O meu primeiro Borges

o primeiro Borges

Se não tinha 18, não teria mais de 19 anos, e dançava nas minhas mãos o livro cuja capa está ali em cima. Foi o primeiro Borges, convertido, do esplendor imperial da língua espanhola, por outro poeta, Ruy Belo, à marinheira língua portuguesa. Amei este livro como se acaricia um gato ou se ama outra pessoa.

Souberam-no os árduos alunos de Pitágoras era o primeiro verso do livro, o primeiro do poema a que Jorge Luis chamou A Noite Cíclica, dedicando-o a uma mulher, Sylvina Bullrich, aristocrata, lindíssima e escritora de bestsellers, sei-o hoje. Mas quem dedicava assim a uma mulher um poema, que logo no primeiro tão estranho verso se enchia de árduos alunos? Soube depois, na árdua forma de conhecer que então havia, que este era um livro pessoalíssimo, antologia escolhida pelo próprio, e era o livro de um poeta cego.

Este livro, cujo segundo poema, guerreiro, se intitula Página à memória do Coronel Suárez, vencedor em Junin, (Que importam as penúrias, o desterro / a humilhação de envelhecer, a sombra crescente / do ditador sobre a pátria, a casa de Buenos Aires…) acompanhou, fidelíssimo, as minha penúrias e os meus desterros, De Luanda para Lisboa, de Lisboa para Luanda, de Luanda para o Huambo, do Huambo para o Lobito, do Lobito para Luanda. Por fim, e sou capaz de jurar que sim, sei que o trouxe quando definitivamente regressei a Lisboa, a capital do já tão pequeno Portugal.

Mas tê-lo-ei, de facto, trazido, se eram tantas e são-no ainda mais hoje as dúvidas sobre o que é ou não é definitivo? O que, aliás, aprendi na mais bela quadra que Borges nesse livro escreveu:

Olhar o rio que é de tempo e água
E recordar que o tempo é outro rio
Saber que nos perdemos como o rio
E que os rostos passam como a água.

Talvez o tenha deixado ao Jorge Sá, meu kamba, que nem água nem rio fez jamais sair de Luanda! Talvez o tenha emprestado a quem o tenha guardado no dormido sono que é a morte dos livros. Que interessa! Tive, depois, e tenho, hoje, as Obras Completas de Borges em espanhol, em português, também. O esplendor dourado desses volumes nunca me fez esquecer a mágoa de não ter a dançar nas mãos a pobreza singela, mas imortal, deste pequeno livro, o número 20 dos cadernos de poesia das publicações dom quixote, colecção de que o número 19 era a Vocação Animal de Herberto Helder, que ainda hoje guardo.

Não quero já falar dos incertos factos. A mágoa de ter perdido este livro, que amava como se acariciasse um gato ou como quem ama outra pessoa, inscreveu-se-me, patética, literária, na pele e nas minuciosas rugas do rosto.

Há quatro anos, porque o tempo é outro rio, o Ilídio Vasco, para comemorar um aniversário da Guerra e Paz editores, onde comigo trabalha, foi resgatar, ao tempo e ao rio e provavelmente a um alfarrabista, estes Poemas Escolhidos, este livrinho tão modesto como eterno.

É a prenda mais bonita que um amigo me podia dar. Por mais que os rostos passem como a água, é cristalina que vejo a água do rosto do meu amigo Ilídio. Como um rio, dançou das mãos dele para as minhas, tão agradecidas, um livro.

Voltou a ser meu o meu primeiro livrinho de Jorge Luis Borges. Tão simples, tão velho, tão denso como o poema que o encerra e me ensinou o que são limites:

Há uma linha de Verlaine que não mais recordarei,
Há uma rua próxima vedada aos meus passos,
Há um espelho que me viu pela última vez,
Há uma porta que eu fechei até ao fim do mundo.
Entre os livros da minha biblioteca (estou a vê-los)
Algum existirá que já não abrirei.
Este verão farei cinquenta anos;
A morte, incessantemente, vai-me desgastando.

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