Sean Connery

Bond, James Bond

Com Sean Connery morre um tipo de homem que os pais e as mães estão proibidos, agora, de dar à luz. E antes de ir ali e voltar quero corrigir: eu só vi, de relance, o escocês Sean Connery, uma vez, em Lagos, ia ele a subir uma rua que a Antónia e eu vínhamos a descer. Não é desse fugaz cidadão que estou a falar, turístico e quase de chinelo. Estou a falar do actor escocês, de irrepreensível peruca, penteadíssima e negra, que pedia dry martinis «shaken not stirred», anónimo, mas nada anódino, que em seis filmes, de Dr. No a Diamonds are forever, se apresentava com a inabalável confiança dos predestinados: «my name is Bond, James Bond».

Bond era o homem na plena confiança de ser homem. Seguro, por seguro estar de ser o seu lado o lado do bem. Sem dúvidas existenciais sobre o seu mundo, por ter a certeza de o seu mundo ser o mundo bom e justo.

O resto, a agilidade, a serena e bem medida coragem física, a inteligência fina e disruptiva, a confiança progressista na tecnologia e nos artefactos, esse misto de Ulisses e Aquiles sem cóleras, esse «resto», comecei a dizer quando este parágrafo era só uma criança, era só a sua forma genuína de ser, por que outra coisa pode, se não for isso, ser um homem? E pode. Um homem pode ser mais do que isso: ele, Bond, James Bond, era também estarrecedoramente sedutor, um lago de nenúfares sobre a qual as mulheres pairavam como libelinhas, atraídas pelo ligeiro trejeito de lábios, pela cintilação de um dos seus olhos (qual?), pelo seu humor de benigna altivez.  

Há uma palavra, só uma, que resume as 114 palavras que usei para o tentar explicar no parágrafo anterior: Ora vejam: masculinidade. Sean Connery exsudava masculinidade. Mesmo quando regressou, mais Bond do que nunca, pela mão de Steven Spielberg em Indiana Jones e a Última Cruzada, a chamar Júnior a Harrison Ford, que ficará para a eternidade como seu filho, era ainda, nos seus sessenta anos, essa masculinidade que lhe perfumava o chapéu, casaco e calças anti-nazis.

Morreu, agora, no mundo do não-desejo, o homem que era a casa a que se acolhia ou vinha aninhar o desejo. O desejo e a aventura. Bond, James Bond.

6 thoughts on “Sean Connery”

  1. Concordo com o texto, ficou imortalizado como James Bond, mas também fez Marnie, O Nome da Rosa, Os Intocáveis, etc.

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