O grande educador

quando se vira já está sem óculos…

Em “The Big Sleep”, quando Bogart sai de uma livraria, atravessa a rua e se refugia na livraria em frente, toda a cena é só alusão e vénia a Stanley Rose, fundador das duas. Uma antes, outra depois de ser preso por piratear uma antologia de humor escatológico. Da segunda, vituperava os sócios, pelos quais, generoso, se ofereceu à prisão, e que depois o traíram, deixando-o no cárcere e ficando-lhe com a quota da livraria primordial.

Na segunda livraria, invocando a procura de edições tão raras que nem existem, Bogart encontra a mais doce e lábil das livreiras. Deus terá criado muita coisa, mas essa cena, em que a livreira corre um estore, solta os cabelos e quando se vira já está sem óculos, cabelos em cascata, fazendo Bogart tirar do bolso uma firme garrafa de bourbon, essa cena, dizia, criou a atracção gravitacional dos corpos, a sedução e a plenitude do sexo. E Deus nem foi para ali chamado, que o estore estava bem corrido. Uma coisa é certa: antes, o sexo não existia e estou para saber como se terá a humanidade reproduzido nos séculos pretéritos.

Todavia, o que me interessa nessa cena é a garrafa de bourbon. Chandler, que escreveu “The Big Sleep”, Faulkner no argumento, Hawks na realização, mentiram. A garrafa de bourbon não se bebia na livraria do choque afrodisíaco. Foi na outra, na primeira a que Bogart vai, que Stanley Rose inventou o back-room.

A garrafa de bourbon era o sacrário dessa sala das traseiras: à volta dela ouviam-se actos de contricção, hossanas e porventura uma salve-rainha. Eram líricas e líquidas orações masculinas. Tanto saíam da boca de Nathanel West, Steinbeck, William Saroyan, como de Dashiell Hammett, ou dos campeões do mutismo que eram Faulkner e Scott Fitzgerald ou da gárrula boca inglesa de Aldous Huxley. Aos escritores juntavam-se actores, Edward G. Robinson, os Barrymore, Marlene Dietrich e Marion Davies. O surrealismo pôs ali um pé e multiplicaram-se olhos para ver exposições de Matisse, Chagall, Klee, Braque, Picasso e Miró.

Sem fronteiras entre filmes, livros e pintura, Hollywood era culta e Stanley Rose o grande educador. Dava livros e esquecia-se de os cobrar. Corre que nunca leu ele mesmo um livro, mas levava os leitores à caça e aos bordéis mais bizarros. Morreu novo. Saroyan, último amigo, jura que foi de “copos, putas e solidão”.

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