O delicado orgasmo de 1933   

Há uma remota probabilidade dos leitores e leitoras mais velhos se recordarem ainda desse desaparecido artefacto que dava pelo nome de orgasmo. Com o #metoo e a parafernália linguística woke, a sexualidade mudou de lençóis, suor e cama, e já ninguém sussurra em êxtase o nome de Hedy Lamarr.

E, não obstante, foi dela o primeiro orgasmo no cinema, que era ainda mudo. O filme, Ecstasy, era checo e de 1933, Hedy era finamente vienense, e tinha a beleza que nos faz pensar que talvez tenha mesmo existido o paraíso. No filme, Hedy era mal casada. Vemo-la vir matar o incontido vulcão insatisfeito, fogo que dentro dela se amotina, nas águas de um recôndito lago. Quer, lindamente nua, afogar-se. Salva-a o braço vigoroso de um engenheiro. Que depressa lhe dá mais do que um braço. E já estão na cama, o que o cinema, então, mal mostra.

É pela transcendente cara de Hedy que tudo vemos. Em grandes planos, pelo movimento dos olhos, da sôfrega boca, pelo ritmo das belas narinas de mulher, esse filme mudo de 1933 sugere, diria mesmo que mostra com gosto e escândalo, cá em cima, no inflamado rosto de Hedy, a explosão que não se podia ao tempo mostrar lá em baixo. E a seguir, reabertos os olhos, a plenitude do fumo de um cigarro é a coda que fecha essa sinfonia de exsudado deleite.

A vida de Hedy honrou o esplendor dessa convulsão de 1933. Casou mal e desonradamente com um milionário traficante de armas que, depois de ter comprado quase todas as cópias do filme, fruste tentativa de extinção daquele sublime orgasmo, levava Hedy a jantar, primeiro com Mussolini, que tinha uma secreta cópia do filme orgástico, depois com Adolf Hitler. Escuso de dizer que Hedy, a judia Hedy Lamarr, não sem antes ter pensado matar os dois facínoras fascistas, fugiu. Rigorosamente vigiada pelo escroque milionário e todo-poderoso, há rumores de que se escondeu dele num bordel de Paris. Chegou clandestina e anti-fascista a Londres, onde Hollywood a raptou. Mais do que derreter-se com a torrencial Dalila que ela foi no Sansão e Dalila do velho Cecil B. DeMille, esta crónica quer cantar a requintada e secreta inteligência com que Hedy brindou a América e da qual hoje somos ignorantes beneficiários.

Nem falo da asa que desenhou, após estudar barbatanas de peixes e asas de pássaros, para que Howard Hughes pudesse ter um avião mais rápido. Falo do sistema de comunicação. Por ter ouvido a Hitler referências a radares e rastreamentos de torpedos, com um pianista seu amigo, George Antheil, Hedy Lamarr, que tinha intuição e veia de cientista, imaginou um sistema secreto de comunicação. Desenvolveu-o com Antheil ao piano, criando um sinal de salto de frequência das ondas de rádio que impediria os nazis de rastrear os torpedos americanos, evitando assim que os radares do odioso Hitler pudessem bloqueá-los.

É verdade que a utilidade da invenção patenteada de Hedy não teve aplicação na II Guerra, mas a descoberta teve posterior aplicação prática e anda connosco, a roçar-se pelo nosso peito, enfiada no nosso bolso, nas malas das senhoras, e tantas vezes a apertamos com enlevo na mão.

O sinal de salto de frequência inventado por Hedy, não só enganaria os radares nazis, depois os radares soviéticos da Guerra Fria, como veio a ser imprescindível para os actuais wi-fi, bluetooth e gps. A invenção de Hedy é o esqueleto da tecnologia que suporta a nossa democracia digital. Não sabemos, mas andamos com Hedy Lamarr na mão, afloramo-la com a ponta do dedo. Em casa ou na rua, anda sempre connosco o delicado orgasmo de 1933.

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