Livros que queremos oferecer

Diz-me o editor da Guerra e Paz que eu devo oferecer estes livros. A quem gosto, sublinha ele. Por acaso – mas só por acaso – não acho mal pensado e passo a palavra.

É que nem lhe vou falar de Natal. E como estou na dúvida, se devo falar de amor ou se devo falar de amizade, deixe-me falar de afinidades electivas, essa relação que temos, na fímbria do amor e no coração da amizade, com aquelas pessoas com quem queremos falar horas, mas com quem poderíamos estar, em silêncio, uma tarde inteira, tanta é a proximidade ou a harmonia que essa proximidade nos traz.

É com essas pessoas, com essas afinidades electivas que queremos partilhar sentimentos e emoções. Deixe-me, como editor da Guerra e Paz, sugerir-lhe que ofereça livros, e que esses livros sejam livros com sentido e gosto estético, livros que irradiam harmonia e equilíbrio.

Tem sido essa uma das linhas editoriais da Guerra e Paz: fazer livros que apelem, desde o primeiro toque, pela capa, pelo papel, pela combinação de texto e imagem, à alegria, à emoção, fazendo-nos sentir melhores.

Porque são muito bonitos, porque têm textos belíssimos, ofereça estes livros. Temos até uma hierarquia. Ora veja:

Se quer impressionar, arrancar uma exclamação, escolha a originalidade visual em meia caixa de madeira e a dimensão da edição em cinco línguas da Tabacaria, com uma colecção de fotografias contemporâneas da Baixa de Lisboa, onde Pessoa escreveu, a fingir que era Álvaro de Campos, o mais belo poema do século XX português. Ou escolha a irreverência erótica, que vai da capa ao texto e à pintura que o acompanha, de O Físico Prodigioso, de Jorge de Sena.

Se quer uma prenda clássica, toda harmonia e sem sobressalto, a prenda certa é Contradança, Cartas e Poemas de Camões, reunindo as cartas do nosso maior poeta e as ilustrações do espião holandês Jan Huyghen van Linschoten. Ou então o sereníssimo pequeno livro que Vasco Graça Moura escreveu sobre Os Retratos de Camões, tão elegantemente ilustrado. E ainda, tocando uma sensível temática contemporânea, o belo Muros, livro em que José Jorge Letria, nos leva, em peregrinação aos muros que a humanidade que somos tem erguido ao longo dos séculos.

Há uma prenda inclassificável, porque é clássica e é turbulenta, tem humor e tem sentimento: dar os belos livros que fizemos com Agustina: a originalíssima autobiografia, repleta de fotos, que Agustina escreveu para a nossa editora, O Livro de Agustina, ou as 15 narrativas, Fama e Segredo da História de Portugal, de Afonso Henriques a Salazar, em que Agustina nos conta, à sua maneira sublime e transgressora, os segredos e mistérios da nossa História, livro que temos em formato grande e formato pequeno.

Há prendas mais ousadas? Há! Ambos com as faces do miolo pintadas à mão – a vermelho, claro – há dois livros que apertarão ainda mais a estreita relação que já tenha com essa afinidade electiva que não vamos agora nomear. Mostre que tem gosto e que tem um vigor rebelde, oferecendo O Bordel das Musas, ou as nove donzelas putas, um livro de delicado erotismo, de um poeta morto na fogueira em Paris, Claude Le Petir, e que João Cutileiro ilustrou com ainda mais delicados desenhos originais.  Ou ofereça, uma das antologias de Fernando Pessoa – a mais original que já fizemos – que tem um título simples, Minha Mulher, a Solidão, mas cujos segredos estão à mostra nos dois amplos subtítulos; Conselhos a Casadas, Malcasadas e Algumas Solteiras, com um segundo livro concupiscente de corpo nu.

Bem sei, vai dizer-me que são livros de luxo, com preços incomportáveis. Teria razão, não se desse o caso de o Américo Araújo, responsável comercial da Guerra e Paz, ter decidido, num acto radical, oferecer estes livros com 50% de desconto. O mais caro de todos fica agora a 37,5€ e há livros ao escandaloso preço de 10€, talvez até menos.

E peço desculpa, mas insisto: o maior aliciante para comprar estes livros é uma combinação que nos enriquece: são muito bonitos e são, por mérito dos seus autores, muito bons.

4 thoughts on “Livros que queremos oferecer”

  1. Que a Guerra e Paz venda muitos livros neste Natal. É bom para todos, paliativo que serve em qualquer doença, minora qualquer dor e acorda muito do que se tem e não se sabe que tem. Ou sabe mas não se faz caso. Portanto…é ler. E ler.

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  2. É um bom romance? Sem dúvida, é um romance excelente. É bem escrito, cuidadosamente estruturado, cumpre um propósito original, ambicioso e interessante? Suponho que sim, mas não sei. Não sei porque o li como se o tivesse comido, como se o tivesse bebido, como se precisasse de percorrer as suas páginas para continuar a respirar.

    [Almudena Grandes]

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