O amigo morto

Em Tróia. Pedro Bandeira Freire, em pé, o Luís de Pina de gravata. Também estão, a Antónia, de óculos escuros, ladeado por mim e pelo Zé Navarro. O Pedro está a tapar o Zé Matos-Cruz.

Uma coisa é o amigo vivo, outra coisa, o amigo morto. O amigo vivo está aí, mas mesmo que não esteja hoje, estará amanhã. O diabo é o amigo morto. Há quantos anos não ouço a alegria frívola do amigo morto? Pior, há quantos anos não grito ao amigo morto a minha própria alegria fútil?

Por falar em gritar, o meu amigo Manuel Cintra Ferreira, crítico de cinema no Expresso e no Público, meu companheiro na Cinemateca e na SIC, era surdíssimo, de uma surdez implacável, mas fina. Ouvia tudo o que eu lhe dizia, lendo-me as palavras nos lábios: elas ainda não tinham saído e já ele as tinha ouvido. Contou-me, se calhar num dos Natais em que ceou em minha casa, que no Verão Quente da revolução, os pê cês o queriam doutrinar, roubando-o à UDP a que se acomodara. Era em Campo de Ourique, e vinham à Tentadora, a querer revelar-lhe a vermelhíssima e soviética verdade. O Manel usava um aparelho. Mas à mesa da Tentadora, mal os via aparecer, desligava logo o “casa sonatone”. Acenando com a cabeça, viajava pelo seu mundo cinéfilo e mágico enquanto “eles” peroravam. Quando se iam embora, despedia-os com um “adeus, vou pensar, camaradas”. Ele, que não tinha feito outra coisa, perante aquelas cabeças falantes, sem som.

E do Luís de Pina, que saudades da alegria frívola desse director da Cinemateca. Lembro-me: tinha uma namorada descontraída e despreconceituosa, que, em vez do “até à próxima”, se despedia de nós, desengraçados intelectuais fundamentalistas, com um escandaloso e nortenho “até à próstata”.  O Luís era do Boavista e tinha um amigo fanático que ia até aos treinos. Um dia, num jogo da Taça, um jogador da 3.ª divisão marcou dois golos ao Boavista. Logo o contrataram. Era uma nulidade. Nos treinos, o amigo fanático corria na bancada atrás do jogador falhado, a gritar, “anda, monte, anda monte”. O jogador vinha defender, ele recuava também, “anda monte”. E tudo isto dito com sotaque do Porto, carago, até que outro boavisteiro, interpela o amigo do Luís: “Ó senhor, o homem tem nome. Agora, monte, monte! Monte de quê, senhor!” E o amigo do Luís: “Monte de merda, que é o que ele é.”

E saudades das altas calinadas do João Bénard. A um jantar, sentado à mesa no Papaçorda, à espera da Isabelle Hupert, julga tê-la visto entrar e vai para ela, sem ver que era a mulher de uma diplomata português, “Mais quelle honneur, Isabelle, soyez la bienvenu”. A senhora, portuguesíssima, responde-lhe: “Que disparate, João, o que é que lhe deu!”. E ele, sem desarmar e ainda a sonhar que ela era a Huppert: “Et en plus vous parlez portugais!”

E, sem me esquecer do António Escudeiro, do Alface e do Dinis Machado, lembro-os a todos nesta história do Pedro Bandeira Freire, que eu e o António Setúbal, de tanta falta ele nos fazer, continuamos a celebrar em jantar mensal. O Pedro estava em Cannes e guiava um carro tão descapotável como ele. Saía do estacionamento do Palácio do Festival. Não sabia era, nesse aventuroso tempo sem gps, por onde sair. E parou. Atrás dele outro carro. E o Pedro, a coçar a calvície, a pensar. O condutor de trás, apressado, furioso, grita-lhe em sonoro português: “Cabrão do careca, tira-me o calhambeque da frente!” O Pedro, com a seráfica calma de São Francisco, sai do carro, vai ter com o outro, e pondo aquele sorriso que lhe encheu a cama de amores, diz: “Amigo, cabrão, sim, de certeza; mas careca, eu?” O outro, desarmado, “O senhor desculpe, não sabia que era português, pensava que fosse o cabrão de um francês!”

Ah, a frívola alegria dos meus amigos mortos!

Publicado no Jornal de Negócios

A Guerra e Paz faz 17 anos

Uma editora para maiores de 17

Dia 10 de Abril. Hoje a Guerra e Paz editores faz 17 anos. Para mim, é uma idade tenra e, até, concupiscente: quando eu era miúdo, os filmes para maiores de 17 eram a porta de entrada para o quarto escuro das grandes ousadias, para esses filmes em que se via ou dizia o que até aí era suposto não vermos, nem dizermos, fosse pela índole sexual, fosse pela alusão política ou religiosa.

A Guerra e Paz editores não precisou de ter 17 anos para dar a ler e dizer, com total liberdade, tudo o que quis dar a ler, do divino Marquês de Sade a D. H. Lawrence e à sua «Lady Chatterley» ao «Manifesto Comunista», dos rebeldes Marx e Engels, e «Mein Kampf», do odioso Hitler, ou o pequenino e feroz livrinho do ditador Mao. Isto, só para falar de flores eróticas ou tragédias políticas.

Aos 17 anos, a Guerra e Paz editores é – e continuará a ser – uma editora livre para escolher o que quer publicar. E queremos publicar livros que sejam uma grande aventura intelectual: as Novas Edições de Jorge de Sena, ou o nosso primeiro Atlas português, o «Atlas Histórico da Escrita», de Marco Neves. Queremos publicar livros que não se rendam: agora Isaiah Berlin e Thomas S. Kuhn, amanhã a «História do Fascismo», do grande Emilio Gentile. Sim, privilegiamos a aventura e a emoção. O lema rimbaudiano das «Iluminações» que também vamos publicar – a ciência, a elegância, a violência – não é estranho aos nossos 17 anos.

Hoje, 10 de Abril de 2023, é dia de beijos e abraços:
para quem aqui trabalha, o Ilídio, Zé, Carla, Américo, Inês, Mário, Maria José e Rita;
para os meus sócios, António Parente e Pedro Nabinho Henriques, por acreditarem, e para o Abílio Nunes e António Palma, que é como se fossem sócios;
para os nossos excelsos autores, com estrondoso aplauso;
para os nossos tradutores, revisores e paginadores;
para o nosso distribuidor, a VASP e para as combativas e resistentes livrarias portuguesas;
para as gráficas com que trabalhamos, sempre a Publito, também a DPS e a ACD;
para antigos trabalhadores e antigos sócios, a quem também devemos o que hoje somos.

E acima de tudo para os nossos leitores. Sem os leitores, sem a curiosidade insaciável deles, sem os incansáveis olhos que devoram páginas e se exaltam, choram, riem, sonham a ler os nossos livros, nós não valíamos dez réis furados. Que os vossos olhos nunca se cansem, que a vossa sede de emoção e de conhecimento nunca vos largue. Obrigado pelo vosso amor à Guerra e Paz.

Manuel S. Fonseca, editor

A viúva e a sua mala

Era a viúva e a sua mala, no aeroporto de Lisboa. Eu, sentado ao lado dela, no autocarro que nos levaria até à escada do avião. “E depois?” me perguntou ela na sua doce sintaxe brasileira. Disse-lhe que teríamos de subir a escada do avião carregando as nossas malas de mão. “Moço – desabafou, então – as saudades que tenho de viajar com meu marido. Nunca peguei mala. Ele na frente, carregando saco e eu, viu, como borboleta, lhe seguindo, falando, rindo, saltando. Ai, a saudade desse marido.”

E já suspendo a comunicativa viúva brasileira, para lembrar, não o marido morto dela, mas o estudo recente da Universidade de Pádua: a viúva, quando o marido morre, é como se lhe tirassem um capacete sufocante e húmido de cima. A viúva tem muito menos stress do que a mulher casada. O risco de depressão tomba ali uns 23%. O viúvo, esse sim, sofre: um camião de medo de ficar sozinho e abandonado, sem a sua última cuidadora. Já a viúva, consciente de que há um bom naco de vida depois do marido, vê na morte do impotente um alívio: desaparece o risco de ter de o limpar como quem limpa o rabinho a meninos.

E nem sequer vou fazer a maldade de arriscar uma analogia, vá lá, uma analogiazinha com a famosa aranha, a viúva negra. Mas recordo que a “viúva negra” seduz o macho, faz com ele amor, se assim se pode dizer, e logo a seguir o come, ou seja, devora, numa sequência de “meet, fuck, eat” irrevogável e irreversível.

E volto à saudade nordestina da minha viúva brasileira. Evocava os anos que viveu com esse marido, e vinham pelo mundo, viajando, carregados de malas para visitar o filho que agora está no Porto vindo dos Estados Unidos, ou o outro que mora em Paris. E a viúva desdobrava o seu amor por esse homem potente, que lhe fazia filhos e carregava, como Hércules, todas as malas. Estávamos ali, no autocarro que nos levaria ao avião, e a minha viúva brasileira, essa tez de pele que dá a mistura dos genes brancos, pretos e índios, voz musical, no rosto uma carga de alegria e esperança bem com a vida, que a Universidade de Pádua agora detectou em todas as viúvas, e só me saía a lembrança silenciosa da personagem da actriz Manuela de Freitas, no “Passado e o Presente” de Manoel de Oliveira. Já se esqueceram? A personagem da Manuela, uma viúva profissional, só se apaixonava pelos maridos depois de eles morrerem, para desespero do vivo marido com quem estivesse casada.

Perguntei à viúva nordestina, se vinha em viagem de luto desse viúvo prestável, límpido carregador de malas. “Moço, há quanto tempo, esse marido já morreu!” Demorou uns segundos e retomou: “Quem morreu, faz uma semana, foi meu segundo marido.” Eu ouvi e, meu Deus, agora que faço? Dou os pêsames? Já a minha viúva, com seu travo de samba baiano, se ria. Ri junto. “Como o moço se chama?” E eu disse, “Manuel como todo o português”. E ela: “Manuel, agora veja, esse segundo marido estava ao meu lado, levou a mão ao peito e tombou sem um pio.” E logo a viúva destressada abre o telemóvel e mostra a fotografia: “Veja, era esse negão, 34 anos, um cara a exalar saúde; eu com 60 e me morre nos braços.” E continuou a rir, como bem manda o estudo da Universidade de Pádua. “Ao seu lado?” remoí eu. “Manuel, seria muito pior se fosse ao lado de outra, né?!”

Com aquela sufocada timidez que qualquer Manuel tem ao lado de uma eufórica viúva brasileira, sacudi o macambúzio portuga que dorme em mim. Disse-lhe: “Em homenagem a seus viúvos, eu carrego sua mala na escada do avião, mas a senhora jura que não me pede em casamento.”

Publicado no Jornal de Negócios

com um pratinho de tteokbokki lê-se muito melhor

Os meus livros de Abril
Quero a revolução, mas também quero comer tteokbokki

Quantas, quantas revoluções é que já Abril abriu? Festa della liberazione para os italianos desde o fim da II Guerra Mundial, como já fora o mês das Teses de Lenine, em 1917, Abril é o mês que dá nome à revolução sul-coreana de 1960 (a 4.19 혁명), e foi, em 1974, o berço da nossa Revolução dos Cravos. E eu quero, e já vos convido para comerem comigo, um prato de tteokbokki. Adiante.

E aqui estamos, no mais cruel dos meses, como num verso, o primeiro de The Waste Land, lhe chamou o conservadoríssimo T. S. Eliot, aqui estamos com os livros de Abril na mão. O primeiro, da autoria de Zélia Oliveira e de José Matos, explica-se com transparência e ambição no título. Em Rumo à Revolução: Os Meses Finais do Estado Novo, vamos voltar a ver, agora com pormenor, rigor e drama q.b., a demissão de Costa Gomes e Spínola, o livro Portugal e o Futuro, e os quartéis em brando aquecimento com aquele fogo que arde e não se vê. Eis o rumor de fundo que já atroava aos ouvidos de Marcello com dois ll, eis as Caldas que se erguem para logo murchar.

E vejam o mais cruel dos livros, O Príncipe, de Maquiavel. Como não se pode deixar esse implacável e nobilíssimo livro sozinho, juntámos-lhe um dos mais belos ensaios político-filosóficos de Jorge de Sena, Maquiavel de seu nome: dois livros num só, contra todas as formas de tirania, o Sena e Maquiavel que a Guerra e Paz juntou.

De uma tirania que sucumbiu ao peso do sangue, suor e lágrimas dos combatentes da liberdade fala-nos um investigador do Porto, Henrique Varajidás, que escreveu A Vertigem Nazi: Fins e Meios no Regime de Hitler. A excelente capa do Ilídio Vasco faz justiça a uma tese invulgar, que começa nesta pergunta: que relações estabeleceram os nazis com as elites e com as massas alemãs?

E respiro. Respiro eu e respiram as páginas com a leveza de versos que se podem ler à janela ou à beira-mar. De Filipa da Rocha Nunes, um livro de estreia poética, couro fresco, dividido em dez partes que vão de «norte» a «vermelho», passando por «céu» e «terra». De Dinu Flamand, o poeta romeno que António Lobo Antunes tanto ama por tanto o Dinu amar Portugal, publico Cadeira à Janela, que leva na capa uma ilustração de Amadeo, e que tem por subtítulo «Lisboa, Diário da Quarentena». E já a seguir, já a seguir, o pratinho de tteokbokki

Nem Balzac, nem Kafka comeram algum dia tteokbokki. Desculpem a fácil ironia, mas nenhum livro de Kafka é mais divertido, por absurdo e surreal, do que o romance Amérika, e talvez em nenhum livro Balzac se tenha aproximado mais de Portugal do que em Ferragus: Chefe dos Devoradores (a não ser em O Pai Goriot?). Dois clássicos, Kafka na colecção Admirável Mundo do Romance, Balzac nos nossos Clássicos Guerra e Paz. Mais clássico só o tteokbokki na Coreia.

Contemporâneo é o romance de Domingos Lopes, Sequei e Morri Sem Ter Sentido Que Morri. É um torrencial monólogo de uma mulher portuguesa comunista, que se revê sem filtros no Partido. Que vertigem a assalta, ainda bela, atraente, rejeitando o sexo? Quem quer sexo é Min, a protagonista de O Fedorento, romance de Rosemary Tonks, falecida há poucos anos, e que os leitores ingleses redescobriram agora, prestando-lhe o estranho culto que é lê-la muito, lê-la toda.

Para ler devagar e bem estudar é a biografia de João Dotti, gestor na FISIPE e na CUF, obra escrita por Myriam Gaspar, que integra as Histórias de Liderança, uma colecção em parceria com a Fundação Amélia de Mello, com o apoio da Nova School of Business and Economics.

E está já ali o prato de tteokbokki. É só passarmos por um livro incomensurável. Thomas S. Kuhn, o autor do tão belo A Estrutura das Revoluções Científicas, morreu há quase 27 anos. Deixou um livro só agora publicado. Chamaram-lhe The Last Writings, mas eu, que gosto de títulos quilométricos, preferi o título que Kuhn escolhera: A Pluralidade dos Mundos: Para Uma Teoria Evolucionista do Desenvolvimento Científico, um livro de ciência e de filosofia. Lição de Kuhn, que nos convida a aprender a «traduzir»: é muito difícil imaginar a vida mental dos outros e muito fácil perder-se a verdade na passagem de uma mente para a outra. É uma jóia da colecção Os Livros Não se Rendem, parceria da Guerra & Paz com a Fundação Manuel António da Mota e com a Mota Gestão & Participações.

E agora sim, tragam os pauzinhos. Está aqui o prato coreano que vos prometi. Chama-se Quero Morrer, mas Também Quero Comer Tteokbokki. É um romance? É! Não é um romance? Não, não é! Ficção e realidade, este livro tem uma autora, Baek Sehee. Deprimida, insegura, fechada sobre si mesma, a autora quis ir ao psiquiatra. As conversas com o psiquiatra, os apontamentos no seu diário, iluminam este Quero Morrer. Tanto que, num T0, debaixo da manta, tal como a autora, de repente o que queremos é Comer Tteokbokki. Ui, que fome. E que prazer de ler. É Abril, o mais cruel dos meses…

Manuel S. Fonseca, editor

Cheira a Glorioso

A palavra “glorioso” aplicada ao SLB – sim, quando alguém diz “o Glorioso!” – não é qualificativo hiperbólico, mas sim uma forma humilde e escassa de nomear a realidade. Não me espanta que um pai ou uma mãe tenham orgulho de levar ao colo o seu filho ao Estádio da Luz, tal como Maria e José apresentaram Jesus, ainda menino, aos sábios do Templo.

O Glorioso acabara de ganhar, por 5 a 3 ao Real Madrid, a segunda Taça dos Campeões Europeus. Eu vivia em Luanda e soube que o Benfica viria visitar-nos. O meu pai prometeu levar-me ao Estádio dos Coqueiros. O Benfica veio e lá fomos para o peão, então pouco mais do que um aterro. Ia ver o jogo aos ombros do Artur, meu pai, se queria ver alguma coisa, mas a alma benfiquista comoveu-se: os espectadores clamaram – o miúdo tem de ver o jogo com dignidade! –  e, de mão em mão, sentaram-me no alto muro do estádio, com vista ampla para o pelado. A nação benfiquista de Angola, pegando em mim ao colo, pôs-me num trono, de onde vi, pela primeira vez, Eusébio, Coluna, Simões, a ganharem, por 5 a 3, como se Luanda fosse Amesterdão, à selecção local.

O meu primeiro Benfica, entrou-me pelos olhos de menino – e nesses olhos ficará para sempre. Ora, poucos anos depois, de novo em Luanda, o Glorioso entrou-me já digo por onde. Eusébio tinha posto a Inglaterra a seus pés, naquele Mundial de que tanto me lembro dos seus golos como dessa lágrima de guerreiro que ele enxugou com a camisola de Portugal, no final do injusto jogo com Inglaterra, o mais injusto dos jogos injustos. Eu vira tudo, em filme, no cinema Império, mas agora ia poder vê-lo, a ele, a Coluna, Torres, José Augusto e Simões, no velho estádio dos Coqueiros.

O mais velho Abílio, meu melhor amigo lá do bairro, tra­ba­lhava na DTA, a com­pa­nhia de avi­a­ção de Angola, a quem cabia dirigir o aeroporto. Spor­tin­guista embora, o meu amigo era de uma gene­ro­si­dade cristã, e disse-me: “Vem comigo e vamos espe­rar os teus joga­do­res à pista.” Fomos.

Saía-se do avião, não havia cá man­gas a não ser as da camisa, e caminhava-se pelo asfalto até à gare, que era mesmo ali a 100 metros. O avião ater­rou, puse­ram a escada e eles des­ce­ram, eram para aí umas 8 da noite, já Luanda tinha jan­tado.

O senhor Otto Gló­ria e o senhor Coluna, o imenso Mário Coluna, vinham à frente. E logo a seguir, o senhor José Augusto, o senhor Simões e o senhor Eusébio. Eram todos senhores, de uma ele­gân­cia irrepreensível. Os joga­do­res, esses joga­do­res do Ben­fica, vestiam-se bem. Fatos ele­gan­tes, gra­va­tas ali­nha­das. Um bálsamo que dava asas à imaginação do olho humano.

E, no entanto, eis o que me deixou siderado: quando a porta do avião se abriu e eles começaram a descer, uma onda de perfume inundou a minha pituitária. O Benfica cheirava bem, aroma divino, e entrava-me pelo nariz.

Otto Gló­ria e Coluna des­ciam das esca­das e com eles avan­çava um fra­grân­cia que refres­cava o capa­cete da húmida noite tro­pi­cal. Eu não sei se era a Eau Sau­vage da Dior ou se era a coló­nia da Avon, perfumes desse tempo. Eu inalei: chei­rava a Benfica. Aqueles jogadores tinham o que, na altura era o melhor que se podia dizer de um homem, tinham cate­go­ria. Encheram de per­fume a noite afri­cana de um miúdo que tinha a mania que era hip­pie e que queria um mundo melhor.  Os meus mitos de saco-cama, sema­nas sem banho e muito cheiro a cavalo sofre­ram, à escada de um avião, o mais vigo­roso des­men­tido. O mundo melhor, o melhor dos mun­dos, podia ser sau­vage, podia ser flo­ral, mas tinha de chei­rar bem. Lição do Glorioso. Lição de classe.

Publicado gloriosamente no Jornal de Negócios

Que lindo está o Sena

Bom dia. Venham.

Não sei se vai ser polémico, não sei se terminaremos todos nos braços uns dos outros, mas sei que a apresentação e debate das NOVAS EDIÇÕES DE JORGE DE SENA vai ter anjos e demónios, revelações miraculosas, duas ou três alusões impuras e um erótico rumor de fundo.
É a grande literatura a encher a sala do Grémio Literário. Às 18:30, 3.ª feira, dia 28 de Março
Venham, se faz favor:
Eugénio Lisboa, Margarida Braga Neves e António Carlos Cortez esperam-vos. Jorge de Sena, também.

ps – e que lindas estão as capas do Sena.

João Bénard, cavalo à solta

Ah, se um dia a brigada juvenil do reumático woke põe os olhinhos naquilo, o João está bem tramado. O João é o João Bénard da Costa e aquilo são os milhares de textos que ele publicou em vida, e que a Cinemateca reuniu. Vão já no volume 5, que me convidaram a apresentar. Reli tudo com devoção canina e logo farejei transgressão, subversão e iconoclastia.

Leiam o Bénard. Está ele a falar de “Lusty Men”, e do protagonista, Robert Mitchum, cavaleiro em rodeos, domador de cavalos, e cito: “Tenho estado a falar de cavalos e cavaleiros. Mas inevitavelmente, a comparação entre cavalos e mulheres surge muitas vezes ao longo da obra e Susan Hayward não é, certamente, a mais fácil das montadas que Mitchum encontrou na vida fora.”

A prosa do João não é domável. Salta, escoiceia, dá pinotes e parte, por vezes, a louça toda. Vejam, houve um dia em que fomos à Embaixada de Itália, recepção em honra de Antonioni, com Manoel de Oliveira a acompanhar.

E já me engano que a história começou antes, quando Antonioni se espantou com uma colecção que Luís de Pina, director da Cinemateca, fazia: coleccionava miniaturas de sanitas e bacios. Também Antonioni gostava de penicos. O João lembrou-se de um, autêntico, uma preciosidade do Palácio da Pena, em Sintra. De louça portuguesa, a rainha Dona Amélia guardava-o onde ainda hoje está, debaixo da cama. Partimos em romaria turística.

A visita, porém, era de lotação limitada. Só deu para o João, o Antonioni e a minha mulher entrarem. Ficou o Luís de Pina cá fora, a cigarrear, e eu a fazer-lhe companhia. O pior é que a visita era à porta fechada: mal fecham as portas, o Antonioni, claustrofóbico, por ter vivido meio clandestino num quarto, no final da II Guerra, solta um grito e procura uma saída. Aparece-nos, a mim e ao director Pina, de uma alta janela, logo seguido pela minha mulher. O Luís e eu apanhámo-los pelas pernas e ajudámo-los a descer.

Ora, está o Bénard a contar tudo isto ao Embaixador, com a sua transbordante verve, quando um dos braços dele, ganhando a autonomia de um cavalo do Robert Mitchum, se larga e estilhaça uma cristaleira divina. Ninguém se magoa, toda a gente se ri e foi uma noite de prazer, com Manoel de Oliveira a contar anedotas de alentejanos e Antonioni a contar barzelletti de carabineiros. Tudo coisinhas deliciosas e atrozes que fariam, hoje, desmaiar a brigada woke.

Mas o que interessa é que, no ano seguinte, o Bénard volta ao lugar do crime. E está, agora, a contar à plateia encantada toda a história e como o braço dele deu a volta e espatifou a bela cristaleira. A plateia está delirante e o braço do Bénard também: roda no ar e, com a exacta memória do que tinha feito no ano anterior, catrapum-zás-trás, arrebenta, estoira, estrancilha de novo a bela cristaleira italiana.

Voltou o Bénard à Embaixada de Itália? Voltou, mas dois adidos, o cultural e o comercial, ladearam-no, vigiando rigorosamente a distância dele ao mobiliário, oferecendo o corpo a gestos mais largos e destravados, que a Embaixada de Itália não é propriamente a arena de um rodeo americano.

E ainda me lembro de ter almoçado com o João e a Claudia Cardinale. No fim do almoço, ala para o aeroporto, que a Cardinale estava à justa para o avião. No aeroporto, a Cardinale descobre que perdeu o bilhete. No balcão, o João pede atenção especial à térrea hospedeira e diz-lhe: “É uma VIP. É a Cardinale.” E logo, a prestável e informadíssima menina: “A Cardinale? A do circo?”

Não se riam, a menina tinha razão: ou alguém acha que a Cardinale não era uma fera?!

Publicado no Jornal de Negócios