Elitistas e plebeus

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E a estas meninas, o que as ilumina? A aristocrática luz elitista ou o farol do proletariado. (As apanhadoras de nozes de William Bourguereau

Quantas machadadas dialécticas dilaceraram já a minha vida? Leitor e admirador de um filósofo conservador inglês, Roger Scruton, preparo-me para publicar em breve “Como Ser um Conservador”, um livro que considero um hino à vida, ao amor à comunidade e à cultura que nos dá identidade, à saudável relação com a natureza, plantas e animais que nos viram nascer e vimos florir e crescer, um livro que põe a direita no sítio de racionalidade onde ela deve estar e exige à esquerda que seja capaz de pensar fora dos ferrados sapatos ideológicos que tantas vezes a tolhem.

Criticado pela esquerda, Scruton, filho de uma família trabalhista, não se livra da crítica à direita. Há, e também em Portugal, uma direita pretensamente aristocrática, tauromáquica, cega pelo nascimento, movida pelo preconceito. Para essa direita, Roger Scruton terá sempre uma falta: não nasceu bem e não pode, por isso, elevar-se a essa plataforma nefelibata a que só o nascimento nas alturas dá direito.

Riam-se, mas o motor imóvel da tese dessa arqui-direita não dá margem a discussões: Scruton tem mesmo um problema congénito. Plebeu como é, falta-lhe a elevação de vistas que só pode ter quem nasceu nas alturas. A fulgurante validade sociológica, filosófica e científica deste autêntico “motor imóvel”, emudece qualquer discussão.

Confesso que aquele impensado classista me recorda, mutatis mutandis, alguns deliciosos e gloriosos episódios dos tempos dos “amanhãs que cantam”. Coisas do meu esquinado passado esquerdista. Lembro-me de que a introdução de algum módico de racionalidade no desvario ditatorial do proletariado era sempre contrariado com essa incapacidade de “elevação de vistas” que a burguesíssima origem de classe me bloqueava e a que só os operários de todo o mundo (e os camponeses na China) poderiam alcandorar-se.

Teses, a de elitistas e proletários, justificadas, bem entendido, por um berço, o berço elitista ou o berço proletário. Ou de como as teorias da direita elitista e a marxizante visão da luta de classes são bons espíritos dispostos a alguma carnal convivialidade… A cada um a sua ficção se, bem feitas as contas, não fosse evidente que têm, ambos, uma única e mesma ficção.

Quando se comparam classes, raças, sexos, passe embora o direito que a todos assiste de escreverem as ficções que muito bem entendam, tenho para mim que há uma obrigação mínima para uma teoria ser galante e aristocrática de espírito: a de fugir à fácil muleta da generalização.

Para as ficções que cultivamos, cada um escolhe também o pathos que muito bem entende. O de Scruton quer ser elegíaco e elitista, ilegítimo no berço dirão os autênticos filhos de família. Mas a verdade é que os livros de Scruton, e também este “Como Ser Conservador” que está a chegar às livrarias, vertem o seu pensamento numa prosa irrepreensível, de um bom gosto limpo de inanidades sobranceiras.

Ainda assim, a ser-me dado escolher, nestes dias de um infindável sol de Verão que continua a aquecer o nosso estranho Outono, prefiro deixar-me levar pela interioridade estóica e desencantada que emana destes versos de W.B. Yeats. Elitismo? Ou plebeísmo?

An Irish Airman Foresees His Death
I know that I shall meet my fate
Somewhere among the clouds above;
Those that I fight I do not hate,
Those that I guard I do not love;
My country is Kiltartan Cross,
My countrymen Kiltartan’s poor,
No likely end could bring them loss
Or leave them happier than before.
Nor law, nor duty bade me fight,
Nor public men, nor cheering crowds,
A lonely impulse of delight
Drove to this tumult in the clouds;
I balanced all, brought all to mind,
The years to come seemed waste of breath,
A waste of breath the years behind
In balance with this life, this death.

Um Aviador Irlandês Prevê A Sua Morte
Eu sei que encontrarei o meu destino
Algures, no céu, entre as nuvens;
Não odeio aqueles que combato,
Não amo quem defendo;
O meu país é Kiltartan Cross
Os pobres de Kiltartan, o meu povo,
Desgraça, fim algum lhes trará,
Nem mais felizes os fará.
Nenhuma lei ou dever me obrigam a lutar
Nem políticos, nem o aplauso da multidão,
Um arrepio de prazer apenas
Lançou-me no tumulto entre as nuvens;
Pesei tudo, tudo me veio à mente.
Os anos a vir pareceram-me em vão,
Em vão os anos passados.
Espelho desta vida, esta morte.

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