O autêntico ovo estrelado

Fried, spicy and hot egg in black pan, Sunny side up

Já não sei quando, como ou quem, mas sei que um dia me perguntaram, com uma ligeira inflexão irónica de voz, se eu tinha alguma receita especial para estrelar ovos. Pois bem, por acaso até tenho e tem os seus requintes. Ponto parágrafo e aí vai ela.

Coloque uma noz de irredutível e incomparável manteiga na frigideira, a aquecer. Cá fora, separe a gema da clara – sempre fui a favor da fusão, mas há momentos em que é absolutamente necessário separar. Quando a manteiga estiver com aquele doce calor de quem já pede outro corpo fresco, deite a clara – só a clara – na frigideira e deixe fritar até que a fímbria da nimbada clara se exiba ostensivamente dourada. Nessa altura, com aquele módico de ternura que qualquer cozinha exige, e num um gesto prenhe de doçura e delicadeza, ponha a solitária gema em cima da clara, polvilhando com duas pedrinhas de sal e três singelos grãos de pimenta. Sim, o que então verá, no momento em que gema e clara se tocam, é mesmo um pas de deux da gema, antes de, rendida, se fixar na já não gelatinosa clara.

E a partir de agora mergulhe no puro artesanato: com uma colher, verta a manteiga douradinha (já castanha, se nos deixarmos de lirismos) sobre a gema. Quando a dita mostrar sinais de algum bronzeado (em boa verdade a clara estará igual ao tom de pele da Tais Araújo ou da Halle Berry e a gema assumirá a política incandescência de uma Pocahontas) retire o ovo da frigideira e sirva. Melhor, trinque: hmmm, é em momentos como este que percebemos como o sexo anda tão sobrevalorizado como a transcendência. Trinque intranscendente, obscena, pantagruelicamente. O sabor de pasto selvagem da líquida gema combina-se com o crocante da clara. O palato exulta, invadido por uma alegria animal, terrestre. Ah, os prazeres de boca.

1 thought on “O autêntico ovo estrelado”

  1. E, como que embrenhado em tão lânguido pitéu, pastoreio todo esse meio com um olhar obcecado em começar a degustar tranquilamente, a “GEMA” da questão que de húmida escorre pacificamente por uma “CLARA” crosta, dando-se então a fusão de sabores condutores, cujas pupilas gustativas, de tão evasivas, dão vivas a quão sublime tentação… Abraço M. S. Fonseca. Receita para ler, reler e reter, obrigado por a ter partilhado…

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