Grandes cenas do cinema: Passion de Jeanne d’Arc

B_LIsboa
Inês e Manuel. Foto de Bernardo Lisboa

O evento chamava-se O Gosto dos Outros. Foi na Gulbenkian, que se encheu de alegria e de gente. Coube-me, na companhia da Inês Lopes Gonçalves, apresentar as 10 cenas mais marcantes da História do Cinema. Estão aqui e aqui as minhas primeiras escolhas. Esta é a terceira.

passion

LA PASSSION DE JEANNE D’ARC, 1928, de Carl Th. Dreyer
(A paixão de Joana d’Arc)
cabelo da Falconetti rapado a cortes brutos de tesoura

E vamos à minha terceira escolha. É um filme de 1928. A França convidou um cineasta dinamarquês, que começava a ser considerado um génio, para fazer um filme sobre uma grande figura feminina da História gaulesa: Maria Antonieta, Catarina de Médicis ou Joana d’Arc. Dreyer diz que a escolha foi feita, tirando à sorte fósforos: o mais curto saiu a Joana d’ Arc e o mais curto é que decidia.

Dreyer escolheu filmar, não o período heróico, as batalhas e a liderança inspirada da santa, mas a prisão e o processo, quando a nossa heroína está já nas mãos do clero francês leal aos ingleses. Reparem, o filme é mudo e Dreyer arrisca centrar-se no mais difícil dos elementos para o cinema mudo, a fala. A Paixão de Joana d’Arc é um filme de interrogatórios, de tribunal, de diálogos, como se Dreyer quisesse já antecipar o cinema sonoro, mostrando que o cinema nada tinha a temer da palavra, do diálogo, do teatro.

Infelizmente, só encontro disponível parte da cena. Aeeanjem, por favor, uma DVD com o filme completo.

Renée Maria Falconetti, a actriz que acabámos de ver, era uma actriz de teatro, com uma vaga passagem pelo cinema. E este foi o seu segundo e último filme. Apesar dessa aparente inexperiência, esta é uma das mais sublimes interpretações que o cinema já registou.

Eu acho que nunca ninguém fingiu com tanta perfeição o sofrimento, a paixão do sofrimento. Dreyer foi ver a Falconetti ao teatro e escolheu-a por ter adivinhado no seu rosto os traços do martírio. Diz-se também que, durante as filmagens, Dreyer a tratou com sadismo, quase torturando a actriz, como os carrascos fazem a Joana d’Arc.

A cena que vimos é o mais acabado exemplo do realismo que Dreyer procurou e a que a Falconetti se entregou. O corte de cabelo dela é real e é a referência primeira para o realismo a que tantos actores se entregaram depois, do De Niro gordíssimo do Touro Enraivecido à Natalie Portman a perder peso para fazer o Black Swan.

A cena foi filmada com tanta emoção que o realizador acabou abraçado à Falconetti a chorar. No rosto da Falconetti, enquanto o carrasco lhe corta, de forma bruta e crua, o cabelo, passam a perplexidade, o arrependimento e a expiação.

Na cena anterior, que não vimos, depois de ter resistido a tudo, Joana, para não ser queimada na fogueira, cedeu aos juízes e deixa que lhe segurem a sua mão analfabeta, assinando uma fatídica e falsa confissão. E é enquanto passa pela humilhação da tesoura, ao ver varridos os cabelos e aquela crística coroa, que a sua força moral regressa. As lágrimas que vemos, depois de ela mandar chamar de novo os juízes, são as lágrimas de quem se entrega com alegria ao martírio, por ver nele a sua redenção e a imitação dos passos da Paixão de Cristo, esse noivo, esse Deus, com quem a santa quer, afinal, fundir-se. E tudo isto contado e filmado em grandes-planos, em close-ups.

Nunca o cinema tivera, nunca mais o cinema voltou a ter, como neste filme, uma sinfonia de grandes-planos de rostos, de bocas, de olhares, de esgares de maldade, de retorcidas expressões de crueldade, rostos de vício e sordidez.

Contra todos esses grandes-planos prevalece o imenso e sublime rosto da Falconetti: está nele, em close-up, toda a sofrida santidade a que o mundo pode aspirar.

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