As Noites do La Chunga

Já aqui dancei. Com cândidas e vitais playmates roubadas a Hugh Heffner, com a maravilhosa gente da ex-indústria televisiva, que se finge fútil para não lhe dizer o que vai na alma. Já aqui bebi copos. Não sei se me confessei ou não e talvez me tenham feito confissões, que a mim mesmo me proíbo de lembrar. Mas sei, sobretudo, que fiz aqui um amigo.

_La-Chunga

No hay tablao” no La Chunga, mesmo em frente ao Hotel Martinez, em Cannes, a cidade do festival de cinema, a cidade dos mercados de televisão.

Piano-bar depois da meia-noite (antes dessa redonda hora é restaurante para factícios príncipes e putativas cinderelas), com música variada e frequência unilateralmente suspeita, “no hay tablao” nem é preciso, porque nas cadeiras ou nas mesas – em todo o lado, menos no chão – jovens mulheres e homens de matura idade dançam enérgica e livremente, sempre bem acima do nível do mar.

Não me lembro de quem canta e do que se canta! Minto, minto: lembro-me da Katty Blue a cantar na materna língua francesa, e também em fluente inglês (naquelas nocturnas horas em que todo o inglês que se ouve parece saltar de Lady Macbeth para o Paraíso Perdido) e ainda (volare, volare!) num macarrónico mas doce italiano. Morena, quase um metro e setenta, olhos negros, nascida, julgo, em St.Tropez.

Não, não me lembro: invento! Ao ponto de me atrever a jurar que Katty Blue tinha a elegância ainda não anoréxica dos 60 quilos!

No La Chunga, até às 5 da manhã, dança-se. Em homenagem, creio, a Micaela Flores Amaya, cigana andaluza, bailarina, que os pais fizeram nascer em Marselha e, de Picasso a Ava Gardner, conquistou os grandes do mundo, conhecida e amada como La Chunga. Essa, ela, cujos “pies descalzos” – tendo abandonado aos 21 anos o flamenco por ter casado e sido mãe – mais tarde “volvieron a pisar anoche el tablao del Café de Chinitas”.

Gostaria de pensar que o La Chunga foi dela, ou foi criado por amor a ela. E gostaria ainda de acreditar que a homónima peça de Vargas Llosa, protagonizada pela proprietária de um bar no Perú, se inspirou na andaluza bailarina e nesta sexy espelunca do 24 da rue Latour-Maubourg que, perpendicular, desagua na Croisette.

A verdadeira bailarina e a fictícia peça de Llosa são porventura coincidências. Ou são apenas reflexo de um (meu) desiderato descabelado e optimista. Pouco importa. Das minhas noites no La Chunga guardo a inocência dum prazer em primeiro grau. Não precisam – aquelas cendradas noites – de caução. Basta-lhes essa intensa e infantil alegria de, cantando mal e dançando pior, terem firmado electivas afinidades.

No La Chunga, mesmo quando é de pinguins que se fala, nas cadeiras ou em cima das mesas, dança-se sempre, limpidamente, acima do nível do mar.

Batendo nos fins de tarde

Deviam, as memórias, ser cada vez mais ténues. Mas vêm, em gigantesco assombro, rasando as manhãs, batendo nos fins de tarde, forte caudal de águas lunares, reflexos luminosos a rasgar as trevas. O passado é o sangue do presente, agitado, de uma feroz e persistente presença. Tenho a velhice cheia de gritos juvenis. Hoje, como há oito anos quando escrevi esta nota, volto a ter 20 anos, volto a embarcar nesse camião fervente, de corpos na busca utópica de um destino. 

multidão
a multidão

Podia escre­ver um livro: bastava-me dizer tudo o que não sei.

Em 1975, na cidade do Lobito. Gos­tava de me ter visto. E se me visse agora, veria exac­ta­mente o quê?

Era uma coluna de camiões a atra­ves­sar a cidade sur­pre­en­dida. Milha­res de umbun­dos. Vinham do mato, dos kim­bos. Vinham de bair­ros que os bran­cos nem sus­pei­ta­vam. Nenhum daque­les homens era só um homem: che­ga­vam e entra­vam como uma mul­ti­dão, uma epi­de­mia que desa­guava no san­gue da cidade. Podia escre­ver um livro com o que já então não sabia sobre essa mul­ti­dão umbunda do éme pé lá. Pequena mul­ti­dão com­pa­rada com a gigan­tesca, her­cú­lea multidão, que a Unita nes­ses dias havia de juntar.

Num dos camiões iam os meus vinte anos. Eu ia sozi­nho. O vírus branco no meio da mul­ti­dão bantu. O rapa­zi­nho de Luanda no meio dos umbun­dos, rapa­zi­nho de óculos e barba mal feita. O meu camião negro, que o MPLA tra­zia para se mani­fes­tar con­tra o galo negro de Savimbi, can­tava em umbundo con­tra o chi­co­ro­nho, o colono, o branco que tinha de se ir embora. O camião negro em que eu ia olhava-me com um misto de iro­nia e com­pai­xão enquanto can­tava em umbundo: branco, colono, vai-te embora.

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O que é que eu veria se, agora, no meio dos camiões mili­tan­tes, inde­pen­den­tis­tas, ango­la­nos, negros, visse os cabe­los sol­tos, hip­pies, de um espú­rio rapa­zi­nho branco… Podia escre­ver um livro com esta ideia: a inde­pen­dên­cia era a única forma de expe­ri­men­tar a minha soli­dão branca.

Podia escre­ver um livro se Miles Davis, a trom­pete e soli­dão, não o tivesse escrito já.