Blog de escrita e de reflexão lúdicas. Um lema: chatices não!
Author: Manuel S. Fonseca
Eis a felicidade: estar sentado num fim de tarde de Verão, na mesa um fino estarrecedoramente gelado e um prato de jinguba. E Deus sentado, ali ao lado, sendo certo e sabido que Deus é Amor e só Amor.
Fui à Mansão e não estava lá James Caan. A Mansão é a de Hugh Heffner e tinha tudo o que fez a tépida e insuportável felicidade de James Caan, o actor que agora morreu e lá viveu. Entrei. Uma orquestra de jazz tocava ao ar livre do alto dessa colina de Mulholland Drive. E o que vi tanto me enterneceria a mim como ao mais pálido e animalista sequaz do PAN: havia um vendaval de playmates – camonianas ninfas, claro –, mas também havia esquilos, macacos, tucanos, papagaios, pavões brancos e flamingos cor-de-rosa, ainda mais bonitos do que os meus flamingos do Lobito. Havia outras feras e centenas de coelhos, lots of rabbits.
As playmates levaram-nos depois para o celestial aconchego de uma sauna escavada na rocha. Olhei e nem James Caan, nem Jack Nicholson se escondiam nas caves pré-históricas, que a perversa mente de Heffner, pai da Playboy, construiu.
Se ainda me lembro, conheci James Caan no Regimento de Infantaria de Luanda. Não é que ele lá tenha feito a tropa. Mas havia no meio desse imenso quartel uma daquelas esplanadas-cinema tropicais – tal como havia outra na 7.ª esquadra. Numa das minhas noites adolescentes exibiu-se “Rain People”, o filme de Coppola a que a distribuição portuguesa deu um título lamechas: “Chove no Meu Coração”. Mas chovia, sim senhor. Chovia no filme, chovia na cabeça de Shirley Knight, a protagonista, e choveu em mim mal vi James Caan. Caan andava à boleia e era de uma intranscendente ingenuidade. Tinha nele toda a candura da América. Descobriríamos, depois, que o Caan desse filme jogara futebol americano na universidade e um traumatismo craniano lhe provocara um atraso mental irreversível.
Mais tarde, pela mão de Coppola, conheci outro Caan. Era já Sonny, um dos filhos de Don Corleone, no primeiro “Padrinho”. Peito peludo, embora sem atingir o estilo símio que me caracteriza, tão macho como a rapaziada da minha Vila Alice, incapaz de dirigir o pululante desejo, perplexo perante as nuances e contradições do mundo, o que lhe desencadeia fúrias honestas e unilaterais.
O que quero dizer é que James Caan, o actor que agora morreu, nunca se livrou destas duas personagens, a de “Rain People” e a de “O Padrinho”. A inocência e a fúria com palas moravam nele como cidades geminadas. Casou não sei que infinidade de vezes. Num dos divórcios ficou a morar no olho da rua, para que a vida confirmasse o que a arte de Coppola inventara em “Rain People”. O prosaico Heffner salvou-o. Pô-lo a morar na mansão da Playboy, como se pusesse um menino guloso na dispensa cheia de marmelada.
Todos o conheciam: os esquilos subiam por ele acima, e há uma foto dele com um esquilo ao ombro e a angélica playmate Dorothy Stratten risonha e espantada, ainda sem adivinhar que um ciumento namorado a assassinaria. Conheciam-no os valets que arrumavam carros e ai de quem lhe tocasse no Jaguar Roadster. Nem mais: está ele a sair da mansão e de outro carro saem Jack Nicholson e uma eléctrica e resplandecente mulher. Embrulham-se um no outro, com incontrolável vontade, tombando sobre o capot do Jaguar de Caan. Estarrecido, o valet diz-lhe: “Mr. Caan, tiro já o seu carro!” Caan, um sereno Caan de “Rain People”, diz-lhe: “Meu filho, não tentes tirar a carne da boca do leão que come. Quando acabarem, estou na cozinha.”
Um dia, o infinito e a transcendência a baterem-lhe na cabeça, Caan abandonou a Mansão. Deu uma explicação cabal. Atormentavam-no, no meio daquele oceano de delícias, impulsos suicidas: “O melhor é eu matar-me, melhor do que isto já nunca mais vou ter!”
Ouçam, ouçam. E como é a voz de Jackie Kennedy, peço que se sentem primeiro. Jackie e John vieram em visita de Estado a França. Jantam com De Gaulle e com André Malraux, o ministro da cultura, nesse sumptuoso clarão que é o Chateau de Versailles. E eis o que Malraux acaba de perguntar à sedutora Kennedy: “O que fazia antes de conhecer o John?’”
Passa um fulgurante segundo, a boca colorida de Jackie abre-se: “Era virgem!” disse ela, com riso e ponto de exclamação.
Nesse fulgurante segundo de virtude, talvez Malraux tenha esquecido a fresca tragédia: poucos dias antes, ao volante de um Alfa-Romeo descapotável, tinham morrido os seus dois filhos, estraçalhando-se contra uma árvore, nas mil curvas da Côte d’Azur. O carro oferecera-o Clara Saint, menina de 23 anos, milionária de origem chilena, noiva de um dos rapazes.
Paris era, nesse fim de Primavera, começo de Verão de 1961, uma cidade invencível. Animava-a um inconcebível amor, uma doçura libertina, um talento que não escolhia pátria. Clara dissera aos irmãos Malraux: “Não vão agora, vão perder os russos do ballet Kirov.” “Viremos a tempo dos Kennedy”, protestaram eles, sem adivinhar que mentiam.
Não sabiam, nem Clara, que os Ballet Kirov trariam uma raridade de que o Ocidente ainda não soletrara o nome: Rudolf Khametovich Nureyev. Era um menino e nem era o bailarino principal, mas em Paris uma alegria vermelha e branca, hipnótica, tomou-lhe conta das coxas, do torso, dos movimentos invacilantes. Clara estava lá nessa noite. Foi com Pierre Cotte, um bailarino francês, aos bastidores. Arrebatada, talvez apaixonada, levou Nureyev para a noite de Paris. O russo escapou-se aos KGB, que vigiavam a companhia, e reconheceu essa galáxia de que lhe falara o seu jovem amante, o bailarino alemão do leste Teja Kremke. Viu as luzes vagabundas, a música sem dono dos indomesticados sons, a contente e desangustiada madrugada. Soube, então, que devia seguir o conselho do amante: ficar no Ocidente.
Nureyev saiu todas as noites e todos os dias, deixando de cara amarrada os bufos do KGB: fez coisas simples, como chorar a ver no cinema o “West Side Story”, rezou na Madeleine, sem se lembrar que era ateu. De Moscovo, vieram ordens para o despacharem: já! Mas o êxito estratosférico de cada noite em Paris recomendou prudência. O Ballet Kirov ia para Londres. No aeroporto de Bourget fariam a diversão, metendo Nureyev no Tupolev para a União Soviética, esse ligeiramente fanado Sol da Terra.
E vejam: os KGB acabam de explicar a Nureyev que Krutschev o quer numa gala especial: Londres, niet! Nureyev esboça um protesto. Reforçam: a mãe de Nureyev está mal e ele tem de a ir ver. Veio ao aeroporto, despedir-se dele, o bailarino francês amigo. Nureyev murmura-lhe um “salva-me”, e acrescenta um “vão mandar-me para a Sibéria”. Cotte telefona a Clara. A libérrima Clara vem de escantilhão. Terá falado com Malraux, que lhe explica como se faz. Os polícias franceses dispõem-se no bar. Nureyev terá de lhes pedir asilo: não podem ser eles a arrancar Nureyev à vigilância dos chuis soviéticos. Clara, a pretexto do último beijo, sussurra o esquema a Nureyev e sai de cena.
O bailarino faz, então, o pas de deux da sua vida, deixa surpreendidos os KGB, e grita, em inglês “I want to stay in France. I want to stay in France”. Franceses e KGB empurram-se, já Nureyev está isolado numa sala. Tem a solidão de um conhaque à frente e 45 minutos para pensar. Escolhe o que se sabe. E penso: aqueles dois KGB talvez nunca mais tenham voltado a uma sala de ballet.
Esta é, em três fragmentos a que só por inadvertida audácia se pode chamar capítulos, a história de rejeição e paixão de John Gilbert e Greta Garbo, ídolos da América e do mundo, no final dos anos 20 e começo dos anos 30. Para os mais jovens, acrescento mais informação: eram actores de cinema. E complemento: cinema era uma arte de sombras, indulgências, tesouros e cabalas, cultivada pela calada da noite em insidiosos palácios nocturnos, invisíveis durante o dia.
Heróico, viril e vil
Todo o passado é sincrético. Como sabem, John Gilbert é um actor do tempo de Homero ou Ben-Hur ou não fosse o cinema uma invenção mediterrânica. Um dos criadores desse cinema da antiguidade clássica foi Louis B. Mayer. Judeu, claro. Como Aquiles, era heróico, viril e vil. De poderoso soco. Basta vê-lo, à porta do Alexandria Hotel, aos murros a Charlie Chaplin. Foi em Los Angeles: na minha antiguidade clássica já havia América e hotéis de cinco estrelas.
Mas é de outro soco que falo. A viking Greta Garbo chegara a Hollywood. Vinha filmar “Temptress”, auto-estrada de adultérios em cadeia. Isto passou-se em 1925 e 1926, anos de lânguido aquecimento e dilatação dos corpos em Hollywood, como o provam os filmes que Mayer então produziu.
Queriam convidar John Gilbert para acasalar com a escandinava Garbo. Gilbert ainda não a vira, nem a queria ver. Tinha na cabeça outro filme e foi contar a história a Mayer, seu boss. Ouçam-no: numa idílica Inglaterra, um rapazinho decente vive com a mãe viúva, honrando-a com amor incondicional até se apaixonar por uma prostituta que o alivia da virgindade. Uma espiral de perdição arrasta o bom moço: assaltado por esses ciúmes mouros, que Shakespeare inventou, mata o amante da amante e é condenado às galés.
“Mas que disparate de filme, um rapazinho honesto com uma prostituta”, enervou-se Mayer. Gilbert agarrou-se às artes, à “Dama das Camélias”, de Dumas, à “Anna Christie”, de Eugene O’Neill: “É a mesma coisa”, disse o actor.
Mayer chamou bastard a Gilbert e juntou-lhe este mimo: “Só um depravado é que mete uma puta na história da mãe amada e do seu filhinho.” Gilbert não se conteve: “O que é que tem? A minha mãe era puta!” Já o fulminante punho de Mayer se lhe cravava no queixo, fazendo-o morder a alcatifa. “Devia cortar-te os tomates por dizeres isso.” O invencido Gilbert levantou-se. Sem punhos, mas com voz: “Mesmo sem tomates, sou melhor do que tu.” Seguraram Mayer que o queria matar. “Maçã podre… não tem amor à mãe.”
O irrestrito amor de Mayer à mãe é uma chave para a história do cinema americano. Nesses anos de Lei Seca, Mayer tinha no estúdio um tipo encarregado de arranjar bom álcool, tinha um bordel para as visitas, dois homens para apagar as malfeitorias das suas estrelas, um gabinete médico para os abortos das actrizes. Rendido às debilidades do mundo, redimia-o o homérico amor à mãe.
A indecifrável Garbo
Ilha dos Amores em Hollywood
Era tudo proibido e havia portanto toda a liberdade. Tenho estes dois olhos que a terra há-de comer apontados a Hollywood e, em Hollywood, a essa pequena porção de paraíso que era a MGM.
Lembro a tradição que começou no Natal de 1931, já Louis B. Mayer esmurrara John GiIlbert e já Gilbert conhecera a indecifrável Greta Garbo. É Natal, estamos nos estúdios da MGM e o católico Eddie Mannix deixou partir o patrão, Louis B. Mayer, ecumeníssimo judeu. Manix dá agora as suas ordens: cada um beberá o que quiser e cada um fará sexo onde quiser com quem, consentindo, queira. É de católico! E olhem, num impulso camoniano, eriçados actores, lânguidas actrizes, electricistas faíscantes, carpinteiros de poderoso martelo, as hábeis jovens de dedal e guarda-roupa transformaram o estúdio numa cantante ilha dos amores.
Não emprestarei a débil escrita aos suspiros e ais desse reaccionário convívio anti-luta de classes que foi, por alguns anos, a secreta e nua tradição natalícia da MGM. Se escrevo é para cantar a dignidade do amor do século, esse segundo em que os falecidos imortais Greta Garbo e John Gilbert se apaixonaram. Eram as estrelas de “The Flesh and the Devil” e esbarraram um no outro nos ensaios. “Hello Greta”, disse Gilbert, com uma bonomia que, frigidérrima, a sueca logo congelou: “My name is Miss Garbo”.
Pois está claro: mal começaram a trabalhar, duas noites depois, era tiro, queda e cama. E lembro, por ser verdade: a MGM do pudico Louis B. Mayer escondia, por tradição, os leitos transgressores das suas estrelas. Mayer sentiu que este era, agora, um mundo às avessas e escancarou a informação. Com quase anúncio público, Garbo e Gilbert passaram a viver juntos e os mirones tentavam trepar os muros da mansão para ver uma ponta de lençol, uma lasca de perna ao sol na piscina, a cama de mogno africano, misteriosa madeira que confere ao amor outra funda escuridão.
Quem revir hoje “The Flesh and the Devil” vê dois corpos apalpantes com sede um do outro, beijos de boca aberta que o cinema então não dava. A desabrida paixão de Gilbert quis casar. Garbo aceitou e marcou-se a pagã festividade. A elite da MGM a postos, só faltava chegar Garbo. Ainda hoje lá estariam à espera, não tivesse Mayer desistido. Gilbert, o abandonado Gilbert, chorava na casa de banho. O patrão foi brutal: “Não te basta comê-la? Para quê casar?” Um rebate lírico-passional levou as mãos do actor ao pescoço do patrão. Matava-o ali se o católico Mannix não o viesse salvar. Gilbert voltaria, depois, pouco depois, à cama de Garbo, antes de Garbo partir para outras camas. A Gilbert, às mãos de Gilbert que quase o estrangularam, Mayer serviria fria a vingança.
Mamoulian é o caixa de óculos à frente da Garbo
Tirar a roupa
Se a história do cinema ensina alguma coisa é que vem aí, agora, depois destes anos 20 do século XXI, uma década de libidinoso aquecimento. No século do código Hays, passagem dos anos 20 para os 30, tudo era proibido. Mesmo o beijo na boca era só uma lástima de beijo na boca.
Ora, as proibições, tal como os revolucionários, não dormem. Voltaram agora. Palpita-me, por isso, que vamos viver – já estamos a viver! – uma década de libidinosa vigília proibitiva. Antecipo as consequências: toda a proibição dilata os corpos e foi essa imparável expansão humana que, subversiva, inundou Hollywood naqueles anos pudibundos.
Poderá pensar-se que eram só os homens abusadores, pés fincados no danado poder patriarcal. E já vemos o produtor Irving Thalberg, nove da manhã, a tocar à porta da campainha da casa de um argumentista que abre espantado: era a primeira visita e a amante que Thalberg procurava morava na casa ao lado.
Mas o estado de ebulição tanto foi masculino, como feminino. Com excepção de Santa Lilian Gish, também as mulheres eram cometas, cauda em fogo, no céu de Hollywood. Até Jeanette McDonald, mais virgem na hora da morte do que quando nasceu, terá amado com clandestino e nuíssimo ardor o seu agente, recusando os avanços do patrão Mayer.
Greta Garbo fez do mundo um saco de gatos. Amou, dormiu e estraçalhou John Gilbert, o Brad Pitt daquele tempo, deixando-o pendurado no dia do casamento. Depois, fugiu seis vezes de “Susan Lenox”, filme com Clark Gable, por se ter apaixonado à primeira vista por Mercedes Acosta: iam juntas nadar nuas e, juntas, iam subir montanhas (talvez vestidas), “glorioso deus e deusa – cita a talentosa Acosta – fundidos numa só. Seis semanas pareceram seis minutos”.
Mas Garbo, em fogo nos braços de Mercedes, conheceu o realizador Rouben Mamoulian. Foi no assombroso “Queen Christina”, em que Garbo usava calças. E o que eu quero ou tenho de dizer é que entraram dois pares de calças em pecaminosa combustão. Mamoulian era um desengraçado caixa de óculos (tive uns óculos iguais), mas a Garbo apaixonou-se pela tão tacteante miopia dele. Apeou a amada Acosta e fugiu seis semanas com o realizador míope. Chegaram, crê-se, a casar, mesmo se a cerimónia foi duvidosa e se os papéis não têm valor.
Elucidativo do escaldante clima moral foi o horror de Louis B. Mayer a entrar num gabinete e ver o argumentista Ben Hecht a ditar diálogos de um guião a uma assistente em estado natural, se exceptuarmos o verniz nas unhas das mãos e dos pés. Toda a proibição sufoca. Em tempos de proibição e cancelamento, que podem os corpos fazer se não tirar a roupa? Esperem mais três, cinco anos e havemos de nos voltar a amar como Garbo amou perdidamente o olímpico Gilbert, a fogosa Mercedes e o míope Mamoulian. Talvez todos ao mesmo tempo.
Éramos dois, o Emídio Rangel e eu. Entrámos no Hotel Plaza e julgo que ainda sentimos o sopro do fantasma de John Kennedy a sair. Talvez às nossas narinas tenha mesmo aflorado uma fragrância de Judith Campbell. E não fosse o perfume dessa mulher, olhos violeta como os de Liz Taylor, eu não contaria esta história.
Já não sei que quartos nos deram no Plaza, ao Emídio e a mim. E se, inadvertidamente, algum de nós ficou no 1651? Quase 40 anos antes, foi nesse quarto que Kennedy pela primeira vez beijou e foi beijado por Judith. Apresentara-os Frank Sinatra, em Las Vegas, um mês antes.
Também nós regressávamos de Las Vegas, com paragem em Nova Iorque. Eram umas rigorosas cinco da tarde de sexta-feira e desaguámos na 5th Avenue. Surpresa: uma grossa multidão enchia a boca do metro, trânsito cortado, as sirenes de 50 carros de polícia estridulando o ar. Corremos como meninos para essa New York de filme. A irradiante simpatia de uma afro-americana de 150 quilos, toda honey, honey, explicou-nos: a polícia perseguia três bandidos que tinham feito reféns os passageiros do metro. Polícias, coletes anti-bala, metralhadoras, cães, desciam para o subterrâneo. Eu achava que já tinha visto tudo. O Emídio achou que ainda não tínhamos visto nada: “Vamos lá abaixo!” Não podíamos, ia responder. Dei por mim, já tínhamos aldrabado a segurança e estávamos na plataforma, carruagens paradas, polícias em posição de fogo atrás de cada coluna. Levado de arrasto pelo Emídio.
A montanha pariu o habitual rato. Eram três carteiristas topados em flagrante. Na perseguição, um polícia disparou sobre o próprio pé e o “officer down” fez vir a cavalaria. Além do polícia, uma bela mulher madura espetou o seu salto agulha no calcanhar e foi a primeira vez que vi um título de primeira página do NY Times, ao vivo, antes de ser publicado.
John Kennedy não disparou sobre o próprio pé. Disparou sobre o amor de Judith. Ela amou-o como ele não amou ninguém. Sabendo da amizade platónica dela com o mafioso Sam Giancana, John pediu-lhe que lhe arranjasse encontros clandestinos com esse Sam que se derretia com ela. E o mafioso Sam lançou o tapete eleitoral que deu a John a vitória nas primárias democráticas e depois na grande eleição americana. Foi um Kennedy aos tiros nos pés da democracia.
Os nossos pés levaram-nos ao Blue Note e trouxeram-nos às três da matina para o remanso do Plaza. Tive então uma taquicardia de alto lá com ela. Chamei o 911. Tudo tratado, liguei ao Emídio para o avisar. O que fui fazer! Aparece-me num flash e “vou contigo”. Não houve não que o travasse. No hospital, barraram-no. Estou eu nas amenas mãos de uma médica brasileira e entra o boss de um gangue negro, facada no ventre, dois polícias a segurá-lo, uma chuva de fucks e motherfucker a alegrar as urgências. A médica diz-me: está o gangue lá fora, uns 20. Acho que me passou a taquicardia. Já imaginava o Emídio a ser alvo do bullying de um gangue sem chefe, na madrugada de Nova Iorque. Salve o meu amigo, pedi à médica. Ela salvou-o. E o Emídio chegou-me, intocado e a contar: o boss fora esfaqueado pela namorada que descobriu andar ele a enganá-la com outra do gangue. No gangue, uns apoiavam a namorada, outros a nova amante. Entretidos com Shakespeare, nem olharam para ele.
Depois do mafioso ajudar a eleger Kennedy e o escaldante romance de Judith ter sido revelado por um comité do congresso, também os conselheiros do falecido presidente negaram ter algum dia visto Judith Campbell. “De Campbell só conheço as sopas”, disse um.
Talvez este seja um textinho tendencialmente vaidoso. Mas estas quatro capas dos nossos clássicos (belo trabalho, Ilídio Vasco) deixam-me a roçar ombros com uma ligeira exaltação.
Os dez livros de Julho
Um editor que publique o Bartleby, de Herman Melville, um editor que publique As Caves do Vaticano, de André Gide, está na fronteira do crime e pode ser acusado de prática ilegal da cirurgia. Melville e Gide são dois afiados bisturis capazes de gerar incisões profundas na imaginação e na memória dos leitores.
A minha pequena e frágil Guerra e Paz – é uma adolescente insegura, bem sei –, ao Bartleby, o Escrivão: Uma História de Wall Street, essa narrativa que Borges acusou amorosamente de «cândido niilismo», e à aventura gideana de um papa raptado nas Caves do Vaticano (o que fariam as mãos de Gide, hoje, com o Papa Francisco?), acrescenta a monumental cabeça emotiva de Jane Austen, que oferece aos leitores, em Persuasão, o seu derradeiro romance, a ilusão da segunda oportunidade. Poderia juntar ao título, Persuasão, o qualificativo «obra-prima», mas quem, nestes dias agrestes, tem ainda paciência para redundâncias? Austen, a senhora Austen, é sim o triunfo do instinto.
Já volto a esse indisciplinado exercício a que chamamos literatura. Deixem-me, antes, dar um passo de dança. Com Olga Roriz. E minto: quem dançou com ela foi José Jorge Letria. Na colecção «o fio da memória», feliz parceria que temos com a Sociedade Portuguesa de Autores, Letria conversa com Roriz sobre a sua vida e a sua arte, no 22.º livro de uma colecção em que o leitor pode também falar com Eduardo Lourenço, Cruzeiro Seixas, Lídia Jorge ou Mário Cláudio. Olga Roriz: A Vida num Corpo Inquieto é, agora, o nosso último devaneio, a nossa mais recente inquietação.
Já dançaram? Chamem agora as crianças. É raro, mas retomando uma série que publicámos há uns bons cinco anos, temos um livro de indisfarçado, puro e bárbaro riso e entretenimento. Chama-se O Teu Livro de SuperPiadas. Chamem as crianças.
Das parvas (por pequeninas, por pequeninas…) anedotas infantis, volto ao assombroso e atribulado exercício da literatura. De Angola, Jacques Arlindo dos Santos mandou-me República de Santa Bárbara (Relato Particular sobre a Cidade Capital). É uma digressão atemporal sobre a memória e a angústia angolanas e sobre o orgulho atraiçoado da independência, «caleidoscópio de vidas apanhadas pela história» leio eu e copio da contracapa. Já de Cuba, reforçando a diversidade da colecção «romances de guerra e paz», Emerio Medina escreveu Os Fantasmas de Ferro: que escrita tão elegante, tão plástica! Que história, a de três amigos de infância, tão sensual e taciturna, reveladora de uma traição e de uma vingança gémeas na desonra. Eis a cirurgia de Emerio Medina: insere no nosso imaginário a beleza da desolação, a insustentável excitação da tristeza.
Se o leitor é de esquerda, se se embriagou com o Maio de 68, se sempre, e bem, foi anti-racista, mas sente que o mundo lhe está a escapar e, face a certos delírios contemporâneos, um «não estou a perceber» lhe sai amargo e murmurado dos lábios, O Vidente de Étampes, de Abel Quentin, é o romance que chama, urgente, sonoro, por si. Não o vai ler sozinho: há leitores franceses, italianos, espanhóis e etc. a lê-lo ao mesmo tempo. O narrador, que podia ser cada um de nós, escreveu um ensaio sobre um belo poeta negro, em França, que morre como Camus, estampando-se contra uma árvore. Publica e, quando dá conta, a barbárie das redes sociais espeta-lhe mil facas no corpo e na alma.
Vai longa a viagem. Mas ainda vos levo ao México. Nos «Clássicos Guerra e Paz», e do mais clássico dos modernistas espanhóis, Ramon Valle-Inclán, publico a Sonata de Estio., romance em que o narrador, ou talvez o autor, se quer esquecer de uns amores desgraçados, e leio: «Aquela mulher tem na história da minha vida uma recordação galante, cruel e gloriosa…» Sim, é o incêndio de uma jovem crioula que arde nesse Verão mexicano.
De cinzas se faz De Profundis, de Oscar Wilde, o último dos «Clássicos da Guerra e Paz». Paixão fria, agónica, servida na longa e belíssima carta que, da prisão, onde passou dois anos a trabalhos forçados, Wilde escreve ao amante, para lhe dizer como, vaidade extinta e sufocada, se passou a identificar com Jesus Cristo, e no Cristo descobre, romântico e individualista, o artista. Das cinzas frias, emerge um módico de gentileza e serenidade, condição da desejada alegria.
São estes os meus livros de Julho, matéria de sonho para ferir a memória e retalhar o imaginário. Confirma-se: a actividade editorial é uma actividade perigosa, prática ilegal da cirurgia.
Não tínhamos papéis e fomos à aventura. Atravessámos Espanha, ainda Franco fuzilava anarquistas. Eu ia com o meu amigo Tony. Carregávamos ambos a nossa africaníssima pós-adolescência dos vinte anos. Em Hendaye, como duas personagens dos “Passos em Volta”, de Herberto, fomos por uma cerveja nocturna na barra do mais solitário e frio bar daquelas ruas bascas e francesas. Depois, voltámos à estação e dormimos no chão, ao lado dos imigrantes magrebinos.
Esperávamos o comboio que nos levaria a Grenoble. Íamos, nómadas, entalar-nos entre o alcantilado frio dos Alpes e o desejo de saber, que um curso de sociologia nos poderia dar. Acolheram-nos dois angolanos, o Juju e o Chinho. Juntos, éramos, apesar do nosso revolucionário independentismo, o raio do velho e colonialíssimo selo de povoamento, preto, mulato e dois pulas, bizarro grupo naquele mar negro francófono que era, então, a universidade de Grenoble, a Patrice Lumumba de França, como o nosso irreversível anti-sovietismo ironizava.
Não tínhamos papéis, o Toni e eu, e ficámos a morar, clandestinos, nos quartos que os nossos amigos tinham na residência universitária. Gelávamos as garrafas de cerveja, pendurando-as numa toalha do lado de fora da janela. Fatiávamos fraternalmente a festa de um frango, lamentando que em Grenoble não soubessem fazer churrasco, e tivessem a mais transcendente ignorância do que fosse o jindungo.
Veio de passagem o Abílio, cunhado do Juju: trazia sonoras notícias de Luanda. Dos combates na cidade, da embriaguez da mudança. Eu tinha então uma sensibilidade muito estremecida. E pensei: o que fazem os meus 21 anos aqui, nesta Grenoble absurda, em que se gelam cervejas, em 15 minutos, numa toalha do lado de fora da janela?
Vim à boleia com o Abílio até Zurique. Comprei o bilhete para Lisboa. Gastei os últimos francos num cachorro-quente com mostarda de Dijon. E eis o dilema que eu estava com ele, dinheiro para comprar o bilhete para Luanda: onde é que vais sacar o kumbu, meu?
Havia em curso uma ponte aérea. Centenas de aviões: vinham cheios e voltavam vazios. Fui à Força Aérea em Monsanto. Declarei-me indigente e pedi aos militares que me levassem à boleia para Luanda, num desses desolados vôos. No rosto deles desenhou-se o primeiro frémito de perplexidade que vi na vida. Da perplexidade ao paródico nonsense vai um passo irreflectido. Só se eu assinasse uma declaração, assumindo que ia como “povoador” para Angola. Nessa noite, estava num Boeing, único passageiro, a sobrevoar África, o futuro aeroporto 4 de Fevereiro como destino.
Não sei se pensei ou não excitadamente em Deus, mas eram quase seis da manhã quando aterrei na parte militar do aeroporto. Desci para a pista, ao ombro, a guerreira mochila, que guardara da tropa inacabada; na mão, a minha enternecida Hermes Baby, a mais suave e doce máquina de escrever que conheci. Saí por um portão manhoso, nem alfândega, nem passaportes, e fui, povoador e apeado, por esse caloroso bafo matinal de Luanda, até à casa dos amigos que ainda sabia lá estarem e ocupavam a casa do muadiê Abílio, perto do aeroporto. Bati. Abriram. Um surpreendido odor da muita liamba da noite perguntou-me: “Pôôô, meu, komé ke tás aki?”
Escrevo esta crónica para a Alice e o Artur, meus pais. Foi um choque, saberem-me de novo no olho do furacão angolano. Mas agora, na calma eternidade a que se recolheram, gostava que sorrissem com esta modesta história, prova irrefutável de como a encantadora imaginação da vida quis cumular com um módico de transumante aventura este vosso filho.
Publicado no Jornal de Negócios
E o eu que eu era, está à esquerda da linda menina de chapéu, óculos escuros, caracóis e de mãos postas, como quem reza
A porta abre-se para a direita, os violinos entram pela esquerda e a madura silhueta de uma mulher recorta-se contra a luz do deserto. A mulher, passos hesitantes, dançados, vai da porta para a varanda tosca, a câmara atrás dela. O contra-campo revela-lhe a beleza ansiosa de anos de sacrifício e renúncia. Põe a mão sobre os olhos para decifrar o vulto de cavalo e cavaleiro que o horizonte empurra em direcção à casa. Atrás dela surge a indiferença interrogativa de um marido e ouve-se a primeira palavra: “Ethan?” A resposta sufoca na garganta da mulher. Uma rubra comoção acorre-lhe às faces, à respiração que, mais do que o vento, agita a gola da blusa, o avental.
Em 40 segundos, contraluz e contracampo, a porta que se abre, três actores, um só hipotético nome e a vibração de um violino, John Ford conta, a quem tenha olhos para ver, uma história de amor proibido.
O filme, que uma porta abre e outra porta fecha, é The Searchers. Sendo o mais belo dos mais belos dos filmes de Ford, é o mais falso western que já vi. Os cavalos, os índios, até a épica passagem das estações, o cíclico galope de destruição e vingança, mal disfarçam o ressentido vendaval de amor proibido, que assombra as personagens, todo o filme.
Disse-se que o sombrio cavaleiro é um Ulisses e The Searchers a Odisseia do homérico Ford. Mas o cão que da varanda ladra ao fantomático Ethan (John Wayne) não é Argos. E muito menos é Penélope esta mulher que, farta de esperar, casou e teve filhos. Nem os braços do irmão se abrem a Ethan com o afecto de Eumeu ou Telémaco.
os olhos maus de Ethan
Esqueçamos Homero, pensemos em Sófocles. Longe de Ítaca, no Texas de 1868, Ethan não regressou para descansar de prodigiosas aventuras. É a morte, a morte cansada, que chega a cavalo. O que depois sucede, a via crucis de ataques, incêndios, violações, escalpes, é a emanação do conflito que dilacera Ethan, o arrasador reflexo do raivoso desejo dele pela mulher do irmão. E pode também ser a coisa larvar que na mulher foi o incumprido amor ao marido por tanto lhe amar o irmão.
Os olhos maus de Ethan, olhos de John Wayne, são piores do que os olhos cegos de Édipo e a boca dele beija duas vezes a mulher que não pode amar. Beija-a, púdico, na fronte, mas são beijos que rasgam como bacantes. E vemos a mulher, sozinha no quarto, acariciar o capote dele, num plano que vai buscar a luz a uma janela de Vermeer. É um capote militar, de devastação e crime, que os dedos clandestinos dela afagam na final e inconsumada despedida.
Filme que com João Bénard vi pela primeira vez, último filme que vi sentado ao lado do Cintra, gostava de dizer aos dois que The Searchers não é um western, nem um épico. Pura tragédia grega, cavalgada de ressentimento, vingança e morte, só a porta que se fecha lhe consegue pôr fim.
Foi a abrir generosamente as pernas que A Glutona conquistou Paris. Levantava a perna direita, e também a esquerda, a alturas onde eu, saltando, não chegaria com a cabeça. Ainda o cancan se chamava só chahut, A Glutona dançava com as bailarinas Grade de Esgoto, Pau de Virar Tripas, Nini Pata no Ar, mas era à cabeça do altíssimo Valentin, o Desossado, que ela, num salto cavado e decotado, arrancava o chapéu com um subtil toque da ponta do pé.
Vinham vê-la as cabeças coroadas da Europa, e falo já do auge do seu reinado no Moulin Rouge. Ao futuro rei de Inglaterra, Eduardo VII, num tu cá, tu lá como os caldeireiros, disse-lhe A Glutona, toda fadista: “Hei, tu, ó Gales! Paga-me o champanhe! E és tu que ofereces ou é a tua mãe que convida?”
Vinha desse povo que até o Bloco de Esquerda se arrepia todo: a mãe, lavadeira, o pai, carpinteiro. Família que a Guerra Franco-Prussiana encostou ainda mais à miséria: lavava roupa com a mãe, e o pai levava-a a dançar sobre as mesas das tabernas, para sacar uns cobres – olha lá, o meu, ó amigo! Louise Weber, seu nome de nascimento, deu tudo o que tinha a dar, pele e corpo, mas nunca deixou de dançar e foi a dançar que saiu da lama, como um génio sai da garrafa, e se converteu na rosa-rubra de Paris.
Nua, fotografou-a, primeiro, o marido da avó de Rainier III, o príncipe que um dia seria marido de Grace Kelly. Quem, a seguir, lhe pintou os «rondeurs» dessa carne a que a graça juvenil ainda disfarçava os excessos, foi o grande Pierre-Auguste Renoir. Porém, se além das suas pernas alguém a imortalizou, a Toulouse-Lautrec e à exuberância publicitária das suas cores o devemos.
Falei de lama e do amor à dança, e já estou a enganar os leitores. Da mãe, dessa infância de água e sabão, três corpetes, um avental, sete fronhas e um lençol, ficou-lhe o gosto da roupinha de baixo lavadinha e a cheirar a limpo. Era também esse o seu prazer. O seu corpo ginasticado, cheio e redondo, prodigalizava acrobacias que revelavam as brancas anáguas debruadas a franzidos e pregueados coloridos e, nesse côncavo trono em que as pernas de mulher terminam, a alvíssima e lavada cueca. Eis, e fixemo-lo para a eternidade, o salto de La Goulue, A Glutona: pernas no ar e coxas ao vento.
Era excessiva. Glutona pelo que comia e bebia. Glutona no amor, deitando-se com ricos e pobres, artistas e lúmpen, homens e mulheres, dava-se a quem queria. Ligeira na perna, ligeira no gatilho. Disparou quatro tiros de revólver sobre o marido, Joseph, só um o tocando, de raspão. Ao “Figaro”, veio ele lembrar que já, dois anos antes, ela o tentara alvejar com dois tiros falhados. Da primeira vez, sim, seis meses antes, ela feriu-o, um tiro e pum, toma lá que já almoçaste. Joseph, o marido, acrescentou: “A minha mulher é uma impulsiva e inconsciente. Perdoo-lhe e recuso-me a apresentar queixa.”
Excessiva e independente, A Glutona, vedeta maior da inauguração do Olympia, que faria depois a glória de Amália, despediu-se do Moulin Rouge e montou uma tenda itinerante, que Toulouse-Lautrec decorou com rutilantes painéis. Foi o começo da decadência: acabaria, em casal, a domar leões, tigres e outras bestas. Um puma meteu mesmo os dentes ao marido e acabou-lhe com a carreira. Tudo o vento levou. Gorda, imensa, vinha com um tabuleiro vender amendoins e cigarros à porta do Moulin Rouge só para cheirar e lamber a antiga glória. Está, agora, enterrada ali perto, no cemitério de Montmartre. Ao padre, que a absolvia, ainda disse: “Será que o bom Deus me perdoa? Sabe, eu sou A Glutona!”