Três, disse Frank Sinatra

Judith-Exner-Campbell

Não vos vou falar de uma precipitação qualquer. Falo-vos de uma precipitação de Frank Sinatra. Tinha Judith Campbell uns 25 anos e quem diz Judith, diz Guerra Fria, FBI, Baía dos Porcos, a garganta cortada de Fidel de Castro, como outra Judith degolou a de Holofernes.

E já me adiantei, que não era isto o que queria dizer. Sinatra e Judith já levavam um, talvez dois meses de cama juntos. Ele fugira com o rabo à seringa de um compromisso mais sério com a viúva de Bogart, Lauren Bacall. A jovem Judith andava em alegre remissão de um casamento falhado com um actor de quinta categoria. Com aquela voz de My Way, Sinatra sugere a Judith, que giro, giro, era trazerem uma outra moça para circenses acrobacias na suada cama. Três, disse Sinatra. Judith era o escaldante cruzamento de paterna ascendência alemã com materno sangue irlandês, não tinha era a mais remota inclinação para Sodomas e Gomorras. Estavam na cama e ela disse-lhe que não: um não que abalou a História Universal.

Abreviando, ela veio a Las Vegas, meses depois, vê-lo cantar e Sinatra, na ceia, apresentou-lhe John Kennedy. John era quase tão bonito como ela, o sorriso alvo que herdara do pai, um corpo natural de homem que Robert Redford e George Clooney viriam a imitar. Ainda não disse: Judith tinha os olhos violeta que o bom Deus só autorizara a Liz Taylor, umas perfeitas mamas que, mais do que as da deusa Atena, cegariam Tirésias. Cegaram Kennedy.

John e Judith, nas estimáveis costas de Jackie Kennedy, entregaram-se ao voracíssimo prazer da ilicitude. Dois anos. Dormiram no Plaza, o que talvez explique o ataque de ansiedade que lá tive uma noite, dormiram em camas onde nunca dormi, na casa de família dos Kennedy, mesmo na cama de Jackie, até numa alcova da White House, ao lado da fatal e clintoniana sala oval.

Saímos de uma cama e já nos deitamos noutra: Sinatra apresentara também a Judith um bem-disposto Sam, dito Flood, que ela descobriria ser, afinal Giancana. Sam Giancana, ao contrário do bravo Kennedy, não era propriamente um cavaleiro da távola redonda: ganhava a vida nas duras sombras do morticínio e do crime. Era um dos chefes da Mafia. Sam olhou para Judith e cegou no mesmo exacto ponto onde Kennedy cegou.

E meta-se aqui uma ponta de cronologia. Estamos em 1960. John era só um senador e tinha de ganhar as primárias. A formosa e não segura Judith faz a incauta ponte. Vejam, Judith está sentada na bordinha da banheira, fechada no recato da casa de banho de hotel, enquanto os dois homens fecham a translúcida negociação nos sofás do quarto. Depois, John há de pedir a Judith que leve uma mala de dinheiro a Sam. E o povo concede o inesperado voto, na Virgínia, no Illinois, ao cândido e juvenil candidato.

Já presidente, os encontros a pedido sucedem-se. Judith leva documentos. Eu já tive, como toda a gente, a vagabunda dor de burro. Ora, a Mafia tinha a pavorosa e cínica dor de Cuba. Estava-lhe atravessada no fígado. E, na ala oeste da Casa Branca, um Kennedy cheio de escrúpulos tinha uma Guerra Fria para resolver. Ou se invadia Cuba ou se pendurava Fidel pelas barbas, cevando-o.

Uma palavra velada na cama, um sub-reptício envelope na mão, Judith passeou o seu prodigioso corpo por esses bastidores da História. O meticuloso J. Edgar Hoover documentou tudo, os telefonemas, as idas à sala oval, as viagens com dinheiro e documentos. Ironia da História, quem tombou, em Dallas, foi o garboso Kennedy. Dele, Judith guardou a terna memória e, de rubis e diamantes, um broche da Tiffany.

Publicado na minha coluna Vidas de Perigo, Vidas sem Castigo, no Jornal de Negócios

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