O presente está cheio de boas notícias

presente

A Página Negra vai fazer dois meses de vida. Antes, escrevi no Geração de 60, no Pnet Homem, no É Tudo Gente Morta e no Escrever é Triste, blogues colectivos que partilhei com autores que amo descaradamente, pelo muito que com eles aprendi, concordando ou discordando. Quem neles me tenha lido, ou conversado virtualmente comigo, sabe que  privilegio livros e filmes, filmes e livros, alguma música, um humor desdramatizante. Ou, para usar conceitos normalizadores, quem andou por esses blogues dirá que eu tenho uma visão estética do mundo, mais do que uma visão moral ou política.

O que pode ainda ser corrigido com alguma acuidade, dizendo-se que, se eu tenho um olhar ou sentimento político, eles estão nimbados, para não dizer inundados, por uma irreprimível nostalgia. Last but not the least, essa nostalgia parece ser tropical, colonial, caluanda, da areia do Sambizanga ao asfalto que eu vi pôr nas ruas da Vila Alice.

E agora vou puxar de uma adversativa como quem puxa da culatra atrás: não obstante, além desse meu doce embalo estético-afectivo, eu tenho a minha mundivivência ou, e sorriam comigo, a minha Weltanschaung, que não alardeio, mas também não escondo, mas de que, hoje, partilho com gosto algumas facetas simples e objectivas para que, quando aqui conversamos, saibam quem, além do que escrevo, sou também.

Eis a lista do que defendo, prezo ou em que acredito.

  1. Sou um rendido adepto do presente: o mundo em que vivemos é melhor do que todos os mundos em que vivi. Por mais meloso amor que eu tenha pelos meus mundos passados e por todos os outros mundos passados que, antes de nós, os nosso irmãos humanos viveram, quem neles viveu, viveu pior do que hoje vivemos.
  2. Foi glorioso assistir, em seis décadas, às grandes conquistas do mundo em que vivemos, e cito, referindo-me ao planeta Terra: a) o aumento da esperança de vida; b) a prodigiosa baixa da mortalidade infantil; c) o fabuloso aumento da literacia e da escolaridade; d) a diminuição das guerras e dos mortos nas guerra; e) a diminuição do número de homicídios; f) a fantástica baixa da pobreza extrema; g) a ascensão da Ásia, América Latina e África, tornando definitivamente redondo o planeta Terra e dando protagonismo a etnias que o não tinham; h) a irresistível, sexy diria, e comoventemente fraterna cada vez maior paridade entre mulheres e homens, hetero e homossexuais; i) a evolução consciente e determinada da descarbonização da economia e o abrandamento da perda das florestas, respondendo ao que nas alterações climatéricas nos inquieta.
    Tudo, tudo o que enumerei, está nas estatísticas. E tudo, tudo o que se conquistou, se deve a reformas e não a revoluções, reformas que a mundialização, a forma ou máscara que neste começo de século o capitalismo assumiu, cumprindo enfim uma das raras profecias em que Marx, no Manifesto que fez mano a mano com o mano Friedrich, não se enganou. Foi a riqueza gerada no e pelo capitalismo que permitiu crescer, desenvolver, investir e redistribuir.
  3.  Só tenho pena que nem sempre o rosto dessa mudança e evolução tenha sido o da democracia. O número das democraturas é ainda significativo, mesmo se os ganhos das populações na qualidade e expectativas de vida sejam para melhor.
  4. E o que faço com o passado? É o painço com que alimento o presente, ou não fossemos todos aves de gaiola. Eu não recuso, nem condeno o passado. O passado foi o degrau necessário para chegarmos à escadaria do presente. E a nostalgia com que olho para a Luanda que conheci no final dos anos 50 e onde fui menino nos anos 60 e a aspirar à idade adulta nos anos 70, não inquina o orgulho com que vi os meus irmão angolanos conquistar o orgulho da independência, o orgulho de passarem a ser senhores do seu destino, por mais voltas, e algumas foram voltas atrozes, que o destino (para não dizer a geo-estratégia e outros nomes feios) os tenha feito dar.
  5. Não gosto de Trump, não gosto de Bolsonaro, não gosto de Putin. Gosto, e precisamos, da direita e da esquerda – é por elas existirem, em liberdade e alternância, que existe democracia; a exclusão de qualquer delas é um passo para abdicarmos da democracia. E cheguei a esse ponto da vida em que não reconheço superioridade moral a nenhuma delas. Se à extrema-direita podemos assacar e sempre lembrar a barbárie obscena  dos fornos crematórios, não devemos esquecer que foi Trotsky, bolchevique ou comunista, o primeiro a propor a solução do campo de concentração, e que foi Lenine a decidir que nele se deviam despejar os elementos indesejáveis, encarregando-se depois Estaline de aí trucidar milhões de compatriotas, parte substancial dos quais era até comunista.
    Se um travelling é, como dizia Godard, uma questão de moral, é impensável e imoral não estabelecermos essa genealogia, até para podermos falar com clareza sobre nós, sobre os nossos campos, do Tarrafal a São Nicolau, onde a Pide enfiou os anarquistas, comunistas e outros oposicionistas portugueses e os nacionalistas angolanos.

Este, que pensa estas coisas, também sou eu. Nos meses que aí vêm, continuarei com livros e filmes, com baladas e rock ‘n roll. Com o optimismo de quem confia no presente, sem menosprezar a Tradição e ciente de que as visões catastróficas do presente que visam agarrar-nos a amanhãs que cantam têm nelas o perigoso bacilo da ilusão e, em geral, do fanatismo e da exclusão.

Dois livros que recentemente publiquei na Guerra e Paz editores, um que talvez se possa dizer de esquerda, Antes é que era bom!, do filósofo francês Michel Serres, outro que talvez se possa dizer de direita, Como Ser um Conservador, do filósofo inglês Roger Scruton, resumem, muito melhor do que eu conseguirei dizer, o que penso. Une-os o facto de serem anti-reaccionários.

3D Book Antes e que era bomComo ser um conservador_

 

 

4 thoughts on “O presente está cheio de boas notícias”

  1. Este texto é meu? Claro que não. Gostaria, mas não tenho arte para assim dizer. Sequer lhe movo uma vírgula (com as quais não simpatizo nada …). Posso assiná-lo embaixo, à esquerda, à direita, em cima e no verso?
    Faz bem ler isto. Parabéns e muito obrigada.

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    1. Guida, estes texto é seu 🙂 . Não há nada de original no que digo, mas tão só uma síntese de dados concretos e ideias que andam hoje no ar e que muitos partilhamos. Eu é que agradeço a sua mensagem.

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  2. pois que a hora negra tenha comprimento a perder de vista e não se lhe acabem as palavras que a blogosfera fica mais composta com elas. E é certo, precisamos da coexistência das duas:esquerda e direita, moderadas ambas pela dita democracia que não é perfeita mas é o melhor que se pode.
    Adquirir os dois livros, exige outras contas.

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