O dia que eu queria que chegasse

O que é a História? Um lenço a que nos assoamos? A esquiva lágrima que um dedo disfarça e limpa? Um pingo de saudade que exibimos, ora com pudor, ora com orgulho?

Só sei que hoje é o dia 25 de Abril. Nesse dia de 1974 eu tinha 20 anos: a esse dia, sem reservas, nem recriminação, entreguei de mão beijada o mundo em que eu vivia. Soube, depressa, que esse meu mundo, a minha Luanda colonial, terminava ali e que, dali em diante, as minhas memórias de infância e de adolescência deixariam de ter espaço-tempo, recobertos por outro tempo, outro espaço, outras sonhos de outros seres humanos.

Esse era o dia que eu queria que chegasse desde os meus 15 anos, com mais madura consciência, desde os meus 17 anos. Perdi muito, mas não lamento nada do que perdi. E talvez não tenha perdido nada, tão viva, tão adolescente continua a ser a memória daqueles dias longínquos, à deriva num tempo e num espaço que já se extinguiu. No dia 25 de Abril de 1974, em Luanda, dia de alegria, de esperança, começaram dois dos anos mais esplêndidos da minha vida, de tanta aventura e de tanta dádiva. Se choro, não é o passado menino e emotivo que choro. Se choro, e já tão pouco ou nada choro, é o presente, que não foi capaz de realizar os dois dedos de felicidade com que sonhei para a minha cidade, nem deixa deslargarem-se os mil risos que deviam encher a noite e a boca do povo de Luanda.   

E depois há Portugal. Agora, 47 anos depois, há 45 anos a ser português de Portugal, o que eu queria é que o 25 de Abril, neste pedaço de Europa debruçado sobre o mar, não tivesse importância nenhuma. Não ter o 25 de Abril importância nenhuma quereria dizer que a nossa forma de vida em democracia, as nossas formas sociais e económicas, eram adultas e inteiramente desenvolvidas, quereria dizer que já vivíamos num presente com futuro.  

Do que eu gosto no 25 de Abril é da porta aberta, dessa promessa de horizonte a perder de vista para o futuro. Do que eu gosto no 25 de Abril é do passado que ele erradicou, repressivo, inquisitorial, de caxias e peniches feito.

O 25 de Abril livrou-nos desse passado, como quem se livra de todo mal, ámen. Do que eu não gosto no 25 de Abril é dos seus donos de Verão Quente, repressivos, inquisitoriais, tão inchados de superioridade moral e ideológica que teceriam outros aljubes se fossem eles a mandar. O mal que alguns donos do 25 de Abril fizeram ao 25 de Abril.

O que cumpriria o 25 de Abril era ele não ter importância nenhuma, toda a nossa energia posta em vivermos com gozo o presente, sabendo que Portugal era um país rico, criativo, a transpirar ciência e artes: isso sim, deviam ser as conquistas de Abril. À sombra do 25 de Abril nasceram cardos que decidem quem vai ou não vai na procissão: nem o 25 de Abril nos livrou desse mal, ámen.

Quem dá o que no bolso tem

Ela tira os óculos, que não por acaso lhe ficam bem, solta o cabelo apanhado, vira-se em valsa lenta, boca semiaberta, num sorriso que a ponta da língua interrompe tocando no canto direito do lábio superior. Distraído a abrir uma garrafa de “pretty good rye”, Bogart, que já estava a fazer conversa com ela há dez minutos, levanta a cabeça e, como se acabasse de ver nascer Vénus, solta o mais vivaldiano “hello” da história do cinema.

E agora pergunto, se nunca correram um estore, que raio de vida é a vossa? Corre-se um estore, em “The Big Sleep”, filme a preto-e-branco, de 1946. Quem corre o estore é uma livreira em que deviam pôr os olhos os patrões das livrarias Bertrand, FNAC, Almedina, Ler Devagar, até mesmo da fabulosa Lello. Tem vinte e um anos, vende livros e, se não sabe tudo, sabe pelo menos muito sobre edições raras. Uma coisa temos garantida para a eternidade: nós é que nunca saberemos o nome dela. Nem William Faulkner, nem Raymond Chandler no guião, nem Howard Hawks, o realizador, lhe deram um nome. Quem devia ter o nome grande, que a história do cinema ainda não lhe reconheceu, é Dorothy Malone, a mulher morena que dá aquele vagaroso corpo a essa menina livreira.

Bogart vem da livraria em frente e entra na ACME Book Shop de Malone. Ele é um detective. Falam e floresce entre os dois aquele indesmentível interesse humano que nos protege de um húmido dia de chuva. Bogart vai ter de fazer uma espera e em vez de se ir molhar lá fora, tira do bolso uma garrafa de uísque americano, com que podem molhar-se, ela e ele, no calor da livraria. É então que Dorothy Malone, com medido vagar, fecha a porta e corre o estore como mais ninguém na vida há de correr um estore, numa rotação em que a deliciosa velocidade angular do corpo dela contrasta com a firme vontade do rosto: “Looks like we’re closed for the rest of the afternoon.

Fala-se muito, e com menosprezo, de quem tem um passado. Tenho uma teoria: “Ai de quem nada tem a esconder.” A livreira da ACME corre o estore sabendo que está a construir o seu passado. É uma tarde só – one afternoon stand –, mas é o segredo esplêndido de um encontro bom. É que não há sequer um grão de insensual inquietação de futuro em toda essa cena de que Dorothy Malone é senhora e rainha. Bogart, “hello!”, oferece apenas o que tem no bolso.

Big Bang na língua portuguesa

O novo livro de Marco Neves: um pequeno tesouro de investigação e análise

Este não é só um livro bonito, é um livro que nos pede para usarmos a palavra “importante”. Este livro, cujo corpo é o de umas boas 200 páginas de prazer e de informação, tem “estilo”: oferece-nos uma visão holística da língua portuguesa, do sonoro Big Bang até hoje, atrevendo-se a antever o ano 2572.

Depois de Assim Nasceu uma Língua, de Fernando Venâncio, eu tenho a felicidade de ser editor deste livro do linguista Marco Neves, História do Português desde o Big Bang. Uma obra controversa também, defendendo para a língua portuguesa uma visão policêntrica: a de uma língua que se ramifica em variantes. Não admira que traga, por isso e por exemplo, novidades sobre a relação entre o português que falamos em Lisboa e o belo português que se fala no Rio de Janeiro ou em Luanda. São investigações recentes, de que Marco Neves nos dá conta, sobre a distância real entre o português, o galego e o castelhano e ainda entre o português europeu e o português americano.

Copio o que Marco Neves escreveu na introdução de História do Português desde o Big Bang:
Pensemos no princípio: Quando nasceu a nossa língua? Terá sido quando alguém escreveu o nome «português» para se referir à língua dos Portugueses? Mas quando tal aconteceu, a língua já andava na boca dos falantes, com características muito próprias, havia séculos. Ou terá sido quando apareceram os primeiros

textos? Mas para se escrever um texto numa língua, a língua já tem de existir… Talvez quando o latim aqui chegou, sofrendo alterações espicaçadas pelas línguas que já cá se falavam? Mas o latim já sofria alterações antes de cá chegar e continuou simplesmente a mudar, sem grande interrupção e sem que ninguém pensasse que estava a criar uma língua nova. O próprio latim já vinha de antes, doutra língua de que não conhecemos o nome que lhe davam os falantes. Essa outra língua também já vinha de trás, doutra língua que também vinha de outra língua, numa sucessão de falares até ao início da linguagem.

Se quero contar a história toda, tenho de contar o que sabemos da história da linguagem humana…

E, para que ninguém vá ao engano, mesmo que seja um ledo engano, é este o índice do livro, que hoje, Dia Mundial do Livro, vivamente vos aconselho:

capítulo 1: 13 800 000 000 a. C. | Big Bang / O início do Universo passou na televisão / Átomos, galáxias e palavras inglesas

capítulo 2: 4 000 000 000 a. C. | A origem das espécies / O mecanismo da vida / Palavras e outros vírus

capítulo 3: 6 000 000 a. C. | A invenção do ser humano / Uma árvore com muitos ramos / Homúnculos, mitocôndrias e outros palavrões

capítulo 4: 2 000 000 a. C. | A origem das línguas / O nascimento das palavras / Elom e ganim: uma língua não chega?

capítulo 5 : 10 000 a. C. | A língua e o território / Quantas línguas há no mundo? / Viagem ao mundo das línguas

capítulo 6: 4500 a. C. | Como era a nossa língua há 6500 anos? / Com pouca corrupção / Uma surpresa escondida na palavra «filho»

capítulo 7: 1 d. C. | Línguas imperiais /História de duas línguas / A invenção das letras

capítulo 8: 1000 d. C. | Do latim à nossa língua / /Uma história em cinco faixas / Palavras trituradas

capítulo 9: 1430 d. C. | Língua à portuguesa / A reinvenção a sul / Alfabeto à portuguesa

capítulo 10: 1757 d. C. | Volta ao mundo em português / Os círculos da língua / Palavras contra a corrente e dentro dos dicionários

capítulo 11: 2021 d. C. | Camões no século xxi / Camões de visita ao presente / Viagem a uma língua exótica

capítulo 12: 2572 d. C. | Os Lusíadas traduzidos para português / A tradutora de português / As línguas a várias cores.

Polícia no dia mundial do livro

Hoje, por ser dia mundial do livro, faço-vos um desafio.
Leiam “
Os Passos em Volta“, de Herberto Helder. É um livro de contos. Incursão rara do poeta na prosa narrativa. O mais próximo que ele terá estado de um romance.
Agora que já têm “
Os Passos em Volta“ na mão, leiam um conto, o mais belo de todos os contos, leiam “Polícia“. Conta-o um português, clandestino, em Bruxelas, na iminência de ser, porventura, expulso.
E agora, que já leram “
Polícia“, podem ler, embora não precisem, a piedosa e devota prosa que se segue.

Eu era então muito novo. Aprendi a sole­trar o amor nos onze pará­gra­fos das cinco pági­nas de um conto cha­mado “Polí­cia”. O amor ficou-me para sem­pre assim, a mulher nua dei­tada sobre um cober­tor, gotas de chuva a des­li­zar nos vidros da janela.

Em fra­ses cur­tas, que uma pequena e amá­vel iro­nia ace­lera, o conto des­creve Bru­xe­las, o papel ambí­guo de um pro­tec­tor petit Mon­si­eur Leclercq, antigo cola­bo­ra­ci­o­nista e fun­ci­o­ná­rio do par­tido comu­nista, a penú­ria do pro­ta­go­nista que alguns bis­ca­tes mal iludem.

É um clan­des­tino que fala. Tem uma voz serena, objec­tiva. Con­fia, percebe-se, no movi­mento que os tem­pos ver­bais dão às fra­ses: “Eu dese­java tra­ba­lho, ape­nas isso.” Ou então: “… o maior amigo do meu pro­tec­tor, um fla­mengo que amava a cer­veja forte, per­ten­cera à Resis­tên­cia.” Dese­jar, amar e per­ten­cer são os dína­mos de fra­ses humil­des, manu­ais dir-se-ia. As fra­ses vão por onde os ver­bos as mandam.

É um por­tu­guês e deam­bula pela cidade, perto da esta­ção, entre as luzes das ruas e o ruído dos com­boios de mer­ca­do­rias. Tal­vez por­que ter dinheiro no bolso seja tão aci­den­tal, o nar­ra­dor clan­des­tino poupa nos adjec­ti­vos. Escas­sez na vida que reper­cute na lumi­nosa escas­sez da prosa. Ainda assim, diver­tido ou ino­cente, autoriza-se (uma vez ape­nas, no pri­meiro longo pará­grafo de 42 linhas) um aceno con­tido de trans­cen­dên­cia: “Às vezes eu fazia com estes ele­men­tos estran­gei­ros um lirismo vaga­bundo e puro.

Eu era então muito novo e ao ler “Polí­cia” apaixonei-me pela ideia difusa de cidade, os vagos tra­ba­lhos tem­po­rá­rios, beber cer­veja, dan­çar num bar da Chaus­sée d’Anvers. Mas apaixonei-me sobre­tudo pela abso­luta cons­ci­ên­cia de si deste clan­des­tino a quem le petit Mon­si­eur Leclercq acon­se­lha a fugir para a França, Ale­ma­nha, meter-se num barco que saia de Antuérpia.

Con­ge­ni­ta­mente ide­a­lista, “Polí­cia” é um conto em que os con­tor­nos da cidade, a espes­sura dos vul­tos que pas­sam, das abun­dan­tes pros­ti­tu­tas, só ganham con­cre­ção den­tro da lin­gua­gem e da soli­dão do herói clan­des­tino. Quase ouço o nar­ra­dor responder-me: “Tam­bém me sen­tia absur­da­mente entu­si­as­mado com a soli­dão.” Tal­vez le petit Mon­si­eur Leclercq não saiba, mas se o clan­des­tino par­tir, a cidade desa­pa­rece. E não, não me parece que Mon­si­eur Leclercq o saiba: antigo cola­bo­ra­ci­o­nista e fun­ci­o­ná­rio do par­tido comu­nista, o monismo ide­a­lista é-lhe estranho.

Eu era então muito novo e nunca tinha lido uma tão incon­des­cen­dente cons­ci­ên­cia de si. Mais abis­mado fiquei ao ver, no segundo pará­grafo, o herói clan­des­tino criar uma segunda cons­ci­ên­cia, desen­can­tado comen­tá­rio de si mesmo. É uma manhã de Dezem­bro e chove, diz ele, para logo a seguir e pela pri­meira vez sur­gir, entre parên­te­sis, a segunda camada de cons­ci­ên­cia de si, filo­só­fica, quase sem­pre inter­ro­ga­tiva. Uma segunda cons­ci­ên­cia que é, por­ven­tura, mais o resul­tado de uma ele­gante dis­cri­ção, quase timi­dez, do que um arti­fi­cio lite­rá­rio. Leio e pergunto-me se o herói clan­des­tino não terá cri­ado esta segunda vaga da cons­ci­ên­cia de si como pre­texto para intro­du­zir Anne­ma­rie. É Dezem­bro e chove, diz ele, para logo deri­var, auto-comentando-se “(eu fala­ria depois a Anne­ma­rie da chuva lenta, paté­tica)”. E deixa-a ali, sus­pensa, mis­te­ri­osa, para só vol­tar a sentar-se ao lado dela, ou ela ao lado dele, 24 linhas depois.

Chove neste conto, “gotas de água a toda a volta”, e surge Anne­ma­rie, fran­cesa de Lyon, tão clan­des­tina como o nar­ra­dor por­tu­guês: “Anne­ma­rie sentou-se a meu lado. Vi logo que ela não podia estar mais só.” São duas abso­lu­tas cons­ci­ên­cias de si, irre­du­tí­veis, sen­ta­das ao bal­cão de um bar de Bru­xe­las, em frente a dois “belos copos de cer­veja fria”. Bebem na soli­dão um do outro.

Eu era então muito novo e pareceu-me peri­goso e sub­ver­sivo este clan­des­tino encon­tro de cons­ci­ên­cias num chu­voso fim de tarde estran­geiro. Seria absurdo que a polí­cia não os per­se­guisse. A polí­cia, esse dese­já­vel escru­tí­nio da ile­ga­li­dade, é a única forma de os dois clan­des­ti­nos terem a cer­teza que arris­cam a liber­dade. A única certeza.

“Polí­cia” começa numa deli­ques­cente manhã de Dezem­bro, em Bru­xe­las. Ter­mina na noite desse dia, a mesma fria névoa lá fora e “um calor incon­ce­bí­vel” nesse quarto onde duas soli­dões falam “lon­ga­mente da chuva, do amor e das leis.

Em dois demo­ra­dos pará­gra­fos ini­ci­ais e nove mais cur­tos, poé­ti­cos, pará­gra­fos finais, “Polí­cia” é um lapi­da­dís­simo dia­mante nar­ra­tivo. O ritmo do fra­se­ado, a pre­ci­são lexi­cal, o dis­creto bri­lho meto­ní­mico, a fru­gal suges­tão ima­gé­tica estão inven­ci­vel­mente acima da tan­tas vezes pas­tosa nar­ra­tiva por­tu­guesa. É só lite­ra­tura, dir-me-ão aque­les que razo­a­vel­mente pen­sam ser a lite­ra­tura coisa pouca. Que inte­ressa? Eu era então muito novo e “Anne­ma­rie puxou-me para den­tro e amámo-nos sobre o cober­tor até de manhã.

As citações fui buscá-las à ver­são ori­gi­nal do conto, publi­cada pela Por­tu­gá­lia Edi­tora, em Março de 1963,  a 1ª edi­ção do livro. A que eu tenho, com a capa lá de cima. 

Choram. São quatro mulheres

Choram. São quatro mulheres. Não sabemos o que choram, mas sabemos que choram ali por volta de 1878. Podemos talvez presumir que choram a morte. Cabelos, pose, estatura parecem indicar que são de gerações muito próximas, irmãs, primas quem sabe, ou só amigas. Choram talvez a mãe, o pai.

Chorava-se assim no século XIX. Hoje, podemos chorar as mesmas lágrimas – água e cloreto de sódio, como cantou o poeta – mas não choramos já com esta coreografia tão composta, com esta nobre expressão pública do sofrimento, com estes lenços de linho, que a mão de mãe, a mão agora morta, bordou.

Pum, pum, estás morto

The Man Who Shot Liberty Valance

Que bem que nós sabíamos morrer! Tínhamos aprendido a morrer com os índios, os mexicanos e os bandidos de mil westerns, com os piratas de cem filmes de capa e espada, com os filisteus que Sansão arrasava com a sua força de braços.

Animava-nos a pura metafísica da infância. A vida já era nossa, queríamos era experimentar a morte. Ora, morrer não era só tombar no chão. “Mata-me”, pedíamos, e havia sempre um amigo que alçava o arco e nos atingia com uma flecha ou puxava do coldre um colt prateado e “pum, pum, estás morto”. Morríamos então com a mesma imaginária sabedoria do professor Agostinho da Silva, esse cascadeur filosófico agora esquecido.

Não bastava cair, era preciso cair redondo. Caíamos impregnados do perfume de um verso mexicano do ciclo Nauatle: “Não foi para viver que viemos sobre a terra.” O corpo desabava sobre a areia vermelha do terreiro do velho Amado, mesmo ao pé da Churrasqueira, ou no areal abandonado das traseiras da farmácia Luanda. Mordíamos o pó e rodávamos três vezes, para morrermos de barriga para o ar, um último estremeção das pernas, um esgar de pessoano sofrimento e o derradeiro suspiro. Podíamos morrer rodando quatro vezes e ficando de borco, nariz e lábios enfiados na poeirenta cauda da terra – mas era considerado um exagero, um exercício de overacting como mais tarde a vida em pé nos ensinaria.

Não foi no grande cinema que aprendemos a admirável arte de morrer. Ninguém aprende a morrer com Orson Welles ou o “Citizen Kane” – falta até saber se se aprende a viver. Mas era do esticanço mortal que eu falava. Aprende-se a morrer em filmes humildes, uma pradaria, um cavalo e uma Winchester, aprende-se a morrer com um escravo como Spartacus. Aprende-se a morrer com gangsters: os de Coppola e dos “Padrinhos” aprenderam a morrer com o James Cagney dos “Roaring Twenties”, caído na mantilha de neve que afaga a escadaria de uma igreja.

Roaring Twenties

Quando é que desaprendemos de morrer? Como se tivesse acabado de beber um fragmento de infância, voltei a deixar-me morrer quando a minha filha era pequenina: ensinei-a a pôr dois dedos em pistola e disparar, pum, pum. Tombei (esta é tua, Zé Victor!) como a gazela de Catete atingida na graciosa corrida. Arranquei à minha filha o cristalino e fresco riso. Mas todas as canas do meu corpo estalaram de vida magoada. A dor que é deixar-se um tipo morrer, quando já só está vivo.

Posso fazer xixi?

Faye Dunaway em Chinatown

Andava o norte de Portugal a fritar filhoses para o Natal, enquanto os apaniguados do Doutor Cunhal fritavam latifundiários, ocupando-lhes as herdades, no sul. Foi nestes preparos festivos que “Chinatown” se estreou em Portugal. A 18 de Dezembro de 1974.

Foi para o lado que o país dormiu melhor, desatenção injustíssima, tantas noites sem dormir custou a Roman Polanski e a Faye Dunaway fazer este filme mais noir do que todas as décadas de film noir. Um cheirinho do enredo e logo se percebe que é obra infectada, um vento de corrupção e peste, expostas feridas sexuais, de que um fragor de incesto é a mais dolorosa. Cheira a maldade, ganância e morte, nesta história de suja especulação de terras e águas em Los Angeles. Por cima e por baixo dessas terras secas e águas clandestinas, há uma incivilizada, urgente, arfante sexualidade, a que Faye Dunaway, Jack Nicholson, o velho John Huston, dão rosto e sopro mefítico.

Esse sopro incivilizado e fétido dominou as filmagens. Nicholson resumiu bem as duas distintas facetas do realizador: “É um tipo irritante quando está a filmar e é irritante quando não está a filmar.” Ora, Polanski tomou de ponta Faye Dunaway. Logo no primeiro dia, no teste de maquilhagem, que fez mais pálida a já lindamente pálida face de Faye, o polaco desatou aos berros de “não, não, mais pálido, ainda mais pálido”, despejando-lhe um quilo de pó na cara.

Que motivação a devia guiar, perguntou-lhe Faye, na primeira cena. Polanski respondeu, com exemplar educação: “Diz a merda do texto, o teu salário é a tua motivação.”

Um dia, Faye tentava alisar um cabelo, que lhe entrava na linha do olhar. Polanski foi-se a ela e ao cabelo, puxou-o e arrancou-o. “Motherfucker arrancou-me o cabelo” e foi um terramoto até o produtor obter tréguas.

Estão, num carro, a filmar uma cena em que Nicholson intimida Faye. Ela pára e diz a Polanski que precisa de fazer xixi. Ele recusa. Ela insiste, ele volta a recusar, e vem à janela da viatura corrigir a cena aos gritos. Faye atira-lhe à cara o líquido de um copinho escondido dentro do carro. Polanski, argh!, berra: “A puta atirou-me mijo”. Corre um mito: talvez fosse mijo de Nicholson.

Obra-prima, “Chinatown” prova que a arte não é para meninos. De raiva, lágrimas e outras excreções se faz a lenda da sua criação.

Uma mão nas nuvens, um olho na paisagem

um rio cá em baixo no que aos meus olhos pareciam mil metros de altura

Agora imaginem esse tempo em que ainda havia revista de viagens. E imaginem que uma dessas revistas tinha um conceito muito eyebrow. Tanto que desatava a entrevistar tipos lamentáveis como eu. Sim, esta é uma entrevista imaginária. Nessa altura eu escrevia num cemitério. Perdão, num blog que se chamava É Tudo Gente Morta. E sim, o blog tinha mesmo um cemitério. Foi nesse cemitério que a jornalista curvilineamente imaginária dessa revista sofisticadamente imaginária me fez a entrevista que me arrisco agora a publicar.

A entrevista

Mr. Fonesca, qual é a sua mais antiga memória de viagem?
— Fonseca.
Como?
— O nome. É Fonseca, Fon-se-ca. Mas, bora lá, às mais antigas lembranças. Foi aos 5 anos, de comboio. Uma viagem longa e surpresas irrequietas. Levantava-me, sentava-me, espreitava à janela que nesse tempo ainda se podiam abrir. De repente, a velocidade reduziu-se e o comboio entrou, majestoso, numa ponte, um rio cá em baixo no que aos meus olhos pareciam mil metros de altura. Mas a impressão que mais perdurou colou-se-me ao céu-da-boca: o sabor das cerejas que comemos, a minha mãe, a minha irmã e eu, no pequeno compartimento que ocupávamos. Ainda hoje os comboios me sabem a cerejas.
Um impacto irrepetível, o da primeira viagem, claro!
— Não a quero contrariar, mas poucos dias depois viajei num transatlântico para outro continente. A minha mãe tinha de cuidar dos miúdos que nós éramos, a minha irmã e eu, e levou-nos a toque de caixa para o camarote. Só no dia seguinte subi ao convés. O mundo tinha desaparecido. Flutuávamos num oscilante lençol azul e verde com outro de seda azul celeste a fazer de tecto. Foi um sonho, é um sonho, de que nem o mais abrutalhado Freud será capaz de me tirar: estou só eu numa cadeira de balouço feita de mar e céu.
Associa sempre as viagens a pessoas?
— Ou à ausência de pessoas. As grandes viagens, entre continentes, as de barco ou de avião, nunca as fiz com o meu pai. Viajei com ele de carro, em Angola, e depois em Portugal. A família viajou, de barco e de avião, mas por qualquer razão ou última hora acabei por não ir com eles. Mesmo a minha primeira viagem de avião foi para ir, sozinho, ver a minha irmã ao Lubango. Ia à janela do Friendship (ou talvez um Dakota) com uma mão nas nuvens e um olho na planície, no planalto e, a chegar, na belíssima e dramática paisagem de serras e atormentadas fendas do Lubango.
Tudo muda quando se passa a viajar profissional. Já nem se olha lá para fora!
— Desculpe, mas olhe que não acerta uma. Não sei viajar profissional com o portátil em cima das pernas ou lá o que é, e a aproveitar a maçada de voos transatlânticos. Nos aviões pode sempre ver-se o Pólo Norte ou o sol a nascer no Sahara, como nunca se sabe quando nos cruzamos com um disco voador. Já vi aqueles dois primeiros, não perco a esperança de ver este último.

O humilde Claremont

Prefere os hotéis de luxo ou os familiares?
— Todos. Mas enternecem-me os hotéis de primeira vez numa cidade. O humilde Claremont Hotel, em Westwood, a dois passos da sinfónica Wilshire Boulevard. Foi a estreia em Los Angeles, há 35 anos. O setecentista Hotel des Tuileries na rua da Saint Hyacinthe, em Paris, ao lado do qual, nos anos 80, havia uma tasca de barril à porta e se comiam lentilhas e um bom boudin. O Halcyon, escondido em Holland Park, o La Residenza a dois passos da Via Veneto. Claro que como a carne é fraca e se corrompe com facilidade (e felicidade), hoje prefiro o W, o Shutters ou, em NY, o Plaza, o Ritz em Madrid ou Lisboa, o Crillon. Mas há uma pensão de Porto Amboim que jamais esquecerei.
O dinheiro é importante quando se viaja?
— Boa! Na mouche. First class: desbunda ou nada. As viagens familiares, por rejeição de ma femme a essa impossibilidade tecnológica que é o avião, exigem o lento e longo tempo quase oitocentista do comboio. Dinheiro e tempo, já vê, caso contrário, prefiro ficar em casa a ler ou a escrever
Escreve?
— Sim. Num cemitério.
Perdão?
— Está perdoada.
Num hotel, por ordem de importância, o que é que mais valoriza?
— A cama, o restaurante, um piano. Uma esplanada sobre o Pacífico como o Shutters. Um lindo pátio como o da York House, nas Janelas Verdes, se não puder ser mais nada. Em Sorrento fiquei num que tinha um laranjal e a piscina no meio da fruta e daquele perfume todo. Os donos eram um casal de professores de história. Alargaram os meus horizontes linguísticos: aprendi a dizer testa di cazzo.
Imagino que tenha episódios pitorescos…
— Nenhuns. Mas em Sorrento, não sei se dada a proximidade da viciosa Pompeia, uma amiga nossa, no quarto ao lado, fazia meditação nua (ou melhor, nua fazia meditação), estendida na cama e com duas rodelas de pepino nos olhos. A empregada entrou intempestiva e ouviu o maior berro da vida dela saído de uma boca que expelia também rodelas de pepino. Ninguém mais lhe voltou a limpar o quarto: la signora io non la tocco, foi a desculpa generalizada.
Do passado, em viagens, de que é que tem mais saudades?
— Do verdadeiro valor do passaporte. E dos câmbios. As liras eram um delicioso pavor. Em Roma, num dia de greve, não só fui miseravelmente enganado no troco como, ao emprestar a caneta ao motorista para fazer o recibo, fiquei sem uma Montblanc. Só voltei a ter outra quando uma alma gentil me ofereceu, generosa e piedosamente, uma nova.
Já perdeu as malas?
— Duas vezes. Uma em Berlim, outra em New Orleans. Tenho um fatinho fatela dos Brook Brothers, oferta da British Airways.
Ameaças de acidente?
— Em L.A., tive de voltar duas vezes para trás. As luzes do Boeing apagavam-se a meio da pista. À terceira, trocaram o avião. Dormi com um justo toda a noite até Nova Iorque. Acordei num táxi a caminho de Manhattan sentado entre duas frescas jovens de Marshalltown, Iowa. E sim, pensei que o avião tinha caído e já estava no céu,
Pior: já viajou ao lado de pessoas famosas?
— Ah, sim. Do José Navarro e do Pedro Norton.
Perdão?
— Se for ao La Chunga logo lhe explicam. Mas se está a falar de aviões, lembro-me de uma grande entrada. Quero um bloody mary, gritou a Melanie Grifitth, ainda não se tinha sentado. E depois dormiu as 10 horas de voo. Doutra vez, discretíssima tanto quanto em si cabe de discreta, a Elizabeth Hurley. E também com o Pierce Brosnan quando era James Bond.
E nos hotéis?
— Pequeno almoço na mesa ao lado do Gene Hackman três dias seguidos, no Sunset Marquis. Éramos sempre e sozinhos os últimos e ele tinha um sereníssimo jornal (como é nova, não sei se faz ideia que estranho objecto é esse) à frente dos olhos. Era para não me ver. No Lancaster, em Paris, que é o favorito do David Lynch, tive a mais amena conversa que se pode ter com Mr. Coppola e um puto chamado George Lucas. As sobremesas eram fantásticas. Já comi um hamburger com o Danny Glover e comi um gelado com a Valeria Golino. E quem ficou tu cá, tu lá com o Mr. Big do Sex and the City foi o Zeff Navarro no Dan Tana’s, esse landmark de West Hollywood.