Blog de escrita e de reflexão lúdicas. Um lema: chatices não!
Author: Manuel S. Fonseca
Eis a felicidade: estar sentado num fim de tarde de Verão, na mesa um fino estarrecedoramente gelado e um prato de jinguba. E Deus sentado, ali ao lado, sendo certo e sabido que Deus é Amor e só Amor.
Agora que a Assembleia Nacional francesa aprovou a «lei do separatismo», proposta por Macron, um passo vital para expor e combater o radicalismo islâmico, mais sentido faz ler Destruir o Fascismo Islâmico, de Zineb El Rhazoui, sobrevivente do ataque terrorista ao Charlie Hebdo. A nomeação para o Prémio Nobel da Paz, que foi anunciado recentemente, é um reconhecimento da batalha corajosa que Zineb assumiu travar em defesa do universalismo e da laicidade.
Este é um livro de que a Guerra & Paz muito se orgulha. Contra tribalismos e identitarismos, em defesa da liberdade de expressão e de pensamento.
Se um dia hei-de morrer, e morrerei, seja o céu do claro azul que tanto amei, nesta terra do Sul
Eugénia de Vasconcellos, o quotidiano a secar em verso
Os sete livros que estão na imagem acima dão corpo à colecção de poesia da Guerra & Paz. Podem amanhã estar em sua casa e oferecer-lhe sete formas de dizer a verdade, se o poeta é esse «mentiroso que diz sempre a verdade», como assegura Jean Cocteau.
Podia convocar um cortejo de razões para persuadir os meus leitores a comprar esta colecção. Prefiro apontar a dedo (é um vício: disseram-me que tenho os dedos bonitos) à singela condição e missão da poesia – a poesia tem no seu coração e mente um só propósito, proteger a linguagem da degradação e do empobrecimento. O que a poesia quer, na sua contenção ou exaltação, é trabalhar e polir cada palavra para que possamos confiar no seu potencial de encantamento e sonho, lirismo ou epopeia.
Nestes sete livros, o que me atraiu, como editor, foi o amor às palavras e a liberdade com que os seus autores, da Eugénia de Vasconcellos à Ana Paula Jardim, passando pelo Dinu Flamand, João Moita, Tchiangui Cruz e André Osório, lhes entregaram silêncios e explosões, vingança e redenção, corpos e almas. Há uma inquietação e uma surda alegria a correr nas páginas destes sete livros: a da permanente invenção da linguagem, convertendo-a num instrumento que nos permite descobrir novos sentidos para a vida. T. S. Eliot, corrigindo o que Cocteau disse, garantiu, sem o desmentir, que «a poesia não é uma asserção da verdade, mas sim tornar a verdade ainda mais real para nós.»
Estes são setes livros grávidos de realidade e de vida. Peço a quem ainda estremece com o amor, a quem ainda se exalta com o primeiro raio do sol da manhã, a quem ainda se espanta com a violência do mundo, mas também com o milagre da harmonia que por vezes o inunda, que leve, leia e guarde estes sete livros. Tem aqui a mais fiel das companhias.
Está mesmo frio lá fora e este romance tem todo o calor e humanidade que são precisos para fazer da desolação conforto. Mas o romancista, em estreia, ambiciosa, diga-se, explica tudo bem melhor do que eu. Ouçam-no neste vídeo.
Se quiser, e sem quebrar as regras do confinamento, a sua casa pode ser invadida por uma alegre multidão, de Jane Austen a Joseph Conrad e D. H. Lawrence, de Mark Twain a Luís de Camões, de Louisa May Alcott a Herman Melville, Oscar Wilde, Machado de Assis e Flaubert.
Está tudo explicado na imagem acima, mas eu, que sou bem mandado pela Guerra e Paz, repito tudo. Os 41 livros da colecção Clássicos da Guerra & Paz podem ser comprados na totalidade por 300€. É uma promoção – um verdadeiro raide – que dura só 48 horas, até às 23:59 deste domingo.
Eu lembro que estes são livros escritos por autores a quem a humanidade que somos atribui o estatuto de génios. Não preciso de lembrar, porque basta olhar que as capas destes livros: são lindas as capas. E há um bónus. Todos estes livros, ao romance que dá título à obra juntam uma introdução e textos em posfácio que ajudam a enquadrar as obras.
São 41 livros: uma torrente de emoções e de inteligência, de refinamento literário e de empolgamento narrativo. São mais de 41 vidas para juntar à sua vida. Até Wall Street estaria de acordo comigo: leve-os, melhore o seu património!
Sendo embora Churchill, nesse manso ano de 1909 ainda Churchill não era Churchill. Ninguém, na estação ferroviária de Bristol adivinhava, aliás, o frenético e bárbaro século em que, a comunismo e nazismo, se converteria o século XX. E repito, o ano era manso, manso o comboio, manso o passo que tirou o ministro Churchill da carruagem para o cais, mansa a comitiva municipal que o esperava.
Ora, eis que, na gare de Bristol, a voz do futuro rasga a mansidão de 1909. É uma voz de mulher. É uma voz e um relâmpago: já está em frente a Churchill e, “toma, seu bruto! toma, seu bruto!”, chicoteia-o com a sua indignada força feminina. O chicote apanha o chapéu alto do cavalheiro, roça-lhe a face num beijo mordido, que minutos depois há de ser um indelével vinco rubro na pele pálida e leitosa do jovem ministro.
Já a mulher levanta segunda vez o chicote. Mas já Churchill desperta também da sua letárgica mansidão de 1909, antecipando o homem que há de ser em 1940. Segura o punho da mulher revoltada e torce-o até que ela largue o fino látego. A mulher, chapéu de viúva alegre, juram os jornais da época, ainda grita, só que os atarantados polícias recuperam a sua violada e vexada autoridade e arrastam-na para fora da estação. E peço dez segundos de atenção aos vossos olhos. Vejam: Churchill vai enfiar o chicote no bolso do casaco – já enfiou. Viram?
Descruzam-se as vidas da mulher e de Churchill. Na esquadra, recusa identificar-se, mas depressa a lesta vigilância patriarcal reconhece nela Theresa Garnett, singular militante sufragista. O jovem Winston dirá que ela é só uma “dessas mulheres tontas”, mas no Cronston Hall, onde ele fala nessa noite, uma pedra partirá a vidraça da ampla fachada e dois homens, depois retirados à bruta da sala, cadeiras pelo ar e uma plateia em apupos, far-lhe-ão perguntas que mostram a Churchill que talvez tenha de acertar o relógio pelo relógio do século. Perguntam-lhe: como pode ter mulheres na prisão há seis meses por oposição política? Por que não dá, o governo liberal, o voto às mulheres?
O que outros séculos tinham insinuado, o século XX exigia: a casa da democracia, se não queria ter telhados de vidro, precisava que nela se sentasse a mulher. Acredito, por isso, que Theresa Garnett, no idealismo exclamativo dos seus 21 anos, quando quis chicotear o intransigente Churchill, tenha gritado, já com a voz a acariciar a posteridade, e como outro jornal relatou, esta frase mais nobre: “Toma, em nome das mulheres inglesas que insultaste!”
Churchill, dir-me-ão se por nobreza ou condescendência, recusa depor acusação: bastou-lhe o gesto simbólico de meter o chicote de Theresa no seu bolso de ministro dos assuntos internos. As autoridades acusam-na de perturbação da ordem pública: um mês de prisão, determina o juiz, ao que Theresa responde com greve de fome. Não era a primeira vez. Meses antes, comemorava-se o aniversário de Sua Majestade, o rei Eduardo VII, e Theresa infiltrou, com marido e vestido emprestados, uma fina recepção oficial. Logo desatinou num discurso arrebatado até ser, digamos, levada em ombros para o esplêndido olho da rua.
Theresa abandonará a militância activa quando as sufragistas iniciam uma campanha secreta de incêndios e pegam fogo à casa do ministro das finanças, mas estará na frente de combate, em França, na I Guerra, como enfermeira. Será condecorada por galante e distinto serviço no terreno. Esse heroísmo das mulheres, na retaguarda e na frente, foi a passadeira vermelha para a igualdade de voto, que ganharão a seguir.
O que é o fogo no rabo de um editor? É pôr livros nas mãos dos leitores. Vendê-los, claro, esse verbo proibido e temido no vocabulário português: os livros como os bebés é uma cegonha que os traz no bico. A economia como o sexo, em Portugal, só lá vai de eufemismo: é tudo um bico.
A Guerra e Paz quer vender os seus livros e não pode. Alguém escreveu num despacho a palavra “proibido”. Agarrámos, por isso, nos nossos livros e pusemo-los na boca de uma baleia. Já nos disseram que ficou bonita a baleia – e o vídeo que o Mário Borges fez. Os livros, então, ficaram ao preço de jaquinzinhos: frescos e saborosos.
É um vício português. Não vou dizer que seja só nosso, até por nada ser já nosso. Mas é também um vício português. É este o vício: temos a nossa cabeça cheia de gavetas e a novidade inclassificável assusta-nos.
Um romance de Pedro Bidarra é uma novidade inclassificável. Não sabemos o que fazer com ele. Sobretudo, ofendidos pela ousadia, sabemos que não o vamos ler. Que desaforo, aparecer-nos, assim, uma novidade inclassificável, quando já trazemos a vida semeada de dúvidas. E se lemos? E se gostamos? E se, depois, os que sabem e sabem muito, nos dizem que é mau e temos de desgostar? Ou vice-versa, que também é um sarilho!
Azulejos Pretos, o romance de Pedro Bidarra, não é, de facto, um livro autorizado, nem recomendado. Não vem com bula. Experimente lê-lo: sem bússola, na noite escura, quando tudo é preto, as memórias, a melancolia, a música, o sarcasmo, o horizonte.
Quase a terminar o ano de 2020, publiquei este livro, Azul de Lisboa, Azur de Lisabona. Mas os verdadeiros editores foram os meus amigo romenos, Iona Bivolaru, Embaixadora da Roménia em Lisboa, e o Daniel e o Gelu, meus amigos do Instituto Cultural. Eles tiveram a ideia de juntar escritores, artistas, diplomatas romenos com vivência de Lisboa, pedindo-lhes um testemunho: que Lisboa viram os olhos deles? Estava tudo a ir muito bem, quando me pregaram um susto: pediram que eu escrevesse também. Desse susto nasceu esta confissão.
Um doce anseio de pecado Manuel S. Fonseca, editor
Na formatura, nas saídas nocturnas, na carreira de tiro, nas marchas finais, fazia eu a minha recruta de aspirante a oficial, na Escola de Aplicação Militar de Angola, e havia um peso romeno a atafulhar o bolso da farda feijão-verde regular ou a do camuflado. O peso romeno, uns cem gramas, era o livro de um escritor, Mircea Eliade. Entre uivos e explosões corria 1974 e, naqueles tempos de acelerada marxização de Angola e de Portugal, a contrabalançar a minha inclinação maoísta, lia ou devorava-lhe as teses de O Sagrado e o Profano, a Essência das Religiões. A G3 numa mão, Mircea na outra, diria, se quisesse vender de mim a imagem do guerreiro que não sou nem nunca fui, mesmo se algum dia cheguei a pensar que o poder estava na ponta de um fuzil.
Mas se em vez de maoista eu fosse bruxo, teria visto, nesse livro delgado, que ia jurar ser em papel bíblia, um signo. Nesse pé coxinho entre sagrado e profano a que Eliade me obrigava, teria antecipado que a minha vida descambaria nesta via sacra a que se dá o nome de edição. Eterno retorno ou não, seria eu próprio, uns crísticos trinta e três anos depois, editor de Mircea Eliade, publicando-lhe o Diário Português. E penso agora que se o metesse no bolso do velho camuflado iria já em 400 gramas de estranho, exógeno, peso romeno.
Foi António Lobo Antunes quem fez desaguar este adventício peso no estuário de amizade com que hoje alguns escritores, e este Instituto de Cultura Romena, de Lisboa, dos amigos Daniel e Gelu, me agraciam. Numa bélica e estratégica barragem de telefonemas – belíssima, por isso – António e o seu amigo Dinu Flamand agarraram em mim ao colo (não é difícil que não sou pesado), e sentaram-me na contemporaneidade romena. Ao Dinu, publiquei as suas tão evocativas Sombras e Falésias, de que é antecâmara um prefácio de António Lobo Antunes. E logo, por sugestão do Dinu, a Antologia de Poesia Romena Contemporânea, viagem pelos últimos 50 anos com os 27 mais representativos poetas da nação romena. Tudo com assombrosas traduções de Corneliu Popa.
Chego agora a este Azul de Lisboa, de que serei imerecidamente editor, livro em que me sinto deliciosamente perdido. Onde estava esta Lisboa que olhos romenos me revelam? Para meu espanto e vergonha, descubro que até com os pés estes romenos vêem Lisboa, evitando pisá-la, levitando, para descobrirem nas calçadas negras e brancas os desenhos de pássaros e insectos, de naus e ondas do mar.
Os olhos dos romenos são iguais aos olhos do Cervantes que escreveu os Trabajos de Persiles y Sigismunda, no livro terceiro cantando a sublime entrada em Lisboa pelo estuário do Tejo, “terra que ao Céu presta santo e generosíssimo tributo”.
Eu sei bem, tardio habitante desta cidade, a que cheguei já com idade de homem, que em certos dias límpidos de Outono, a luz de Lisboa é a mais bonita luz do mundo. Essa luz deixa-se dormir durante a manhã e, como certas mulheres que prezam o brilho juvenil da sua pele, acorda, esplêndida e ociosa, pelo meio-dia. É uma luz fina, discretamente resplandecente, luz em papel bíblia, deslumbrante e intacta, que cria a ilusão da harmonia do mundo.
Neste Azul de Lisboa, olhos e vozes romenas desdobram-se em vagas de elogios às colinas, rio ou Bairro Alto, fado ou a encalhada Torre de Belém. Bebi, talvez no seio materno, o embaraço perante o elogio – é da minha Lisboa que falam! Torço-me e logo deslizo para a autodepreciação. Mas por mais que deteste os elogios, sei reconhecer o amor. E a Lisboa, a este Tejo que é um mar a fingir de rio, é amor o que os olhos e as vozes dos romenos de Azul de Lisboa confessam, mostram ou cantam. O mesmo amor que cintila nos olhos azuis de António Lobo Antunes quando me conta e reconta o seu fascínio pela Roménia, pelos seus poetas ou, com doce anseio de pecado, pela beleza das suas mulheres. É esse doce anseio de pecado que também este livro, Azul de Lisboa, celebra.