É verdade que és virgem?

Lubitsch_troupe

Por estranho que pareça, ser alemão não o impedia de ter um sofisticadíssimo sentido de humor. Chamava-se Ernesto. Lubitsch, se quisermos falar a sério. Foi um dos realizadores que agarrou no cinema ao colo levando-o do planalto do mudo para os desfiladeiros do sonoro.

Aconteceu tudo na primeira esquina dos anos 30, já quase lá vão cem anos. Foi nessa altura que se pediu aos actores que, como os antiquíssimos animais, começassem a falar. Hollywood exigia-lhes até que cantassem. Foi assim que Lubitsch catrapiscou uma encaracoladíssima loura, altas maçãs do rosto, olhos rasgados, cara de saúde, boca boa, uma alegria juvenil, transparente. Soprano, cantava na Broadway. Jeannette MacDonald era a americana da porta ao lado, genuína, vital, virgem. Dos três qualificativos só este último está sujeito a especulação ou, como se dizia em Luanda, a mujimbos.

Entrem comigo no plateau de Love Parade, o primeiro filme que os juntou. O alemão Lubitsch era um perfeccionista e um tirano. Os actores faziam o pino se ele mandasse, até Maurice Chevalier, a outra estrela da companhia. Menos essa Jeannette, americana, saudável e impertinente. Despeitado, Lubitsch pregou-lhe uma partida. Ela abominava que a chamassem pelo diminutivo Mac. Uma noite, Lubitsch mandou que apagassem o nome dela da sua cadeira de actriz, deixando apenas esse execrável diminutivo. Às nove da manhã, Jeannette entrou no estúdio. Lubitsch olhava-a à distância, à espera da explosão de fúria. Ela percebeu tudo e fez vista grossa. Ele foi-se aproximando, «Olá Jeannette, temos de esperar, não te queres sentar?» Ela disse que sim e sentou-se sem olhar para o raio da cadeira, para funda decepção do antepassado de Angela Merkel.

No dia seguinte, Miss MacDonald serviu a vingança quente. Quando Lubitsch chegou à sua cadeira, o nome, Mr. Lubitsch, estava ligeiramente alterado. Em letras mínimas, lia-se Mr. Lu e depois, separada, em maiúsculas, a palavra BITSCH.

Lu foi como ela o passou a chamar. Mesmo no dia em que no camarim ele a provocou: «É verdade que és virgem?» «Quem quer provar o contrário?» desafiou-o ela. Ele encolheu-se e ela: «E a tua mulher, era virgem quando casaste com ela?»

Ficaram unha com carne e faziam vítimas. Um dia, num jantar em casa de Lubitsch, veio Greta Garbo. O realizador apresentou-a. «Como é o nome?» gritou Jeannette, do outro lado da mesa, fingindo-se surda. «Garbo», berrou Lubitsch. «Oh, Garvin», disse ela, deixando a diva sueca de boca aberta. Mesmo assim, Garbo foi educada: «Prazer em conhecê-la, como tem passado?» «Oh, adoro ir ao mercado», respondeu Jeannette. «Eu disse passado», corrigiu-a a Garbo. Já Jeannete olhava espantada para o prato: «Assado? Pensava que era grelhado». Lubitsch apontou discretamente para a orelha e Garbo disse-lhe em surdina: «Pobre mulher, como é que ela consegue cantar, se não ouve.» Para germânico delírio de Lubitsch, do lado de lá da mesa, Jeannette, com rasgado sorriso, murmurou também: «Bom é assim, vou abrindo a boca…» Greta Garbo nunca lhe perdoou.

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