrar o pára-quedas? Ao pescoço, disseram, lógicos, Nelinho e Lando.

Zé Victor assim fez. Atirou-se e as leis da física funcionaram. Plástico e pano encheram-se de ar, as cordas retesaram-se e esganaram o seu alto pescoço de menino. Sufocado, soltando sons guturais de quem se afoga, olhos já fora das órbitas, o meu amigo pairava, majestoso. Nelinho e Lando, solidários e aflitos, desciam pelas obras, a gritar, já vais aterrar, aguenta, respira, já vais aterrar! Tombaram nas escadas, levantaram-se de joelhos em sangue, e chegam, está Zé Victor a aterrar na areia limpa, as cordas a aliviar, o seu pobre peito a enriquecer-se de ar. O sol da Angola ria-se e riam-se os três, inocentes, sem medo do futuro, sem cuidarem dos “andaimes pingentes que a gente tem que cair”. Deus lhes pague.

O maximbas e os seus mortos

Por vezes, a memória insinua-se e fala por mim. Crónica publicada recentemente no “Negócios”. Se tiverem paciência de a ler, leiam-na como reflexão recolhida e íntima, mais do que como declaração política. Isto sou eu a fazer contas comigo mesmo.

Entraram com os seus mortos. E queriam que todo o maximbombo visse os seus mortos. Eu ia também nesse maximbas, acabado de sair da Mutamba. Ia eu e duas freiras, duas irmãzinhas, sei lá se do Sagrado Coração de Jesus, que saíram do autocarro a correr, num assarapantamento tropical. Eram três mortos. Assim como entraram, logo saíram: mortos velozes, cobertos com lençóis, uma ou outra desassombrada mancha de sangue a decorá-los.

Essa era a Luanda do pós-25 de Abril e o problema que estávamos com ele, como na banda se dizia. O 25 de Abril, em 1974, era tudo menos um feriado. Apanhou os meus 20 anos na Biblioteca Nacional de Angola: eu lia, se calhar um livro de linguística, de John Lyons, talvez também um sub-reptício livro do senhor Ulianov. Ao ouvido, o meu amigo Juju disse-me que a rádio sul-africana anunciara um golpe em Portugal.

Ao silêncio sufocado do antigo regime, o 25 de Abril respondia com a sonora explosão das vozes. Em Luanda não se ouviam os clamores, os slogans ou os megafones das manifes de Portugal. Portugal não ouvia também os tiroteios dos dias e das noites de Luanda: day and night, night and day.

O 25 de Abril foi o dia da escolha. Portugal escolheu as vozes. Em Luanda, cada tiro condicionou a escolha. Eu escolhi os tiros. O luandino adolescente que eu era alinhou-se com o MPLA, então um fingido albergue espanhol de todas as ideologias, suposta fábrica do homem novo. No Lobito, os meus solitários 20 anos chocaram com a UNITA. Savimbi, quando vinha, dormia num prédio em frente ao meu, na rua que saía do Terreiro do Pó. Foi nesse prédio que me enfiei, na primeira batalha urbana entre o velho Éme e o Galo Negro, eran las cinco en punto de la tarde. E pensei: “Meu, pô, meti-me no coito do grande Muata. E se os camaradas do éme, zunem as balas práqui? Abre, meu!”

Vou meter a cabecita de fora e, em vez do harmonioso crepitar da aká, vocifera a primeira granada: mergulhei de novo no umbigo de Savimbi. A segunda tentativa foi ridiculamente igual à primeira. À terceira, rastejei em beleza, como tinha aprendido na recruta, na EAMA, a roçar os pneus dos carros. Ainda a tempo de jantar, junto ao porto, na pensão da Rosa, velha senhora que deliciava a minha boca revolucionária com os mais doces sonhos que algum dia comi.

Não a rastejar, mas de avião, fui a Luanda, a mando do ministro da Educação do governo de transição, Jerónimo Wanga. Era, certamente, um homem bom, mas tinha, nesse dia, a missão de me intimidar. A UNITA não apreciava a militância de seis professores do liceu do Lobito. Eu era um deles. Wanga, rodeado de quatro manos do Galo Negro, disse-me, a mim e ao Rui, outro dos profes: “Sei que vocês são do MRPP e só vieram cá fazer merda!” Toma que já levaste, embora o MRPP fosse fake news.

Dissemos-lhe: “Senhor ministro, nós não viemos, já estávamos cá”. Continuou: “O povo já está a ficar fodido convosco. Eu compro-vos as malas e mando-vos para o Puto.” Sorrimos: “Obrigado, não temos nada para levar. Preferimos ficar.”

Eis o 25 de Abril: vozes e escolha em Portugal. Rotundo não à ditadura de Salazar, um Verão quente para dizer também não ao PCP e à extrema-esquerda que, como hoje sabemos, nos teriam afundado na miséria económica e num regime mais repressivo do que o de Salazar. Sabe-o também Angola: sem escolha, a tiro apenas, se a dignidade da independência chegou, cavou-se um caos económico, regressão face à herança colonial, para não falar dos píncaros de repressão que milhares dos melhores angolanos sofreram no corpo e na alma.

O longo braço dos livros de Junho: o passado que assombra o presente

Convido-vos a deixarem-se agarrar pela cintura pelo longo braço dos livros de Junho.

são livros ou são braços?

O Longo Braço do Passado é o grande livro de Junho da Guerra e Paz editores. Cada página desse romance de Rui de Azevedo Teixeira me puxou também para o passado, arrastando-me até à infância em que eu lia livros de devoção como A Vida de Jesus, edição popular de Raul Correia, que este mês publico.

Voltei, à conta d’O Longo Braço do Passado, ao ramo da mangueira, a árvore onde, menino e moço, lia: podia ter lido ali as extraordinárias aventuras de À Espera de Bojangles, de Olivier Bourdeaut, ou o delírio fantástico e assustador de Nas Montanhas da Loucura, de H. P. Lovecraft, dois romances exaltantes de Junho, na Guerra e Paz.

O Longo Braço do Passado, história de um português que vai a Angola e mata, é tanto uma viagem no tempo quanto o livrinho científico de Ludovic Orlando, O ADN Fóssil, uma Máquina para Viajar no Tempo, ou como o rigoroso ensaio histórico de João Pedro Marques, Revoltas Escravas. No romance de Rui de Azevedo Teixeira, como nestes ensaios, perpassa a inquietação e a insatisfação de quem não se resigna a ideias tépidas e anestesiantes.

A vida, uma vida a estalar de contradições, uma vida de elegância e violência, com a memória de guerra do oficial comando que foi Rui de Azevedo Teixeira, atravessa O Longo Braço do Passado, como atravessa as Crónicas de Sebastopol, em que Tolstói narra a sua experiência das batalhas da Crimeia. Estão juntos, estes livros, em Junho: acompanha-os Eunice Muñoz: Fotobiografia, obra repleta de fotografias de vida e de palco, belíssima homenagem com o patrocínio da Fundação Calouste Gulbenkian.

O Longo Braço do Passado, romance que inaugura a colecção Arquipélago, doravante a colecção de romances contemporâneos de língua portuguesa, é um território de sombrias intuições e de vivos e agudos instintos. Foi a esses instintos que recorreu o economista espanhol Fernando Trías de Bes para nos explicar como as emoções mudaram o curso da Humanidade, em Uma História Diferente do Mundo. São outras as emoções que Lisboa despertou em Fernando Machado Antunes, que nos convida à mais lírica e fadista das deambulações em … como que lisboandando, o seu primeiro livro de poesia na Guerra e Paz.

Este é o nosso mês de Junho, com dez novos títulos, a que um romance, O Longo Braço do Passado, oferece um périplo pungente: Paulo de Trava Lobo, o seu herói, leva-nos a Lisboa e ao Porto, a Luanda e ao Lubango, à Bulgária e à Alemanha, numa peregrinação de risco, sexo e morte, que só o amor à literatura resgata. Um grande romance português.

E são estes, um a um, os livros de Junho

Nas livrarias a 14 de Junho

À Espera de Bojangles, Olivier Bourdeaut
Um romance narrado do ponto de vista de uma criança: com euforia e encanto. Os pais vivem com exuberância, música e champanhe cada minuto do dia. Pode a exaltação estilhaçar-se como um cristal?

Nas Montanhas da Loucura, H. P. Lovecraft
Uma das obras-primas de Lovecraft: nos píncaros da loucura, um mergulho no gelo mortal da Antárctica. Um grupo de cientistas descobre uma civilização inumana adormecida. Tensão, horror e morte.

… como que lisboandando, Fernando Machado Antunes
Lisboa visitada pela lírica, pela sintaxe e pelo vocabulário de um poeta que não consegue deixar de ser caluanda. Há versos de fado, há um lirismo musical nesta Lisboa em rima.

Revoltas Escravas, Mistificações e Mal-Entendidos, João Pedro Marques
Foram as revoltas escravas que acabaram com a escravatura? Quando foram bem-sucedidas, será que os escravos triunfantes criaram sociedades não-escravistas? Um livro essencial para o debate sobre a emancipação dos escravos.

O ADN Fóssil, uma Máquina para Viajar no Tempo, Ludovic Orlando
Um grande livro de divulgação científica: o ADN fóssil não só nos ajuda a escrever a História, como pode mesmo reescrevê-la, desfazendo mitos e preconceitos. É essa a grande viagem a que o cientista, seu autor, nos convida.

A Vida de Jesus, texto de Raul Correia, ilustração de Carlos Alberto Santos
Um livro popular que a Guerra e Paz recupera. Uma escrita simples que dá todo o protagonismo aos episódios centrais na vida de Jesus. As ilustrações reforçam a inocência.

Nas livrarias a 28 de Junho

Eunice Muñoz: Fotobiografia, texto de Fátima Morais
Um álbum magnífico: todas as imagens dos momentos mais marcantes da obra de Eunice Muñoz, mas também da sua vida em família. Toda a carreira teatral, cinematográfica e televisiva retratada nesta obra de grande qualidade gráfica, só possível com o patrocínio da Fundação Calouste Gulbenkian.

Crónicas de Sebastopol, Lev Tolstói
Está aqui, em carne viva, a Guerra da Crimeia, de 1855. Tolstói foi tenente nessa guerra. Relata os acontecimentos cruciais que viveu, desenhando aqui o esqueleto do que vai ser a sua obra-prima, o romance Guerra e Paz. Lida hoje, com a guerra da Ucrânia em fundo, é impressionante.

O Longo Braço do Passado, Rui de Azevedo Teixeira
Um ex-comando português vai dar aulas de literatura numa universidade angolana: começa aqui um périplo atormentado, de amor e violência. Pode haver um crime justo? Um romance português que privilegia a narração dos factos. Por mais crus, por mais brutais que sejam. Um livro poético e duro, belíssimo, que inaugura a colecção Arquipélago.

Uma História Diferente do Mundo, Fernando Trías Bes
Neste livro, o economista e escritor espanhol Fernando Trías Bes mostra-nos como as emoções e os instintos foram a chave para o desenvolvimento da Humanidade: o comércio, o câmbio, os seguros, a moeda são inventos que os humanos criaram para se salvar da violência.

Pãezinhos quentes

Estão que nem pãezinhos quentes: chegaram hoje às livrarias

Os Mortos, James Joyce

Uma novela de Dublin. O baile anual das irmãs Morkan, entre Natal e o Ano Novo. Uma noite de evocação e de elegia: emergem e caem graciosamente, como flocos de neve, os vivos e os mortos.

O Esqueleto, Camilo Castelo Branco

Nicolau, homem de 40 anos, casa com a inocente prima de 16. Antes, abandonou a amante francesa, a quem logo volta. Mas talvez Beatriz, a prima, não seja tão inocente como Nicolau pensava. Esse é o adultério. O esqueleto aparece anos depois.

Enfermaria, Ana Paula Jardim

Uma perturbadora viagem poética. Cura e doença, morte e salvação, numa evocação desassombrada de improvável beleza que habita, também, na enfermidade e na dor.

A Decadência da Arte de Mentir, Mark Twain / A Decadência da Mentira, Oscar Wilde

Neste livro, que reúne dois curtos ensaios, Mark Twain e Oscar Wilde fazem o elogio da arte de mentir e da necessidade dessa arte. Um livro irreverente e imaginativo.

Marquês de Pombal, Réu Confesso, Camilo Castelo Branco

Camilo diz-nos quem foi o Marquês de Pombal. «Um homem feroz», garante o autor de O Amor de Perdição. Uma biografia implacável, que faz de Pombal um réu confesso.

O pote de sexo

Comecei assim este ano de 2022, com vontade de ouvir as mais sinceras e convulsas confissões.

Tinha os dois pés há menos de uma hora em 2022 e vem-me do passado esta ideia: Elia Kazan gostava de confessar. Recordo os mais distraídos pelo fogo de artificio do réveillon: Kazan realizou filmes como East of Eden, Wild River e Streetcar Named Desire. Nem são bem filmes, são monumentos de paixão e criação a roçar o divino. Kazan, com mãos e olhos de Deus, inventou Marlon Brando e James Dean, que Homero, se os conhecesse, teria enfiado na sua Ilíada. Aliás, Kazan nasceu grego, em Constantinopla, a cidade que já fora Bizâncio e hoje é Istambul. Só não sei se o seu gosto pela confissão trágica vem do grego capadócio que era de nascimento ou do convicto americano em que se tornou.

Talvez a confessional Marilyn Monroe tenha alguma culpa. Vejam, vejam: Marilyn está a chorar. É um choro americano de 1951, límpidas lágrimas de uma mulher de 25 anos. Os 43 anos bem casados de Kazan acabaram de a conhecer. Estão no estúdio onde se filma uma fita de terceira categoria, em que Marilyn é actriz de quarta. Riem-se dela. Kazan veio de visita, e escuta-a. Enternece-se e convida-a para jantar. Não sei a que restaurante Kazan a levou, talvez ao Musso & Frank Grill, sei é que a ternura é já incandescente. E tornam-se amantes: Kazan começa a amar em Marilyn o genuíno talento, a candura. O ostensivo e inenarrável corpo de Marilyn exalava uma humanidade que o inspira. Talvez chorem, digo eu, de cada vez que dormem juntos.

Ainda seriam amantes, quando pela primeira vez, o Comité de Actividades Anti-Americanas interroga Kazan, acusando-o de ser comunista? Nesse primeiro interrogatório, Kazan confessa que foi militante comunista dos 23 aos 27 anos: passaram duas décadas e já não o é. E não confessa mais nada.

Terá sido então que Kazan apresentou Marilyn ao seu amigo Arthur Miller e logo assistiu ao tiro e queda que avassalou os dois? Marilyn escreveu no seu diário, a impressão do primeiro olhar para Miller: “Foi como se tivesse chocado de frente contra uma árvore!” Tenho a certeza: ao segundo interrogatório do comité de caça às bruxas, Kazan já não tinha o consolo de Marilyn. À confissão, no segundo interrogatório, juntou uma lista de oito nomes. Denunciou: passou a stool pigeon, a bufo.  Essa é inesquecível traição que a América de esquerda jamais perdoou a Kazan, se exceptuarmos o grande Scorsese.

E já eu peço licença para vos falar de outra confissão. Ainda mal tinha assentado o pó desta atroz traição, e já o maravilhoso e convulso Kazan escreve à mulher. Confessa-lhe, em carta vibrante, o que todos os homens gostariam de poder confessar: que dormira com Marilyn – melhor, que a amara. E tal como não pediu desculpa por denunciar os oito camaradas, fez até um filme genial, On the Waterfront, para provar que a denúncia pode ser mandatória, Kazan não pede perdão. Confessa e garante que era impossível não se morrer de amor, tanto ela era, e leio a carta, “desamparada e em atroz sofrimento, sem esperança, com algum valor e sem ser mentirosa, sem crueldade, sem intriga, e com uma história de orfandade que era de morrer a ouvir-se. Era como se nela se tivessem juntado todas as heroínas de Charlie Chaplin.”

Tal como acusaria o comunismo de ser uma violência a tudo o que acreditava, reclama nobreza com Marilyn: “Acho que lhe dei esperança. E ela não era o pote de sexo que se publicita.” Pede à mulher que fique com ele: “Sou um homem de família, e fantástico.” Ela ficou. E eu atrevo-me a dizer, pedindo um terno aceno de concordância de Marilyn, que já não se fazem homens de família assim.

As maravilhosas mentiras do mês de Maio

as capas dos 13 livros de Maio

É que nem morto este vosso humilde editor vos mentiria. E começo, assim, com juras de amor, só para vos dizer que o primeiro livro de Maio da Guerra e Paz se chama Os Mortos. Escreveu-o, com mão elegíaca, James Joyce: uma novela que sufoca e enternece. E também não é mentira que o segundo livro do mês se chame Enfermaria, peregrinação de dor e memória da poetisa Ana Paula Jardim: e não é mentira porque só há poesia onde há verdade e verdade é o que povoa de ironia, e não menos transcendência, outra digressão poética, a do último livro de Maio, Revolver, de Sérgio Almeida.

E sim, já eu mentiria se não reconhecesse o toque de macabro que emana (palavra ligeiramente mentirosa) de O Esqueleto de Camilo Castelo Branco: é um dos grandes romances portugueses, e isso é que não é mesmo mentira. E quem à morte chamava uma mentira, negando-a, era o herói de Impressão Indelével, história de Camilo, primeiro livro publicado pela Guerra e Paz, em 2006, e que agora recuperamos, incluindo o verdadeiro e intenso prefácio de João Bénard da Costa. O Esqueleto e Impressão Indelével vestem de camilianas e macabras verdades (ou mentiras?) a colecção Clássicos Guerra e Paz.

Já o livro que se segue é todo e tudo mentira. Meia mentira de Mark Twain e outra meia [mentira] de Oscar Wilde. Se um escreveu A Decadência da Arte de Mentir, ao outro devemos A Decadência da Mentira: estão juntos, mentira contra mentira, num só livro que este vosso escriba apresenta na breve introdução Não Vou Mentir: está de volta a colecção Livros Amarelos.

Chega de mentiras. João Maurício Brás, filósofo e autor, vem inquietar-nos com o seu O Atraso Português, Modo de Ser ou Modo de Estar? Mentiria se dissesse que sei responder a essa pergunta excruciante. O livro sim, sabe!

Quem, a todas as mentiras sobre a língua portuguesa, responde letra a letra, só com verdades, é o linguista Marco Neves, no livro Português de A a Z, Armadilhas e Maravilhas da Língua. Com verdades e graça.

Agora, o que o alemão Jurek Becker nos põe nas mãos e no nosso imaginário é mesmo o triunfo maravilhoso da mentira: escreveu Jakob, o Mentiroso, romance delicado e empolgante sobre a sobrevivência num gueto que os nazis esmagam. É verdade é mais um dos nossos romances de guerra e paz.

Um belíssimo mentiroso, na mais límpida acepção do termo, era Machado de Assis. Num romance, A Mão e a Luva, vamos ver quem, dos três pretendentes da protagonista Guiomar, melhor mente ou diz a verdade. E o que é verdade ou mentira na subtil arte da pintura? Edith Wharton cria um herói incompreendido e convida-nos a segui-lo em Falso Amanhecer, novela que enrique a colecção O Admirável Mundo do Romance.

Duas biografias, essa esplêndida arte de contornar a mentira e dizer muitas verdades, enfloram este mês de Maio da Guerra e Paz editores. A primeira, a biografia de Raúl Caldeira, O Pioneiro da Gestão de Pessoal, acolhem-na a Fundação Amélia de Mello e a Nova SBE na colecção Histórias de Liderança; a segunda, escrita por Camilo Castelo Branco, indefectível romeiro da fantasia e da verdade, expõe os enganos e imposturas da falsa grandeza no seu Marquês de Pombal, Réu Confesso.

Treze livros que, de mentira em mentira, e a crer em Mark Twain e em Oscar Wilde, nos restituem a arte de procurar a verdade, não menos do que toda a verdade.

Manuel S. Fonseca, editor