A Star is Born

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Eu tenho 65 anos. Já tive 20. Hoje, quando me deu o bilhete a tão bonita menina dos UCI Cinemas, do El Corte Inglès (será filha de angolanos? Deus abençoado queira que seja, para que possa ser, candengue, ainda minha prima, um bocadinho irmã ou maninha), t-shirt amarela de uma qualquer festa do cinema, e uma africaníssima tiara (chamemos-lhe assim) que lhe fazia tão bonito o maravilhoso cabelo crespo, que mesmo à distância enche de saudades do amor puro quaisquer dedos artríticos da mão direita, logo o sorriso dela, tão lindos alvos dentes, a contrastar com o escuro caramelizado da pele, me avisou que devia, correr não, que ao senhor lhe pode fazer mal, mas acelerar o passo: os 15 minutos de complementos estavam a acabar e o filme a começar.

Entrei no escuro, no escuro me sentei, e mal acomodado o rabo que já pesa, uma cadeira de intervalo para o casal ao lado, nem um odor de pipocas na sala, sai-me da guitarra de Bradley Cooper a energia de um solo como só, de finais dos anos 60 ao final dos anos 70, houve solos de guitarra. Partiu-se-me em duas a alma, que coração já não tenho. Se o Filipe Mendes estivesse vivo, ele saberia, como no campo das modalidades, basquete, andebol, hóquei do  Benfica de Luanda, numa noite negra dessa pretíssima ternura que só a África tem, lhe saiu um solo assim, rock ‘n roll anti-colonial, rock ‘n roll de uma desesperada, incompreensível, bêbada, janada fraternidade universal. A Phil Mendrix devo o solo da minha vida, a antecipada visão do rock ‘n roll e da América, bem antes de ter visto a inlocalizável e mítica América.

Começa assim A Star is Born. Eu, ainda mal sentado, a ver a fatelice dos nomes e dos logos da merda das produtoras independentes, e a faca de doze notas a espetar-se-me  no peito, nas costas, no ventre e no baixo-ventre. A filha da puta da guitarra a empurrar-me de felicidade para o querido fundo dos infernos, o guitarrista já meu ídolo, barbas e cabelos como a abundante amazónia dos anos 70, a cara dele, cara de Cooper, a lembrar-me Jeff Bridges, cheia de patética vida, mais pathos do que ethos, passado bem passado, sofrimentos de Jim Morrison, Led Zeppelin e Alvin Lee.

Eis como A Star is Born começa: desespero, pessimismo, cinismo, uma guitarra raivosa a querer destruir o mundo por não ser capaz de tomar conta dele. E vem logo, em linhas paralelas e três coincidências, mas pode bem ser que sejam só duas, o amor. O amor de A Star is Born é tearjerker. E que outro amor pode o amor ser, que não seja tearjerker? Que se foda o amor que não chora, envergonha, embaraça, como chora, envergonha, embaraça o amor de A Star is Born.

Lady Gaga e Bradley Cooper, os mais improváveis actores, são belos, narizes à parte, e são verdadeiros. O nosso amor, a nossa saudade do amor, a nossa necessidade de amor, a nossa carência de amor reconhecem-se no amor deles. Porque A Star is Born é só o cantado amor deles, e dizer que o é, não é spoiler, porque nenhum amor é spoiler, nem spoiler é a vaga nudez deles, nem são spoilers os beijos quase castos em que eles se comem de boca a boca, como de boca a boca o amor um dia nos comeu, até mesmo quando, spoiler e implacável, nos anunciou, exangue e de cerrados lábios, o fim do amor.

Vamos ao que interessa, se a verdade ainda interessa alguma coisa. Chorei desalmadamente a ver a personagem de Lady Gaga tentar, cantar, conquistar esse bizarro patamar a que chamamos êxito. A Star is Born é um filme que, como certas mangas estão cheias de polpa macia e doçura, está cheio (parte dele, pelo menos) desse desejo juvenil de realização de um sonho. Reencontrar esse sabor, essa aspiração, numa fórmula ou composição quase a roçar a ingenuidade, a inocência, é reencontrar a mais primordial e selvagem das emoções.

4 thoughts on “A Star is Born”

  1. Como me sinto tão próximo do que viu, do que sentiu, do que aqui escreveu. Eu, que tenho uns gostos a atirar pró sóbrio em matéria musical, olhe, deu-me para chorar a ouvir, a ver, a viver estas estrelas maiores. Let’rock e o resto vá pró Inferno….

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