Há quantos anos não abria um coco? Furei-o para lhe sacar a água, parti-o ao meio, como se vê, e tenho estado aqui numa viagem nostálgica ao palato da minha infância e, sobretudo, da minha adolescência.
Não é, de certeza, uma vivência pascal, mas a brancura imaculada resgata-nos da sombra de todo o pecado.
Quem é que, hoje, não se queixa desta vida agonizante que levamos? Aproveitemos a Páscoa para ressuscitarmos desse túmulo de jeremiadas, tocado a ais e uis.
Vejam o vídeo que aqui junto. A sério, depois de vermos a coragem, o bom humor, a atitude positiva de Eliane Rodrigues, pianista brasileira, quem se atreverá a soltar mais um ai, um lamento?!
Vejam estes oito minutos de surpresas e deixem-se lá dessa coisa de “ah, se eu pudesse atirar-me à vida!” Não se atirem à vida, que não chega. Pé no pedal e mordam-na, que é o que a vida quer, que a comam.
Já não sei se naquele tempo o prazer era lento ou longo. Mas sei: naquele tempo era ainda o tempo, lento ou longo, do prazer. Se fosse naquele tempo, nesses longínquos anos, antes de, mordidos a vírus, 2020 e 2021 se arrastarem em culpa e penitência, podíamos, sem máscara, assoarmo-nos ao prazer.
Havia aeroportos e o avião ressuscitava em nós a euforia do menino, a exaltação do adolescente. Levava-nos à alegria do desconhecido, com uma subreptícia promessa, económica ou business, de inculpada transgressão.
Hoje iria jantar a Nova Iorque. É Primavera e em Manhattan quaisquer 10 graus centígrados sabem a 15 ou 16. Podíamos ser três ou quatro, para a conversa ir de carrinho. A esplanada do Aquagrill, na 210 Spring St, é cálida e irreverente como a morena Melanie Griffith que inflamava o Something Wild de Jonathan Demme. E se nos desse um arrepio, mudávamos de mesa, para o uterino conforto da sala interior rectangular.
Era do prazer lábil das ostras que queria falar. As ostras saem de gelo e mar e se mandarmos vir champanhe, o promíscuo champanhe não desdenha mesmo nada um petit ménage de língua e ostra. E porque hoje se marisca, o estômago, para fazer caminha, pede vieiras, grilled scallops, a bivalve carne sólida, superfície acetinada, que se entrega, insinuante, a uma boa abertura de lábios e dentada firme. É por isso que todo o coração que sai do Aquagrill é um coração apaixonado.
São agora nove da noite e teria almoçado antes, por volta das treze, no infernal Golden Unicorn, enfiado num prédio assustador de uma esquina de Chinatown. É o paraíso cantonês do dimsum: dumplings cor do mais cintilante cobre, crepes de veludo, a insaciada boca (perdoem-me o abuso lexical) a gulodiciar-se na espessura de tanto frito – nada é tão frito como o absolutamente frito da cozinha destes chineses pré-Xi Jiping. As salas do Golden Unicorn são decadentes salas de baile protegidas por uns imensos e ronronantes dragões de ouro fiscante. Têm olhos semicerrados e satisfeitos, uma preguiçosa língua em fogo, uma barriga lacada a barbecue e fresquíssimos frescos do mercado. Fazem-se novas amizades no Golden Unicorn.
Antes do Aquagrill, pelas sete e meia da tarde de Manhattan, havia de passar pela Broadway. Volta-se ali, à W 44 St, encostada a bailarinas, bailarinos e actores, como quem se encosta à escola primária. Ou como quem volta a abraçar o Pedro Bandeira Freire, fundador do antro de sonhos que foram, em Lisboa, as quatro salas do cinema Quarteto. O Pedro, ou talvez fossem só os olhos azuis do Pedro, era um tão lendário frequentador quão lendário é este Sardi’s, fundado em 1921. No Sardi’s bebia-se o mais vibrante, o mais clássico dry-martini, generoso e geladíssimo gin com meia-gota de vermute bianco seco, gota cortada à faca quando já vai no ar a cair da garrafa para o copo cónico e canónico. Leva-se à boca e logo desliza pela garganta um urso polar que nos transforma o aparelho digestivo na mais ampla e luminosa auto-estrada de desejo e contente melancolia. Bebe-se ao balcão do velho bar: era o mais despretensioso e dinossáurico bar de Nova Iorque, com tanto cheiro a casa dos nossos avós, que só se levam ao Sardi’s os mais antigos e incondicionais amigos.
E volto ao colo do Pedro Bandeira Freire. Foi pouco antes de ele ir deambular pela eternidade. Disse-me, já que vais a Nova Iorque, faz-me esse favor. E eu fiz: dry-martini na mão, telefonei-lhe do Sardi’s, o velho Joe, bartender, ao lado, a estender-lhe um abraço, tanta saudade e a despedida. Naquele tempo!
Foi há quatro anos. Caía do céu , como um avião, o Prémio Nobel da Literatura sobre a aventurosa cabeça de Bob Dylan. E o que é que Bob Dylan fez? Tenho de dizer isto com um sentimento dividido entre um sorriso malandro e um sentimento de humilde agradecimento: Bob Dylan serviu-se desse Prémio Nobel para ajudar a minha editora, a Guerra & Paz.
No discurso que mandou a agradecer o Nobel da Literatura, e sabendo, é claro, que a Guerra e Paz acabara de publicar esse admirável romance que dá pelo nome de MOBY-DICK, Bob Dylan não hesitou e disse à Academia Real Sueca e ao mundo que o estava a ouvir: «Moby-Dické um livro fascinante.» E acrescentou, cheio de vontade de nos convencer, que é um «um livro povoado de alto drama», que é «um conto de fadas marítimo», e que é «um livro que nos diz como homens diferentes reagem de formas diferentes a experiências diferentes».
Querem que vos conte outro segredo? Conto, claro. Os portugueses ouviram Bob Dylan. Como se a enchesse de cerejas, Bob Dylan encheu a boca com nomes bíblicos, referências alegóricas, ciclones, aventura e vingança: está tudo em Moby-Dick. A pensar na edição da Guerra e Paz do livro de Herman Melville, Dylan não poupou nos elogios e nas referências: «Está aqui tudo misturado, todos os mitos, a Bíblia judaico-cristã, mitos indianos, lendas britânicas, São Jorge…» para acabar a dizer da personagem central do romance, «Ahab é um poeta da eloquência».
Ah, se valeu a pena ouvir Bob Dylan! Voltem, peço-vos, a ouvi-lo. A voz dele estremeceu de alegria a falar deste livro, ouçam a voz dele a empolgar-se com as personagens, a empolgar-se com o terrível combate da gigantesca baleia e de um homem obcecado. Ouçam o perigo e a glória a derramarem-se na voz de Dylan vindos das páginas de um livro monumental, a Moby Dick.
Por causa de Bob Dylan, a Guerra & Paz editores esgotou a edição que então lançou de Moby-Dick, numa excelente tradução de Maria João Madeira, trabalho aturado e rigoroso, de quase um ano. Em homenagem a Bob Dylan, ao seu amor pela leitura e ao seu amor pela monumental aventura que é Moby-Dick, a Guerra & Paz vai fazer uma nova edição do livro de Herman Melville. Com nova capa. Nem que seja só mudar-lhe a cor: do aberto azul do céu para o fechado e perigoso azul do mar.
Copio, com gosto, o que a Guerra &Paz escreveu sobre o novíssimo livro do ensaísta, escritor e poeta Eugénio Lisboa, o Vamos Ler!, um livro exaltante sobre a aventura e o prazer da leitura.
«Aflige-me pensar que pessoas morram sem terem descoberto a paixão pela leitura. Tento, com este livro, que isso não aconteça.»
Eugénio Lisboa recebeu em sua casa a jornalista Teresa Nicolau para uma entrevista de apresentação do seu mais recente livro, «Vamos Ler! Um Cânone para um Leitor Relutante» (https://bit.ly/3r08V5M).
E deixem-me acrescentar: o livro entrou agora no top 10 da Fnac. A paixão da leitura voltou a rondar as livrarias. Está visto, a Guerra e Paz e Eugénio Lisboa uniram-se para nos fazer felizes.Vejam a entrevista de Eugénio Lisboa, encantador, aqui. Não morram, por favor, sem saborear o prazer da leitura.A começar por este Vamos Ler!
Uma festa de Joan Crawford. Talvez haja mais homens do que mulheres
Ainda não se tinha inventado o telemóvel e já a actriz Joan Crawford tinha 26 telefones em casa. Ainda não se inventara o GPS, e já Joan usava sininhos nos chinelos para que os criados soubessem sempre onde estava, na sua estarrecedora mansão.
Dirão que a nostalgia faz de mim o idiota da subjectividade. Porém, lendo os jornais da época, vemos que Hollywood não era a parolice coberta a dólares que alguns chutam para canto. Nem falo dos anos em que Stravinski se cruzava com Katharine Hepburn, Edith Stilwell metia um dedo de conversa em Gregory Peck, Thomas Mann observava Cukor e Brecht não falava com ninguém porque toda a gente só tinha ouvidos para Aldous Huxley.
Era a Hollywood cheia de refugiados dos anos 30. Mas venham a 1947, ao Le Pavillon. Joan Crawford dá uma festa em honra do dramaturgo Noël Coward. Conhecera-o em Londres e dissera, tradução livre: “É uterinamente repulsivo, como uma Mary Pickford inglesa.” Adoraram-se. Tanto que a sonsa imprensa inglesa lhes inventou um romance, apesar da rutilante homossexualidade de Coward.
Veio à festa Hollywood inteira, Irene Dunne, Marlene, Barbara Stanwyck, Gene Tierney, Tallulah Bankhead. Só mulheres? Não. Havia mesmo mais homens do que mulheres porque Crawford convidara os ex-amantes e ex-maridos.
Alguém perguntou a Coward o que achava da anfitriã. “Amo-a, embora esta noite só ainda lhe tenha visto o ombro esquerdo. Está sempre virada para o tipo que sentou à sua direita.”
À direita, Crawford tinha Greg Bautzer. Era um jovem advogado e andara à pancada com um tipo a quem ouvira dizer que Joan era “carne fácil”. O tipo partiu-lhe os dentes todos, mas Joan, comovida com o angelismo de Bautzer, pagou-lhe a reconstrução dentária. Descobrira que, mais do que advogado, ele era muito bom onde ela gostava que ele fosse muito bom. Só por isso, deu-lhe um fulgurante Cadillac.
Foi a provocadora Tallulah quem apresentou o novo amante de Joan a Coward. Fez como já antes fizera a Errol Flynn: “Vocês foram feitos um para o outro. Porque não vão foder para um sítio qualquer?” O angélico Bautzer ficou de cara à banda, mas Coward bem sabia em que provocações Tallulah se metia e o metia: “Desculpa, querida, o cavalheiro tem os dentes grandes demais para o meu gosto.”
Os dois homens deram-se com a inocente intimidade de Deus com os anjos. Falaram, beberam e à despedida Coward rematou: “A despropósito, ainda continuo a achar que tem dentes a mais.”
Joan Crawford com Greg Bautzer. Terá ele dentes a mais?
Duas balas disparadas pelas costas desfizeram-lhe o coração. Chris Gueffroy não será nem o piloto de aviões nem o actor que sonhava ser. Jaz morto e arrefece o menino de 20 anos de sua mãe. À sua frente, indiferente e sólido, o alto muro que separa o Leste e o Ocidente, na Berlim de 5 de Fevereiro de 1989.
Quinze anos antes, num pequeno país exógeno, já a tropeçar da Europa para o Atlântico, libertaram-se de uma prisão, Caxias, os que se bateram contra a longa noite confinada e censurada do salazarismo. O que faz com que muitos desses lutadores desviem o olhar e persistam, ainda hoje, num silêncio embaraçado perante as balas e o coração desfeito de Chris Gueffroy? E sim, confirmo, alvejaram-no pelas costas. Nas mãos, Chris segurava uma escada: quereria, talvez, subir ao céu.
Chris Gueffroy era cidadão não de um país, mas de um oxímoro: a República Democrática Alemã. Nunca o qualificativo “democrata” foi usado de forma tão fátua como vil, o que Chris aprendeu logo na terna adolescência.
Na escola, em flic-flacs, parafusos ou carpadas, nas argolas ou nas barras assimétricas, Chris encantava. Por ser bom, bonito e menino. Logo, esse Estado Democrático, velando pelo bem dos seus cidadãos-crianças, o escolheu para a carreira militar: seria oficial do Exército Popular.
Vejamos: o corpo de Chris, ágil, flexível, exuberante, trazia dentro uma emoção, porventura um daimon socrático, que lhe dizia para fazer a coisa certa: disse por isso que não, tão pouco o exaltava a catequese comunista. Já antecipamos a cara desapontada, mesmo feia, desse Estado paternal. O que alguns dos presos de Caxias não nos disseram, quando juravam lutar pela liberdade, é que esse Estado, que seria o deles, retaliaria: proibiram o desabusado Chris de entrar na universidade. Mataram-lhe em vida o futuro, o direito ao conhecimento. O avião que Chris queria pilotar nunca levantaria voo.
O adolescente Chris nem temeu nem estremeceu. Foi servir à mesa no restaurante do aeroporto para que o olhar pudesse acariciar a carlinga e as turbinas dos aviões, que lhe apaixonavam corpo e espírito. E fez um amigo, Christian. Discutiam o cerco em que viviam e conversavam sobre Berlim Oeste, oásis que lhes resgatava os dias de cinzento e chumbo.
Mas a vigilante República Democrática Alemã está atenta e já os chama para o serviço militar. Chris e Christian decidem-se: planeiam a fuga, vão saltar o Muro e mergulhar, do outro lado, na liberdade. Corre o rumor, nesse país só feito de rumores e voz do dono, que agora, em 1989, os soldados já não disparam sobre os fugitivos. Veio, de visita ao camarada Honecker, mistura de Salazar vermelho e de chefe da PIDE, o primeiro-ministro sueco. Quem diabo disparará sobre os seus cidadãos, só por saltarem um Muro, durante uma visita tão sensível?
A 5 de Fevereiro, Chris e Christian escondem-se num armazém junto ao muro. Perto da meia-noite, no silêncio e no escuro que ficou depois de passar a patrulha, lançam-se para a primeira barreira. Saltam uma, duas, e correm já para o Muro. Roçaram num alarme: as sirenes tocam, os projectores acendem-se. Não param e as metralhadoras vomitam as balas da República Democrática. Uma fere Christian que fica estendido. Chris corre ainda, escada na mão, tão perto já do sonho. Podiam apanhá-lo à mão, à paulada, mas um soldado visa-o e destrói-lhe o coração. Para ganhar o prémio, 150 marcos, que a República Democrática dá ao soldado que acerte em quem fuja do paraíso. Nove meses depois o Muro caiu: foi Chris, a última vítima, quem o deitou abaixo.
É um livro Guerra & Paz. E eu, sei lá porquê, tenho uma inclinação para esta casa editora.
Transpirando boas intenções, derramando voluntarismo salvífico, hordas de activistas declararam guerra à cultura e ao pensamento universalista. Juram que vêm salvar minorias oprimidas. Um livro, Teorias Cínicas, explica como esses activistas nos prejudicam a todos, a começar pelas minorias que clamam querer salvar.
Já todos ouvimos e já lemos parangonas tão retumbantes como estas: “Só os brancos podem ser racistas!” “Não existe sexo biológico!” “Ser obeso é saudável!” Em Teorias Cínicas, os autores, Helen Pluckrose e James Lindsay, expõem os dogmas em que assentam aqueles pressupostos absurdos, inspiradas numa débil leitura do pós-modernismo francês e refinadas agora por académicos activistas e moralizadores.
Teorias Cínicas confronta cada uma dessas investidas militantes e expõe a sua inconsistência e a sua surpreendente superficialidade: a teoria pós-colonial, a teoria queer, as teorias críticas da raça e da interseccionalidade, os estudos de género e os estudos de deficiência e de gordura. São teorias que, com manifesta desonestidade intelectual, nos pretendem impôr o músculo de uma nova Inquisição, ameaçando a democracia liberal. Pior ainda: com o seu radicalismo de neo-esquerda, estas teorias fornecem combustível à extrema-direita.
A Guerra e Paz orgulha-se de ser a editora portuguesa deste livro. Queremos satisfazer a sua urgência em lê-lo: Teorias Cínicas está já em pré-venda. Aqui, no nosso site. Leve-o hoje consigo. Na compra, oferecemos-lhe ainda o Pequeno Livro das Grandes Invenções. Até dia 4 de Abril.