Diego Maradona

É um tipo baixo, redondinho. Está de costas para o campo adversário e recebe a bola. Veste camisola azul e calção preto e ainda está no seu meio campo, a dois metros da linha divisória e do grande círculo. Recebe a bola com o pé direito e roda para ficar com ela no pé esquerdo. Nesse subtil movimento de 180 graus já deixou dois adversários para trás, dois anjinhos de camisa e calção brancos, dois anjinhos ingleses.

Galga vinte, mais de trinta metros e há outro homem que lhe vem fazer a cobertura, mas um ligeiro desvio de bola com o pé esquerdo do homem de azul logo o tira do caminho, para não dizer do tempo e do espaço. E o baixinho e redondo rapaz de azul já está à entrada da área inimiga. Os defesas ingleses estão em linha, impecavelmente como sempre os defesas ingleses estão, e um dos centrais vai ao homem. Mete o pé esquerdo, mas o seu pobre pé esquerdo – pé esquerdo de back – não se compara à subtileza e arte do pé esquerdo do homem de azul e negro que controla a bola. Com o mais argentino dos toques, num milésimo de segundo, já o veloz fugitivo lhe dá um metro de avanço.

O imparável homem baixo, redondo, de coxas cheias, está agora dentro da grande área. O defesa esquerdo, o outro central e o guarda-redes adversários fecham-se num garfo que o tenta crivar com três dentes. E ele, o homem tão gordinho como um jovem merceeiro, tão gordinho como um empregado de restaurante que se vê que gosta de comer suculentos contra-filé e achurras, só com o pé esquerdo, sempre com o pé esquerdo, adorna a bola para a direita, evitando o guarda-redes, suporta a entrada do lateral esquerdo já atrasado e não deixa que o central sonhe sequer ser parte interessada. E, com a nostalgia de uma bailarina de Degas, a bola despede-se do pé esquerdo do homenzinho de azul e negro para ir beijar na boca as redes da baliza inglesa de um estádio mexicano. O homem gordinho tomba, mais eufórico do que esgotado, nessa relva posta e regada para nela se sonharem os mais olímpicos dos sonhos.

Esta é a relva. E o slalom divino e o pé esquerdo de que tenho estado a falar são de Maradona. De Diego Armando Maradona. Juraria, aliás, que, depois dele ter recebido a bola, só o seu pé esquerdo conduziu, tocou, fintou, desviou e rematou o que eu julgo ser o mais belo golo de sempre da história do futebol. Descrevi-o e na minha descrição ele fintou, iludiu, ultrapassou, venceu gloriosamente seis adversários e é mentira, que eu bem sei que foram sete. Só que não há forma de as palavras puderem descrever a jogada e caber ainda o sétimo inglês tirado da fotografia – aquilo sim, foi um Brexit e god save the queen.

E agora vejam, Maradona já se levantou, corre e exulta ao longo da linha final. Vai direito à bandeirola vermelha espetada na marca de canto, à espera que cheguem  os companheiros para festejarem e levarem a inocente e pura alegria ao povo que está nas bancadas. Há de haver ali advogados e engenheiros, talvez operários e empregados de escritório, um doce casal burguês de Buenos Aires e dois amigos das Pampas, malta que dança tango, um ou dois leitores de Borges. Há ricos e pobres e Maradona, a alegria gordinha e aos saltos de Maradona, une-os a todos.

E eu, ecuménico que sou, diria mais, a alegria, o prazer descarado quase obsceno de Maradona, une o estádio inteiro, os argentinos vencedores e os ingleses vencidos. Une-os o prazer do futebol. Pouco antes, nesse mesmo jogo, Maradona, rebelde, irreverente, impulsivo, genuíno, marcara um golo com a mão – com a mão de Deus, ironizou ele, nesse tempo em que o futebol era superior e por isso se autorizava e deliciava com a ironia. Sem esse golo a mitologia do futebol seria mais pobre – abençoado árbitro que se enganou e deu ao mundo, durante semanas e semanas, a possibilidade de sorrirmos. O que esse golo e essa mão serviram de cerveja e conversa em pubs ingleses.

Foi assim que eu aprendi a ver futebol. E sei que estou a enganar-me nas palavras: o que eu quero dizer é que foi assim que Maradona ensinou o mundo a ver futebol. Um futebol tão enérgico como a prosa em fiesta de Hemingway, tão labiríntico como as ficciones de Jorge Luis Borges, tão erótico como el toro soy yo de Picasso. Morreu hoje, do futebol, o seu melhor demiurgo. Agora, Maradona, o demiurgo, vai a enterrar. Com Maradona é a arte e a alegria que ficam também debaixo de sete palmos de terra:

Ahora está muerto y con él
Cuanta memória se apaga
De aquele Palermo perdido
Del baldio y de la daga.

Uma ficção. Escrita por Diego Armando Maradona

2 thoughts on “Diego Maradona”

  1. Eu que me estou nas tintas para o futebol sempre me espantei como um tipo baixote e gorducho tinha aquela velocidade e agilidade. Era uma máquina! Mão de Deus? Pé, mão, cabeça, aquilo era tudo Deus, digo eu que nem crente sou!

    Like

Leave a Reply to Manuel S. Fonseca Cancel reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.