Casamentos e divórcios

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Marc Chagall: serão noivos?

Em 2017, voltou a casar-se mais. É o melhor dos últimos cinco anos, com mais de 33 mil casamentos entre pessoas de sexo oposto, portanto acima da fasquia dos 31 mil para que o casamento caiu, depois de ser degredado para as ruas da amargura, ainda assim, bem longe dos 70 e 80 mil casamentos ano dos anos 70 e 80, do século XX.

Seja como for, 2017 foi um ano foi um ano auspicioso para o matrimónio e para os mais de 66 mil nubentes em disputa. E nem falo, nem estava a contar, com os casamentos épicos, inocentes e militantes entre pessoas do mesmo sexo, que saltaram, em 2017, a barreira dos 500, numa óbvia justificação do cliché “mas isso são outros 500”.

Isso faz-me lembrar tempos antigos, já lá vão uns 15 ou 20 anos, estavam os homens dispostos a tudo para casar. Nesse tempo, floriam os reality-shows, havia quem fizesse pedidos de casamento aos microfones de um avião em pleno voo. Consta que um cavalheiro, na inequívoca posse das faculdades mentais, alugou um cavalo, vestiu armadura medieval e, a trote, avançou pelo jardim público à conquista da amada.

Um anel, um ramo de flores, o joelho no chão, já nada disso bastava aos intrépidos amantes. Por um “sim”, um simples “sim”, lançavam-se os apaixonados de pára-quedas ou mergulhavam nas profundas dos oceanos. Foram desvarios que tiveram consequências. E custos. Mais de dois milhões de euros por dia foi o preço que Portugal pagou por esse deslumbramento emocional.

Explico-me: a paragem cerebral não era irreversível, os sujeitos daquelas tresloucadas acções recuperavam a lucidez e o divórcio acabava por ser a terapia milagrosa a que recorriam. Assunto resolvido? Não era bem assim, ou não foi esse, pelo menos, o balanço do Banco de Portugal, que atribuiu um terço dos incumprimentos no crédito, na primeira década do século XXI, à imparável vaga de divórcios. Ao todo, em 2008, mais de 800 milhões de euros de dívidas incobráveis resultaram de precipitados arroubos amorosos que culminaram em rupturas caloteiras. Moral da história: emprestar dinheiro a apaixonados é mais alto risco do que emprestá-lo a doentes ou desempregados.

Não pude, naquele tempo, dar uma pequena ajuda cívica aos mais incautos. Digo agora: uUm “não”, um rotundo “não”, poderia ter-vos evitado problemas com o vil e espúrio crédito. Mulheres de Portugal: um “não” pode ser tão bom como um “sim” e garantir aos irreflectidos proponentes mais fama e posteridade.

Foi o que aconteceu a Oscar Wilde. Em 1881, o escritor pediu em casamento Charlotte Montefiore. Sabe-se lá se por sensatez ou pulsional desconfiança, Charlotte, tendo ou não apalpado o gosto ou inclinação afectiva de Wilde, disse-lhe que “não”. Com mais ironia do que despeito, Wilde escreveu-lhe uma carta: “Lamento a decisão. Com o seu dinheiro e os meus miolos, tenho a certeza de que teríamos chegado longe.” Foram felizes os dois, longe um do outro.

Por mais apaixonados que estejam, sugiro-vos que vejam o mundo com o mesmo véu negro que Kafka, tendo em conta o episódio que se segue, deve ter colocado em frente aos seus desorbitados olhos. Apaixonado por Felice, que só vira uma vez em Berlim e a quem mandava 50 cartas por mês, Kafka acabou a escrever-lhe um insólito pedido de casamento: “Casa-te comigo e vais arrepender-te. Não te cases comigo e vais arrepender-te. Casa-te comigo e não te cases comigo, em ambos os casos arrepender-te-ás.” Felice resolveu o dilema buscando amparo em braços mais consoladores. Kafka vingou-se com o labiríntico e tormentoso “O Processo”.

Dois rotundos “nãos”: ficou a ganhar a literatura e, de Oscar Wilde e Franz Kafka, o Banco de Portugal não se queixa.

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A noiva judia, de Rembrandt: será a mão do Banco de Portugal

2 thoughts on “Casamentos e divórcios”

  1. Esta estatística de divórcios é o pecado original dos calotes bancários. Pois eu relacionei os dois factores na ordem inversa e, por não ser a cumutativa da adição, deu mal: supus ser a questão económica e o consequente crédito mal parado o que levou a tanto deslace. E olha, foi a sede de liberdade. Ou a falta de paciência. Ou sei lá. É sempre a aprender.

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