A guerra e a paz de um editor em 2021

Num tempo em que se voltaram a queimar, destruir e proibir livros, a Guerra e Paz editores fez, em 2021, um dos seus melhores anos a ler, acarinhar e publicar novos títulos. Eu sou o editor e queria contar-vos tudo ao ouvido. E desculpem se tomo a liberdade de tais e indevidas intimidades. Querem que eu ponha a máscara? Eu ponho a máscara!

Deixem-me falar já de alegrias: a minha maior alegria foi publicar, este ano, o livro Entre a Lua, o Caos e o Silêncio: a Flor, a mais completa e livre Antologia de Poesia Angolana que já se fez, e que a minha querida Irene Guerra Marques e o meu amigo Carlos Ferreira (Cassé) organizaram, soberanos e generosos: um deslumbramento pintado às três faces do miolo. E que bom que o dstgroup nos tenha apoiado, mostrando que as empresas têm um papel no enriquecimento do imaginário dos portugueses.

A poesia, este ano, fez-me estremecer. A Ana Paula Jardim foi de Roupão Azul ganhar o Prémio Glória de Sant’Anna, enquanto a Eugénia de Vasconcellos, com o seu Livro da Perfeita Alegria, nos convida a um sobressaltado recolhimento, quase monástico, a cantar vésperas, culminando na fulgurante pulsão lírica de O Recreio dos Fâmulos, de Jorge Melícias. Sim, estremeci. De Angola, o Manuel Rui mandou-me um livro bilingue, Do Rio ao Mar, com traços rupestres do Ondjaki – que coisinha linda esse livro de amor à língua portuguesa, que vai e vem da boca poética portuguesa à boca poética angolana. Juntou-se-lhe a bela crise da Meaidadee de amizade, de outro angolano, o Carlos Ferreira, Cassé.

Sim, eu fiz-me ao mar. Fui com Pêro Vaz de Caminha, tanto mar, e vim de lá com a Carta do Achamento do Brasil, que o Onésimo Teotónio Almeida prefaciou, fazendo um volumezinho que é só de assombro e maravilha: nunca olhos humanos se perderam, surpreendidos, noutros olhos humanos como neste livro de inocência se perdem: descoberta, que descobrimento! Viajaram comigo, neste livro, a Câmara de Santarém e a querida Joana Emídio do jornal O Mirante. Obrigado. Ah, psiu, psiu… deixem-me dizer que a Carta é Livro Branco e da mesma colecção, branquinha, é o nosso Cântico dos Cânticos que, da inenarrável e inesquecível Agustina, tem um prefácio com um título que nos faz conjecturar e corar: Um tijolo quente na cama. E faço uma pausa para o irem a correr ler.

Agora, vamos lá ver de quem foram, em 2021, os melhores peidos – oh, desculpem, que vergonha… Juro que foram, vindos do século xviii, os de Jonathan Swift. Os seus Benefícios de Dar Peidos aromatizaram a colecção Livros Negros, a que se assoam também o escandalosamente educativo e libertário Manual de Civilidade para Meninas e o sufocante Solilóquio do Rei Leopoldo, de Mark Twain.

Já conhecem os Clássicos Guerra e Paz. Com a Clepsydra, que tem um bilhete inédito de Camilo Pessanha, que o Ilídio Vasco, organizador, desenterrou, são agora meia centena, quase todos no Plano Nacional de Leitura, com aquelas capas de multiplicação de ícones à Andy Warhol: a novidade é que os clássicos se modernizaram e já sentaram à sua mesa o F. Scott Fitzgerald, esse leviano príncipe da depressão e da turbulência: Terna é a Noite, livro de minha juvenil paixão, mas também O Grande Gatsby e O Estranho Caso de Benjamin Button.

Vamos ler? Vamos Ler! Um Cânone para o Leitor Relutante foi o desafio que o nosso veteraníssimo, sábio e polémico ensaísta e poeta Eugénio Lisboa lançou a todos os portugueses: e para que menu soberbo nos convida chamando ao repasto, um a um, os 50 romances portugueses que podem fazer de um refractário um leitor. O livro de Eugénio Lisboa é dos Livros Vermelhos, como vermelho é o combativo De Raça, da «raçada» e destemida Rachel Khan, e tão mesmissimamente vermelho é ainda o Autos-de-fé, a Arte de Destruir Livros, áspera denúncia das novas inquisições, denúncia em que este editor da Guerra e Paz é solidário e acompanha um Michel Onfray, que aqui nos pede que sempre estejamos do lado da razão.

E eu dou comigo a pensar que começa a fazer medo este activismo cancelatório, que despede pessoas como Salazar despedia professores nas universidades e nas escolas, só pelo livre pensamento a que se atrevessem. Confesso: militaremos contra o obscurantismo racializado, de género, identitarista. Como?
Publicando livros como publicámos o Woke, da delirante Titania McGrath, sátira arrasadora, ou como publicámos o exemplar, didáctico e racionalíssimo Teorias Cínicas, de Helen Pluckrose e James Lindsay. Não passarão, os passarões! Mas também revisitando a História através dos Atlas Históricos, colecção a que acrescentámos três novos títulos, sobre o Império Romano, o Médio Oriente e os velhos tão novos Estados Unidos da América. Revistámos também Fernando Pessoa, e o seu olhar sobre a História do seu tempo, cercada pelo totalitarismo fascista e comunista, num livro a que chamei Que Salazar era o Salazar de Fernando Pessoa?

Ia dizer que começámos este ano a produção sistemática de ebooks e de audiobooks, na assunção de que são inescapáveis formas complementares do livro físico. Destacou-se a recepção ao Assim Nasceu uma Língua, de Fernando Venâncio, que com ciência e razão tantos nos ensina sobre a história da língua portuguesa. O livro do professor Venâncio tem agora um complemento, a ousada História do Português desde o Big Bang, assinado pelo linguista Marco Neves.

E continuo a falar-vos ao ouvido, agora da nova colecção, Histórias de Liderançabiografias de gestores e gente da indústria, parceria com a Fundação Amélia de Mello e a Nova School of Business, ou da velha parceria com a Sociedade Portuguesa de Autores, com o fio da memória, o último dedicado a José Pacheco Pereira. Mas falemos de romances, d’O Sonho de Amadeo, do brasileiro Leonardo Costa de Oliveira, que ganhou o Prémio UCCLA, e de Desaparecida, de Ricardo Lemos, vencedor do Prémio Lions. Quem ganhará prémios, estou certo, é o angolano Boaventura Cardoso com o seu épico Margens e Travessias. E nos corações dos leitores ganharão um lugar especial o Desamor, de Nuno Ferrão, romance que o meu amigo Dinis Machado leria com prazer, e O Salteador da Infância Perdida, digressão romanesca de José Jorge Letria à sua mais recôndita memória.

Pode a imaginação casar-se com a razão? Pode e termino com dois livros de triunfo da ciência e do pensamento: voltou a A Estrutura das Revoluções Científicas, clássico de Thomas S. Kuhn, na edição comemorativa dos seus 50 anos, e estreámo-nos com um cientista sueco, Ulf Danielsson, de quem publicámos O Mundo Como Ele É, com prefácio de Carlos Fiolhais.

Com a publicação de 90 novos títulos, resistimos ao segundo ano de pandemia, ao fecho injustificável das livrarias, que destruiu, a editores e livrarias, o primeiro trimestre de 2020, à bizarra alteração da lei do preço fixo, em que 90 % dos agentes que fazem, amam e põem oxigénio na boca do livro não foram sequer ouvidos.

Esta é, queridos leitores, a Guerra e Paz. Já temos a cabeça, corpo e alma, em 2022: prometemos começar em Março uma nova colecção, os romances de guerra e paz e uma nova e exigentíssima colecção de não-ficção, que conjugue filosofia, história, economia e ciência. Do Antigo Egipto à Guerra Fria, passando pelo Holocausto, e mesmo pelos Descobrimentos, nada do que é humano nos será estranho. Feliz Ano.
Manuel S. Fonseca

Estão abertas as candidaturas ao Prémio Literário Lions 2022

A Associação Internacional de Lions Clubes – Distrito Múltiplo 115, Fundação Lions de Portugal, e a Guerra e Paz Editores têm a honra de anunciar a abertura das candidaturas ao Prémio Nacional de Literatura Lions de Portugal de 2022, prémio que tem um valor monetário de dois mil e quinhentos euros, atribuído ao autor da obra premiada,

As candidaturas serão recebidas por email (e só por email), numa forma muito simplificada, que facilita a participação dos autores. As condições a que devem submeter-se as candidaturas estão expressas no Regulamento que pode encontrar nas páginas online do Lions de Portugal e no site da Guerra e Paz editores.

As candidaturas abrem no dia 15 de Dezembro do corrente ano e encerram às 23h59 do dia 25 Janeiro de 2022.

A Guerra e Paz editores publicará a obra vencedora, tal como publicou já o romance Vidas por Fios, de José Martinho Gaspar, vencedor da edição de 2019, Os Dentes do Tejo, de Evelina Gaspar, romance vencedor do Prémio de 2020 e o romance vencedor de 2021, A Desaparecida, de Ricardo Lemos.

O Prémio Nacional de Literatura Lions de Portugal foi criado em 2011 e destina-se a premiar a melhor novela ou romance inéditos de autores portugueses, tanto de autores estreantes como de autores já com obra publicada.

Concebido para servir a causa da leitura e para servir os autores e a literatura portuguesa, este é um prémio que se enquadra nos objectivos de ligação e divulgação da cultura que norteiam, também, a acção do Lions de Portugal.

O regulamento do Prémio Prémio Nacional de Literatura Lions 2022 pode ser consultado aqui.

Não é entrevista, é conversa

O programa, um daqueles lugares onde se conversa muito bem, chama-se Encontros Imediatos. É a casa do João Gobern e da Margarida Pinto Correio. Passei lá duas horas. A falar e a ouvir música. Fiquei deslumbrado e, apesar de estar com uma voz cavernosa, pus-me a falar que ninguém me calava. Esta é a primeira parte da conversa.

https://www.rtp.pt/play/p4311/e582148/encontros-imediatos

Depois saímos, demos uma volta, e atirámo-nos à segunda parte.

https://www.rtp.pt/play/p4311/encontros-imediatos

Pessoa e Salazar: para acabar de vez com as dúvidas

Juntei os trapinhos com Fernando Pessoa… perdão, juntei os textos de Fernando Pessoa sobre Salazar, no livro Que Salazar era o Salazar de Fernando Pessoa? Leiam, garanto-vos que não se vão arrepender. A jornalista Fernanda Cachão entrevistou-me para o CM. É uma antecâmara do que vão encontrar no livro.

Começo por lhe fazer a pergunta que aparece na contracapa do livro: Fernando Pessoa foi alguma vez salazarista?

 Se por salazarismo entendermos os 40 anos de ditadura, o cortejo de presos políticos, torturas da PIDE, guerra colonial, que hoje podemos e devemos imputar a Salazar, Fernando Pessoa, que nada disso viveu ou conheceu, nunca foi salazarista. Morreu três anos depois de Salazar chegar a Presidente do Conselho e decretar o unipartidarismo da União Nacional e plebiscitar a Constituição de 1933. É aqui que começa o que podemos designar politicamente como salazarismo e é exactamente esse quadro que alerta Fernando Pessoa, começando então os textos de Pessoa sobre Salazar a ser ácidos, satíricos e até violentamente ofensivos para o ditador.

 Qual a razão fundamental para reunir os textos do poeta sobre o ditador?

 É uma tradição da Guerra e Paz editores organizar antologias temáticas de Pessoa, sobre viagens, sobre sexualidade, sobre Cristo. Salazar é uma das figuras maiores, inarredável em vida e inarredável depois de morto, do nosso século XX. Ter o nosso maior poeta do século a comentar com minúcia a acção e os acontecimentos políticos desses anos de revolução e ditadura é de uma enorme riqueza. Tanto mais que podemos assim assistir, a partir de um olhar privilegiado, ao nascimento da figura política de Salazar e ver a sua evolução, tantas vezes feita com base em processos manhosos (as demissões sucessivas de Salazar, por exemplo). Do berço político ao trono tirânico, está tudo neste livrinho de Fernando Pessoa sobre Salazar.

 Salazar é frequentemente considerado o espírito tacanho que governou Portugal 40 anos. No entanto, existem algumas coincidências de pensamento entre Fernando Pessoa e Salazar, quer partilhavam, por exemplo, um “profundo cepticismo quanto à capacidade intelectual da multidão”, uma visão pouco politicamente correcta para os padrões actuais? 

 Mas o que pensam hoje os grandes dirigentes políticos sobre a massa dos cidadãos? Se não fossem tão escrutinados, será que não manifestariam de forma mais ostensiva algum desdém pela turba? Pessoa e Salazar, nesse fim dos anos 20 do século passado respiravam o ar de um tempo em que as vanguardas, tanto as comunistas como as fascistas, se substituíam ao povo nas escolhas, nas decisões e nos discursos. Por outro lado, a ideia de que Salazar fosse pura e simplesmente um tacanho é errada e não nos deixará perceber as razões da sua longevidade no poder.

 No texto “trata-se de governar estas bestas”, Fernando Pessoa escreve que “o primeiro dever do patriota é ver claro o que é a sua pátria”. Qual a actualidade do pensamento político de Pessoa? 

 O pensamento político de Fernando Pessoa é o da defesa de um feroz individualismo. Se ele estivesse vivo, hoje, por certo abominaria essa amalgama do identitarismo em que se quer dissolver cada ser humano. Seria talvez um anarquista de direita. Nalgum momento poderia, com o seu espírito libertário, votar na Iniciativa Liberal. Mas o grande valor dos textos deste livro está na sua riqueza histórica, na forma como Fernando Pessoa recusou o totalitarismo, reconhecendo-o imediatamente quer no fascismo, quer no comunismo. Poucos intelectuais europeus, mesmo os muito posteriores a ele, carregadinhos de informação, foram capazes de ter essa lucidez.

 No texto, escrito em 1933, “Não há opressão em Portugal”, Pessoa classifica a ditadura como liberal e menospreza, por exemplo, a censura na imprensa, mas em 1935, no ano em que morre, dois anos após Salazar ter assumido a liderança do governo, lamenta, por exemplo, “a venda a retalho da alma portuguesa” e escreve o poema ‘António Oliveira Salazar’ (“Bebe a verdade /E a liberdade, /E com tal agrado/ Que já começam / A escassear no mercado”). O poeta antecipa rapidamente o que está por vir?  

Fernando Pessoa, durante quatro anos, de 1928 a 1932, como milhões de portugueses, saudou o ministro das finanças que Salazar foi, como um ministro competente e com resultados que ele percebia como bons, como a imprensa internacional, em particular a inglesa, os saudou também. Mas foi sempre reticente quanto à passagem do “contabilista” a estadista. Diria que a percepção da tirania, que Salazar torna transparente com o partido único e com a montagem do aparelho autoritário, amargurou o último ano de vida de Pessoa – são de uma grande desolação os seus últimos textos – e precipitou a sua morte. Cereja em cima do bolo, se assim se pode dizer, a forma como Salazar concebe o papel da literatura, e de toda a criação artista, fazendo dela um instrumento servil do Poder e da sua moral, revoltou e tirou forças a Pessoa, que decidiu não mais escrever, por não querer escrever num quadro a que ele chamou “sovietismo de direita”.

 A “desilusão”, precipitou a morte do poeta, como diz, ou a doença associada ao consumo de álcool?

 Não sou um conhecedor profundo da biografia clínica de Pessoa, mas sabemos hoje como os traumas afectivos assombram e têm consequências somáticas. Que Pessoa rejeitou, pessoal e vivencialmente, o crescimento e densificação do autoritarismo de Salazar, nas roupas cada vez mais sinistras do Estado Novo, não tenho dúvidas. O artigo que ele escreveu a contestar o ataque e proibição da maçonaria é a sua última resposta vigorosa. Depois, segue-se a queda, ele já não vai à entrega do Prémio ao seu livro “Mensagem”. Adivinhava porventura o discurso que Salazar ali ia fazer e no qual, seguindo a “regra soviética”, como lhe chama Pessoa, Salazar praticamente determina o que um escritor “deve escrever”. Daí em diante, Pessoa fecha-se num casulo de amargura.

 O texto ‘Chamamos-lhe por vezes jesuíta’ fala precisamente do papel da literatura e antecipa de uma forma absolutamente lúcida questões como quem o poderá substituir e quem o poderá derrubar. O pensamento de Fernando Pessoa reflecte de alguma forma o de alguma elite da altura?

 Sim, Pessoa sonha, em 1935, com o derrube de Salazar e aponta até as forças que o podem fazer: “um movimento revolucionário das esquerdas”. Não sou historiador, mas creio que, nesse tempo, entre as elites, mesmo as elites económicas, que acusavam Salazar de “bolchevismo branco”, a ideia de derrubar Salazar seria, pelo menos na teoria, apetecível: ainda não estava distante a memória dos golpes e contragolpes que infestaram a história da República.

  Pessoa e Salazar não poderiam ser maiores antónimos…

 Sim, basta compararmos a obra de cada um. Do lado de Salazar, a construção de uma sociedade fechada, monopartidária, em que o seu ascetismo asperge todas os aspectos da vida, do lar à literatura devota, do trabalho às relações sociais. A criação de Salazar é devota. Do outro lado, Fernando Pessoa constrói uma obra plural, em que florescem personalidades tão distintas como Álvaro de Campos ou Alberto Caeiro, cruzando o lúdico com o dramático e por vezes épico ou trágico. A criação de Pessoa é lúdica, impregnada de prazer.   

O que é que mais o surpreendeu nestes textos políticos de Pessoa?

Eu sou um leitor de Pessoa que privilegia nele um lado lúdico. Magistral e dramática que seja, a construção da heteronímia releva também do gosto de Pessoa por brincar como o menino que em muitos aspectos nunca terá deixado de ser. A família diz isso mesmo, que ele divertia os sobrinhos a fingir-se bêbado, a fazer de pássaro pousado numa só pata. O que acho extraordinário na sequência destes textos sobre Salazar é ver apagar-se em Fernando Pessoa o menino e inundarem-se os textos de uma lucidez crítica que caminha do vigor dos anos 20 para o desânimo de 1935.

Ler Livros em Noites de Lua Cheia

Fernando Pessoa apontou uma falha ao professor Salazar: disse que ele não tinha cultura literária e que isso o transformava num «cadáver emotivo». É essa a transcendência dos livros: romances, poemas, contos transbordam de emoção e dão-nos inteligência afectiva, fazendo-nos crescer em sensibilidade e humanidade.

Eis o que a Feira do Livro de Lisboa pretende ser, uma festa emotiva, plena de dramas e epopeias, de comédia também, porque nada há de mais humano do que o riso. E a Guerra e Paz editores é parte dessa festa. Nos pavilhões A 50, 52 e 54 oferecemos aos nossos leitores cerca de 50 clássicos, do humor de Dom Casmurro, de Machado de Assis, à anti-epopeia que é a Moby Dick, de Herman Melville. Venha ler connosco Conrad, Eça, Camilo, Oscar Wilde, Flaubert ou Jane Austen.

Oferecemos-lhe também as nossas colecções às cores, os Livros Brancos, com a Carta do Achamento do Brasil, os Livros Negros, com O Solilóquio do Rei Leopoldo, de Mark Twain, os Livros Amarelos, colecção que junta autores, e os Livros Vermelhos, com uma novidade nesta Feira, o livro De Raça, de Rachel Khan, autora francesa, filha de um negro e de uma branca: vítima das armadilhas activistas, a autora pergunta de que raça é, jurando que «somos todos crioulos».

Que Salazar é o Salazar de Fernando Pessoa é outra das nossas novidades, o livro em que Pessoa acompanha, de 1926 a 1935, cada passo de Salazar, escrevendo sobre ele e sobre cada um dos seus actos políticos. São textos de uma inteligência política e psicológica admiráveis.


Os Números da Guerra de África, do tenente-coronel Pedro Marquês de Sousa, é um manancial de informação que vem preencher uma lacuna: pela primeira vez estão reunidos todos os números dos três ramos das Forças Armadas, nas três frentes, Guiné, Angola e Moçambique. Um livro de referência para o futuro.

O Atlas Histórico do Médio Oriente é outra novidade nesta Feira. O caos e crise a que assistimos no Afeganistão só veio reforçar a necessidade de visitarmos a História e reconhecermos as raízes profundas dos conflitos desse centro nevrálgico da tensão mundial. Indispensável.

Desaparecida, romance do estreante Ricardo Lemos, vencedor do Prémio Nacional de Literatura do Lions de Portugal, vai ser apresentado na Feira. Desparecida é também o nome de uma aldeia, ou talvez seja, mais do que uma aldeia, talvez seja um Portugal imaginário, que descobrimos pela força das narrativas, lendas e sonhos. Um primeiro grande romance.

Outra revelação romanesca é O Sonho de Amadeo, do romancista brasileiro estreante Leonardo Costa de Oliveira. Venceu o Prémio Literário da UCCLA-CM Lisboa, história de um homem que acorda sobressaltado depois de ter sonhado que foi assassinado com um tiro no peito. Mas quem, se é que alguém, o assassinou?

E o nosso livro do ano, nesta Feira, é Entre a Lua, o Caos, o Silêncio, a Flor, a mais completa antologia da poesia angolana já feita: livre, abrangente, da poesia oral das línguas angolanas aos poetas contemporâneos. Um monumento de 700 páginas oferecido às gerações futuras.


Da nossa colecção de poesia, a Roupão Azul, de Ana Paula Jardim, vencedor do Prémio de Poesia Glória de Sant’Ana, junta-se o Livro da Perfeita Alegria, terceiro livro de Eugénia de Vasconcellos na Guerra e Paz.

E por fim, viajamos à Lua. Vamos à lua com a cientista francesa Fatoumata Kebe, que esperamos ver em breve na tripulação de uma das viagens da Agência Espacial Europeia. Kebe escreveu A Lua é um Romance um livro apaixonado, em que a ciência nos dá a conhecer todos os segredos e faces escondidas da Lua, revisitando todos os mitos, narrativas e efabulações de séculos sobre a Lua. Um livro sedutor para ler em noites de Lua Cheia.


Guerra e Paz editores, Feira do Livro de Lisboa, 2021

Bufaria e cortesia

Juan Garcia Pujol, o homem que enganou Hitler

Publicado no Jornal de Negócios, há umas boas semanas, Entretanto, meteram-se as férias e coisa e tal, e só agora dei com estes amenos espiões.

Vejam, a bufaria, hoje, é praticamente uma cortesia. Durante anos esteve de cadeirinha, macia, administrativa, na Câmara de Lisboa. Deu, com uma gentileza de chá e torradas, os nomes de organizadores de 50 manifestações a Embaixadas de países amigos e inimigos, democracias e ditaduras.

Lembro: bastou a Anna Sage ter vestido uma saia rosa, para ser a “Lady in Red”, na noite em que levou ao cinema o gangster John Dillinger, bufando a digressão recreativa ao FBI, que à saída do filme crivou de balas esse Robin Hood de bancos, impedindo-o de ser ele a assaltar, com outra glória, o BES. A Câmara de Lisboa, inocente, é a nossa “Lady in White”, culminando a tradição de casino, bufaria barata e alta espionagem da nossa capital, que remonta à Segunda Guerra Mundial.

E não minto se disser que pode haver um impulso idealista no deceptivo espião. Tenho os olhos no catalão Juan Pujol Garcia. Cresceu na Guerra de Espanha. O pai, burguês, educara-o no pacifismo e no bom senso da democracia. Forçado à guerra pelos republicanos, foi telegrafista para não dar um tiro. Acabou prisioneiro dos fascistas. Libertou-o um padre: já parecia velho aos 25 anos e ficou com uma velocíssima aversão ao fascismo e ao comunismo.

Deus, se for Deus, voa, eis o que sabemos com tanta certeza como sabemos que Hitler, por ser Hitler, faria a guerra. Pujol quer combater Hitler. Vai à Embaixada inglesa, em Madrid, e oferece-se como espião. É bom que saibam, Pujol desistiu dos estudos aos 13 anos: trocara tudo por um curso de avicultura. Se alguma coisa sabia, era de galinhas. Os ingleses devolveram-no à capoeira.

Não desiste. Urde um plano tortuoso. Oferece-se aos alemães. Convencerá, dessa maneira, os ingleses da sua utilidade. Diz aos nazis que tem um passaporte diplomático e que pode viajar e espiar em Inglaterra. Em pouco meses inunda os nazis com informações do Reino Unido.

Pujol viajou tanto à Inglaterra como eu já fui à Tasmânia. Está entre Lisboa, o Estoril e Cascais. Quem sabe se inspirado pela sombra de Fernando Pessoa, inventa heterónimos. Trabalham para ele, do território inglês, 23 espiões. Um venezuelano, embarcadiços, uma mulher que por não ser bonita é muito discreta… Há, num verso de Herberto Helder, uma máquina de fazer maçãs – a cabeça de Pujol era uma máquina de fazer espiões. Inventa-os, dá-lhe uma biografia, e com os mapas de guias turísticos e os horários dos caminhos de ferro ingleses, regala os nazis de informações. Todas falsas, mas povoadas de verdades que as credibilizam. Inventa um comboio de barcos ingleses em direcção a Malta e a marinha nazi, os insondáveis submarinos, vêm polvilhar o Mediterrâneo, logo seguidos pelos ingleses.

Um catalão enche os mares com uma informação falsa e o MI5 já o procura por toda a Inglaterra. Pujol e a mulher vão bater-lhes à porta, em Lisboa. Levam-no para Londres e, de boca aberta, chamam-lhe Garbo, o melhor dos actores.

Agora, dúplice, serve a causa que quer. E é Pujol, na roupinha de Garbo, que convencerá Hitler: o dia D será em Calais. No dia 6 de Junho, horas antes da invasão, autorizado por Eisenhower, avisa os nazis que vai haver um desembarque na Normandia, mas que é só para nazi ver. Convicto e confiante, Hitler manda Rommel estacionar os seus tanques em Calais. Pujol, espião espanhol, ganhou um terço, talvez meia guerra. Poupou vidas. Depois da Guerra, o MI5 inventou a sua morte em Angola, onde, para variar, nunca foi. Viveu, clandestino e em doce remanso, na Venezuela. Morreu em 88: os deuses pouparam-no à ditadura de Chávez.

Uma banga de komé, meu!

Fica à porta e quem passa protesta por ele estar sem máscara: Che Lewis

A covid-19 povoou o nosso mundo de humilhação. Com cara arrogante, e não digo sequer que seja a de um Hitler ou de um Estaline, mas talvez a de um daqueles ministros tonitruantes do XXII governo constitucional, a covid-19 obrigou-nos a levar a humilhação para casa. Confinou-nos e, se me desculpam o neologismo, pusilanimou-nos.

Ora, por mais que apalpemos o ser humano, sempre restará nele, noves fora alguma coisa, uma impalpável insatisfação, até um vestígio de insubordinação. Leiam a carta que recebeu um amigo meu de Paris: “Monsieur, vimo-lo, há pouco, no acto de urinar da sua janela sobre as pessoas que passavam na rua. É um comportamento inaceitável! O confinamento não justifica tudo. Chamaremos a polícia em caso de recidiva.”

Assinavam essa carta, escrita a bic azul ponta fina, os condóminos, que sublinharam a grosso a palavra “inaceitável”, pespegando-lhe um correctivo e intranquilo ponto de exclamação.

Mas nem toda a insubmissão é intranscendente. Dois gramas de indocilidade comandaram as veias de um padre católico de Cáceres: a clausura a bulir-lhe os nervos, subiu à torre da igreja, e do telhado, em streaming, para os seus cordeiros de Deus atulhados de pecados do mundo, celebrou, padre funâmbulo, a primeira missa equilibrista pós-concílio Vaticano II.

Ainda em plano inclinado, já regresso ao insublime mundo da futilidade. Na espanhola Vilagarcia, que mal sei se vota Podemos ou Vox, uma mulher, branquíssima de insatisfação, subiu ao muito oblíquo telhado do prédio. De biquíni, que rezo para que fosse de tecido mínimo e escândalo máximo, deixou-se torrar ao sol, os vizinhos em ai-jesus cá em baixo, braços abertos não fosse ela cair.

Eu gostava que tivesse sido na Amadora ou no bairro do Montenegro, em Faro, mas foi num outro lugar estrangeiro. Nos mais acirrados dias da inclemente reclusão um homem vinha, dia a dia, à varanda: vestido de mergulhador, um dia; no outro de princesa; depois de Mbappé ou Cristiano Ronaldo; de bruxa; de astronauta; de boxeur. Megafone na mão, atordoava o mundo: “Estou chateado!” E traduzi mal, que a cada dia mudava de insatisfação: entediado, enfastiado, maçado, irritado. Nunca veio vestido de António Costa, Catarina Martins ou Rui Rio.

A gendarmerie francesa, numa aldeia do Loire, encafifada pelo homem que passeava duas ovelhas como seus animais de estimação, proibiu-lhe as saídas e, à população, tuítou com pedagogia: “Ovelhas, avestruzes, lamas e crocodilos não são animais de estimação! Não podem, pois, ser usados como desculpa para sair de casa.” Eis a paciência de mestre-escola que falta ao ministro Cabrita.

Ousemos e viajemos. Em Trinidad e Tobago, os 29 anos de Che Lewis feneceram. Por uma disputa de terras, um bando entrou-lhe em casa e, a tiro, abateu Lewis e o pai. Se as suas almas foram assim despachadas ao Criador, já os corpos foram entregues à funerária, com pedido especial da família para o jovem Lewis.  Embalsamaram-no e eis que o trazem à igreja evangélica, sentado numa cadeira, casaco rosa, calça branca, óculos escuros a rasgar, uma banga de komé, meu! Na igreja recusam-lhe a entrada. Fica à porta e quem passa protesta por ele estar sem máscara, prova que todo o morto é um insurrecto. Depois, sobem-no para o carro funerário de caixa aberta e atravessa a cidade, numa última visita. A escritora Colette, de um outro confinamento, deixara-nos uma lição: “A melhor maneira de sobreviver à Ocupação é ficar na cama.” Com estilo, os 29 anos de Lewis, insatisfeitos e insubmissos, desmentem a recolhida Colette.

Publicado, há umas boas semanas no Jornal de Negócios, no Weekend, que sai às sextas

Pessoa aos tiros no pé?

Estaria Fernando Pessoa aos pés do velho professor Salazar? E o anarquismo de Pessoa seria capaz de dar um tiro no pé? O que vos quero dizer é que este livro é divertido, informativo e bastante provocatório. Pesa menos do que uma bota, seja lá a bota de quem for.

Claro que eu sou suspeitíssimo. Organizei-o e atrevo-me mesmo a escrever comentários. Juntei-lhe até uma cronologia à minha maneira. Só aceito opiniões de pois de o lerem. Já o podem ir buscar aqui e no dia 24 está nas livrarias de todo o país.