Rainha não-coroada de Portugal

Gaby Deslys foi a rainha não-coroada de Portugal. Talvez nunca tenhamos tido uma rainha tão bela. Esta francesa, corista em cafés, tinha uma vozinha de nada, mas uma imaginação copiosa. Estava na fila de corista, quando pensou o que seria, se em vez da ligeira lingerie, se enchesse de plumas, tafetás e lantejoulas. Pode haver dúvidas sobre os pesos e medidas do juiz Ivo Rosa, dúvidas sobre a fantasia ou a competência do procurador Rosário Teixeira, não há é nenhuma dúvida de que Gaby Deslys inventou o music-hall.

Levou a ideia para os espectáculos que montou no Moulin Rouge. Inventou a escada no palco, uma via láctea de luzes, a orgia de cetim e bailarinas semi-despidas e foi um desses espectáculos que, em Julho de 1909, realíssimo posterior colado à fofa cadeira, Sua Majestade Fidelíssima, o rei D. Manuel II, viu em êxtase, esquecendo por horas e mandando com gosto às malvas as lusitanas intrigas republicanas.

D. Manuel, no fim do music-hall, não cabia nele e já veremos o que menos ou mais cabia. Levaram Sua Majestade aos bastidores. Bateram à porta do camarim de Gaby, anunciando, “Pela Graça de Deus, Manuel II, Rei de Portugal e dos Algarves, d’Aquém e d’Além-Mar em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia” e a porta abriu-se. “Toda a dança atrai a força, toda a caça atrai os bichos”, escreveu um dia Herberto Helder, e eis como dança, força, caça e bichos povoaram, cintilantes, o primeiro olhar de Manuel e Gaby.

Foram amantes instantâneos. Gaby fazia uma tournée na América quando D. Manuel foi deposto e a República instaurada em Portugal. O contrabandeado amor dela e do rei não era desconhecido e a Imprensa atirou-se-lhe, num assédio pré-socrático. Libérrima, disse em Pittsburgh: “Foi amor à primeira vista e tornei-me sua amante. O amor que lhe tenho e o amor que ele me tem, justifica-o aos nossos olhos.”

Todo o rei que se deita por amor com uma corista é um herói. Junte-se ao garbo de D. Manuel, à sua fina cultura, apesar dos seus apenas 20 anos, a labareda e o ferro vivo do amor e terão os leitores a medida do seu heroísmo. Sublinho: D. Manuel II, rei de Portugal, não procurou a adolescente, a virgem tímida e desajeitada. Gaby tinha mais nove anos do que o rei e Manuel bebeu nela a mulher senhora de si, independente e desafogada.

Trouxe-a a Portugal. Era preciso escondê-la da Imprensa e dos republicanos. Como a terá levado para as noites, que já se imaginam ternas e tórridas, no Palácio das Necessidades? De madrugada? Embuçada? Diz-se que não, que chegou de caleche lavada pela luz de fim de tarde de Lisboa, o coleante Tejo a rivalizar com ela em brilho e curvas.

Beijo e juro sobre este punhal que me trespasse o coração se minto: Gaby não amou o jovem rei por dinheiro. Mesmo o colar de 70 mil euros que, com vénia, Gaby recebeu das mãos reais e gentis de D. Manuel, e talvez valesse hoje mil milhões, era sumptuário para quem ganhava a, então, fortuna de quatro mil dólares por semana em Nova Iorque.

Gaby e D. Manuel amaram-se em Paris, em Londres, em Lisboa e no Buçaco. Não foi uma entrevista a Oprah que os separou. A hostilidade da opinião pública, ainda não ilustrada pelos reality-shows da SIC e da TVI, e as pressões dos ministros do reino obrigaram Gaby a regressar a Paris. Deposto D. Manuel, os amantes ainda se encontraram em Londres, mas um ano de Gaby em Nova Iorque separou o que só o amor juntara: “Sim, fui a amante de Manuel e não acho desonra em ter sido a amante de um rei.”  

Publicado no Jornal de Negócios

O dia que eu queria que chegasse

O que é a História? Um lenço a que nos assoamos? A esquiva lágrima que um dedo disfarça e limpa? Um pingo de saudade que exibimos, ora com pudor, ora com orgulho?

Só sei que hoje é o dia 25 de Abril. Nesse dia de 1974 eu tinha 20 anos: a esse dia, sem reservas, nem recriminação, entreguei de mão beijada o mundo em que eu vivia. Soube, depressa, que esse meu mundo, a minha Luanda colonial, terminava ali e que, dali em diante, as minhas memórias de infância e de adolescência deixariam de ter espaço-tempo, recobertos por outro tempo, outro espaço, outras sonhos de outros seres humanos.

Esse era o dia que eu queria que chegasse desde os meus 15 anos, com mais madura consciência, desde os meus 17 anos. Perdi muito, mas não lamento nada do que perdi. E talvez não tenha perdido nada, tão viva, tão adolescente continua a ser a memória daqueles dias longínquos, à deriva num tempo e num espaço que já se extinguiu. No dia 25 de Abril de 1974, em Luanda, dia de alegria, de esperança, começaram dois dos anos mais esplêndidos da minha vida, de tanta aventura e de tanta dádiva. Se choro, não é o passado menino e emotivo que choro. Se choro, e já tão pouco ou nada choro, é o presente, que não foi capaz de realizar os dois dedos de felicidade com que sonhei para a minha cidade, nem deixa deslargarem-se os mil risos que deviam encher a noite e a boca do povo de Luanda.   

E depois há Portugal. Agora, 47 anos depois, há 45 anos a ser português de Portugal, o que eu queria é que o 25 de Abril, neste pedaço de Europa debruçado sobre o mar, não tivesse importância nenhuma. Não ter o 25 de Abril importância nenhuma quereria dizer que a nossa forma de vida em democracia, as nossas formas sociais e económicas, eram adultas e inteiramente desenvolvidas, quereria dizer que já vivíamos num presente com futuro.  

Do que eu gosto no 25 de Abril é da porta aberta, dessa promessa de horizonte a perder de vista para o futuro. Do que eu gosto no 25 de Abril é do passado que ele erradicou, repressivo, inquisitorial, de caxias e peniches feito.

O 25 de Abril livrou-nos desse passado, como quem se livra de todo mal, ámen. Do que eu não gosto no 25 de Abril é dos seus donos de Verão Quente, repressivos, inquisitoriais, tão inchados de superioridade moral e ideológica que teceriam outros aljubes se fossem eles a mandar. O mal que alguns donos do 25 de Abril fizeram ao 25 de Abril.

O que cumpriria o 25 de Abril era ele não ter importância nenhuma, toda a nossa energia posta em vivermos com gozo o presente, sabendo que Portugal era um país rico, criativo, a transpirar ciência e artes: isso sim, deviam ser as conquistas de Abril. À sombra do 25 de Abril nasceram cardos que decidem quem vai ou não vai na procissão: nem o 25 de Abril nos livrou desse mal, ámen.

Quem dá o que no bolso tem

Ela tira os óculos, que não por acaso lhe ficam bem, solta o cabelo apanhado, vira-se em valsa lenta, boca semiaberta, num sorriso que a ponta da língua interrompe tocando no canto direito do lábio superior. Distraído a abrir uma garrafa de “pretty good rye”, Bogart, que já estava a fazer conversa com ela há dez minutos, levanta a cabeça e, como se acabasse de ver nascer Vénus, solta o mais vivaldiano “hello” da história do cinema.

E agora pergunto, se nunca correram um estore, que raio de vida é a vossa? Corre-se um estore, em “The Big Sleep”, filme a preto-e-branco, de 1946. Quem corre o estore é uma livreira em que deviam pôr os olhos os patrões das livrarias Bertrand, FNAC, Almedina, Ler Devagar, até mesmo da fabulosa Lello. Tem vinte e um anos, vende livros e, se não sabe tudo, sabe pelo menos muito sobre edições raras. Uma coisa temos garantida para a eternidade: nós é que nunca saberemos o nome dela. Nem William Faulkner, nem Raymond Chandler no guião, nem Howard Hawks, o realizador, lhe deram um nome. Quem devia ter o nome grande, que a história do cinema ainda não lhe reconheceu, é Dorothy Malone, a mulher morena que dá aquele vagaroso corpo a essa menina livreira.

Bogart vem da livraria em frente e entra na ACME Book Shop de Malone. Ele é um detective. Falam e floresce entre os dois aquele indesmentível interesse humano que nos protege de um húmido dia de chuva. Bogart vai ter de fazer uma espera e em vez de se ir molhar lá fora, tira do bolso uma garrafa de uísque americano, com que podem molhar-se, ela e ele, no calor da livraria. É então que Dorothy Malone, com medido vagar, fecha a porta e corre o estore como mais ninguém na vida há de correr um estore, numa rotação em que a deliciosa velocidade angular do corpo dela contrasta com a firme vontade do rosto: “Looks like we’re closed for the rest of the afternoon.

Fala-se muito, e com menosprezo, de quem tem um passado. Tenho uma teoria: “Ai de quem nada tem a esconder.” A livreira da ACME corre o estore sabendo que está a construir o seu passado. É uma tarde só – one afternoon stand –, mas é o segredo esplêndido de um encontro bom. É que não há sequer um grão de insensual inquietação de futuro em toda essa cena de que Dorothy Malone é senhora e rainha. Bogart, “hello!”, oferece apenas o que tem no bolso.

Big Bang na língua portuguesa

O novo livro de Marco Neves: um pequeno tesouro de investigação e análise

Este não é só um livro bonito, é um livro que nos pede para usarmos a palavra “importante”. Este livro, cujo corpo é o de umas boas 200 páginas de prazer e de informação, tem “estilo”: oferece-nos uma visão holística da língua portuguesa, do sonoro Big Bang até hoje, atrevendo-se a antever o ano 2572.

Depois de Assim Nasceu uma Língua, de Fernando Venâncio, eu tenho a felicidade de ser editor deste livro do linguista Marco Neves, História do Português desde o Big Bang. Uma obra controversa também, defendendo para a língua portuguesa uma visão policêntrica: a de uma língua que se ramifica em variantes. Não admira que traga, por isso e por exemplo, novidades sobre a relação entre o português que falamos em Lisboa e o belo português que se fala no Rio de Janeiro ou em Luanda. São investigações recentes, de que Marco Neves nos dá conta, sobre a distância real entre o português, o galego e o castelhano e ainda entre o português europeu e o português americano.

Copio o que Marco Neves escreveu na introdução de História do Português desde o Big Bang:
Pensemos no princípio: Quando nasceu a nossa língua? Terá sido quando alguém escreveu o nome «português» para se referir à língua dos Portugueses? Mas quando tal aconteceu, a língua já andava na boca dos falantes, com características muito próprias, havia séculos. Ou terá sido quando apareceram os primeiros

textos? Mas para se escrever um texto numa língua, a língua já tem de existir… Talvez quando o latim aqui chegou, sofrendo alterações espicaçadas pelas línguas que já cá se falavam? Mas o latim já sofria alterações antes de cá chegar e continuou simplesmente a mudar, sem grande interrupção e sem que ninguém pensasse que estava a criar uma língua nova. O próprio latim já vinha de antes, doutra língua de que não conhecemos o nome que lhe davam os falantes. Essa outra língua também já vinha de trás, doutra língua que também vinha de outra língua, numa sucessão de falares até ao início da linguagem.

Se quero contar a história toda, tenho de contar o que sabemos da história da linguagem humana…

E, para que ninguém vá ao engano, mesmo que seja um ledo engano, é este o índice do livro, que hoje, Dia Mundial do Livro, vivamente vos aconselho:

capítulo 1: 13 800 000 000 a. C. | Big Bang / O início do Universo passou na televisão / Átomos, galáxias e palavras inglesas

capítulo 2: 4 000 000 000 a. C. | A origem das espécies / O mecanismo da vida / Palavras e outros vírus

capítulo 3: 6 000 000 a. C. | A invenção do ser humano / Uma árvore com muitos ramos / Homúnculos, mitocôndrias e outros palavrões

capítulo 4: 2 000 000 a. C. | A origem das línguas / O nascimento das palavras / Elom e ganim: uma língua não chega?

capítulo 5 : 10 000 a. C. | A língua e o território / Quantas línguas há no mundo? / Viagem ao mundo das línguas

capítulo 6: 4500 a. C. | Como era a nossa língua há 6500 anos? / Com pouca corrupção / Uma surpresa escondida na palavra «filho»

capítulo 7: 1 d. C. | Línguas imperiais /História de duas línguas / A invenção das letras

capítulo 8: 1000 d. C. | Do latim à nossa língua / /Uma história em cinco faixas / Palavras trituradas

capítulo 9: 1430 d. C. | Língua à portuguesa / A reinvenção a sul / Alfabeto à portuguesa

capítulo 10: 1757 d. C. | Volta ao mundo em português / Os círculos da língua / Palavras contra a corrente e dentro dos dicionários

capítulo 11: 2021 d. C. | Camões no século xxi / Camões de visita ao presente / Viagem a uma língua exótica

capítulo 12: 2572 d. C. | Os Lusíadas traduzidos para português / A tradutora de português / As línguas a várias cores.

Polícia no dia mundial do livro

Hoje, por ser dia mundial do livro, faço-vos um desafio.
Leiam “
Os Passos em Volta“, de Herberto Helder. É um livro de contos. Incursão rara do poeta na prosa narrativa. O mais próximo que ele terá estado de um romance.
Agora que já têm “
Os Passos em Volta“ na mão, leiam um conto, o mais belo de todos os contos, leiam “Polícia“. Conta-o um português, clandestino, em Bruxelas, na iminência de ser, porventura, expulso.
E agora, que já leram “
Polícia“, podem ler, embora não precisem, a piedosa e devota prosa que se segue.

Eu era então muito novo. Aprendi a sole­trar o amor nos onze pará­gra­fos das cinco pági­nas de um conto cha­mado “Polí­cia”. O amor ficou-me para sem­pre assim, a mulher nua dei­tada sobre um cober­tor, gotas de chuva a des­li­zar nos vidros da janela.

Em fra­ses cur­tas, que uma pequena e amá­vel iro­nia ace­lera, o conto des­creve Bru­xe­las, o papel ambí­guo de um pro­tec­tor petit Mon­si­eur Leclercq, antigo cola­bo­ra­ci­o­nista e fun­ci­o­ná­rio do par­tido comu­nista, a penú­ria do pro­ta­go­nista que alguns bis­ca­tes mal iludem.

É um clan­des­tino que fala. Tem uma voz serena, objec­tiva. Con­fia, percebe-se, no movi­mento que os tem­pos ver­bais dão às fra­ses: “Eu dese­java tra­ba­lho, ape­nas isso.” Ou então: “… o maior amigo do meu pro­tec­tor, um fla­mengo que amava a cer­veja forte, per­ten­cera à Resis­tên­cia.” Dese­jar, amar e per­ten­cer são os dína­mos de fra­ses humil­des, manu­ais dir-se-ia. As fra­ses vão por onde os ver­bos as mandam.

É um por­tu­guês e deam­bula pela cidade, perto da esta­ção, entre as luzes das ruas e o ruído dos com­boios de mer­ca­do­rias. Tal­vez por­que ter dinheiro no bolso seja tão aci­den­tal, o nar­ra­dor clan­des­tino poupa nos adjec­ti­vos. Escas­sez na vida que reper­cute na lumi­nosa escas­sez da prosa. Ainda assim, diver­tido ou ino­cente, autoriza-se (uma vez ape­nas, no pri­meiro longo pará­grafo de 42 linhas) um aceno con­tido de trans­cen­dên­cia: “Às vezes eu fazia com estes ele­men­tos estran­gei­ros um lirismo vaga­bundo e puro.

Eu era então muito novo e ao ler “Polí­cia” apaixonei-me pela ideia difusa de cidade, os vagos tra­ba­lhos tem­po­rá­rios, beber cer­veja, dan­çar num bar da Chaus­sée d’Anvers. Mas apaixonei-me sobre­tudo pela abso­luta cons­ci­ên­cia de si deste clan­des­tino a quem le petit Mon­si­eur Leclercq acon­se­lha a fugir para a França, Ale­ma­nha, meter-se num barco que saia de Antuérpia.

Con­ge­ni­ta­mente ide­a­lista, “Polí­cia” é um conto em que os con­tor­nos da cidade, a espes­sura dos vul­tos que pas­sam, das abun­dan­tes pros­ti­tu­tas, só ganham con­cre­ção den­tro da lin­gua­gem e da soli­dão do herói clan­des­tino. Quase ouço o nar­ra­dor responder-me: “Tam­bém me sen­tia absur­da­mente entu­si­as­mado com a soli­dão.” Tal­vez le petit Mon­si­eur Leclercq não saiba, mas se o clan­des­tino par­tir, a cidade desa­pa­rece. E não, não me parece que Mon­si­eur Leclercq o saiba: antigo cola­bo­ra­ci­o­nista e fun­ci­o­ná­rio do par­tido comu­nista, o monismo ide­a­lista é-lhe estranho.

Eu era então muito novo e nunca tinha lido uma tão incon­des­cen­dente cons­ci­ên­cia de si. Mais abis­mado fiquei ao ver, no segundo pará­grafo, o herói clan­des­tino criar uma segunda cons­ci­ên­cia, desen­can­tado comen­tá­rio de si mesmo. É uma manhã de Dezem­bro e chove, diz ele, para logo a seguir e pela pri­meira vez sur­gir, entre parên­te­sis, a segunda camada de cons­ci­ên­cia de si, filo­só­fica, quase sem­pre inter­ro­ga­tiva. Uma segunda cons­ci­ên­cia que é, por­ven­tura, mais o resul­tado de uma ele­gante dis­cri­ção, quase timi­dez, do que um arti­fi­cio lite­rá­rio. Leio e pergunto-me se o herói clan­des­tino não terá cri­ado esta segunda vaga da cons­ci­ên­cia de si como pre­texto para intro­du­zir Anne­ma­rie. É Dezem­bro e chove, diz ele, para logo deri­var, auto-comentando-se “(eu fala­ria depois a Anne­ma­rie da chuva lenta, paté­tica)”. E deixa-a ali, sus­pensa, mis­te­ri­osa, para só vol­tar a sentar-se ao lado dela, ou ela ao lado dele, 24 linhas depois.

Chove neste conto, “gotas de água a toda a volta”, e surge Anne­ma­rie, fran­cesa de Lyon, tão clan­des­tina como o nar­ra­dor por­tu­guês: “Anne­ma­rie sentou-se a meu lado. Vi logo que ela não podia estar mais só.” São duas abso­lu­tas cons­ci­ên­cias de si, irre­du­tí­veis, sen­ta­das ao bal­cão de um bar de Bru­xe­las, em frente a dois “belos copos de cer­veja fria”. Bebem na soli­dão um do outro.

Eu era então muito novo e pareceu-me peri­goso e sub­ver­sivo este clan­des­tino encon­tro de cons­ci­ên­cias num chu­voso fim de tarde estran­geiro. Seria absurdo que a polí­cia não os per­se­guisse. A polí­cia, esse dese­já­vel escru­tí­nio da ile­ga­li­dade, é a única forma de os dois clan­des­ti­nos terem a cer­teza que arris­cam a liber­dade. A única certeza.

“Polí­cia” começa numa deli­ques­cente manhã de Dezem­bro, em Bru­xe­las. Ter­mina na noite desse dia, a mesma fria névoa lá fora e “um calor incon­ce­bí­vel” nesse quarto onde duas soli­dões falam “lon­ga­mente da chuva, do amor e das leis.

Em dois demo­ra­dos pará­gra­fos ini­ci­ais e nove mais cur­tos, poé­ti­cos, pará­gra­fos finais, “Polí­cia” é um lapi­da­dís­simo dia­mante nar­ra­tivo. O ritmo do fra­se­ado, a pre­ci­são lexi­cal, o dis­creto bri­lho meto­ní­mico, a fru­gal suges­tão ima­gé­tica estão inven­ci­vel­mente acima da tan­tas vezes pas­tosa nar­ra­tiva por­tu­guesa. É só lite­ra­tura, dir-me-ão aque­les que razo­a­vel­mente pen­sam ser a lite­ra­tura coisa pouca. Que inte­ressa? Eu era então muito novo e “Anne­ma­rie puxou-me para den­tro e amámo-nos sobre o cober­tor até de manhã.

As citações fui buscá-las à ver­são ori­gi­nal do conto, publi­cada pela Por­tu­gá­lia Edi­tora, em Março de 1963,  a 1ª edi­ção do livro. A que eu tenho, com a capa lá de cima. 

Choram. São quatro mulheres

Choram. São quatro mulheres. Não sabemos o que choram, mas sabemos que choram ali por volta de 1878. Podemos talvez presumir que choram a morte. Cabelos, pose, estatura parecem indicar que são de gerações muito próximas, irmãs, primas quem sabe, ou só amigas. Choram talvez a mãe, o pai.

Chorava-se assim no século XIX. Hoje, podemos chorar as mesmas lágrimas – água e cloreto de sódio, como cantou o poeta – mas não choramos já com esta coreografia tão composta, com esta nobre expressão pública do sofrimento, com estes lenços de linho, que a mão de mãe, a mão agora morta, bordou.

Pum, pum, estás morto

The Man Who Shot Liberty Valance

Que bem que nós sabíamos morrer! Tínhamos aprendido a morrer com os índios, os mexicanos e os bandidos de mil westerns, com os piratas de cem filmes de capa e espada, com os filisteus que Sansão arrasava com a sua força de braços.

Animava-nos a pura metafísica da infância. A vida já era nossa, queríamos era experimentar a morte. Ora, morrer não era só tombar no chão. “Mata-me”, pedíamos, e havia sempre um amigo que alçava o arco e nos atingia com uma flecha ou puxava do coldre um colt prateado e “pum, pum, estás morto”. Morríamos então com a mesma imaginária sabedoria do professor Agostinho da Silva, esse cascadeur filosófico agora esquecido.

Não bastava cair, era preciso cair redondo. Caíamos impregnados do perfume de um verso mexicano do ciclo Nauatle: “Não foi para viver que viemos sobre a terra.” O corpo desabava sobre a areia vermelha do terreiro do velho Amado, mesmo ao pé da Churrasqueira, ou no areal abandonado das traseiras da farmácia Luanda. Mordíamos o pó e rodávamos três vezes, para morrermos de barriga para o ar, um último estremeção das pernas, um esgar de pessoano sofrimento e o derradeiro suspiro. Podíamos morrer rodando quatro vezes e ficando de borco, nariz e lábios enfiados na poeirenta cauda da terra – mas era considerado um exagero, um exercício de overacting como mais tarde a vida em pé nos ensinaria.

Não foi no grande cinema que aprendemos a admirável arte de morrer. Ninguém aprende a morrer com Orson Welles ou o “Citizen Kane” – falta até saber se se aprende a viver. Mas era do esticanço mortal que eu falava. Aprende-se a morrer em filmes humildes, uma pradaria, um cavalo e uma Winchester, aprende-se a morrer com um escravo como Spartacus. Aprende-se a morrer com gangsters: os de Coppola e dos “Padrinhos” aprenderam a morrer com o James Cagney dos “Roaring Twenties”, caído na mantilha de neve que afaga a escadaria de uma igreja.

Roaring Twenties

Quando é que desaprendemos de morrer? Como se tivesse acabado de beber um fragmento de infância, voltei a deixar-me morrer quando a minha filha era pequenina: ensinei-a a pôr dois dedos em pistola e disparar, pum, pum. Tombei (esta é tua, Zé Victor!) como a gazela de Catete atingida na graciosa corrida. Arranquei à minha filha o cristalino e fresco riso. Mas todas as canas do meu corpo estalaram de vida magoada. A dor que é deixar-se um tipo morrer, quando já só está vivo.

Posso fazer xixi?

Faye Dunaway em Chinatown

Andava o norte de Portugal a fritar filhoses para o Natal, enquanto os apaniguados do Doutor Cunhal fritavam latifundiários, ocupando-lhes as herdades, no sul. Foi nestes preparos festivos que “Chinatown” se estreou em Portugal. A 18 de Dezembro de 1974.

Foi para o lado que o país dormiu melhor, desatenção injustíssima, tantas noites sem dormir custou a Roman Polanski e a Faye Dunaway fazer este filme mais noir do que todas as décadas de film noir. Um cheirinho do enredo e logo se percebe que é obra infectada, um vento de corrupção e peste, expostas feridas sexuais, de que um fragor de incesto é a mais dolorosa. Cheira a maldade, ganância e morte, nesta história de suja especulação de terras e águas em Los Angeles. Por cima e por baixo dessas terras secas e águas clandestinas, há uma incivilizada, urgente, arfante sexualidade, a que Faye Dunaway, Jack Nicholson, o velho John Huston, dão rosto e sopro mefítico.

Esse sopro incivilizado e fétido dominou as filmagens. Nicholson resumiu bem as duas distintas facetas do realizador: “É um tipo irritante quando está a filmar e é irritante quando não está a filmar.” Ora, Polanski tomou de ponta Faye Dunaway. Logo no primeiro dia, no teste de maquilhagem, que fez mais pálida a já lindamente pálida face de Faye, o polaco desatou aos berros de “não, não, mais pálido, ainda mais pálido”, despejando-lhe um quilo de pó na cara.

Que motivação a devia guiar, perguntou-lhe Faye, na primeira cena. Polanski respondeu, com exemplar educação: “Diz a merda do texto, o teu salário é a tua motivação.”

Um dia, Faye tentava alisar um cabelo, que lhe entrava na linha do olhar. Polanski foi-se a ela e ao cabelo, puxou-o e arrancou-o. “Motherfucker arrancou-me o cabelo” e foi um terramoto até o produtor obter tréguas.

Estão, num carro, a filmar uma cena em que Nicholson intimida Faye. Ela pára e diz a Polanski que precisa de fazer xixi. Ele recusa. Ela insiste, ele volta a recusar, e vem à janela da viatura corrigir a cena aos gritos. Faye atira-lhe à cara o líquido de um copinho escondido dentro do carro. Polanski, argh!, berra: “A puta atirou-me mijo”. Corre um mito: talvez fosse mijo de Nicholson.

Obra-prima, “Chinatown” prova que a arte não é para meninos. De raiva, lágrimas e outras excreções se faz a lenda da sua criação.