Livros Negros, três perguntas, três respostas

A revista online Novos Livros, editada por J.A. Nunes Carneiro, quis saber que colecção é a colecção “Livros Negros”. Perguntou e eu respondi.

1-Qual a ideia que está na base da criação desta colecção «Livros Negros»?
R- Aflorar os limites, é essa a ideia. Nas artes, e a literatura nunca quis fugir dessa tentação, houve sempre um impulso para a vertigem, uma busca dos abismos humanos, dos montes dos vendavais da psicologia humana, do sexo, mesmo da blasfémia. Os Torquemadas de todos os tempos – e hoje voltou a havê-los em abundância – também sempre quiseram purificar, pelo fogo ou pelo esquecimento, essas aventuras estéticas. Aos totalitarismos, de direita e de esquerda, religiosos ou seculares, padres e polícias, salta-lhes o pipi por e para queimar livros. Querem proibi-los, purificá-los pelo fogo ou pelo esquecimento. Esta colecção, Livros Negros da Guerra e Paz, é um pequeno movimento para se opor à fogueira, para resgatar do esquecimento.

2-São livros fortes e que podem, talvez, ser considerados “politicamente incorrectos” nos tempos que correm: está a valer a pena arriscar e provocar?
R- Pertencer ao lado bom da criação, dar ou prolongar existência, reavivar a memória e o gosto, vale sempre a pena. A receptividade de que o Benefícios de Dar Peidos, de Jonathan Swift, foi alvo, soube ao editor tão bem quanto um queijo da Serra autêntico. Foi uma recepção cheirosa, de sabores fortes. O editor, tradutor e apresentador do Manual de Civilidade para Meninas, de Pierre-Félix Loüys, que está a entrar nas livrarias, espera agora que as instituições que cuidam de etiqueta e de boas maneiras, prezem também e se louvem neste segundo título dos nossos Livros Negros. A sobriedade e elegância que o designer da Guerra e Paz, o Ilídio Vasco, quis emprestar à colecção, seduz muito, convenhamos. Quem não quer levar para a cama, ou para uma espreguiçadeira numa tarde de Verão, livros tão insinuantes como estes.

3-Depois de Pierre-Félix Louys e de Jonathan Swift, que autores e obras poderemos encontrar no futuro nesta colecção?
R- Tinha prometido a mim mesmo não revelar um átimo que fosse do que aí vem. Mas também é verdade que eu sou um espírito facilmente corruptível: não resisto à primeira pergunta. Não digo tudo, mas prometo um pequeno texto de Oscar Wilde, figura que também não resistia a qualquer pergunta que lhe fizessem. É um texto que talvez tenha sido chocante no seu tempo, mas que é hoje, desarmante e comovente. E é irresistível a ideia de ter um bom leitor em lágrimas com um interrogatório a roçar o pidesco. Outro título dos Livros Negros há de ser da autoria de Mark Twain. Um livro de verrina, cínico até à quinta casa, inclemente na exposição do criminoso que foi o rei Leopoldo dos belgas, senhor da devastação e do apocalipse dos africanos do Congo.

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