Eis o que nos impede o sonho e a utopia: haver vida

Life-In-City

A vida é uma monstruosa barreira à felicidade. Sem os impertinentes transtornos da vida realizaríamos todos os sonhos. Mas vem a vida e zás, ele é as prestações da casa, o trânsito, o governo da vida, os sindicatos da vida, o patronato da vida, estes empregos que não são vida, o raio da universidade que está contra a vida, o cabrão do doutoramento da vida que está a dar cabo de ti, e é a vida, a vida que não nos deixa ser aventureiros, heróicos marinheiros de céu e tanto mar.

A vida é que nos faz mal. Podíamos ter só as artes, os hobbies, passar a tarde de pincel na mão, uma tela em frente; ler toda a noite até nascer o incendiado primeiro raio de sol do dia à página 333; entrar-nos música pelos ouvidos; no intervalo da escrita, inundar-se-nos o palato com a aventura de sabores de ceviche e bouillabaisse, um teppanyaki de carne de Kobe ou ostras de Tavira.

Eis o que nos impede o sonho e a utopia: haver vida. Foda-se lá para vida que é persistente e está logo ali quando abrimos a primeira pestana. Não desgruda e ferra-se-nos à perna como um cão. Já Paul Gauguin fugiu da puta da vida, ou de uma vida filha da puta, recolhendo-se às delícias anti-vida de Noaha, Noah; e deixem-me fazer este ponto e vírgula, para acrescentar que até Jean-Nicolas Arthur Rimbaud calcorreou desertos atrás de camelos a ver se despistava a vida, faltando saber se a despistou mesmo ou se nos despistou só a nós.

Recusemos a vida, façamos greve à vida, ataquemos a jugular com uma dose de eutanásia a essa vida arrogante, presunçosa, cabrona, mandona, impositiva, agitada, histérica, às cidades da vida, às aldeias da vida, aos aeroportos da vida, a estação de São Bento ou ao Grand Central Terminal ou à Gare d’Austerlitz. Morte à vida. Sejamos deliciosa, sofisticadamente felizes sem vida.

6 thoughts on “Eis o que nos impede o sonho e a utopia: haver vida”

  1. Ora, ora…e de que nos serviriam o sonho e a utopia sem o lado negro da vida? Quanto mais sem ela…
    Esse fervilhar de vida em excesso, que a fotografia nos mostra, é que me aflige e oprime!…

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  2. Não fosse ela como poderia eu estar aqui a ler esta delícia de post?
    Puta ou bela ou uma bela puta, que venha ela, a Vida.

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