
Há um bocadinho de estrela em cada um de nós. Afinal, é disso que somos feitos, da cósmica poeira das estrelas.
Blog de escrita e de reflexão lúdicas. Um lema: chatices não!

Há um bocadinho de estrela em cada um de nós. Afinal, é disso que somos feitos, da cósmica poeira das estrelas.

Preciso de desabafar: acho uma coisinha achincalhante um jogador de futebol deitar-se no chão atrás da barreira. O meu amigo Nelinho Ramos, e se eu disse amigo, foi só para não dizer meu camarada de armas adolescentes e meu irmão e mano (olhem que isto não é bem uma redundância) foi o mais estiloso defesa lateral que o ASA, o velho Atlético Sport Aviação, várias vezes campeão de Angola, teve. Jamais Manuel Ramos, perdão, o meu irmão Nelinho, se deitaria no chão como um vencido, fazendo do seu rutilante equipamento um trapo.
Filho de pai europeu, o senhor Ramos, e dessa lenda angolana que era a Dona Elvira, Nelinho Ramos era, no seu tempo futebolístico, a epítome da elegância, camisola e calções irrepreensíveis, uma inteligência de jogador que ia a par com uma dedicação em que se podia rasgar todo, mas sem nunca perder a marca de classe. Direi um termo que ao palato de alguns portugueses parecerá estranho: Nelinho Ramos, defesa do ASA, meu mano, tinha banga. Uma banga natural e não de pose, banga que alastrou a toda a sua vida, à forma de guiar o Citroen boca de sapo com que atravessámos, de Luanda ao Bié, a Guerra Civil, até aos Boeings de que foi piloto. Tinha e tem, hoje mesmo, essa elegantíssima banga angolana.
Abomino o defesa de rastos a cheirar, atrás da barreira, o chulé dos seus companheiros. E olhem, na sua inestética desolação, serviu-me ao menos essa imagem para cantar o meu mano Nelinho, bom de bola, com quem tenho saudades de varrer uns finos a estalar, acompanhados com uns camarões, um caranguejo de Moçâmedes ou uma sapateira lusíada. Mas este ano não falhamos, meu irmão! Sem barreira, como há dias nos prometemos ao telefone, de Luanda e Lisboa.

Gaby Deslys foi a rainha não-coroada de Portugal. Talvez nunca tenhamos tido uma rainha tão bela. Esta francesa, corista em cafés, tinha uma vozinha de nada, mas uma imaginação copiosa. Estava na fila de corista, quando pensou o que seria, se em vez da ligeira lingerie, se enchesse de plumas, tafetás e lantejoulas. Pode haver dúvidas sobre os pesos e medidas do juiz Ivo Rosa, dúvidas sobre a fantasia ou a competência do procurador Rosário Teixeira, não há é nenhuma dúvida de que Gaby Deslys inventou o music-hall.
Levou a ideia para os espectáculos que montou no Moulin Rouge. Inventou a escada no palco, uma via láctea de luzes, a orgia de cetim e bailarinas semi-despidas e foi um desses espectáculos que, em Julho de 1909, realíssimo posterior colado à fofa cadeira, Sua Majestade Fidelíssima, o rei D. Manuel II, viu em êxtase, esquecendo por horas e mandando com gosto às malvas as lusitanas intrigas republicanas.
D. Manuel, no fim do music-hall, não cabia nele e já veremos o que menos ou mais cabia. Levaram Sua Majestade aos bastidores. Bateram à porta do camarim de Gaby, anunciando, “Pela Graça de Deus, Manuel II, Rei de Portugal e dos Algarves, d’Aquém e d’Além-Mar em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia” e a porta abriu-se. “Toda a dança atrai a força, toda a caça atrai os bichos”, escreveu um dia Herberto Helder, e eis como dança, força, caça e bichos povoaram, cintilantes, o primeiro olhar de Manuel e Gaby.
Foram amantes instantâneos. Gaby fazia uma tournée na América quando D. Manuel foi deposto e a República instaurada em Portugal. O contrabandeado amor dela e do rei não era desconhecido e a Imprensa atirou-se-lhe, num assédio pré-socrático. Libérrima, disse em Pittsburgh: “Foi amor à primeira vista e tornei-me sua amante. O amor que lhe tenho e o amor que ele me tem, justifica-o aos nossos olhos.”
Todo o rei que se deita por amor com uma corista é um herói. Junte-se ao garbo de D. Manuel, à sua fina cultura, apesar dos seus apenas 20 anos, a labareda e o ferro vivo do amor e terão os leitores a medida do seu heroísmo. Sublinho: D. Manuel II, rei de Portugal, não procurou a adolescente, a virgem tímida e desajeitada. Gaby tinha mais nove anos do que o rei e Manuel bebeu nela a mulher senhora de si, independente e desafogada.
Trouxe-a a Portugal. Era preciso escondê-la da Imprensa e dos republicanos. Como a terá levado para as noites, que já se imaginam ternas e tórridas, no Palácio das Necessidades? De madrugada? Embuçada? Diz-se que não, que chegou de caleche lavada pela luz de fim de tarde de Lisboa, o coleante Tejo a rivalizar com ela em brilho e curvas.
Beijo e juro sobre este punhal que me trespasse o coração se minto: Gaby não amou o jovem rei por dinheiro. Mesmo o colar de 70 mil euros que, com vénia, Gaby recebeu das mãos reais e gentis de D. Manuel, e talvez valesse hoje mil milhões, era sumptuário para quem ganhava a, então, fortuna de quatro mil dólares por semana em Nova Iorque.
Gaby e D. Manuel amaram-se em Paris, em Londres, em Lisboa e no Buçaco. Não foi uma entrevista a Oprah que os separou. A hostilidade da opinião pública, ainda não ilustrada pelos reality-shows da SIC e da TVI, e as pressões dos ministros do reino obrigaram Gaby a regressar a Paris. Deposto D. Manuel, os amantes ainda se encontraram em Londres, mas um ano de Gaby em Nova Iorque separou o que só o amor juntara: “Sim, fui a amante de Manuel e não acho desonra em ter sido a amante de um rei.”
Publicado no Jornal de Negócios

O que é a História? Um lenço a que nos assoamos? A esquiva lágrima que um dedo disfarça e limpa? Um pingo de saudade que exibimos, ora com pudor, ora com orgulho?
Só sei que hoje é o dia 25 de Abril. Nesse dia de 1974 eu tinha 20 anos: a esse dia, sem reservas, nem recriminação, entreguei de mão beijada o mundo em que eu vivia. Soube, depressa, que esse meu mundo, a minha Luanda colonial, terminava ali e que, dali em diante, as minhas memórias de infância e de adolescência deixariam de ter espaço-tempo, recobertos por outro tempo, outro espaço, outras sonhos de outros seres humanos.
Esse era o dia que eu queria que chegasse desde os meus 15 anos, com mais madura consciência, desde os meus 17 anos. Perdi muito, mas não lamento nada do que perdi. E talvez não tenha perdido nada, tão viva, tão adolescente continua a ser a memória daqueles dias longínquos, à deriva num tempo e num espaço que já se extinguiu. No dia 25 de Abril de 1974, em Luanda, dia de alegria, de esperança, começaram dois dos anos mais esplêndidos da minha vida, de tanta aventura e de tanta dádiva. Se choro, não é o passado menino e emotivo que choro. Se choro, e já tão pouco ou nada choro, é o presente, que não foi capaz de realizar os dois dedos de felicidade com que sonhei para a minha cidade, nem deixa deslargarem-se os mil risos que deviam encher a noite e a boca do povo de Luanda.
E depois há Portugal. Agora, 47 anos depois, há 45 anos a ser português de Portugal, o que eu queria é que o 25 de Abril, neste pedaço de Europa debruçado sobre o mar, não tivesse importância nenhuma. Não ter o 25 de Abril importância nenhuma quereria dizer que a nossa forma de vida em democracia, as nossas formas sociais e económicas, eram adultas e inteiramente desenvolvidas, quereria dizer que já vivíamos num presente com futuro.
Do que eu gosto no 25 de Abril é da porta aberta, dessa promessa de horizonte a perder de vista para o futuro. Do que eu gosto no 25 de Abril é do passado que ele erradicou, repressivo, inquisitorial, de caxias e peniches feito.
O 25 de Abril livrou-nos desse passado, como quem se livra de todo mal, ámen. Do que eu não gosto no 25 de Abril é dos seus donos de Verão Quente, repressivos, inquisitoriais, tão inchados de superioridade moral e ideológica que teceriam outros aljubes se fossem eles a mandar. O mal que alguns donos do 25 de Abril fizeram ao 25 de Abril.
O que cumpriria o 25 de Abril era ele não ter importância nenhuma, toda a nossa energia posta em vivermos com gozo o presente, sabendo que Portugal era um país rico, criativo, a transpirar ciência e artes: isso sim, deviam ser as conquistas de Abril. À sombra do 25 de Abril nasceram cardos que decidem quem vai ou não vai na procissão: nem o 25 de Abril nos livrou desse mal, ámen.

Ela tira os óculos, que não por acaso lhe ficam bem, solta o cabelo apanhado, vira-se em valsa lenta, boca semiaberta, num sorriso que a ponta da língua interrompe tocando no canto direito do lábio superior. Distraído a abrir uma garrafa de “pretty good rye”, Bogart, que já estava a fazer conversa com ela há dez minutos, levanta a cabeça e, como se acabasse de ver nascer Vénus, solta o mais vivaldiano “hello” da história do cinema.
E agora pergunto, se nunca correram um estore, que raio de vida é a vossa? Corre-se um estore, em “The Big Sleep”, filme a preto-e-branco, de 1946. Quem corre o estore é uma livreira em que deviam pôr os olhos os patrões das livrarias Bertrand, FNAC, Almedina, Ler Devagar, até mesmo da fabulosa Lello. Tem vinte e um anos, vende livros e, se não sabe tudo, sabe pelo menos muito sobre edições raras. Uma coisa temos garantida para a eternidade: nós é que nunca saberemos o nome dela. Nem William Faulkner, nem Raymond Chandler no guião, nem Howard Hawks, o realizador, lhe deram um nome. Quem devia ter o nome grande, que a história do cinema ainda não lhe reconheceu, é Dorothy Malone, a mulher morena que dá aquele vagaroso corpo a essa menina livreira.
Bogart vem da livraria em frente e entra na ACME Book Shop de Malone. Ele é um detective. Falam e floresce entre os dois aquele indesmentível interesse humano que nos protege de um húmido dia de chuva. Bogart vai ter de fazer uma espera e em vez de se ir molhar lá fora, tira do bolso uma garrafa de uísque americano, com que podem molhar-se, ela e ele, no calor da livraria. É então que Dorothy Malone, com medido vagar, fecha a porta e corre o estore como mais ninguém na vida há de correr um estore, numa rotação em que a deliciosa velocidade angular do corpo dela contrasta com a firme vontade do rosto: “Looks like we’re closed for the rest of the afternoon.”
Fala-se muito, e com menosprezo, de quem tem um passado. Tenho uma teoria: “Ai de quem nada tem a esconder.” A livreira da ACME corre o estore sabendo que está a construir o seu passado. É uma tarde só – one afternoon stand –, mas é o segredo esplêndido de um encontro bom. É que não há sequer um grão de insensual inquietação de futuro em toda essa cena de que Dorothy Malone é senhora e rainha. Bogart, “hello!”, oferece apenas o que tem no bolso.

Este não é só um livro bonito, é um livro que nos pede para usarmos a palavra “importante”. Este livro, cujo corpo é o de umas boas 200 páginas de prazer e de informação, tem “estilo”: oferece-nos uma visão holística da língua portuguesa, do sonoro Big Bang até hoje, atrevendo-se a antever o ano 2572.
Depois de Assim Nasceu uma Língua, de Fernando Venâncio, eu tenho a felicidade de ser editor deste livro do linguista Marco Neves, História do Português desde o Big Bang. Uma obra controversa também, defendendo para a língua portuguesa uma visão policêntrica: a de uma língua que se ramifica em variantes. Não admira que traga, por isso e por exemplo, novidades sobre a relação entre o português que falamos em Lisboa e o belo português que se fala no Rio de Janeiro ou em Luanda. São investigações recentes, de que Marco Neves nos dá conta, sobre a distância real entre o português, o galego e o castelhano e ainda entre o português europeu e o português americano.
Copio o que Marco Neves escreveu na introdução de História do Português desde o Big Bang:
Pensemos no princípio: Quando nasceu a nossa língua? Terá sido quando alguém escreveu o nome «português» para se referir à língua dos Portugueses? Mas quando tal aconteceu, a língua já andava na boca dos falantes, com características muito próprias, havia séculos. Ou terá sido quando apareceram os primeiros
textos? Mas para se escrever um texto numa língua, a língua já tem de existir… Talvez quando o latim aqui chegou, sofrendo alterações espicaçadas pelas línguas que já cá se falavam? Mas o latim já sofria alterações antes de cá chegar e continuou simplesmente a mudar, sem grande interrupção e sem que ninguém pensasse que estava a criar uma língua nova. O próprio latim já vinha de antes, doutra língua de que não conhecemos o nome que lhe davam os falantes. Essa outra língua também já vinha de trás, doutra língua que também vinha de outra língua, numa sucessão de falares até ao início da linguagem.
Se quero contar a história toda, tenho de contar o que sabemos da história da linguagem humana…
E, para que ninguém vá ao engano, mesmo que seja um ledo engano, é este o índice do livro, que hoje, Dia Mundial do Livro, vivamente vos aconselho:
capítulo 1: 13 800 000 000 a. C. | Big Bang / O início do Universo passou na televisão / Átomos, galáxias e palavras inglesas
capítulo 2: 4 000 000 000 a. C. | A origem das espécies / O mecanismo da vida / Palavras e outros vírus
capítulo 3: 6 000 000 a. C. | A invenção do ser humano / Uma árvore com muitos ramos / Homúnculos, mitocôndrias e outros palavrões
capítulo 4: 2 000 000 a. C. | A origem das línguas / O nascimento das palavras / Elom e ganim: uma língua não chega?
capítulo 5 : 10 000 a. C. | A língua e o território / Quantas línguas há no mundo? / Viagem ao mundo das línguas
capítulo 6: 4500 a. C. | Como era a nossa língua há 6500 anos? / Com pouca corrupção / Uma surpresa escondida na palavra «filho»
capítulo 7: 1 d. C. | Línguas imperiais /História de duas línguas / A invenção das letras
capítulo 8: 1000 d. C. | Do latim à nossa língua / /Uma história em cinco faixas / Palavras trituradas
capítulo 9: 1430 d. C. | Língua à portuguesa / A reinvenção a sul / Alfabeto à portuguesa
capítulo 10: 1757 d. C. | Volta ao mundo em português / Os círculos da língua / Palavras contra a corrente e dentro dos dicionários
capítulo 11: 2021 d. C. | Camões no século xxi / Camões de visita ao presente / Viagem a uma língua exótica
capítulo 12: 2572 d. C. | Os Lusíadas traduzidos para português / A tradutora de português / As línguas a várias cores.

Hoje, por ser dia mundial do livro, faço-vos um desafio.
Leiam “Os Passos em Volta“, de Herberto Helder. É um livro de contos. Incursão rara do poeta na prosa narrativa. O mais próximo que ele terá estado de um romance.
Agora que já têm “Os Passos em Volta“ na mão, leiam um conto, o mais belo de todos os contos, leiam “Polícia“. Conta-o um português, clandestino, em Bruxelas, na iminência de ser, porventura, expulso.
E agora, que já leram “Polícia“, podem ler, embora não precisem, a piedosa e devota prosa que se segue.
Eu era então muito novo. Aprendi a soletrar o amor nos onze parágrafos das cinco páginas de um conto chamado “Polícia”. O amor ficou-me para sempre assim, a mulher nua deitada sobre um cobertor, gotas de chuva a deslizar nos vidros da janela.
Em frases curtas, que uma pequena e amável ironia acelera, o conto descreve Bruxelas, o papel ambíguo de um protector petit Monsieur Leclercq, antigo colaboracionista e funcionário do partido comunista, a penúria do protagonista que alguns biscates mal iludem.
É um clandestino que fala. Tem uma voz serena, objectiva. Confia, percebe-se, no movimento que os tempos verbais dão às frases: “Eu desejava trabalho, apenas isso.” Ou então: “… o maior amigo do meu protector, um flamengo que amava a cerveja forte, pertencera à Resistência.” Desejar, amar e pertencer são os dínamos de frases humildes, manuais dir-se-ia. As frases vão por onde os verbos as mandam.
É um português e deambula pela cidade, perto da estação, entre as luzes das ruas e o ruído dos comboios de mercadorias. Talvez porque ter dinheiro no bolso seja tão acidental, o narrador clandestino poupa nos adjectivos. Escassez na vida que repercute na luminosa escassez da prosa. Ainda assim, divertido ou inocente, autoriza-se (uma vez apenas, no primeiro longo parágrafo de 42 linhas) um aceno contido de transcendência: “Às vezes eu fazia com estes elementos estrangeiros um lirismo vagabundo e puro.”
Eu era então muito novo e ao ler “Polícia” apaixonei-me pela ideia difusa de cidade, os vagos trabalhos temporários, beber cerveja, dançar num bar da Chaussée d’Anvers. Mas apaixonei-me sobretudo pela absoluta consciência de si deste clandestino a quem le petit Monsieur Leclercq aconselha a fugir para a França, Alemanha, meter-se num barco que saia de Antuérpia.
Congenitamente idealista, “Polícia” é um conto em que os contornos da cidade, a espessura dos vultos que passam, das abundantes prostitutas, só ganham concreção dentro da linguagem e da solidão do herói clandestino. Quase ouço o narrador responder-me: “Também me sentia absurdamente entusiasmado com a solidão.” Talvez le petit Monsieur Leclercq não saiba, mas se o clandestino partir, a cidade desaparece. E não, não me parece que Monsieur Leclercq o saiba: antigo colaboracionista e funcionário do partido comunista, o monismo idealista é-lhe estranho.
Eu era então muito novo e nunca tinha lido uma tão incondescendente consciência de si. Mais abismado fiquei ao ver, no segundo parágrafo, o herói clandestino criar uma segunda consciência, desencantado comentário de si mesmo. É uma manhã de Dezembro e chove, diz ele, para logo a seguir e pela primeira vez surgir, entre parêntesis, a segunda camada de consciência de si, filosófica, quase sempre interrogativa. Uma segunda consciência que é, porventura, mais o resultado de uma elegante discrição, quase timidez, do que um artificio literário. Leio e pergunto-me se o herói clandestino não terá criado esta segunda vaga da consciência de si como pretexto para introduzir Annemarie. É Dezembro e chove, diz ele, para logo derivar, auto-comentando-se “(eu falaria depois a Annemarie da chuva lenta, patética)”. E deixa-a ali, suspensa, misteriosa, para só voltar a sentar-se ao lado dela, ou ela ao lado dele, 24 linhas depois.
Chove neste conto, “gotas de água a toda a volta”, e surge Annemarie, francesa de Lyon, tão clandestina como o narrador português: “Annemarie sentou-se a meu lado. Vi logo que ela não podia estar mais só.” São duas absolutas consciências de si, irredutíveis, sentadas ao balcão de um bar de Bruxelas, em frente a dois “belos copos de cerveja fria”. Bebem na solidão um do outro.
Eu era então muito novo e pareceu-me perigoso e subversivo este clandestino encontro de consciências num chuvoso fim de tarde estrangeiro. Seria absurdo que a polícia não os perseguisse. A polícia, esse desejável escrutínio da ilegalidade, é a única forma de os dois clandestinos terem a certeza que arriscam a liberdade. A única certeza.
“Polícia” começa numa deliquescente manhã de Dezembro, em Bruxelas. Termina na noite desse dia, a mesma fria névoa lá fora e “um calor inconcebível” nesse quarto onde duas solidões falam “longamente da chuva, do amor e das leis.”
Em dois demorados parágrafos iniciais e nove mais curtos, poéticos, parágrafos finais, “Polícia” é um lapidadíssimo diamante narrativo. O ritmo do fraseado, a precisão lexical, o discreto brilho metonímico, a frugal sugestão imagética estão invencivelmente acima da tantas vezes pastosa narrativa portuguesa. É só literatura, dir-me-ão aqueles que razoavelmente pensam ser a literatura coisa pouca. Que interessa? Eu era então muito novo e “Annemarie puxou-me para dentro e amámo-nos sobre o cobertor até de manhã.”
As citações fui buscá-las à versão original do conto, publicada pela Portugália Editora, em Março de 1963, a 1ª edição do livro. A que eu tenho, com a capa lá de cima.

Choram. São quatro mulheres. Não sabemos o que choram, mas sabemos que choram ali por volta de 1878. Podemos talvez presumir que choram a morte. Cabelos, pose, estatura parecem indicar que são de gerações muito próximas, irmãs, primas quem sabe, ou só amigas. Choram talvez a mãe, o pai.
Chorava-se assim no século XIX. Hoje, podemos chorar as mesmas lágrimas – água e cloreto de sódio, como cantou o poeta – mas não choramos já com esta coreografia tão composta, com esta nobre expressão pública do sofrimento, com estes lenços de linho, que a mão de mãe, a mão agora morta, bordou.