Ao assalto, meus bravos

os irmãos James

Morreriam à fome os economistas se só pudessem comer por cada previsão que acertam. Agora, para Portugal, os mais lúcidos prevêem um futuro que nem Hamlet, príncipe da Dinamarca, desejou ao tio, nos cinco actos da sua torturada existência. Não serei eu, sentado no vasto trono da minha ignorância económica, a negar-lhes razão: a quebra do PIB, que este triste trimestre de abertura de 2021 acentuará, reclama vingança shakespeariana; o grávido peso das moratórias encerra mais frustrados desejos do que os de Ophelia – como ela, acabarão famílias e empresas na loucura e no afogamento. Portugal está condenado.

Eis onde as profecias luciferinas dos economistas falham: na imprevisibilidade do humano. Indiferentes à clemência ou inclemência das adivinhações especializadas, os humanos comem, beijam-se, dão na cama, e tantas vezes fora dela, entrada e saída aos seus mais rijos impulsos, trabalham até, compram e vendem. Tocados por estranhas musas, os humanos criam as micro e pequenas empresas que encantam o lúbrico olhar anti-económico de Jerónimo de Sousa e dos seus jovens sete anões, ou arrancam para start-ups depois de desenjoarem do Bloco de Esquerda. E já me calo sobre o improvável investimento estrangeiro, agora que Angola secou e o fluxo chinês 5G e de alto débito é tão mal visto e censurado por Biden, como o era pelo inefável Trump.

É unânime: o factor humano deprime e exalta. Um simples peidinho pode encharcar de aroma uma sala? Assim, o factor humano pode atulhar de euforia a mais raquítica economia. Mesmo o mais empedernido economista vive na nostalgia do factor humano. Harvard, o MIT, Stanford choram lágrimas enternecidas pelo doce factor humano. E eu, de xi-coração ao factor humano, quero acrescentar outras duas vias dramáticas de salvação de Portugal: o milagre e a inspiração de Jesse e Frank James.

O milagre, o solitário e selectivo milagre, é uma vocação portuguesa. De Lourdes a La Salette ou Campinas, a Virgem Maria sacudiu rosas do seu manto em vários lugares, mas é implícita, mesmo se não declarada, por óbvia sensibilidade político-diplomática, a sua preferência por Fátima, por pastorinhos e por portugueses. Faço notar que neste século XXI a Virgem, católica, ainda não apareceu em lugar nenhum, descontando inopinada visita ao Egipto, numa aparição a milhares de ortodoxos, num claro endosso da Primavera árabe.

E minto. Talvez a Virgem tenha aparecido a Mário Centeno, o que explica que ao milagre das aparições do século passado se tenha sucedido, neste nosso tempo cruel, o milagre das cativações. Onde os cépticos, ateus incréus e quejandos viam a autocrática solidão de uma austeridade de gabinete, de joelhos no chão, mãos postas e olhos em bico, jovens do BE e novos estalinistas do PêCê viam uma quase heteronímia pessoana: a austeridade convertida em cativação, Mário Centeno feito Álvaro de Campos e engenheiro naval, a cantar-nos, “à dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas” a Ode Triunfal.

E basta, sejamos proactivos: assaltemos os bancos. Lembro os irmãos James, Jesse e Frank. Revoltados com a hipoteca bancária sobre a quinta da mãe, converteram o assalto ao banco num resgate político, antecipando, de mais de um século, a revolta contra o capitalismo financeiro. Como dois irmãos, Costa e Rio talvez devam assaltar o BCE e distribuir, quais Robin dos Bosques, o dinheiro pelos pobres, ou seja, pelos nossos bancos exauridos. E tudo isto, como bem nos ensinam os economistas do começo desta crónica, antes que os bancos nos assaltem a nós.

Publicado no Jornal de Negócios

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