Véspera de eleições com Álvaro de Campos, engenheiro naval e poeta futurista

engenheiro

Página Negra — O sen­hor engen­heiro Álvaro de Campos importa-se, sendo amanhã dia de eleições, de nos dizer como é que na Inglaterra onde vive?
Álvaro de Cam­pos – Ainda há muita gente em Inglaterra que tem no íntimo da alma a con­vicção de que uma eleição geral é uma coisa no género e da cat­e­go­ria de uma lei da natureza, e de que a “von­tade do povo” é frase que com­porta qual­quer espé­cie de sen­tido.
PN — Tem noção de que na boca de um engen­heiro essas declar­ações vão provo­car escân­dalo?
AC – O que há de mais estranho nos indi­ví­duos políti­cos é o pouco que con­seguem apren­der com a exper­iên­cia fla­grante. Metem-se-lhes na cabeça cer­tas ideias, e atrav­es­sam a vida com essas ideias, emb­ora a exper­iên­cia quo­tid­i­ana­mente as desminta.
PN – Mas a maio­ria…
AC – A maio­ria é essen­cial­mente espec­ta­dora. As próprias eleições, dada a com­plex­i­dade e o custo do maquin­ismo eleitoral, nunca podem ser ven­ci­das senão por par­tidos eleitoral­mente orga­ni­za­dos. O eleitor não escolhe o que quer; escolhe entre isto e aquilo que lhe dão, o que é difer­ente. Tudo é oligárquico na vida das sociedades. A democ­ra­cia é o mais estúpido de todos os mitos, porque nem sequer tem carác­ter mís­tico.
PN – O sen­hor engen­heiro não me vai dizer que Por­tu­gal…
AC – Por­tu­gal é uma plu­toc­ra­cia finan­ceira de espé­cie asin­ina… uma oli­gar­quia de sim­u­ladores provin­cianos, pouco indus­tri­a­dos na própria his­te­ria postiça.
PN – Des­culpe sen­hor engen­heiro, mas não se pode falar con­sigo. Digo-lhe já, há decerto out­ros engen­heiros, futur­is­tas ou não, que não pen­sam como o sen­hor.
AC – “Quem não intruja não come”; é esta a forma soci­ológ­ica dum provér­bio que o povo não sabe dizer, porque o povo nunca sabe dizer nada… As farsas não me divertem.
PN – **!!##??? Ora batatas, engenheiro Álvaro de Campos.

alvaro-de-campos

 

5 thoughts on “Véspera de eleições com Álvaro de Campos, engenheiro naval e poeta futurista”

  1. No azedume e intolerância do poeta dá para se escolherem verdades partilháveis. Ainda assim, a democracia parece-me a forma de governo menos má. Até ver.

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  2. “O eleitor não escolhe o que quer; escolhe entre isto e aquilo que lhe dão (…)”
    Devia fazer parte da definição de ‘Democracia’.
    Este Sr. Eng. sabe-a bem!!

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  3. «O mal é radical. Os governos têm sido de uma notável incapacidade na solução dos principais problemas com que têm sido confrontados»

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