Blog de escrita e de reflexão lúdicas. Um lema: chatices não!
Author: Manuel S. Fonseca
Eis a felicidade: estar sentado num fim de tarde de Verão, na mesa um fino estarrecedoramente gelado e um prato de jinguba. E Deus sentado, ali ao lado, sendo certo e sabido que Deus é Amor e só Amor.
carro do fumo! carro do fumo! (este é do Tree of Life, do Malick)
Eis o que é a infância, um baloiço. E corrijo, antes que sentem o belo posterior no balancé: a infância é um baloiço entre a alegria e a dor. Lembrem-se, era o ano de 1962 e o mundo enfiava os acabrunhados dedos no crânio com a crise dos mísseis de Cuba. Pairava sobre as cabeças a horrenda espada da guerra atómica: as úlceras dos quem eram uma pilha de nervos pediam o bálsamo, ai, meu Deus, de um copo de leite.
Ora, na Luanda de 1962, já a morar na Vila Alice, na rua paralela à rua onde morou Luandino Vieira, eu tinha só oito anos, um estômago inabalável e uma cabeça evanescente, de onde brotavam nuvens e sonhos. A minha alegria e a minha dor não eram ainda a Guerra Fria nem o meu preclaro espírito tinha prenúncios do espectro de Putin, hidra de setes cabeças que agora nos assombra. A minha alegria era o dêdêtê – sim, o DDT, o pesticida conhecido por diclorodifeniltricloroetano – e a minha dor era a bitacaia, a pulga Tunga Penetrans, insecto sifonáptero da família dos tungídeos.
Começo pela dor. Todos queríamos ter pés de ouro, pés que rivalizassem com o perfeito e rematado pé mulato de Eusébio. Jogávamos à bola em qualquer baldio, atrás da Farmácia Luanda, ou no minúsculo terreno em frente à casa da tão bela Ana Maria, entalado entre a casa do lixivieiro e a casa onde desaguaria uma família do Porto com quem se armou, num fim de tarde de domingo, um monumental arraial de pancadaria que juntou a rua, o beco, e as pistolas dos dois polícias moradores, o sub-chefe pai de outra angélica Ana Maria que, com um gemido de pranto, o bairro viu casar-se aos 15 anos, e o sub-chefe pai da loura Bia com quem, em anos posteriores à bitacaia, descobri a inocente doçura de dançar slows, mesmo o I’ve Got Dreams to Remember.
E eu falo, enfim, da bitacaia. Era uma pulga que se enfiava na pele macia do pé, no calcanhar ou junto a uma unha. Sempre e só a insidiosa fêmea. Ia e punha um saco de ovos. O prurido irritante que aquilo dava. Se não a combatêssemos, acontecia o que acontecerá se não combatermos Putin, a necrose. Nesse remoto caldo colonial, eram as mães negras, bessanganas, que nos salvavam o pé infectado. Com um golpe de navalha abriam a pele, tiravam a bitacaia, ou matacanha, com o cuidado de não rebentar o saco de cem ovos, e depois, puxando o cigarro, que fumavam com a ponta acesa dentro da boca, deitavam cinza quente na ferida aberta.
No dia seguinte, ais e uis esquecidos na poeira das ruas, já corríamos atrás do carro do fumo, o carro do DDT, que vinha fumigar o bairro para matar essas pulgas e mais artrópodes, a prodigiosa mosquitada, o mosquedo, a mirífica e irreprimível vida dos trópicos.
Hoje, o DDT está proibido. Imputam-se ao pesticida mil tormentos e danosas consequências. Nesse tempo era um fumo salvador. Era a TIFA, uma carrinha com um depósito, que Terrence Malick, realizador americano, mostrou no filme Tree of Life. Quando a víamos, nas manhãs ou tardes ociosas dos trópicos, gritávamos “carro do fumo! carro do fumo!”, e cheirávamos fundo e forte, como, exultante, o coronel do Apocalipse Now adorava cheirar napalm pela manhã. Despíamos as camisas e mergulhávamos na nuvem daquele fumo tóxico, a encharcar-nos a cabeça e o peito, numa alegria cem por cento desinfectada, as mães aos gritos por nos verem desaparecer na cerrada vaga branca, nuvem alada de anjos de cheiro.
Entre a pequenina dor e a imensa alegria, a sub-reptícia bitacaia e a alva bola de neve do dêdêtê, forjou-se a minha infância. Como todas as infâncias: fumo que os dedos não voltam a agarrar.
Estes são os meus livros de Outubro. Dez. Visíveis. Têm música, a dos primeiros Beatles, quando eram só uns miúdos geniais e uns deliciosos sacaninhas. Ora, experimentem ler…
Os meus olhos vêem mal ao longe, mas bem ao perto. Ao perto, quase apalpam, o que já não é bem deste tempo e, afinal, também não interessa, porque nenhum dos meus dez livros de Outubro é invisível. Olhos a faiscar sobre o planeta, vemos todos as alterações climáticas, calor ardente, água escassa ou torrencial. Steven Koonin, físico, subsecretário da administração Obama, não as vê, às alterações climáticas, como nós. Escreveu A Ciência do Clima – O Que a Ciência Nos Diz, o Que não Diz e o Que Isso Interessa, livro de que Carlos Fiolhais fez a revisão científica e cuja tradução foi apoiada pela Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Este livro, com os infatigáveis olhos da ciência, não diz o que os políticos e os jornais dizem. Os gritos, os clamores de alarme nunca ajudaram a ver bem: este livro, visível e sério, ajuda.
Invisível foi o que um médico muçulmano conseguiu que uma rapariga judia fosse: fez esse milagre nas barbas da Gestapo, na Berlim de Hitler, e salvou-a. A ela e a mais judeus. Ronen Steinke dá visibilidade e drama a essa história real em O Muçulmano e a Judia. Eis o que neste livro vemos: a história de judeus e muçulmanos é tudo menos maniqueísta e unilateral.
Poucos anos depois, os nazis foram vencidos e não é que Hitler parecia que se tinha tornado invisível! Os ingleses mandaram Hugh Trevor-Roper a Berlim e, em poucos meses, ele foi o primeiro a descobrir o que lhe acontecera, se tinha ou não morrido e como. Escreveu um clássico da investigação, Os Últimos Dias de Hitler. Como é que esse livro, quase um policial, e, em absoluto, fascinante, traduzido em todo o mundo, nunca foi publicado em Portugal? A minha Guerra e Paz, na colecção Os Livros Não se Rendem, torna-o, agora, visível.
Invisíveis é o que nunca são os filhos. São bem sonoros, choram, riem, e é da cacofónica algazarra deles que o médico Sérgio Neves faz a matéria do seu O Pediatra e Eu: pais aflitos encontrarão neste livrinho prático a consolação que um leitor exaltado encontra em Camões ou Shakespeare.
O que os meus leitores ainda não estão a ver bem é o que aí vem no perfeito romance a que Rita Cruz chamou A Menina Invisível. O que descobriu, cada um de nós, aos 11 anos? Alice, a heroína deste livro, descobre como se pode tornar invisível. Pode até viajar dentro dos olhos de Pedrinho, o menino que a salvou. Rita Cruz é, ainda, uma escritora invisível: com este romance, enche a literatura portuguesa de emoção, com uma naturalidade sem fanfarra, só ao alcance de uma grande e muito visível escritora. E digo isto, sabendo que, no mesmo dia, publico, de Stefan Zweig, uma novíssima tradução de Uma História de Xadrez, o romance que ele entregou ao editor na tarde que antecedeu a noite do seu suicídio, cansado de um mundo em que, pensava, iria prevalecer o nazismo, a tortura, a morte da civilização, temas visíveis nesse pequeno e soberbo romance.
A 11 de Outubro, os seis livros de que falei estarão nas livrarias. Alguns dias depois, a 25 de Outubro, vão nascer mais quatro livros da Guerra e Paz.
E começo por um romance policial, Querubim, o Filho da Puta. O autor deste thriller é António Garcia Barreto e o que sei ser invisível é o que Malvina Bleck, hospedeira de bordo, transporta na omnipresente mala preta. O que será? João dos Passos, o Querubim, também não sabe, mas apaixonou-se por ela: hão-de viver de sexo, silêncios e mistérios.
E deixem-me falar dos Beatles. Não sei se os Beatles, quando passaram por Vilamoura, vieram a Tavira, mas Cristina Baptista faz um belo retrato da cidade, emTavira – O Porto Seguro, álbum de grande visibilidade (27 por 27 centímetros) e uma tonelada de prodigiosas fotografias: visibilidade garantida de um «beau livre». Ou livro de arte, como corrijo para que perdoem o meu francês.
Mas, afinal, o que sei dos Beatles? Sei que vou publicar o melhor livro que já se escreveu sobre eles. Jura-o John Lennon e atesta-o a indesmentível bíblia que é a Rolling Stone. Love Me Do! A Ascensão dos Beatles, de Michael Braun, é uma preciosidade: o autor viveu meses com os Beatles, acompanhou as primeiras tournées, Inglaterra, Paris, Estados Unidos: «mostrou, o que nós éramos, uns bastardos», afirmou Lennon. Ou seja, é um livro escaldante, genuíno. Visivelmente, é daí que nasce a grande ternura, digo eu, que tantas vezes chorei a ouvir Lucy in the Sky With Diamonds.
Chorei? Se chorei, acabo o mês a rir. Tenho na mão um volume invulgar. O investigador da Universidade do Minho, Abílio Almeida, atreveu-se a escrever A História do Riso. Da Antiguidade Clássica à actualidade, de Platão a Nietzsche, passando pela rádio, cinema, televisão. O riso será um pecado? Ou será um visível e sonoramente repetido prazer carnal? E Jesus Cristo, riu-se algum dia ou nunca se riu? Será o riso de Jesus Cristo invisível?
São os meus dez livros de Outubro. Olhem para as capas. Por favor, vejam-nas bem: nenhum livro deve ficar invisível.
Quem me rouba o tempo, rouba-me tudo. Andei perdido durante duas semanas e já devo algumas crónicas a esta varanda onde venho conversar com os amigos. Hoje deixo esta minha forma de dizer o quanto o cinema de Godard me exaltou e ainda exalta
o casamento
Não fui convidado para o casamento de Anna Karina com Jean-Luc Godard (JLG). Foi em Paris, Março de 1961 e, por esses dias, tão perto do ataque do 4 de Fevereiro em Luanda, saíamos em três ou quatro carrinhas do musseque, depois do jantar, para dormirmos no chão de uma casa na cidade branca, mulheres e crianças numa sala, os homens, noutra. Medo da noite tropical, sufocada de assobios, silvos e a percussão do batuque. Medo dos “turras”, sibilava-se, longe dos seis anos de idade dos meus ouvidos. Quem me contou do casamento de JLG, foi o cineasta Jacques Demy, na alta noite em que, no Bairro Alto, bebemos aguardente do mesmo cálice. Agnès Varda, a mulher dele e realizadora, fez as fotos. Karina estava linda, de uma beleza feliz. Caminha uns passos à frente de JLG, noiva, vestido branco sobre os joelhos, que lhe deixam livres as pernas que podiam ser de Brigitte Bardot, um véu diáfano a cair não mais do que sobre os ombros, uma alegria agradecida na perfeição comovente do rosto. A surpresa é que também JLG está bonito. Penteado, escanhoado, elegantes óculos escuros, sorriso sincero para a foto, um laço negro a ajustar-lhe a camisa branca ao pescoço, o conforto sem culpas de um bom fato burguês a acariciar-lhe o corpinho. O que aconteceu, e alguma coisa aconteceu, a este Godard, que ali vemos cheio de amor? E lembro que esse era o JLG que amava, como talvez mais ninguém tenha amado, o cinema americano. Quem, a não ser JLG, comparando-o a Tintoreto, revelaria em Hitchcock o mais germânico dos cineastas, grávido de temas dostoievskianos? De A Bout de Souffle a Le Mépris, passando por Une Femme est une Femme, Vivre sa Vie, Alphaville, os filmes de JLG estão cheios de um amor que, com genialidade exaltante, ele combina com iconoclastia, traição, redenção, lirismo, desespero. Até Weekend, porta dos anos Mao, mesmo se o amor de JLG e Karina era já um destroço, Godard era ainda um corpo que fazia parte de “o cinema”, até e sobretudo se uma inquieta insatisfação era o coração desse corpo. E no Maio de 68, JLG, o enfant terrible que tanto quis filmar na América, disse esta frase: “Cinquenta anos após a Revolução de Outubro, o cinema americano reina ainda sobre o cinema mundial.” E prometeu dois ou três Vietnames ao império de Hollywood. Em nome da “fascista” Revolução de Outubro, tragédia humana que engoliu milhões de seres humanos em fome, repressão, gulags? O que quero saber é para onde foi o amor de JLG, o amor a Anna, o amor ao cinema americano que ele transfigurou em emoção pura, rimbaudiana, em Pierrot le fou, o mais belo dos mais belos dos seus filmes. Nos anos Mao, anos Feddayn, anos Dziga Vertov, Godard pôs o cinema de serviço a causas. Nunca mais se livrou dessa armadilha. Sauve Qui Peut, Soigne ta Droite, Nouvelle Vague, Éloge de l’Amour, mesmo Je Vous Salue Marie, filme tocado de graça, são sinfonias imperfeitas, com acordes de genialidade e o surdo rumor do ressentimento de alguém obcecado com a solidão de uma luta que cultiva o fragmentário, o hermético e a desconstrução como forma de defesa. JLG obriga-se a estar contra. Como se não fosse também esse um modo de cativeiro, do que a invisibilidade de Film Socialisme faz prova. Na morte de Godard, a melancolia. Devo-lhe o esplendor de Pierrot le Fou, a audácia de, a vê-lo, no escuro do cinema, se me ter perdido a mão sob a saia larga (como se fosse a de Marianne?) da que seria e é minha mulher. Melancólico, sonho com os “filmes visíveis” que não quis fazer, a obra-prima de que privou o século XXI.
O JL-Jornal de Letras pediu-me uma espécie de autobiografia de editor: como é que eu me estatelei, livros abaixo, ao comprido, e o que me faz continuar a cirandar por esta orgia. Há acusados, julgamento e culpados. No fim, espero a vossa absolvição.
Tal como Manoel de Oliveira e Agustina diziam da alma, o livro é um vício. É triste, mas digo a verdade: foi a minha mãe que me meteu no vício. No musseque Sambizanga, em Luanda, aos meus cinco anos, de um livrinho religioso de capa dura, a Alice, minha querida e devota mãe, lia-me textos de elevação moral grávidos de emoção. É preciso ter já muitos calos no coração, como os que o macaco tem no escuso sítio que não nomearei, para não sermos sensíveis à beleza que há nestas palavras: «Ave Maria cheia de graça / O Senhor é convosco, / Bendita sois Vós entre as mulheres, / E bendito é o fruto do vosso ventre.» Isto é mais do que rezar, é juntar palavras numa harmonia e num ritmo que afagam os cabelinhos do sublime. E à Avé-Maria seguiam-se histórias edificantes de pescadores que enfrentavam noites de tempestade no breu do alto mar, ou a história de um inocente atirado para a prisão por um rei ímpio e cruel, ou ainda a de um mártir, que preferia perder a vida a renunciar à sua fé e ideais.
Um miúdo de cinco anos não resiste aos efeitos psicoactivos desta poderosa droga. As leituras da minha mãe, a forma como, na folha de papel, as palavras se combinavam e entravam em combustão, tudo isso gerava em mim um estado de euforia infantil, uma certa vasodilatação, a capacidade até de andar sobre as águas se me apetecesse andar sobre as águas. O livro foi, já se vê, a minha colher de heroína.
Na adolescência, esse estado de alucinada levitação foi reforçado pelo ramo de uma árvore. No quintal da minha casa havia mamoeiros, uma bananeira, um sape-sape, uma pitangueira, uns humildes e bravos jindungueiros, mas a figura nobre era uma mangueira robusta e silenciosa. Eu era então um ágil e saudável saguim, trepava pela mangueira, saltava de galho para galho, e sentava-me a ler na confluência do mais sólido ramo com o amplo tronco dessa sábia mangueira.
Lia uns três metros acima do chão, entre a folhagem verde e o amarelo avermelhado das mangas maduras. Tinha o sol e o céu de Angola como tecto e testemunha. Dos 10 aos 15 anos, eu vivi nessa mangueira as aventuras de cem vidas. Apaixonei-me, salvei donzelas em apuros, assaltei bancos, fui um índio Yaqui de Zane Grey, fui o famoso xerife Buck Jones.
Levante-se o culpado: João Bénard
E peço que, para se juntar à minha mãe, se levante o segundo culpado: João Bénard da Costa. Já em Lisboa, na Cinemateca, para cada ciclo de cinema fazíamos, desde 1980, um catálogo. Eu era um dos servos da gleba do João Bénard: aprendi a escrever e rever textos, a maquetá-los com um gráfico. Ainda não havia Apples e muito menos Adobe In Design. Juntavam-se textos e fotografias à mão e havia tesouras, papel e cola por todos os lados. Vinha depois o fim da linha de vício: entrar nas gráficas para cheirar tintas e lamber papel.
Lembro-me da primeira vez que pus o pé num desses antros. Eram oficinas gigantescas, do tempo da gloriosa revolução industrial, num dos edifícios do que hoje é a LX Factory. Fui com o João e a Rita Azevedo Gomes. Íamos imprimir o Alfred Hitchcock nas máquinas de rotogravura, uma técnica de impressão que permitia aplicar a tinta em quantidades diferentes, de acordo com a profundidade dada a células gravadas num cilindro de cobre e bronze de umas rotativas mais majestosas do que o rio Tejo. Estávamos nos anos 80 e, no fim, tínhamos na mão um livro que parecia ter chegado de 1930. Fiquei com muita vontade de fazer também aquilo. Quem é que não quer viajar de caleche no tempo?
O João deu-me, depois, carta branca – é certo que ele ou dava carta branca ou não dava carta nenhuma! Fui a Copenhaga e fiz com o artista plástico Carlos Nogueira o catálogo do Cinema Dinamarquês, com o místico Dreyer como protagonista. O que trabalhei com o tipógrafo Serrano, indefectível MRPP, e o meu amigo Luís Miguel Castro (que era, ó se era, il miglior fabbro), nos catálogos do Antonioni, do Coppola, do Cinema Soviético, que são dos livros mais bonitos em que pelo menos mais de um dedo meu por ali andou. Pequenina vaidade: todos os catálogos que fiz a solo estão esgotados e são peças de alfarrabista.
A culpa de duas velhas senhoras
Et pourtant eu não tinha ainda as cartas de nobreza (ups!) do editor. À minha mãe e ao João Bénard, junto agora, no banco dos réus, duas velhas senhoras, duas almas subversivas e incendiárias. Quem fez de mim editor, foram Mécia de Sena e Agustina Bessa Luís. Talvez tudo tenha começado em Santa Bárbara, na casa da Randolph Road, de Mécia. Ainda na Cinemateca, fui à Califórnia falar com Coppola e rever, com a «mulher de Jorge de Sena», como um dia orgulhosamente a ouvi dizer, um livrinho que reunia os textos dele sobre cinema. Mécia acolheu-me por uma semana. Empatia garantida, que ficaria para a vida, Mécia levou-me ao sanctum sanctorum: ali estavam os manuscritos e dactiloscritos de Sena. Mais: os inéditos, tantas cartas, as de Sophia de Mello Breyner Andresen, as fulminantes peças satíricas, as suas famosas e impublicáveis Dedicácias. Eu tinha visto e tocado o Graal.
Passaram os anos que se contam pelos dedos das mãos, quase a acabar o século XX, já eu levava sete anos de ganhar vida regalada e cosmopolita na SIC, deu-me o que Billy Wilder e Marilyn Monroe imortalizaram como o seven year itch. Uma comichão do caraças: o meu amigo Francisco Pinto Balsemão que me desculpe, mas a SIC já não me bastava. Viajava de Los Angeles ao Rio ou Hong-Kong e ao pequeno resort saudita e da máfia russa chamado Cannes, e até, das duas às seis da matina, programava cultura de alto lá com ela nas «Noites Longas da SIC». Mas queria mais.
Com dois amigos, como talvez nunca mais venha a ter, fundei a Três Sinais editores. Um lema: a mais pequena editora do mundo. Queríamos fazer livros que fossem também uma girândola dos sentidos: grande dimensão, formatos raros, papel que desse vontade de acariciar e beijar. Um livro e meio por ano era a forma de nos roçarmos pela felicidade. E se o primeiro veio directo dos tesouros de Mécia de Sena, o segundo nasceu de uma ousadia premiada. Talvez instigado pela Antónia, minha mulher e agustiniana obsessiva, desafiei Agustina a escrever sobre Paula Rego e desafiei Paula Rego a deixar-nos usar a sua pintura nesse livro, que eu imaginava como um orgíaco sabbath. Ó se foi.
Dedicácias e As Meninas são duas preciosidades, se me perdoam a arrogância, que é assumida. Capa cartonada revestida a pano, papel Pop Set de 170 gramas que, mate, aceitava muito bem a cor, reproduzindo com fidelidade as texturas das telas de Paula Rego, uma fidelidade de Gráfica de Coimbra, que o Padre Valentim e o meu amigo Gândara garantiam. Paginámos com liberdade e liberalidade, dando grandeza e soberba a pormenores, tanto aos da pintura, como mesmo a alguns dos mais inspirados ou chocantes aforismos com que o texto de Agustina nos deslumbrava ou sufocava — o que é que se há-de dizer quando, como ela escrevia, «as mulheres conspiram, inspeccionando a sua roupa de baixo».
Arrebatador foi ter «inventado» esse livro, As Meninas. Pensei que era isso ser editor: inventar livros. A culpa maior foi de Agustina. Não só aceitou o desafio como pediu mais. E eu reincidi. Pedi-lhe uma quase autobiografia, esse Livro de Agustina, que ela começou por chamar Retrato de Grupo. E, a seguir, voltei a desafiá-la para uma Bíblia em caixa de vidro, em que também escreveram João Miguel Fernandes Jorge, Jorge Sampaio, Manoel de Oliveira, João Bénard, Eduardo Lourenço, Vasco Graça Moura. A caixa de vidro (não era bem vidro, reconheço), veio da China.
Do hobby para a indústria
Da Três Sinais para a Guerra e Paz editores foi o salto do hobby para a indústria. Quando, em 2005, saí definitivamente da SIC, decidi que seria dono e senhor de mim mesmo: nem Deus, nem chefe para todo o sempre. Num clamoroso, mas delicioso erro, escolhi o livro, a edição deles, como quem julga que se vai sentar ao fim de tarde, flute de champanhe na mão, na mais radiosa pérgula do jardim.
Voltei a Agustina e a Mécia. Na sua casa do Gólgota, Agustina aceitou escrever 11 «óperas» de intriga, traição ou sedução da História de Portugal, num livro a que chamou Fama e Segredo. Mécia deu-me a correspondência de Sena e Sophia, publicação que Sophia, num jantar abençoou. Começava, assim, em 2006, a aventura da Guerra e Paz editores, que vai a caminho dos 17 anos. Fiz, com o Ilídio Vasco, meu designer ab ovo usque ad mala, livros em madeira, (e vão dois!), a única capa do mundo, para Fernando Pessoa, feita numa prancha de madeira sem cortes ou colagens, com a lombada trabalhada a laser, e fizemos a capa que, desdobrada, tem mais de um metro para O Físico Prodigioso, de Sena.
Veio, fatal como o destino, o acidente traumático. A insolvência de um distribuidor ia sendo o golpe de mata leão no pescoço da editora. Subtraído de um ano inteiro de facturação, levei anos a dormir na mesma cama com a dívida: é uma espécie de coabitação em regime de violência doméstica, com gritos, agressões, baba e ranho e não se sai do Purgatório. Mas não falhámos uma única obrigação e renascemos.
A Absolvição
Onde está, então, a viagem de caleche no tempo? A pérgula e o champanhe? Quero dizer aos culpados disto tudo, à minha mãe, ao Bénard, a Mécia e Agustina, três mulheres e um homem, que não só os absolvo, como lhes agradeço, ajoelho e rezo. Valeu a pena. Bastava ter publicado Agustina, Sena, Sophia, o último livrinho de Vasco Graça Moura, a Estrutura das Revoluções Científicas, de Kuhn, ou o Ouriço e a Raposa, de Berlin, como em breve O Crisântemo e a Espada, de Ruth Benedict, jovens poetas como Eugénia de Vasconcellos e João Moita, ou o veterano Eugénio Lisboa, o Longo Braço do Passado, de Rui de Azevedo Teixeira. Bastava que a Guerra e Paz fosse, como é, a mais angolana das editoras portuguesas, do que é prova a monumental Antologia da Poesia Angolana, cereja a mimar o bolo. Bastava-me o Assim Nasceu uma Língua do Fernando Venâncio e a luta contra o famigerado AO90.
Os últimos cinco anos da Guerra e Paz editores, colecções de livros vermelhos, amarelos, brancos e negros, os nossos clássicos, a entrada no romance contemporâneo, a criação de uma colecção de grandes ensaios como Os Livros Não se Rendem, restituem-me ao êxtase edificante da infância, ao adolescente ramo de mangueira, três metros acima do chão, três metros mais perto do céu.
Vou expor-me ao ridículo e jurar que a Vila Alice, meu bairro de Luanda, era afinal um bairro de Nova Iorque. Ficaria ali, encastrado entre o Soho e a Little Italy.
Pode parecer que o meu forte não é a geografia. Enganam-se. Pisei a Califórnia e foi logo como se respirasse de novo, por todos os poros e com narinas boca-de-sino, o ar start-up da Angola de 1973. O mundo é enorme, é maior do que as duas orelhas do Dumbo, mas por ser tão grande o mundo repete-se. Há um bocadinho de Alfama a subir para o Sacré Coeur e havia um bocadinho dos anos 50 de Bronx e Newark na Luanda dos anos 60.
Na Alberto Correia, a minha rua da Vila Alice, havia três mercearias. Mas só a mercearia do Senhor Manel, se pode gabar de ser o espelho borgesiano das mercearias do “Bronx Tale”, único e gentil filme de que Robert De Niro foi o realizador, ou dos romances abusivamente autobiográficos de Philip Roth.
Na mercearia do senhor Manel não se vendiam metáforas, mas havia duas portas de entrada de metonímica afinidade. A canónica, das horas legais, precedida por três degraus que podiam, se fosse mais devoto o continente, ser os degraus de uma capelinha setecentista. Fechava à hora de almoço e, se ainda me lembro, fechava outra vez quando o sol se punha. Fora de horas, entrava-se na mercearia por uma camuflada porta lateral que dava para o pátio, onde à noite o senhor Manel punha uma mesa guerreira para partidas de sueca que levantavam alaridos de Aljubarrota, não adivinhando ainda o trágico Kifangondo, que viria um dia. De uma tomada interna, o senhor Manel sacava uma puxada e era à luz de uma gambiarra que se batiam as cartas. Cruzavam-se Nocais e Cucas e nós, candengues, ouvíamos da boca dos mais velhos o que nem hoje nos atrevemos a repetir.
Podiam ser, se fossem sicilianos, mafiosos do Bronx. Estavam ali, de gordos ou ossudos rabos enfiados nas cadeiras, apostas sobre apostas, fumo a entrelaçar-se em fumo, até às quatro, cinco da matina. Um dia, um deles tentou pisgar-se às três da manhã. A perder, o velho Augusto lançou-lhe um labéu capaz de gelar os trópicos: “Parceiro da merda, joga duas partidinhas e dá de frosques.”
Era um quintal de filme, podia estar nas traseiras do “Rear Window”, de Hitchcock. Jogavam-se cartas como num “film noir” e colados aos cigarros, a um whisky com 7up, estavam Edward G. Robinson e Walter Brennan. Ria-se como se ria na prisão do “Rio Bravo”.
Era a vida, mas não era nenhum atraso de vida. Repetindo o ritmo de um quintal mafioso dos anos 50 de Nova Iorque, o pátio de mil suecadas de Luanda antecipou o que depois sacudiria a América. Os carros dos primeiros anos 60 eram as carrinhas Ford, uns Chevrolets e Plymouth, espadas americanos. Por pouco tempo. A luz da gambiarra da mercearia do senhor Manel iluminou, oscilante, a chegada do Simca do meu pai, do Triumph da bela Mimi, do Fiat de abertura pela frente do amável lixivieiro, do Alfa-Romeo do largo dos Cunhas, do Volkswagen preto do senhor Pinto, do Citroen e do BMW da família dos engenheiros. Se em Detroit estivessem atentos à Vila Alice, saberiam, em meados dos anos 60, que a indústria automóvel americana estava condenada.
Tudo o que os japoneses fizeram depois – a baratíssimos Hondas, Mazdas, Toyotas – foi só um golpe de misericórdia. O mundo mudou sim, mas à luz ténue da gambiarra do pátio da mercearia do senhor Manel. Na Vila Alice, esse bairro meio-judeu, meio-italiano, de Nova Iorque. Digo eu que, agora sei, de carregada nostalgia, que Alice doesn’t live here anymore. Nem voltará a viver.
A morte tem má reputação, uma cara taciturna, diz-se. Preconceituosos, continuamos a achar que a morte é a figura insidiosa que aparece sempre ao pé de camas de madeira escura. Porém, a morte, e olhem que não é só a morte moderna, tem também ironia, sentido de oportunidade, uma multifacetada vocação que tanto é trágica como cómica.
Eu tenho um amigo que é dono de uma funerária. Tem um sentido de humor subtil, leve, com a efervescência de uma flute de Moët & Chandot, isto só para não exagerarmos nos custos desta crónica. Esse meu amigo almoça, quase todas as semanas, com outros amigos, que nasceram na mesma terra. Um deles adoeceu com gravidade. Fez biópsias, tacs, ressonâncias, o diabo a quatro, que a morte é exigente. E marcou o que se temia ser o derradeiro almoço, logo a seguir à consulta com o médico que ia ver os exames. Diagnóstico no bolso e na alma, entrou no restaurante. Os sete amigos estavam tensos, uma angústia de quem sabe o que aí vem. “Então, António?” E ele, em pé, anuncia que nada é maligno, que há tratamento e que a morte já vai longe, corrida a pontapé. Erguem-se os seis amigos, gritam besteiras, que é a forma de nós, homens, exibirmos sem vergonha uma alegria parva. Só um deles, o meu amigo da funerária, continua sentado e acabrunhado. “Porra, Joaquim, não dizes nada!”, chateiam-no os outros. E ele: “Todos para aí a festejar a saúde do António, e eu? No pobre cangalheiro ninguém pensa!”
E do restaurante da Baixa lisboeta vou directo para Santa Barbara, a cidade que, na Califórnia, Mécia de Sena me deu a conhecer. E levou-me, com Maria de Lurdes Belchior, a conhecer os restos das missões espanholas, eu um menino mimado por aquelas duas senhoras, em pic-nics de ovos verdes e bolinhos de bacalhau. Nunca fomos foi ao Lobero Theatre. Mas foi lá, no Dia das Mentiras, em 1938, a estreia de uma peça de Clifford Odets, “Golden Boy”. Em plena representação, cai, fulminado, o actor Joseph Greenwald. Não vão acreditar, mas ele tinha acabado de dizer esta linha do diálogo, a sua última réplica: “Esperei por este momento toda a minha vida.”
Nos meus tempos da SIC, comprei vários shows de variedades ingleses, mas tenho agora de confessar a Francisco Balsemão que falhei este, de que vou falar. Os Variety Shows eram feitos ao vivo e para uma espectadora especial, a rainha de Inglaterra. Num dos shows, o mágico e cómico Tommy Cooper estava a fazer o seu número. Ao vivo, claro. Chamou a assistente. Ela entrou em cena. Tudo nela era exultante. O seio mais refulgente do que néon na noite escura, a perna longa como um relâmpago, e já vos poupo ao seu britânico backside. Tommy Cooper olhou para ela e caiu. Deixou-se cair, por ser esse o seu estilo, pensaram os espectadores e riram-se. Era uma sala incapaz de parar de rir. Mesmo a estremecida assistente ria com convicção. E Cooper não se levantava. O realizador, alarmado, foi para intervalo (lembram-se?). O que tombara Cooper fora um ataque cardíaco. Tentaram reanimá-lo, mas estava morto, o que o hospital confirmou.
Em Nova Iorque, só vi ópera uma vez, de Donizetti, “O Elixir de Amor”, numa passagem com o Emídio Rangel, que meteu polícias, reféns, hospitais. Mas em 1960, o barítono Leonard Warren cantou lá, no Met, a ária “Morrer, ó tremenda coisa” do “Don Carlo”. Tinha ele a ária nos lábios – Morir, tremenda cosa – e uma hemorragia cerebral calou-o para a eternidade.
Porventura desajeitada, mas vê-se que há na morte uma certa vontade de emprestar um toque artístico a cada uma das suas aparições. Volte sempre.
Tenho de fazer uma selfie com Marcelo. É indesculpável ser o único português que ainda não tem uma. Faço, para me treinar, uma com Henrique Cymerman e com os árabes, os israelitas e até o Papa, que deambulam pelo seu autobiográfico e perigoso Conversando com o Inimigo: do Porto a Abu Dhabi via Telavive, o nosso primeiro livro de Setembro. E vou, com João Céu e Silva, fazer selfies a Casablanca: Adeus, Casablanca é um belo romance de amor, com pirataria aérea, panfletos e ecos de Paul Bowles. Ficas bem na selfie, João!
António Botto Quintans faz selfies com todos os nossos velhos reis no seu cómico A Bienal da Tia Matilde: História de Portugal à la Carte II. Mas já Eugénio Lisboa se recusa a fazer a selfie com Putin: Poemas em Tempo de Guerra Suja é um vigoroso manifesto contra a invasão russa e a brutalidade de uma guerra que fere a Ucrânia e a Europa. Poesia de combate.
Bruno Vieira Amaral, sim. Em 50 selfies criou o Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa, um livro que rouba criadas estranguláveis e bons malandros, mulheres-anjo e mulheres-demónio aos autores que os inventaram. E a selfie que todos queremos fazer é com Manuel. É o filho do autor, João Gomes da Silva, que nos conta, em pouco mais de cem páginas, a história verídica do nascimento deste miúdo com trissomia 21: uma selfie com a vida.
As Minhas Causas é, pode dizer-se, a recolha de todas as selfies de Vitor Ramalho em favor da paz, em Moçambique ou Angola, testemunho de acções humanitárias, ponte entre a Europa e África. Faz pendant com outro belo livro, o Atlas Mundial da Água: Defender e Proteger o Nosso Bem Comum, selfie com os rios, lagos e oceanos desta nossa casa-mãe. Desta água é que todos deveríamos beber.
Bom, e fui fazer selfies com as criancinhas. Já se sabe o que acontece a quem dá corda a miúdos, saí de lá com esta cheirosa selfie: O Grande Livro dos Puns! É um guia ilustrado da Ciência, da História e da Arte de dar puns: só peidinhos e factos. Outro facto: cuidado com uma certa rapaziada, é o aviso de Rui Teixeira da Mota no seu O Elogio da Sabujice, uma visita a uma raça, o sabujo, a quem também se chama capacho, lambe‑botas ou lambe‑cus, graxista ou mesmo chupa‑pilas. Uma sátira, está claro.
Duas selfies com empresas e empreendedorismo. Luís Parreirão, em Empresas Familiares, Famílias Empresárias, Onde Está o Substantivo? faz uma bela e substantiva selfie bilingue e ilustrada às empresas familiares. Já José Eduardo Franco e Paulo Pereira da Silva fazem ousadas e irreverentes selfies com Jesus Cristo, no seu Cristo Empreendedor, combinando as parábolas e alegorias dos Evangelhos com a prática empresarial.
Quem fez uma selfie com o imperador chinês Kangxi foi um jesuíta português, vivendo com ele 36 anos na Cidade Proibida. É esse o objecto fascinante da selfie de Tereza Sena em Tomás Pereira e o Imperador Kangxi: Um Diálogo entre a China e o Ocidente. Grande selfie.
E foi na II Grande Guerra que a antropóloga americana Ruth Benedict fez uma prodigiosa selfie com um povo e uma nação, o Japão. Venham ver, está em O Crisântemo e a Espada: Padrões da Cultura Japonesa. É um ensaio cheio de beleza e mistério, que era uma ofensa não estar ainda em língua portuguesa. É a selfie que inaugura uma nova colecção da Guerra e Paz, Os Livros Não se Rendem (título tão feliz que a minha filha me deu – hei-de fazer uma selfie com ela!). Parceria com a Fundação Manuel António da Mota, prometo aos Livros Não se Rendem uma selfie especial depois da Feira do Livro.
Menti, claro, quando disse que nunca tinha feito uma selfie com o nosso amável presidente Marcelo. Já fiz duas ou três. Mas menti logo a abrir, para dizer depois a verdade e só a verdade sobre as 14 selfies de que aqui vos falei. Em 14 selfies, o retrato de Setembro da Guerra e Paz editores.
A foto é minha, começava eu a deslargar-me da esquina adolescente, que eu conto e canto nesta crónica despudoradamente nostálgica. (Para o Simão Sanches.)
A esquina foi a alma da minha adolescência. A esquina perfeita era a esquina da rua Alberto Correia com a Fernando Pessoa, na Vila Alice, na cidade de Luanda. Em cada esquina uma vivenda, menos nessa esquina do terreno baldio do velho Amado: só ruínas, restos de paredes da casa tombada no combate da vida, o esqueleto e os pneus furados de uma velha camioneta steinbeckiana em que os nossos calções tropicais se escondiam para fumar ou fingir que já conduziam.
E vejam o que habitava e se via da esquina do baldio que fora do velho Amado, acusado e preso por abuso de inocentes catorzinhas: vias-se um pescador que poderia ter sido um boémio do “Tortilla Flat”, há anos a pintar de azul o seu barco, e via-se o velho Austin preto, talvez do anos 40, do Ulisses, barbeiro auxiliar do senhor Mário, catedrático de cabelos e barba, meu amigo e mentor, o primeiro, nesses distantes anos de salazarismo, a dar-me a ler um Avante em papel Bíblia e uma revistinha couché de fotografias de dinamarquesas, enfermeiras, digamos assim, de irrepreensível saúde.
A essa esquina presidia a majestosa mulembeira, foi o que me jurou o meu amigo Simão Sanches, quando eu lhe disse que era um imbondeiro. Dos seus ramos dependuravam-se dezenas de silenciosos morcegos durante o dia. Mal tombava a noite logo os morcegos se largavam, como se largava o bando de adolescentes que nós éramos.
Ah, e o muro. A esquina era o muro que cercava esse baldio. Vínhamos e sentávamo-nos nesse muro, dez um dia, quinze no outro, e tanto assombrávamos a noite com o nosso riso de hienas, como a enternecíamos com as histórias e os sonhos dos nossos mansos corações de pombas.
Todo o cruzamento era armadilhado. Trazíamos carrinhos de linha preta subtraídos às caixas de costura maternas. À altura do pescoço atávamos a linha preta dos postes da electricidade e sinais de transito às árvores dos quintais. Quem passasse era apanhado, na semiobscuridade da noite luandina, por um, dois ou três fios. Pelo pescoço. Riamos e fugíamos, perseguidos pelos mais velhos irritados. Ainda gritávamos “ó careca”, se fosse o caso.
Trabalhávamos o dia seguinte: tirávamos, com uma chave de fendas, os velhos tampões das jantes dos carros, púnhamos lá dentro meia dúzia de pedrinhas burgau e voltávamos a fechar. No dia seguinte, quando os donos dos velhos Simca ou caquéticos Volkswagen arrancassem, às sete da matina, nessa cidade que despertava tão cedo, ah meu Deus, até estrilavam, num concerto stockenhausiano, que parava o trânsito e interrompia matabichos.
Por vezes, honrando o subtil legado dos mais-velhos de 20 anos, de partida para a tropa, o Simão, Abílio, Norberto, Leopoldo (ou Leopildo como sussurrávamos nas suas costas), levantávamos um carro e púnhamos tijolos que sustentavam as rodas a um centímetro do chão. O mais-velho dono entrava no carro, na manhã seguinte, sem dar por nada e quando dava à ignição as rodas ficavam a zunir no ar – uatobo! –, sem tocar no chão e o muadiê todo buelo e raivoso.
Essa era a esquina. Perfeita. Moraram nela, o vozeirão do Beto que arrancava da cama as famílias para o ouvirem cantar “receba as flores que lhe dou”; a temível estalada do Meno, só uma, one-shot como o imitaria, depois, o De Niro do “Caçador”; a suavidade do Cesarito e do Nelinho, que acabariam a pilotar Migs; o filosófico Lando; o Zé Victor dos grandes malhanços; o Da Guia de guitarra à José Feliciano; o sereno Sá.
Pobre da adolescência que não teve uma esquina e um muro. O Fellini de “I Vitelonni” grita-me, do cemitério, o seu risonho acordo.