Coração tão vermelho como uma rosa

youth

Youth Without Youth, um filme de Francis Ford Coppola, do que me atrevo a chamar a sua fase tardia, narra a história de um homem de 70 anos que, por acidente, recupera a sua juventude e se descobre dotado de poderes e conhecimentos extraordinários. É um filme de Coppola, e é – vou ser mariquinhas – muito lindo.

Adaptado de uma história do admirável romeno Mircea Eliade, Youth Without Youth é um filme um tudo nada elitista, que tem escrito à entrada, “reservado o direito de admissão”. A entrada no coração, no coração tão vermelho como uma rosa, deste filme de Coppola, só é autorizada se já se for um bocadinho velho, um bocado velhinho.

Como é que eu vou explicar isto? Nem é uma questão de idade. O envelhecimento prematuro também serve. É preciso ter-se perdido uma coisa, qualquer coisa que nunca mais voltaremos a ter. Se em cada centímetro de pele, se nas mãos que já não conseguimos fechar, se lá mais abaixo, e delicadamente escuso-me a apontar, nos passar pela cabeça (pelo coração, sempre pelo coração) que, por exemplo ela, ela que tanto amámos, ela que tanto parecia amar-nos, nunca mais voltará (ou nunca mais a voltaremos a ter), é provável que estejamos autorizados a ver Youth Without Youth. A agonia, a agonia do amor, a agonia do desejo, a agonia da criação; é esse o tema, por vezes demasiado denso, do filme que Coppola pagou com os lucros dos seus vinhos de Napa Valley.

O filme de Francis Ford Coppola é desiquilibrado, delirante (nem sempre no melhor sentido), implausível. Mas é arrebatadoramente nostálgico. E tem o plano, a cena, mais bonita dos últimos anos: Tim Roth /Dominic é um velho curvado ao peso de setenta maus anos. A chuva começa a cair nos cem metros de rua de Bucarest onde veio, talvez, suicidar-se. Dominic tenta abrir um céptico e renitente guarda-chuva. De repente, num desses planos que a timidez me impede de qualificar, um raio vermelho e eléctrico rompe o ecrã e levanta Dominic do chão, transformando-o num anjo a arder. O que depois, logo a seguir, cai no asfalto, são arames incandescentes e um corpo carbonizado. Toda a cena, mas sobretudo a surpresa fulgurante desse plano de um corpo arrebatado que arde e voa, resgata-nos de anos de mau cinema.

Um só plano não faz um bom filme, mas a euforia desses dez segundos de agónica beleza não ma roubam – e faço raccord com a metafísica desta adaptação de Mircea Eliade – nem Deus nem o Diabo.

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