Blog de escrita e de reflexão lúdicas. Um lema: chatices não!
Author: Manuel S. Fonseca
Eis a felicidade: estar sentado num fim de tarde de Verão, na mesa um fino estarrecedoramente gelado e um prato de jinguba. E Deus sentado, ali ao lado, sendo certo e sabido que Deus é Amor e só Amor.
A Guerra e Paz editores fala, eu escuto, e faço eco.
Que insonsa seria a literatura sem a transgressão! Experimente e leve esta ousadia para casa. Ou ofereça-a como um desafio.
Juntámos três livros de que gostamos muito na Guerra e Paz. um Livro Amarelo, as três faces do miolo pintadas à mão, com o Cântico dos Cânticos e o Manual de Civilidade para Meninas; um livro com desenhos de João Cutileiro e os poemas do último poeta a ser queimado em público, em Paris, Claude Le Petit; o romance que pôs um fogo de paixão e escândalo no século XX, O Amante de Lady Chatterley.
É uma prenda libertina? Não, é uma prenda que se dá a quem tenha bom gosto e a humanidade plena, a que não falta o desejo e o prazer de amar. Está aqui e a prenda é sua.
A doutora Theresa Tham deu há dias uma mãozinha ao velho sátiro que era James Joyce. E se James Joyce agradecia alguma coisa era uma mãozinha. Mas enquanto vou ali e já volto deixem-me dizer quem é a doutora Tham e onde meteu ela a mão.
Theresa é a directora da saúde pública do Canadá e veio proclamar que neste vale de lágrimas que é a pandemia, a masturbação é a salve-rainha da actividade sexual, a sua mais graciosa oração. É mesmo o único safe sex, garantiu ela, prosaica e redutora, porque, se tivesse veia poética, a senhora directora da saúde desse vasto e erecto Canadá, poderia ter dito que, em boa verdade, a masturbação é o amor que não ousa dizer o seu nome. Porque o seu amor é o próprio eu. O masturbador, como os grandes dribladores, Garrincha ou Messi, encanta-se com a suas fintas, o seu slalom, com a elegância e ritmo dos seus gestos, num caso com os pés, no outro com a mão. Era capaz de jurar: James Joyce foi um Garrincha da masturbação.
E temo que a mão da doutora Tham não tenha o pathos que tanto estimulava o irlandês. Havia uma mãozinha católica a desabotoar as calças do autor de Ulisses. Do púlpito, padres em êxtase espiritual brandiam o fogo dos infernos contra esse pecado da impureza que assassinava corpo e alma, fonte de crimes e nigérrimos infortúnios. Já no Retrato do Artista Quando Jovem, Joyce leva o seu herói Stephen Dedalus, num momento de murcho arrependimento, a confessar-se numa igreja longe de casa, a um padre desconhecido, evitando pôr na mão do padre da sua escola os pecados que a sua ávida mão apertava.
Há um outro aveludado toque e um frémito vaidoso quando se peca contra o reino dos céus, a um passo das chamas sulfúricas do inferno. Joyce pagou mesmo a dura factura que a mole democracia lhe cobrou. No Ulisses, a sua sub-reptícia perversão imaginou outro herói, Leopold Bloom, agarrado à ponta mais ocidental de si mesmo, na praia, em sôfrego êxtase perante as pernas que, sem querer querendo, uma rapariga lhe mostrava, fogo de artificio na noite de Dublin, uma vela romana a ejectar estrelas no céu, e Leopold também. É a primeira explícita descrição literária do enérgico vaivém que exige essa actividade agora considerada segura pela doutora Tham. Logo os tribunais da América, e o puritanismo do mundo anglófilo, o condenaram, deixando o Ulisses, de Joyce, por dez anos à procura da sua Ítaca.
Já fui ali e já voltei e posso dizer-vos: os séculos XVIII e XIX abominaram a masturbação. Médicos e cientistas ameaçaram prevaricadores e prevaricadoras de mão leve e dedo ágil com a cegueira e a loucura. Foi também contra essa ameaça que, em 1904, num húmido jardim de Dublin, Nora Barnacle, futura mulher de Joyce, baixou a mão e a enfiou, formosa e segura, dentro das calças de Joyce, no primeiro encontro que tiveram, prodigalizando e alisando afectos (onde é que já ouvi esta palavra) ao que, no escritor, mais inflada carência ostentava.
“Cavalinho de circo a trote na pista” era como Joyce chamava ao que generosamente a doutora Theresa aconselhou há dias a toda uma nação: e vejamos como a doença de há dois séculos é agora a cura, para alegria de mil milhões de saudáveis mãos. Nas cartas a Nora, Joyce quer que ela lhe conte como se entretém, com que dedo, a que ritmo, e se, como ele, fazia maratonas. Santo padroeiro da masturbação, Joyce foi um dia surpreendido, numa sessão de autógrafos, por um leitor que lhe disse: “Deixe-me apertar a mão que escreveu Ulisses!” O escritor respondeu: “É melhor que não. Tem feito muitas outras coisas.”
Joyeuse entrée: Lisboa engalanada para receber o rei Filipe. (Com a devida vénia, do site A.Muse.Arte)
Lisboa cheirou bem ao nariz de Filipe II de Espanha. Comparado com o cheiro da Madrid fétida, merdosa até, varrida pelos ventos atlânticos, Lisboa cheirava a rosas nesse dia 25 de Julho de 1581, o dia em que Filipe de Espanha pisou o Terreiro do Paço, pisando, por muito que não quisesse, o povo de Portugal.
Madrid era então a capital de um reino em que o Sol nunca se punha, o reino de Filipe, filho da portuguesa Isabel, filha mais velha do nosso D. Manuel I. Madrid era também um repelente chavascal comparada com Lisboa, o maior porto da Europa, que Miguel Cervantes, autor de “Dom Quixote”, cantou assim: “A cidade é a maior da Europa e a de melhores maneiras; nela se descarregam as riquezas do Oriente e daqui se espalham para todo o universo. A formosura das mulheres espanta e apaixona. A galhardia dos homens pasma, como eles dizem. Esta é, enfim, a terra que aos Céus presta santo e generosíssimo tributo.”
É desta Lisboa que o rei espanhol fica cativo. A recepção fidalga terá ajudado. Aclamado pelas Cortes, em Tomar, é sumptuosa a recepção em Lisboa, que talvez quisesse ser capital do imenso reino que a tinha engolido.
Filipe II de Espanha podia ter feito de Lisboa capital do mundo. A cidade dominava os mares. Nela convergiam Ocidente e Oriente e a embocadura do Tejo parecia querer sugar a África, as Américas, a remota Ásia.
Querendo ser português, Filipe não chegou a ser tão português assim. Em Lisboa, multiculturalista avant la lettre, respeitou tradições: para os cargos sensíveis só nomeou portugueses e Filipe impôs que a língua portuguesa fosse a única dos documentos oficiais – nunca ele teria aprovado o famigerado Acordo Ortográfico. Falava um português aprendido da boca da mãe e de Dona Luísa de Mascarenhas, dama de companhia dela. Em Lisboa, foi tão português quanto pode: vestia-se, comia, fazia os horários dos portugueses, o que significa que terá mesmo sacrificado a sua siesta.
Apesar das insistentes pressões do pai, o sacro imperador Carlos V, Filipe não fez, porém, de Lisboa a capital do imenso Reino, com o que teria consolidado a União Ibérica e, numa lição ao isolacionista Trump, criado a plataforma ideal para o comércio americano que lhe fortalecesse o Império.
Filipe, neto de Manuel e filho de Isabel, não foi português bastante para fazer de Lisboa capital. Agradecemos-lhe: Portugal voltaria, por isso, a ser Portugal e Espanha há-de sempre continuar a sonhar ser a grande Espanha, que deixou de ser.
Filipe deu a Lisboa o Paço da Ribeira, a igreja de São Vicente de Fora e pôs no fim do rio a torre do Bugio. Cuidou dos mortos resgatando até o pálido cadáver de Dom Sebastião, o James Dean português.
Um dia de 1588 juntou na boca do Tejo 130 navios espanhóis e portugueses, a Grande e Felicíssima Armada, que deveria ser invencível, esmagar e pôr de joelhos a inglesa Isabel, filha de Henrique VIII e de Anna Bolena, que ao que parece o amava tão apaixonadamente que por ele suspirou em versos que tais: “Gentil príncipe de Espanha, vem, vem outra vez…”
Deixando-a, a 11 de Fevereiro de 1583, Filipe não fez de Lisboa capital, império de impérios; fez de Lisboa a mortalha donde saíram as velas da morte, as 130 velas que destruídas, incendiadas pelo bárbaro corsário, afundariam os sonhos ibéricos em chorado flamenco e ganido fado. Filipe amava tanto Portugal que ficou com a madeira de uma nau lusa em ruínas, a Cinco Chagas, e dessa madeira fez o seu caixão. Amava Portugal, era é um amor de morte. Que bem o teria filmado Luis Buñuel.
Já andava com saudades de Buzz e Butch. Ainda bem que os reencontrei. Se calhar, este é mesmo um mundo perfeito.
“Tu ama-la?” Vão no carro, Butch ao volante, Buzz enfiado no fato de Casper, o fantasminha feliz. Butch ainda tenta uma digressão distractiva: “Quem?” Mas a curiosidade de Buzz é obstinada e infantil: “A senhora que nos cozinhou os hamburgers…” E como é que se explica a uma criança quando é que um homem ama uma mulher?
Butch e Buzz saíram a correr de uma espelunca de estrada, como a correr saem de todos os lugares em que entram depois de um pequeno golpe de destino os ter juntado. Butch, presidiário em fuga, talvez fosse um tipo capaz de fazer o bem a toda a gente se soubesse como fazê-lo. Não se priva: faz o mal sempre que é preciso.
Buzz tem oito anos e nunca comeu algodão doce. A mãe, seca e solitária testemunha de Jeová, não consente e também não o deixa andar na montanha russa. Buzz dormia quando Butch e o criminoso que com ele fugiu da prisão lhe entraram em casa. Corre mal a invasão, como correrá tudo mal neste filme que de tudo correr tão mal tira a sua perfeição. Os dois bandidos levam-no, menino e de cuecas, como refém.
O miúdo Buzz descobre em Butch o pai que nunca teve. O criminoso vê no miúdo o filho que nunca há-de ter. Por ele, mata o pedaço de má rês que é o seu companheiro de fuga. Veste o catraio e dá-lhe de comer. Ia dizer, se lhe dessem tempo, faria do miúdo um homem… E corrijo: mesmo no tempo que lhe dão, Butch faz dele um homem. Põe-no a comer doces, a conduzir um carro e a meter travões a fundo, a ter confiança no pequeníssimo pirilau que, garante-lhe Butch, está muito bem para a idade que tem. O filme, incorrectíssimo , é “A Perfect World” e filmou-o Clint Eastwood depois de o ter muito bem escrito John Lee Hancock.
Quando já quase tudo ensinou ao miúdo e lhe matou a fome de tanta fuga, Butch, que no filme é um portentoso Kevin Costner, descobre que tem mais fome do que a fome que no miúdo e nele já apagou. E Eileen, a senhora que cozinha hambúrgueres, não deixa de ser a senhora que Buzz pensa que ela é, por ter apetites que nem a mais abençoada cozinha sacia.
Mandaram o miúdo apedrejar, lá fora, o que lhe apetecesse apedrejar. E aqui voltamos à obstinada curiosidade infantil do primeiro parágrafo: Buzz espreita e vê Butch beijar a senhora que mata a fome. Quando Clint Eastwood nos deixa ver o que os inocentes olhos de Buzz vêem, já Kevin Costner beija a fundo o que mais ao fundo a senhora tem, até que, vendo que são vistos, páram estarrecidos.
Do que gosto, nestes três poetas que publiquei, é da coragem discursiva que os anima. Nem sempre é comum nos poetas: muitos preferem proteger-se com a rarefacção. Ia dizer, também com a contenção. Mas a verdade é que a contenção também pode ser discursiva.
Estes três livros, o quotidiano a secar em verso, sombras e falésias e uma pedra sobre a boca, estão agora juntos, de outra forma, neste «e uma prenda em verso?». Leve-os e leia um poema por dia até ao Natal. Envolva-se emocionalmente com a linguagem viva que neles se assoma, verso a verso. Eugénia de Vasconcellos, Dinu Flammand (tão bem traduzido por Corneliu Popa) e João Moita, da aurora ao crepúsculo, oferecem-nos o dia pleno, a vida restituída em essência e intensidade. É a prenda mais bonita. Tenha prazer: dê!
E nem falamos de preço: neste caso o todo é menor do a soma das partes. Afinal, bem precisamos de um poema por dia.
La Bruja, cantada por Tlen Huicani. Descaradamente, mas com a devida vénia, picado do belíssimo mural de Carolina Floare Borona
Ay! dígame, dígame, dígame usted, ¿cuántas criaturitas Se ha chupado usted?
Ninguna, ninguna, ninguna no sé, ando en pretenciones de chuparme a usted.
Os Tlen Huicani, uma espécie de Giacometti lá do México, são, desde 1973, fabulosos e genuínos intérpretes do património musical mexicano, mais especificamente de Vera Cruz. Entre Finados e Dia de Todos os Santos, para reencontrarmos os nosso mortos e as nossas bruxas, no casamento de vida e morte que são todos os dias desta nossa humaníssima vida, em que todos andamos en pretenciones de chuparnos a usted.
Saí há minutos da sala de cinema. Fui ver Aznavour, le regard de Charles (Aznavour por Charles, em português). Eu sempre vi e ouvi nas canções de Aznavour, além da voz e dos violinos nos tempos certos (como se eu soubesse, valha-me Deus – mas era como se desculpava, em vida, o meu velho amigo Chico Grave, por tanto gostar e por ter aprendido com o Zé Mário Branco), sempre ouvi, dizia eu, outro som, outro anseio que ia bem mais longe do que a aparente sentimentalidade das palavras e da composição, a que se juntava a expertise do crooner.
Este filme, delicioso e nostálgico, veio dar-me razão. Edith Piaf, em 1948, deu uma câmara de filmar a Aznavour, que era então seu secretário. De 48 a 1982, Aznavour filmou tudo e filmou-se todo. Há quem tenha um diário, quem vá escrevendo textos para memória futura. Aznavour, em 8 e 16 mm filmou a sua vida, à procura das suas raízes e desraízes arménias e outras, filmou a sua luta para vencer preconceitos e barreiras no mundo da canção, filmou Marrocos, Argélia, Senegal, quem sabe se a Luanda onde esteve nos anos 60, filmou a América e a União Soviética, Hong-Kong e Macau, o Japão. Filmou as mulheres que amou, o filho que as drogas mataram aos 25 anos, filmou os amigos e Paris, Veneza, o mar. As imagens são de uma sinceridade tão amorosa como pungente. Há nelas um olhar, porque Aznavour tinha um olhar, carregado de uma sempre insatisfeita ambição à procura dessa coisa francesa a que eu chamaria bonheur. Felicidade? Talvez, mas o bonheur francês sugere um bem estar tranquilo, um contentamento de boa hora, de que a agitação sonora da palavra “felicidade” nos afasta e perturba.
O fio narrativo em off recupera textos, entrevistas ou letras das suas canções. É de uma sensibilidade admirável, pela exposição e pelo conhecimento de si que procura e alcança. Marco Di Domenico, a quem Aznavour entregou os filmes e a missão de os converter neste documentário (que é um bela peça de ficção) de menos de 90 minutos. A homenagem que lhe faço é que gostaria de ver ainda mais, e de passear com ele pelos inesgotáveis quilómetros de imagens que ficaram no arquivo.