
Tudo começou com um bang! O estrondo de 1981 foi tal que o meu surdíssimo amigo Manuel Cintra Ferreira, encostado à grande coluna de som para ouvir melhor, foi soprado em voo para o meio da sala. Ia discutir-se, após exibição no Festival da Figueira da Foz, o filme “Rita”, primeiro e único de José Ribeiro Mendes. Discutir é como quem diz: o filme ia ser arrasado e o Eduardo Prado Coelho pontificava, para encanto das hostes. Só o metro e noventa do António Pedro Vasconcelos, a que se somava a estatura de cavalo anão deste vosso escriba, se opunha ao Eduardo: fomos vencidos e escarnecidos.
Nesse tempo, tinha – e tenho – os livros que o Eduardo escrevera. Apreciava neles uma certa ternura, sobretudo quando ele falava de raparigas e do aconchego de uma camisola de lã. Mas por influência dos meus professores Trindade Santos e Manuel S. Lourenço, pai da bíblica estrela que é hoje o Frederico, logo que esbarrava com a veneração do Eduardo à dislexia deleuziana e lyotardiana, esses bonzos jongleurs do não sentido, eu soltava urros de bicho ferido ou o risinho sórdido da hiena no mato.
Um dia, vínhamos no carro dele, da Embaixada da Hungria, e provoquei-o tanto com o Deleuze, que o Eduardo, ferido nos seus amores, já ziguezagueava o bólide, única vez em que o vi perder a calma magistral. Nos livros futuros, com elegância, desancou as minhas interpretações dos filmes do senhor Oliveira.
Julgo que a minha rivalidade espelhava o facto da Antónia, já casada comigo, e aluna dele, o louvar sem reservas como professor, pairando a 50 centímetros do chão quando, depois de ela deixar a faculdade, ele lhe veio dizer, com voz de açúcar, “a falta que faz a visão da sua beleza sentada junto ao repuxo do pátio da Nova”.
Para arredondar o fim do mês, eu escrevia então para as publicações do mítico Duarte Ramos. Desafiei o meu profe Trindade Santos para entrevistarmos o Eduardo. Fizemos-lhe uma entrevista que nos deixou felizes, a nós e a ele. Lembro-me que nos respondeu, com o seu físico de redondo vocábulo aninhado num pufe, gato ao colo, num conforto sibarítico de fazer inveja aos deuses.
Cheguei a casa e o gravador, zero: nem uma palavra ficara gravada. Refiz tudo, recorrendo à memória. Quando leu, o Eduardo, que nunca soube do desastre, deu-me os parabéns: eu tinha, afinal, entranhado o léxico e o pensamento eduardianos.
Quando fundei a Guerra e Paz, descobri que o Eduardo era meu vizinho. Moravam ali, também, o António Lobo Antunes, o Rui Zink e o inultrapassável José Vilhena. Convidei o Eduardo a vir à editora, com a sua Maria Manuel (e ele dela): prometi-lhes café e pastéis de nata. Cumpri e o Eduardo escreveu para mim o seu último livro, o “Nacional e Transmissível”, lançado com pompa no Frágil, está claro. Era um livro em que reencontrei a ternura que mais me seduzia nele, as raparigas, as carícias e o aconchego das camisolas de lã – se é que não são de caxemira! A cafés e pastéis de nata pastoreámos a velha rivalidade: o livro é profusamente ilustrado e uma das fotos é a da minha filha, quatro anos, a mergulhar numa piscina, com os seus bracinhos flexíveis de ginasta chinesa.
Despedi-me do Eduardo no mais belo dos cemitérios, o dos Prazeres. Ao meu lado, o Pedro Bandeira Freire, dono do Quarteto, cinemas que tanto o Eduardo incensou. O Pedro começou a ler nomes nas tabuletas e, com aquele ânimo masculino ciente da vida e da morte, disse-me: “Já tenho mais amigos daquele lado do que deste!” Não demorou muito foi ter com o Eduardo. E lá estão, os dois, à minha espera.
Publicado no Jornal de Negócios






