No casamento de Godard

Quem me rouba o tempo, rouba-me tudo. Andei perdido durante duas semanas e já devo algumas crónicas a esta varanda onde venho conversar com os amigos. Hoje deixo esta minha forma de dizer o quanto o cinema de Godard me exaltou e ainda exalta

o casamento


Não fui convidado para o casamento de Anna Karina com Jean-Luc Godard (JLG). Foi em Paris, Março de 1961 e, por esses dias, tão perto do ataque do 4 de Fevereiro em Luanda, saíamos em três ou quatro carrinhas do musseque, depois do jantar, para dormirmos no chão de uma casa na cidade branca, mulheres e crianças numa sala, os homens, noutra. Medo da noite tropical, sufocada de assobios, silvos e a percussão do batuque. Medo dos “turras”, sibilava-se, longe dos seis anos de idade dos meus ouvidos.
Quem me contou do casamento de JLG, foi o cineasta Jacques Demy, na alta noite em que, no Bairro Alto, bebemos aguardente do mesmo cálice. Agnès Varda, a mulher dele e realizadora, fez as fotos. Karina estava linda, de uma beleza feliz. Caminha uns passos à frente de JLG, noiva, vestido branco sobre os joelhos, que lhe deixam livres as pernas que podiam ser de Brigitte Bardot, um véu diáfano a cair não mais do que sobre os ombros, uma alegria agradecida na perfeição comovente do rosto.
A surpresa é que também JLG está bonito. Penteado, escanhoado, elegantes óculos escuros, sorriso sincero para a foto, um laço negro a ajustar-lhe a camisa branca ao pescoço, o conforto sem culpas de um bom fato burguês a acariciar-lhe o corpinho.
O que aconteceu, e alguma coisa aconteceu, a este Godard, que ali vemos cheio de amor? E lembro que esse era o JLG que amava, como talvez mais ninguém tenha amado, o cinema americano. Quem, a não ser JLG, comparando-o a Tintoreto, revelaria em Hitchcock o mais germânico dos cineastas, grávido de temas dostoievskianos?
De A Bout de Souffle a Le Mépris, passando por Une Femme est une Femme, Vivre sa Vie, Alphaville, os filmes de JLG estão cheios de um amor que, com genialidade exaltante, ele combina com iconoclastia, traição, redenção, lirismo, desespero. Até Weekend, porta dos anos Mao, mesmo se o amor de JLG e Karina era já um destroço, Godard era ainda um corpo que fazia parte de “o cinema”, até e sobretudo se uma inquieta insatisfação era o coração desse corpo.
E no Maio de 68, JLG, o enfant terrible que tanto quis filmar na América, disse esta frase: “Cinquenta anos após a Revolução de Outubro, o cinema americano reina ainda sobre o cinema mundial.” E prometeu dois ou três Vietnames ao império de Hollywood. Em nome da “fascista” Revolução de Outubro, tragédia humana que engoliu milhões de seres humanos em fome, repressão, gulags?
O que quero saber é para onde foi o amor de JLG, o amor a Anna, o amor ao cinema americano que ele transfigurou em emoção pura, rimbaudiana, em Pierrot le fou, o mais belo dos mais belos dos seus filmes.
Nos anos Mao, anos Feddayn, anos Dziga Vertov, Godard pôs o cinema de serviço a causas. Nunca mais se livrou dessa armadilha. Sauve Qui Peut, Soigne ta Droite, Nouvelle Vague, Éloge de l’Amour, mesmo Je Vous Salue Marie, filme tocado de graça, são sinfonias imperfeitas, com acordes de genialidade e o surdo rumor do ressentimento de alguém obcecado com a solidão de uma luta que cultiva o fragmentário, o hermético e a desconstrução como forma de defesa. JLG obriga-se a estar contra. Como se não fosse também esse um modo de cativeiro, do que a invisibilidade de Film Socialisme faz prova.
Na morte de Godard, a melancolia. Devo-lhe o esplendor de Pierrot le Fou, a audácia de, a vê-lo, no escuro do cinema, se me ter perdido a mão sob a saia larga (como se fosse a de Marianne?) da que seria e é minha mulher. Melancólico, sonho com os “filmes visíveis” que não quis fazer, a obra-prima de que privou o século XXI.

Pierrot le fou

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