The Godfather, cena 5

Estas cinco cenas comecei a descrevê-las quando ainda não havia net, no tempo das VHS, para o “Semanário”. Mudei e acrescentei agora muitas coisas.
Animava-me um forte sentimento e sentido de família. A minha filha tinha nascido há 15 dias, em Junho de 1989. Mais 15 e alguns dias, há de ela ter nas mãos o meu primeiro neto. Anima-me, de novo, um estranho sentimento de família.

Rituais. Como em John Ford, vamos como peregrinos de um funeral a um baptismo. Mas o que era vida e morte, em Ford, é agora morte e morte neste filme cru e desencantado. E o que em Ford era comunidade, ou o que na comunidade nos redime, é aqui família sufocada, estéril, antropofágica.

Do cemitério para a igreja. Francis Ford Coppola, perdido de paixão pelas linhas ou mundos paralelos, submete tudo o que filmou ao império da montagem. O Padrinho trata a montagem com a água benta da hipérbole. Oremus. A sal e a culatra, a óleo da unção ou a metálicos gatilho e percussor, cada oficiante, seguindo o cerimonial do seu culto, prepara a entrega de outras vidas à morte eterna. Credo in unum deum Patrem

O rosto de Al Pacino são dois olhos: córneas puxadas à sua direita, as escleróticas feitas lagos de terrível e fria ausência, o nariz romano e perfeito a desenhar uma feroz simetria.

Do you renounce Satan? Na camuflada via dolorosa do seu rosto, Pacino renunciará ao que for preciso, a Satanás, para não ou nunca renunciar a nada. Renuncia a Satanás, às suas obras e às suas seduções e falecem Barzini, Tataglia e todas as cabeças das cinco famílias. Alheio às gotas de óleo sagrado e às gotas de sangue da montagem paralela, o rosto de Pacino é a obscura áscua da mais inflexível amoralidade. In nomine Patris…

História portentosa, um Macbeth moderno dizem alguns, e ando eu a repetir de cena em cena, a cada uma das cinco cenas que aqui me trouxeram. E talvez este Macbeth não seja tanto o «retrato da América», para ser sobretudo a forma desmesuradamente ambiciosa de Coppola pintar a glória e a miséria humanas. Na sua dimensão mais visceral, O Padrinho é um ritual de vingança e de fidelidade. Na sua dimensão social, O Padrinho é uma nervosa e psicótica visão da família e um satânico ou divino retrato do Poder.

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