João Moita, Grande Prémio de Poesia

Escreve-te.

Molda
à martelada
a forma crua
do teu crânio,

remove
com a picareta
as nuvens
dos teus sonhos,

extrai
com o estilete
a necrose
dos sentimento
s,

sufoca
na garganta
o gorgolejo
do teu canto,

e, sobretudo,
não esperes nada
do que amas.

Começa assim, com este poema, o livro “Que Túmulo em que Talhão“. O autor é João Moita. O júri da Associação Portuguesa de Escritores leu-o e deu-lhe o Grande Prémio de Poesia Maria Amália Vaz de Carvalho, de 2023.

O poeta João Moita, de quem a Guerra e Paz é a editora, destaca-se pela sua contenção, pela forma quase cruel como privilegia a escassez. Toda a exuberância de parabéns e euforia, olhando para a sua poesia, seria descabida. Lê-lo em silêncio talvez seja o devido tributo.

Dois bigodes

São dois bigodes. Estão ali a fazer marcação à zona à bela Jane Russell. Um é o sorridente e sincero bigode do meu amigo Manel Cintra Ferreira que já voou atrás de Jane. O outro é o meu bigode circunspecto, porventura cheio de segundos sentidos.

Para os mais esquecidos, esta senhora, a que eu e o Cintra fazemos de ala dos namorados, é a mesma que está ali em baixo, de vermelho, a comemorar o 38 do glorioso SLB, com a Marilyn. Ou quem a sabe, já a dançar, sedutora, Rumo ao 39.

Paludismo americano

Quem diria ao miúdo que eu era nos anos 60, que um dia também estaria neste drive-in!

Ainda me lembro dos enxovalhados beijos na boca que então dava a Mao-Tsé Tung. Foi ali entre os meus 19 anos e os vinte e meio. Viera de Luanda estudar direito e o maoismo lisboeta de 1973 chamuscou-me – sim, houve um maoismo lisboeta de 73, pincelado a delirantes, esquizóides e disléxicos toques de Sorbonne, Paris VII. O maoismo lisboeta só não conseguiu estrangular o meu vocal e fidelíssimo pró-americanismo.

Vejam como essa serpente yankee nasceu no meu peito: o meu pai, tinha eu sete anos, sentou-me na motorizada NSU e levou-me a ver o consulado americano em Luanda. Acabara de ser apedrejado e os americanos acusados de apoiarem os “terroristas” que, em Março de 61, tinham posto o Norte daquela “Angola é nossa” em agonia. Vi as pedras na rua, o moderado rasto de destruição, e o impávido edifício do Consulado, tão bonito como a desaparecida casa-grande de Dona Ana Joaquina, aristocrata arquitectura luandense agora em extinção. Os meus sete anos apaixonaram-se por esse símbolo de América que ali, sem fugir, dizia verdades inconvenientes.

E tudo à minha volta, um ou outro Chevrolet, as carrinhas Ford, as jeans Wrangler e levi’s, os quedes (ou keds), que eu calçava, tudo era um hino que absolvia a América de culpas. O jovem Kennedy e a sua Jacqueline ajudavam. E depois, quando vi “Chove no Meu Coração”, meu primeiro filme de Coppola ainda antes de saber quem era Coppola, e quando vi “Easy Rider”, sem saber que um dia falaria com Dennis Hopper, os vírus do pró-americanismo ferraram-me uma desalmada febre que nunca mais me largou: o meu abençoado paludismo é filo-americano.

Eis o que então eu achava um caso de súbito analfabetismo da esquerda a que pertencia: o seu anti-americanismo. Aquilo atazanava-me tanto como o ciúme-agulha a esburacar o coração mouro de Othello: como podia a esquerda da liberdade e de um mundo melhor, deslargar-se da livre vida americana, da sua irreverência desengravatada, dos filmes, do rock ‘n rol (ó meu!) dos Doors e Hendrix aos Jefferson Airplane e à sua  Grace Slick, epítome da sexualização, dos gemidos nos drive-in, dos romances de Hemingway, Faulkner e Steinbeck, do pela estrada fora de Keroauc, dos inclementes uivos de Ginsberg, dos apolos a ir à Lua!?

Essa impressiva paisagem era – é que era! – o autêntico anti-salazarismo. Essa planturosa América, estética, inestética, charrada, a litros de Budweiser, com Henry Miller a vazar sexo e plexo na cama e fora da cama, era a garantia de um infarto ao coraçãozito santacombadense da nossa ditadura.

O impulso pol-potense do meu breve maoismo parou aí: eu nunca poderia viver sem essa América que já conhecia sem nunca lá ter ido. O frigorífico que os meus pais tinham na casa caluanda do musseque Sambizanga, era um General Electric, tão americano como Charlotte e Henry, os amantes de “As Palmeiras Bravas”, romance de Faulkner que nos incita ao amor do amor. Ao amor do amor incitava-me também o “Born To Be Wild” dos Steppenwolf, a voz que proclamava sonhos de Martin Luther King, a tragédia de Dallas com a cabeça estilhaçada de John no aflito regaço de Jackie, meu primeiro soluço por um político.

Hoje, que os radicalismos parecem sufocar esse maravilhoso pântano de vida, prolífico, indomável, não sei se ainda existe essa minha América, que tanto era a de John Wayne como a de James Dean, essa América que vinha dos anos 50 de “A Leste do Paraíso” ao começo dos anos 70 de “O Padrinho”. Vamos morrendo, lentos, na morte das paisagens em que se deitava, deleitado, o nosso imaginário.  

Publicado no Jornal de Negócios

Eu conheci Lenine

Eu conheci pessoalmente Lenine. Toda a gente sabe quem é Lenine. Conforme a perspectiva, é o herói ou facínora da revolução bolchevique. Revolucionário de profissão, adoentado e macilento, a pesar-lhe na consciência, logo em 1921, a primeira grande mortandade de milhões seres humanos à fome, ordenante da morte por enforcamento de camponeses, que ficaram dias pendurados nas árvores só para que se soubesse: não foi este o Lenine que eu conheci e de que fui amigo.

O meu Lenine era igualmente macilento, cabelo negríssimo, magro e esquinado. Se se abrisse a frincha de uma porta, o meu Lenine passaria, como uma fina sombra, por essa frincha. Deste deambulante Lenine, fui eu amigo como o advogado dono do escritório de um célebre conto de Melville foi amigo de Bartleby. E havia alguma coisa de Bartleby no meu Lenine. A mesma determinação subtil, inapelável e irrevogável.

O meu Lenine flanava com discreta elegância por Lisboa e todos os caminhos o levavam à Cinemateca. Era um cinéfilo obsessivo e silencioso, uma dessas sombras fílmicas que fogem da tela e circunvagam como zombies no planeta Terra. Que eu saiba, o meu Lenine nunca comeu e nem casa tinha, fundindo-se na noite, nas wee hours de Lisboa, quando as sessões de cinema acabavam.

À deambulação solitária, juntava uma nobre pobreza franciscana. Um trivial saco plástico com antiquíssimas revistas de cinema, algumas folhas amarrotadas de papel, uma amarelada biografia de James Dean, que anotou, confiando-ma para que eu escrevesse sobre os filmes do fatídico actor. Viajáramos juntos, de metro, da Gulbenkian para a Cinemateca, e decidiu que eu era amigo dele.

Confesso, essa amizade foi das mais poéticas honras que tive na Cinemateca. É que, Lenine era implacável a detectar erros. Uma data, o nome de uma actriz gralhado, e ele aparecia do nada, com um suave desdém a iluminar-lhe a palidez, desancando com a negligente certeza de um Bartleby o programador da Cinemateca que errara. Um dia, já eu estava na SIC, os meus ex-colegas da Cinemateca recuperaram um cartaz do filme “Vendaval Maravilhoso”, de que Amália foi a fulgurante estrela. O filme é de Leitão de Barros, o que todos os meus colegas estavam carecas de saber. Mas, por um daqueles terríveis erros de simpatia, na legenda garrafal do cartaz escreveu-se, “um filme de Leitão Ramos”, confundindo o conhecido crítico da nossa praça com o realizador.

Erro de cabo de esquadra, do nada Lenine corporizou-se ao lado do cartaz e quando passou o primeiro programador da Cinemateca, com um pingo de doce desdém, só disse, “Vocês…”, e fazendo a exacta suspensão que Samuel Beckett exigia dos actores às suas reticências, rematou “nem isto”! A forma como virou as costas, o seu andar recto de ponto de exclamação, eram ainda a mais acerba crítica que um cinéfilo poderia ouvir.

Um dia, Lenine morreu. A Antónia Fonseca, cujo parentesco comigo adivinham, soube. Era e é um quadro da Cinemateca, obsessiva adepta de Bogart e do falecido doutor Cunhal. Era director da Cinemateca, o João Bénard. A Antónia irrompe-lhe pelo gabinete e grita: “João, João, morreu o Lenine!” O João, conhecedor da rubra linha política da Antónia, responde-lhe, sarcástico, com um “Haja Deus, Antónia, morreu e já morreu há muito tempo”. “Não foi o meu Lenine, foi o nosso Lenine que morreu”, cortou, com shakespeariana aflição, a Antónia. E a Cinemateca fez luto.

Chamava-se Lenine, era um pálido raio de filme que desceu à terra e cedo, muito cedo, voltou às luzes e sombras que se projectam na escura caverna chamada cinema.

Como saí da SIC

Se soubesse não teria despido o casaco. Mas foi já sem casaco que me sentei à mesa do English Bar, no Estoril. Do outro lado da mesa estavam Francisco Balsemão e Luís Vasconcelos, que uma velha amizade fazia que fossem como dedos da mesma mão.

O embaraço é uma coisa pessoana, primeiro estranha-se, depois entranha-se. Vejam a cadela Juliana. Pastor alemão de raça, foi surpreendida por uma bomba incendiária na II Guerra Mundial. A bomba caiu à sua frente e Juliana extinguiu-a recorrendo a recursos fisiológicos de carácter líquido: isto é, mijou-lhe em cima e apagou-a. É um embaraço para o inimigo, mas também para quem se defende, ganhar a guerra com um longo jacto de urina. Superado o embaraço, a cadela Juliana foi honrada com a Blue Cross Medal, nobre condecoração para animais.

E volto ao English Bar. Foi em Setembro de 2005. Era, há quatro anos, director de programas da SIC, sucedendo a Emídio Rangel, de quem eu fora o adjunto, durante nove anos. Se não estou, como António Guterres, a tergiversar nos números, nesse outro momento deliciosamente embaraçante da nossa vida política, tudo somado foram 13 anos: a minha mais rica experiência profissional, divertida, dramática, um carrossel emotivo, com os seus embaraços talvez, bem menos, nesses 13 anos, do que os deste governo de António Costa num só ano.

Mas se continuo a divagar nunca mais chego ao English Bar. Saio da SIC com o director-geral, o meu amigo Zé Alberto Bastos Silva. Fomos no Porsche dele e fazia um daqueles calores de Setembro roubado às 13 horas de Agosto. Tirámos os dois os casacos e bazámos. O calor, no casco submarino do Porsche, encharcou-me de suor. Fomos a remoer nas audiências, que andavam pela hora da morte. Quando o Emídio saiu já tínhamos perdido a liderança do horário nobre, mas conservámos a liderança global. Num dos anos do meu consulado consegui mesmo reconquistar – a chocolate com pimenta, o que diz bem da minha tropicalidade – a liderança do horário nobre. Foi um momento de glória – sic transit gloria mundi – que o meu combativo adversário, José Eduardo Moniz, comentou nos seguintes termos, nas coloridas revistas de alto valor intelectual, que tratam das vidas das celebridades: “O Manuel está tão inchado que se o picam com um alfinete rebenta como um balão!”

Chegámos ao English Bar. Avançámos, nós e o suor do infame Porsche, para a mesa de Balsemão. Com informalidade, atiro o casaco para o sofá e sento-me só em camisa. Mal me encosto às costas do cadeirão sinto a camisa chupar a napa que o forrava. Entre a minha camisa suada e a napa do cadeirão forjou-se uma relação sexual, interpenetrante, que só o Aretino dos Sonetos Luxuriosos saberia cantar: nem Deus separaria aqueles corpos colados, a fina camisa, a já fanada napa do cadeirão.

O tema da conversa era delicado, na mesa o futuro da SIC e uma proposta que, se não a aceitasse, ditaria a minha saída. Tentei afastar-me das costas da cadeira e senti que arrancava a napa. A minha cabeça só pensava no que aconteceria quando me levantasse.

Confesso com orgulho: fui estóico. O almoço continuou, vivo, com elegância de parte a parte, o que descambou, estando o Zé Alberto e o Luís já em viagem pelo cosmos, na amizade que me liga, hoje, a Francisco Balsemão. Agora vejam, ponho-me de pé e a napa do cadeirão veio colada à rica camisa. Toda! Disfarcei com o casaco, escondendo o grande pedaço de cadeira que as costas da camisa acabavam de roubar. Nesse dia, saí da SIC, mas trouxe para casa a napa de um cadeirão do English Bar.

O espião de ouro e chamas

pedido emprestado a “O Caçador”

O espião era a mais bela paisagem mental da Guerra Fria. Dizia-se que qualquer um daria o cu e cinco tostões para ser da CIA ou do KGB. Mas nem vale a pena exagerar, nem hoje a expressão tem o sabor desse tempo: oh, onde andarão as neves e as mulheres de então.

O que sei é que em Julho de 1974, quando fazia mais frio no Huambo, uma fina camada de gelo cobria, por vezes, os charcos de água no mato à volta da Escola de Aplicação Militar (EAMA), onde eu fazia o curso de oficiais milicianos. Fomos a mais desabrida recruta que algum dia cruzou a porta de armas da EAMA. Protestámos, fizemos levantamento de rancho, acertámos com papos secos mais rijos do que cornos na cabeça de um sargento mais casmurro, uma anarquia que os meus maravilhosos instrutores viam com a resignada paciência e a ultrajada sabedoria de mais velhos. E eram eles, o alferes Caji, grande basquetebolista luandense, e o africaníssimo furriel Neto, que eu ia jurar que se chamava também Agostinho.

Lembro-me, com uma doce angústia, que trazia dois livros nos bolsos da farda. Um era do Mircea Eliade, “O Sagrado e o Profano – A Essência das Religiões”, edição de bolso da LBL Enciclopédia. O outro era de Herberto Helder, “A Vocação Animal”, publicado em Maio de 71 pela dom quixote. Eram os meus desaceleradores. E eram, também, as linhas de fuga dessa recruta quente, com assembleias gerais e uma comissão na qual se aboletava a ventania dos meus ímpetos revolucionários. O livrinho de Herberto, dividido em duas partes, “Os Animais Carnívoros” e “A Festa do Crime”, reunia textos de prosa poética, ou melhor, de uma prosa implacável, narrativas visionárias, a roçar a loucura, a nudez.

Na sua cruel exuberância, era um livro vagaroso, a começar pela dedicatória, “a uma devagarosa mulher”. E no poema que então eu preferia, Herberto oferecia esta divagação: Aprendi como é devagar – comer devagar, sorrir, dormir devagar, cagar e foder – aprendi devagar.

Hoje, as imagens desses dias voltam, quase estrangeiras, esquivas. E, tal como Herberto, aprendi talvez outras coisas. Na versão de Maio de 1981 da sua “Poesia Toda”, Herberto modificou aquele poema que deambulou, vagoroso e nu, pela minha cabeça. Deu-lhe esta versão: “Aprendi como é devagar – comer devagar, sorrir, dormir devagar, pensar e morrer – aprendi devagar.

Quando se caminha para a morte – devagar, devagar –, ainda alguém quererá ser espião? Foi no quente ano seguinte, no Lobito, era eu recepcionista no hotel de uma ditatorial alemã (estremeço só de a lembrar, aos gritos, no terraço sobre a Restinga), registou-se um cliente, um americano negro. Descobrimos, no quarto dele, nesse tempo de escassa comunicação, um telefone-satélite, gravadores, panóplia tecnológica de abrir a boca de espanto. Terá sido o mais perto que estive de um espião da CIA?

E eis onde queria chegar, às marchas finais da recruta. Caminhámos 30 quilómetros, a G3 e uma mochila eram, então, mais leves do que penas para os meus 20 anos. Montámos acampamento numa colina sobre um rio – o Lépi? – e fazíamos patrulhas. Numa madrugada a abrir-se em manhã, das mais belas da minha vida, ao sairmos do mato para uma clareira de capim alto, um antílope de grande porte, macho, as cruéis hastes a incendiar o começo do dia, olhava-nos. Ali estava, imperial e olímpico, indiferente aos pequeninos cadetes portugueses, ao chocalhar das G3, ao nosso espanto urbano. Era soberbo e soberano. O antílope, herbertiano, respirava devagar. Vi nele uma estátua de ouro e chamas. Uma visão que, como uma vagarosa ondulação, logo desapareceu.

Publicado no Jornal de Negócios

Pó de Los Angeles


Não sei se comece por Matt Dillon ou por Gene Hackman. Foi no mesmo hotel, o Sunset Marquis que choquei com os dois. O hotel fica no finalzinho da Sunset Strip, minúscula área da Sunset Boulevard boa para se andar a pé e que tinha até, na viragem do século xx para o xxi, uma livraria, Soup for the Soul, se ainda há nestes pobres neurónios memória do pó los angelino.
Na noite Dillon, chamemos-lhe assim, o Zé Navarro e eu fomos lá beber uns copos, a convite. Entrada selectíssima, num pátio ao ar livre, mesmo ao lado do bar, e demos com o Dillon. Tinha companhia e se era um velho ou novo affaire, o ainda jovem Matt estava longe de qualquer paroxismo ou angústia. Deambulava com o seu par, como Deus com os anjos, uma conversa suave e risonha. Mas a presença do coppoliano actor electrizava o hotel. E no bar, já havia ninfas em êxtase, uma das ninfas libertando o seio alvo, mamilo oferecido à boca de um qualquer e feliz fauno.
Lembrei-me de Eddie Mannix e de Howard Strickling, os dois mais famosos “fixers” de Hollywood. Eram eles que, no cinema clássico, consertavam a vida dos mais autodestrutivos dos actores: cuidavam de abortos, violações, estampanços de automóveis. Descobriria, já depois de deixar de ir a Los Angeles, cidade de que fui peregrino anual de 1992 a 2009, que o “fixer” actual é bem mais sombrio. Anthony Pellicano, condenado e preso, é o mais gritante exemplo. Nicole Kidman que o diga, escutada e gravada por ele, ilegalmente, logo que arrancou o seu processo de divórcio de Tom Cruise.
Pellicano merece uma crónica. Mas esta é a minha crónica de Los Angeles, cidade que conheci de autocarro, que só quase os pobres usavam, em 1986, com uma bolsa para estudar Coppola, três meses no campus da UCLA. Li no jornal gratuito da universidade, que um violador em série ameaçava o campus. Era o “blues suede shoes black rapist”. Um dia, na biblioteca, o funcionário afro-americano que me trazia livros, revistas e vídeos, olhou para os meus sapatos e viu que eram de camurça. Azuis, nem de propósito. Gritou: “Está aqui o violador dos ‘blues suede shoes’. Afinal é branco!” e ria-se. Era um afro-americano e tinha um sentido de humor caluanda. Que foi, aliás, o que a Califórnia e Los Angeles me lembraram: a Angola colonial. No clima, na leveza da roupa, na forma de vida informal.
Depois da sopinha dos pobres, frequentei, como diria o João César Monteiro, a sopinha dos ricos. Na SIC, visitei Los Angeles todos os anos, às vezes duas vezes por ano. E fiquei, uma ou duas vezes no Sunset Marquis. Sem Matt Dillon, diga-se, mas ao pequeno-almoço, na piscina, apanhei o Gene Hackman dois dias seguidos. Pequenos-almoços tardios, só nós os dois. E ele abrigava-se atrás de um jornal enorme, para não me ver e para que eu não o visse.
E não há piscina tão bonita como a do Chateau Marmont, hotel também na Sunset. Dessa piscina tem-se a vista nocturna mais inquietante de Los Angeles. São quilómetros de luzes, filas de luzes brancas, o incêndio vermelho de faróis retrovisores e de intermitentes semáforos, artificio e luminescência, certeza de que o mundo é só uma ilusão criada pelo homem. E lá estava eu, também com o Zé Navarro, e as amigas e amigos espanhóis, na exuberante noite los angelina, quando a mulher perfeita passa pela multidão em festa. Vinha só de roupão, que deixou cair, a nua brancura dela a contrastar com o “blue moon” da piscina. Mergulhou e nadou cinco minutos, límpida e nua. Um “fixer”, roupão na mão, ocultou-a, quando saiu: a intranscendente e intocável nudez de Los Angeles.

Publicado no Jornal de Negócios

Com o Eduardo, no cemitério dos Prazeres

Tudo começou com um bang! O estrondo de 1981 foi tal que o meu surdíssimo amigo Manuel Cintra Ferreira, encostado à grande coluna de som para ouvir melhor, foi soprado em voo para o meio da sala. Ia discutir-se, após exibição no Festival da Figueira da Foz, o filme “Rita”, primeiro e único de José Ribeiro Mendes. Discutir é como quem diz: o filme ia ser arrasado e o Eduardo Prado Coelho pontificava, para encanto das hostes. Só o metro e noventa do António Pedro Vasconcelos, a que se somava a estatura de cavalo anão deste vosso escriba, se opunha ao Eduardo: fomos vencidos e escarnecidos.

Nesse tempo, tinha – e tenho – os livros que o Eduardo escrevera. Apreciava neles uma certa ternura, sobretudo quando ele falava de raparigas e do aconchego de uma camisola de lã. Mas por influência dos meus professores Trindade Santos e Manuel S. Lourenço, pai da bíblica estrela que é hoje o Frederico, logo que esbarrava com a veneração do Eduardo à dislexia deleuziana e lyotardiana, esses bonzos jongleurs do não sentido, eu soltava urros de bicho ferido ou o risinho sórdido da hiena no mato.

Um dia, vínhamos no carro dele, da Embaixada da Hungria, e provoquei-o tanto com o Deleuze, que o Eduardo, ferido nos seus amores, já ziguezagueava o bólide, única vez em que o vi perder a calma magistral. Nos livros futuros, com elegância, desancou as minhas interpretações dos filmes do senhor Oliveira.

Julgo que a minha rivalidade espelhava o facto da Antónia, já casada comigo, e aluna dele, o louvar sem reservas como professor, pairando a 50 centímetros do chão quando, depois de ela deixar a faculdade, ele lhe veio dizer, com voz de açúcar, “a falta que faz a visão da sua beleza sentada junto ao repuxo do pátio da Nova”.

Para arredondar o fim do mês, eu escrevia então para as publicações do mítico Duarte Ramos. Desafiei o meu profe Trindade Santos para entrevistarmos o Eduardo. Fizemos-lhe uma entrevista que nos deixou felizes, a nós e a ele. Lembro-me que nos respondeu, com o seu físico de redondo vocábulo aninhado num pufe, gato ao colo, num conforto sibarítico de fazer inveja aos deuses.

Cheguei a casa e o gravador, zero: nem uma palavra ficara gravada. Refiz tudo, recorrendo à memória. Quando leu, o Eduardo, que nunca soube do desastre, deu-me os parabéns: eu tinha, afinal, entranhado o léxico e o pensamento eduardianos.

Quando fundei a Guerra e Paz, descobri que o Eduardo era meu vizinho. Moravam ali, também, o António Lobo Antunes, o Rui Zink e o inultrapassável José Vilhena. Convidei o Eduardo a vir à editora, com a sua Maria Manuel (e ele dela): prometi-lhes café e pastéis de nata. Cumpri e o Eduardo escreveu para mim o seu último livro, o “Nacional e Transmissível”, lançado com pompa no Frágil, está claro. Era um livro em que reencontrei a ternura que mais me seduzia nele, as raparigas, as carícias e o aconchego das camisolas de lã – se é que não são de caxemira! A cafés e pastéis de nata pastoreámos a velha rivalidade: o livro é profusamente ilustrado e uma das fotos é a da minha filha, quatro anos, a mergulhar numa piscina, com os seus bracinhos flexíveis de ginasta chinesa.  

Despedi-me do Eduardo no mais belo dos cemitérios, o dos Prazeres. Ao meu lado, o Pedro Bandeira Freire, dono do Quarteto, cinemas que tanto o Eduardo incensou. O Pedro começou a ler nomes nas tabuletas e, com aquele ânimo masculino ciente da vida e da morte, disse-me: “Já tenho mais amigos daquele lado do que deste!” Não demorou muito foi ter com o Eduardo. E lá estão, os dois, à minha espera.

Publicado no Jornal de Negócios