Na boca, o inimigo

Hitler já a adivinhar a morte, com Estaline na boca

Se fosse a umas transcendentes quatro de manhã, todos compreenderiam. Mas estar, ao prosaico meio-dia, filosoficamente debruçado sobre o conceito de dor é de uma patética desinteligência. Eis a minha piedosa desinteligência, querer saber que dor mais dói.

 Evoco a dor da mãe que perde o jovem filho. Era meio-dia e eu pus-me a imaginar o tumulto do peito materno, a indignada revolta, mesmo os impropérios e a vontade de esfaquear toda a criação, que desmergulham dessa mãe. Quem se atreverá a dirigir-lhe um gesto de apaziguamento, a dizer-lhe um ultrajante “tenha clama”. Essa é a dor épica, a cuja nobreza e horror nos rendemos.

Mas a dor mais indigna, despojada de decoro moral, é a de morrer ao pé dos nossos inimigos. Tive amigos e muitos conhecidos presos em Angola. Torturou-os a DISA, a polícia política que o internacionalismo cubano ou soviético primorosamente treinou. Alguns foram fuzilados. E penso: o torturado que é forçado a entregar a morte ao seu torturador é espoliado do recato e esplendor da sua própria agonia. Roubam-lhe a vida, roubando-lhe o delicado e sábio suspiro da morte.

Dir-me-ão que, em meu benefício, exagero usando exemplos extremos. Calo-me e insisto: morrer ao pé dos nossos inimigos, que coisa terrível!

Não sabemos quem morrerá primeiro, se Donald Trump ou Joe Biden. E já recordo outros dois presidentes da longínqua América, John Adams e Thomas Jefferson. Eram amigos e correligionários. Até Jefferson ser de Adams mais objurgatório que António Costa foi de Passos Coelho. Quando Adams se candidatou a um segundo mandato, Jefferson concorreu contra ele e arrasou-o numa campanha amarga.

Vinte e seis anos depois, o ex-presidente Adams, o único presidente desse tempo que nunca teve escravos, morreu. Foi no dia 4 de Julho de 1826, comemoravam-se os cinquenta anos da Independência americana. E ouçam, ponham o ouvido perto da sua boca exangue. A última palavra que Adams diz, quase um sussurro, não sei se recriminatório, se humedecido por uma gota de saudade, é: “Jefferson”.

Adams morre com o inimigo que lhe roubou uma eleição na boca. Não sabe que, por desatada ironia dos paródicos deuses, Jefferson morrera nesse mesmo dia, quatro horas antes, roubando-lhe a precedência e fazendo dele o morto posterior. E Biden e Trump, morrerão sussurrando o nome um do outro? Morrerão no mesmo dia? Terá Hitler, ao morrer, sussurrado o nome de Estaline? Ter na boca o inimigo é um inconsentido fellatio.

Os velhos políticos ou artistas de génio estão mortos antes de morrer. Sou do tempo do obituário. Muito antes de ele morrer, era comum actualizar-se o obituário de Fidel de Castro. O jornalista podia ir almoçar tranquilo: “Está tudo pronto, Fidel pode morrer à vontade.” Poucos deram tanto e tão longo trabalho à necrologia, como Fidel.

H. G. Wells, de quem tanto devemos ler “A Máquina do Tempo” como “A Guerra dos Mundos”, disse um dia: “Não há paixão no mundo, amor ou ódio, que iguale a paixão de alterar o manuscrito de outra pessoa.” O inimigo que entra na nossa morte altera-nos o mais precioso manuscrito, o da vida. Por lhe impor um personagem indesejável, por roubar ao protagonista a sua última, distinta e rubra palavra. Disse rubra e penso nas bolas de golfe de Rudyard Kipling. Esse escritor pintava de vermelho as bolas de golfe para poder jogar nos dias de neve. É humilhante, ou pelo menos triste, que a nossa morte, roubada pelo inimigo íntimo, não seja uma bola vermelha, distintíssima, a correr pelo manto de neve que é o alucinado fim da vida.

Publicado no Jornal de Negócios

Chavela Vargas


Can­tora de bole­ros, mexi­cana e pre­da­dora por opção, Cha­vela Var­gas viveu uma vida desenhada para filme. E o cinema fez-lhe justiça: nos filmes de Almodóvar, que tão bem lhe pilha a música, e num velho documentário que lhe produziu o meu amigo Alvaro Longoria, por exemplo. Não são filmes, são ramos de flores.

Mais tarde, e por gentileza de outro amigo, o António M. Costa, fui ver um novo documentário, Chavela, que duas americanas em ponto de rebuçado lhe dedicaram. Não tenho opinião, por já há algum tempo ter deixado de ter opinião. Tenho só sensações, aliás, uma só sensação que partilho fervorosamente: ficaria toda uma santa noite só para ouvir o que a intempestiva Vargas diz. Ela fala e é como se a palavra fosse paixão, como se um substantivo sofrimento fosse a única qualidade do mundo, verbo da salvação.

A voz de Chavela não tem flores ou desfolhadas doçuras de pétalas – é sempre uma voz de faca e drama. É essa poderosa voz que transfigura o documentário de Daresha Kyi e Catherine Gund, investindo-o permanentemente da surda latência do amor insatisfeito, da raiva do vazio e da solidão, do conflito auto-destrutivo. É uma voz tão plena de amor que se morde a si mesma, com um apetite irresistível pela jugular, soltando um rio macbethiano de sangue, traição e desejo de macabra fusão de vida e morte.

Que voz era a voz de Chavela? Não sei se diga rouca, se diga trans­gres­sora. Por muito que goste dela, e gosto tanto, Cha­vela não é a minha can­tora de bole­ros favo­rita, mas é a que tem a bio­gra­fia mais exci­tante.

Mais homem do que mulher, Cha­vela ves­tia cal­ças, poncho vermelho, pis­tola à cinta. Num tempo em que as mulhe­res não con­ju­ga­vam o verbo sair, saía à noite, cha­ruto na boca, com o alcalde de su ciu­dad y otros ami­gos pelas mais noctur­nas das ruas, emborrachava-se tanto como ele e os outros e dis­pa­rava, antes ou depois, sobre o que eles dispa­ras­sem. Terá dor­mido com mais mulhe­res do que o alcalde y otros amigos todos jun­tos o que, mesmo que não seja ver­dade, tam­bém não é uma rema­tada men­tira. Womani­zer sem des­culpa, foi o que foi.

Fez um tre­mendo sucesso com as suas ran­che­ras, mas o que a ela me faz vol­tar e tan­tas vezes, é a sen­si­bi­li­dade dos bole­ros.

O êxito fê-la sal­tar da ciu­dad para Hollywood, mesmo que no começo só pela pequena quinta que foi Acapulco. Não dei­xou, por isso, de ser o homem que era, mulher por­tanto, rou­bando dos outros homens belas mulhe­res que nunca qui­se­ram ser homens – logo ela que em pequena nunca tinha brin­cado com bone­cas.

Dizem que bei­jou a boca fresca de Ava Gard­ner que a ela (ou ele?) se terá ren­dido de tiro e queda. Boa pon­ta­ria, bem se vê. Já li que foi numa festa em Los Angeles e que Chavela roubou Ava a um bouquet de pretendentes. Chavela conta outra história. Foi em Acapulco, o que este documentário confirma, num imenso bar, e alguém lhe pediu que indicasse o caminho da casa de banho a uma Ava Gardner a cair de bêbeda. Chavela levou-a pela mão e disse-lhe: “Filhinha, agora vais sempre a direito, sem te desviares, até àquela porta e estás no corredor da casa de banho.” Foi homérico ver Ava a fazer uma linha recta, subindo cadeiras e trepando pelas mesas, para não se desviar um milímetro do caminho. Ficaram amigas, como se diz que foi amiga de Elizabeth Taylor.

Frida Kahlo viu-a também. E ouviu-a e sentiu, logo confessando tre­mo­res e olhar nublado: “…es eró­tica. Acaso es un regalo que el cielo me envia” escre­veu a pin­tora em carta des­co­berta há pouco e que acu­sam de apócrifa.

Será, mas apó­crifa é tudo o que não é a estar­re­ce­dora inter­pre­ta­ção da can­ção que a Frida sem­pre La Cha­bela dedicou. La llo­rona que se pode ver e ouvir abaixo.

Cha­vela tinha 93 anos quando morreu. Con­ti­nu­ava a gos­tar de armas e a dizer que quando se faz o que se gosta se deve fazê-lo a noite inteira.

Surpresa poética: Roupão Azul

Hoje, damos a palavra a Eugénio Lisboa, poeta e ensaísta. Escreveu este texto no Rerum Natura. Aqui o reproduzimos com a devida vénia.

UMA BELA SURPRESA POÉTICA: ROUPÃO AZUL
por Eugénio Lisboa

Este livro de poesia, singularmente intitulado ROUPÃO AZUL– o que logo indicia uma invulgar temeridade da parte da autora, ao trazer, com evidência, para o universo da poesia, a materialidade, em princípio, pouco “poética”, de um roupão de trazer por casa – acaba de ser galardoado com o Prémio Glória de Sant’Anna, criado em homenagem à notabilíssima poetisa que amou e cantou o mar – a água – de Pemba, no norte de Moçambique.

ROUPÃO AZUL é uma obra, a vários títulos, notável, não me parecendo, pois, difícil de aceitar que tenha sido escolhida, entre outras de autores mais conhecidos, visto ser este o primeiro livro da autora.

Os poetas, embora tenham poderes limitados, quando se trata de salvar o mundo, têm poderes inesperados, quando se trata de dilatá-lo e enriquecê-lo pela força imperiosa da imaginação e pela manipulação inovadora das palavras. Segundo Jean Cocteau, os poetas até têm a capacidade de se lembrarem do futuro, isto é, de terem já criado o que ainda não existe.

ROUPÃO AZUL interpela-nos com decisão e vigor, glosando uma singular relação entre filha e pai, por via de uma escrita serena e neutra, quase ausente, em fulgurante contraste com o que a análise daquela relação nos desvela. Fala das coisas mais dolorosas e delicadas numa linguagem tranquila, que se não deixa encrespar nem mesmo pela revelação mais dilacerante. Faz-nos regressar a Valéry, quando dizia que “a elegância é a arte de não se fazer notar aliada ao cuidado subtil de se deixar distinguir”. É o que mais nos assalta, neste belíssimo primeiro livro,: uma deliberada fuga à ênfase da escrita, para melhor desvelar a intensidade do sentido: falar menos para dizer mais. Ou, por outras palavras: o “menos” como catapulta eficaz do “mais”. Uma escrita despojada de artifícios, de buzinas, de metáforas ostensivas, quase pacífica, sem gritos nem demasiados desvelos, ao serviço altamente produtivo de uma sondagem de grande amperagem e dolorosa claridade. Estou portanto a insinuar uma grande nobreza de dicção, um enorme pudor que, nem por ser pudor, receia entregar-nos as descobertas mais perturbantes. Uma arte que recusa a ênfase para nos poder dar um máximo de intensidade. Por outras palavras: o melhor do classicismo ao serviço da mais genuína modernidade.

Diante de uma primeira obra desta qualidade e desta ousadia, que se não exibe mas está lá, fica-se numa justificada expectativa quanto a obras futuras desta autora, de que aqui dizemos o nome, para que conste: Ana Paula Jardim.

Parabéns ao júri que, em boa hora, assinalou este belo livro, e à editora Guerra & Paz, que teve a ousadia de a publicar em tempos recessivos de pandemia. A poesia também serve para nos proteger e surpreender e encantar, quando, lá fora, um inimigo implacável nos cerca e nos ameaça. Aliarmo-nos à poesia e vivermos com ela é um modo galhardo de resistirmos. Talvez o melhor, o mais eficaz e o menos dispendioso. Além de que, lendo-a, nos estamos também a ler a nós próprios. Em especial, quando ela se acolhe em livros com a força esbelta e bem vigiada deste admirável ROUPÃO AZUL.

O mais nu dos hotéis

um hotel com idiossincrasia

Vejam, peço que levantem os olhos e vejam, antes de começarem a ler. Quem corre copiosamente nu pela áleas do Jardim de Allah é Gary Cooper. A patética nudez realça o assombroso espécime que o macho homo sapiens chegou a ser. Daquela corrida nua em diante foi sempre a cair até à decadência destes dias de queixa, culpa e impotência.

Não sabemos para onde corre o descalço e exposto Gary Cooper, o herói de “Adeus às Armas”, se para os braços de Hemingway, se para a convenção do Movimento Europa e Liberdade, desapontando Pacheco Pereira. Sabemos que corre pelas nocturníssimas áleas do Garden of Allah, peculiar hotel de Hollywood.

Congelemos a rutilante nudez de Cooper. Terá sido nesse mesmo dia? Harpo Marx passara a manhã, numa das áleas desse Garden of Allah, a massacrar a sua harpa. Nascera o sol às 5:30 e logo Harpo começara a dedilhar, com a extemporânea veemência de André Ventura, o Prelúdio em Dó Sustenido Menor de Rachmaninov.

Já devia ter dito, mas emendo agora: o Garden of Allah era um hotel de 25 bangalós, com frente para a Sunset Boulevard. Há de dormir aqui o escol de Hollywood, Greta Garbo, Bogart e a Bacall, Marlene, Marilyn, Ava Gardner e Sinatra, Tallulah, Tarzan, Scott Fitzgerald, Orson Welles, Dashiell Hammett. Custa até acreditar que Marcelo não tenha lá dormido também.

Nessa manhã, quem dormia, no bangaló ao lado de Harpo Marx, era o pianista e compositor Rachmaninov. Tocava piano pela noite dentro e Harpo já recalcitrara e estrebuchara na recepção: mudem o russo do piano para léguas de mim.

Não o ouviram. Agarrou, por isso, nos primeiros quatro compassos do Prelúdio e atacou-os, fortíssimo. Ao fim de duas horas já não sentia os dedos, mas repetia, repetia, num abominável incansaço. Estrondo fremente no bangaló ao lado: Rachmaninov batera com os punhos no piano como se quisesse resgatar a insolvente TAP com um cataclismo sonoro. O marxismo de Harpo fora implacável: nesse mesmo dia o russo mudou de bangaló. Harpo não sabia, mas Rachmaninov aborrecia aquele Prelúdio, obra sua que achava menoríssima.

E vejam, Gary Cooper entra com toda a sua natureza no bangaló de Tallulah Bankhead, rouca actriz de Hitchcock, que fez o mais escasso dos filmes, “Lifeboat”, morcela de bravura (o que faço para evitar expressões francesas) toda filmadinha num barco salva-vidas.

Tallulah foi o expoente da tradição de permissivo deleite que a fundadora do Garden of Allah, a actriz do cinema mudo Alla Nazimova, inaugurara. Nazimova fizera no hotel, a que era então a maior piscina do mundo, com a forma do Mar Morto onde nascera. Nessa piscina toda a nudez era estimulada. Nazimova, beleza de desdobrados gostos, consolava-se nos chamados “sewing circles”, a que chamarei, em vez de prosaico nome de “círculos de costura”, os “círculos de ponto cruz”. Nessa linha de orgias sáficas, Tallulah, republicana princesa da libertinagem, cruzou agulhas e croché com Barbra Stanwick e Joan Crawford, o que não a refreou de alvoroçadas expansões com o nuíssimo Cooper ou com Weissmuller, o Tarzan, ao luar da piscina, nesse caso mal chamada Mar Morto.

O Garden of Allah, sem protestos da Unesco, destruíram-no em 1959: foi terraplanado o património de três décadas de nudez, whisky e martinis, delírios orgásticos. Sobrará sempre a imagem da formosa Tallulah, descalça, segura e toda nua, com um gentil macaco empoleirado na cabeça, a abrir a porta, ao moço dos correios que lhe trazia um telegrama. Largou-se a correr, vestido, o moço, dessa mesma porta por onde, nu, entrara Gary Cooper.

Publicado no Jornal de Negócios

Dalí era virgem

o sonho de Dalí

Com excepção da mão que num sonho se lhe enxameou de formigas, Salvador Dalí era virgem. Já o ateu Luis Buñuel, que num sonho desatou a cortar olhos humanos com uma lâmina, nem dos dedos do pé era casto, como bem se vê em “L’Age d’Or”.

Foi no primeiro filme, “Un Chien Andalou”, surrealíssimo, que Dalí e Buñuel juntaram aqueles dois sonhos, escandalizando a tão comerciante burguesia francesa do final dos anos 20.

O sonho de Buñuel

Dalí era virgem. Resistira aos avanços do poeta Federico Garcia Llorca, alegando não ser homossexual e antevendo que talvez doesse. Não resistiria à invasão galopante de Gala, a mulher russa do poeta Paul Éluard. Ninguém resistia, diga-se, a Gala. A tuberculose tinha-a cruzado com Éluard num sanatório suíço. Apaixonaram-se, casaram, tiveram uma filha e, por arrebatado amor ao próximo, alargaram os apaixonados eflúvios ao pintor Max Ernst, num estetizante ménage à trois.

“O que queres de mim?”, perguntou-lhe o virginal Dalí mal se conheceram. “Quero que me mates”, gritou ela. Éluard protestou e não podia ser mais explícito: “Quero-te nos meus braços, lamber-te toda, esmagar-te, fazer-te infinitamente leve, mais molhada que tudo, mais quente, mais mole, mais dura que tudo.” Pois sim, Gala não voltaria ao lar.

Buñuel conta ter recebido seis inimitáveis páginas de Dalí pormenorizando os prazeres carnais dessa primeira noite de sexo, que diz a lenda ter sido também a última.

A arte do século XX atravessou o corpo de Gala. Sem ela, o artista-espectáculo, Andy Warhol, Damien Hirst, Jeff Koons, nenhum deles teria tido o embrião que foi Salvador Dalí e a sua desembestada ideia de performance. Teria sido melhor? A acreditarmos em Buñuel, com certeza que sim. Gala nunca pediu a Buñuel, como a Dalí, que a matasse. Nem era preciso. Se a tivesse apanhado a jeito, Boñuel ter-lhe-ia cortado a cabeça.

Buñuel amava um Dalí com a sua loucura de grande masturbador, sempre virgem, resistente à manifesta cobiça de Llorca pela sua lírica retaguarda. Todo o cinema de Buñuel é um manifesto anti-Gala. A sexualidade dela, com um cortejo de amantes jovens e bem pagos, que incluíram Jesus Cristo, ou pelo menos o seu terreno intérprete em “Jesus Cristo Superstar”, era uma sexualidade kitsch. Uma sexualidade de circo. A de Buñuel, inveterado ateu, sempre foi religiosa: “O sexo sem a religião é como estrelar um ovo sem sal. O pecado dá outros sabores ao desejo.”

Para que jamais se repita

Partilho esta proposta da Guerra e Paz editores. Vala a pena comprar: são boas leituras de divulgação. Eu já tenho e li os três 🙂

Eis a certeza: temos a certeza de que não queremos que se volte a repetir. Não obstante, e como disse o filósofo Francis Bacon, sempre que um ser humano começa com uma certeza, quando chega ao fim acaba na dúvida.

Na dúvida, e porque queremos que não se repita o cataclismo nazi e o seu holocausto, trazemos-lhe estes três livros, que organizámos num pack pronto para lhe entregarmos em casa.

Uma novidade, acabadinho se chegar às livrarias, é o “Campos de Concentração Nazis: Sobreviventes e Fugitivos”, no qual Inês Figueiras recolheu e nos guia pelas histórias de mais de uma dezena de heroínas e heróis que resistiram, fugiram e sobreviveram, num atestado de que a coragem e a alma humanas nos transfiguram, mesmo nos momentos de caos e tragédia.

“No Bunker de Hitler” é já um clássico da literatura sobre Hitler, escrito por Joachim Fest e adaptado ao cinema. Um livro revelador sobre a psicologia, a mente desse Führer que assombrou a Alemanha e atormentou a Europa.

Por fim, “Os Filhos dos Nazis”, de Tania Crasnianski, aflora e desvela a herança nazi: os filhos dos mais altos responsáveis falam sobre os pais, pelos seus discursos passando a revisitação do passado, que uns fazem com culpa e redenção, mas que outros evocam com um enquistamento e quase louvor do mal.

São três livros necessários, úteis e de boa leitura: porque queremos que jamais se repita. Três livros, em sua casa, com o custo de 20€.

Quem é o Dono Disto Tudo?

Não digam que o mundo anda por aí sem dono. O mundo já voltou a ter dono. A China é a senhora do mundo, o Império do Meio. A Guerra e Paz faz o retrato do dono em quatro livros preciosos.

Porquê a Europa, Reflexões de um sinólogo, de Jean François Billeter disseca com inteligência e com base histórica a caminhada e a vocação imperial da China. E avisa a Europa sobre os perigos que o domínio chinês comporta.

José Félix Ribeiro, especialista português de prospectiva, escreveu EUA versus China: Confronto ou Coexistência, descrevendo-nos a emergência da rivalidade entre o antigo dono e o novo dono disto tudo. Estão aqui todos os indícios que agora se revelam nesta Segunda Guerra Fria, que já está em curso e que talvez nos obrigue um dia a ter saudades da velhinha Guerra Fria entre yankees e soviéticos.

Por fim, pela mão e pela câmara do português que melhor conhece a China, o escritor António Graça de Abreu, os leitores podem conhecer, cidade a cidade, região a região, Toda a China. Em dois volumes, Toda a China é uma gigantesca e minuciosa visita à realidade da China.

Quatro livros para conhecer o rosto, as intenções e a potência do novo dono disto tudo. E diz-nos a Guerra e Paz que entrega estes 4 livros em suas casa, já, por apenas 25€.

Warren Beatty travou

Lembram-se dos Oscars de 2017? Claro que não. Nem eu. Mas lembramo-nos todos do produtor, realizador e actores do La La Land se levantarem para irem receber o Oscar que afinal não era deles, era de Moonlight.

Gosto do erro. Warren Beatty travou. Daqui a 20 anos, destes Oscars, lembrar-nos-emos apenas disto: Beatty travou. Ia lançado como uma velha Zundap nas ruas de Luanda da minha infância e – como é que é, mano? – travou.

Warren Beatty ficou ali, a meter um dedo no envelope, como quem escarafuncha dissimuladamente a narina. Mas Faye Dunaway, pensando ser ainda a delinquente de “Bonnie and Clyde”, disparou. Um tiro só e os produtores, realizador e actores de “La La Land”, levantaram-se para logo morderem o pó amargo da derrota.

Já errei. Tenho até uma certa memória sensual do erro. Um dia, representei a SIC num evento da Embaixada de França. Recebeu-me a então Conselheira Cultural. Não é que eu seja baixo (LOL, diz o Henrique Monteiro), ela é que era muito alta. Estiquei-me para os beijinhos da praxe e é sabido como os bicos dos pés são incertos. Escorreguei ou estremeci e beijei-a na boca. Nova tentativa, embaraçada, e o incerto ósculo ficou pelo canto dos lábios. Do alto da França que incarnava, a bela conselheira foi diplomaticamente compassiva e eu, reconhecendo embora a invasiva deselegância, ainda hoje não me arrependo da falta de pontaria e de, lábios nos lábios, a ter feito rir.

Mas falava dos Oscars. Não foram sempre o que são hoje. Estão a ver uma festa numa associação de bombeiros voluntários em que toda a gente se conhece e ama e se levam de casa os rissóis de camarão e o bolo mármore, que a minha irmã faz como ninguém? Eram assim os Oscars.

Lembro-me, como se fosse hoje, dos Oscars de 1932-33. Mesmo os cães e gatos de Hollywood sabiam que Frank Capra ia ganhar com “Lady For a Day”. Will Rogers, seu amigo, apresentava com a preguiçosa informalidade que o faria brilhar nos filmes de Ford. Anunciou o melhor realizador. “Ora aqui está uma bela surpresa. Não podia ter saído a um tipo mais simpático. Vem buscá-lo, Frank, que bem o mereces.”

Capra salta e avança. Vai a meio caminho e vê outro Frank, Frank Lloyd, a ser abraçado por Rogers. Era Capra a morder o mesmo pó em que “La La Land” fez a desastrosa espargata. Capra recuou, humilhado: “Foi o trajecto mais longo e triste, o mais consternador da minha vida. Ter-me-ia enfiado no primeiro buraco que encontrasse no chão.”

Lembro a Capra a mais curta e avisada anedota portuguesa: “Qualquer um se pode enganar”, diz o nonchalant ouriço-cacheiro descendo da escova do cabelo.

Thalberg, Bette Davis e Capra, quando os Oscars eram a festa de associação de bombeiros voluntários em que toda a gente se conhecia e amava e se levavam de casa os rissóis