Confissões de um agnóstico sobre a morte de Deus

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A notícia da morte de Deus era, convenhamos, francamente exagerada. Hoje, a cada minuto, em cada esquina, ou Ele irrompe ou O reclamam. Provavelmente menos sexy do que o “Deus é Amor” dos anos 60, o facto é que não só Deus não morreu como Ele se multiplica em aparições, umas discreta mas socialmente solidárias, outras mais explosivamente fundamentalistas, outras ainda espiritualmente descalças e carmelitas.

Certo também é que os médicos marxistas, freudianos e afins que lhe decretaram o óbito foram objecto de processo disciplinar e expulsão da Ordem, para não falar de Nietzsche que se viu despromovido a maqueiro.

Não sei se Deus, nos anos 70, entrou em clandestinidade, nem sei se nos anos 80 requisitou licença sem vencimento. Sei que hoje a Sua actividade é transbordante. Como são ínvios e misteriosos os Seus caminhos, não é certo que sempre que reclamam a Sua presença ou levantem como estandarte a Sua intervenção, Deus (passe embora a idiossincrática ubiquidade) esteja efectivamente presente.

Mas para nós, agnósticos ou ateus, que O recusámos e recusamos, para nós que nos regulamos pela escassa razão e por um prosaico empirismo, para nós que renunciámos à eternidade pelo secular spleen do presente, essa deveria ser, a meu ver, a questão menor.

A questão maior é que, mesmo que Ele esteja de facto morto (e é até bem possível que nunca tenha nascido), Deus é o único toque de transcendência que acaricia a mente, o corpo e a delicada pele de alguns mil milhões de seres humanos.

Por favor, não invoquem a literatura, a música, ou outras sete ou oito artes, a filosofia ou a pobre sociologia. Deus é, em certas noites de festa, a única jóia que brilha no bico do desejado decote. Jóia roubada, como na letra de Carlos T que Rui Veloso canta, mas a única que retira a amada de um quotidiano alienado (ó palavra esquecida e enterrada), a única pérola que inspira o sonho para o qual nós, laicos e iluministas, não conseguimos, por mais utopias que tenhamos já ensaiado, encontrar substituto que se Lhe aproxime em transcendência e em elegância.

Ao lado do esplendor de Deus, as nossas científicas utopias geram um imaginário que, comparativamente com o apelo transcendente que dEle emana, estão como o prêt à porter para a haute couture. Sendo que, num caso como noutro, o costureiro sempre foi e é só o Homem.

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