A culpa foi do apagão

Atrasei-me. A culpa foi do apagão? Talvez, mas aqui estão os meus livros de Maio, nesta newsletter que é só para quem gosta mesmo de livros.

Os meus livros de Maio
presos no engarrafamento

Atrasei-me. O semáforo apagou-se e os meus livros de Maio ficaram presos no engarrafamento. O que, estava Angola a um pezinho d’ água da independência, me faz lembrar do peculiar primeiro carro que o meu kamba Jorge comprou em Luanda. Tinha um ligeiro problema: só virava à direita. Fora abalroado por um camião e a suspensão partida fazia com que a carroceria, logo que se queria virar à esquerda, se encavalitasse no pneu, bloqueando o carro. 

E pergunto: o que bloqueou na educação em Portugal nas últimas décadas, que não vira nem à esquerda nem à direita? As escolhas curriculares? A formação de professores? O tentacular ministério da educação? A acção dos sindicatos? Quem nos responde é o escritor e professor António Carlos Cortez no seu ensaio O Fim da educação: crise, crítica, ensino, utopia, livro que inaugura uma nova colecção, diatribe, cuja vocação é tratar com rigor e severidade temas actuais. Na diatribe pensa-se e os autores correm riscos.

Volto ao meu amigo angolano. Como é que ele conseguia circular em Luanda sem ferir a lei, que é como quem diz, o bem comum? Tinha na cabeça um milhão de rotas alternativas e, num aperto, para virar à esquerda, virava duas vezes à direita, o que o colocava a 180º do ponto inicial, ou seja, à esquerda. Eis o desafio que o Prémio Nobel da Economia, o economista francês Jean Tirole, resolve à sua maneira em A Economia do Bem Comum, um livro que nos ensina a virar à esquerda e à direita, sem preconceitos, desfazendo o pensamento único.

E vejam, um polícia parou o meu amigo e quer que o obstinado carro vire à esquerda. O Jorge força e o espantado polícia vê, perplexo, um carro subir pelo próprio pneu acima (e abaixo!). A ordem lógica do mundo desaba e a autoridade demite-se: «O senhor faça o favor de virar para onde quiser!»

Se a própria autoridade pode ser iconoclasta, o que dizer da poesia? Bicho Carpinteiro é o livro que o António Cabrita faz o favor de publicar comigo. Ferve nele um nu desejo descabelado, que por vezes se protege vestindo a roupinha de um sapiente humor antigo, ou não fosse o livro, como se diz em subtítulo «as aventuras e desventuras de um corpo que, farto de virar o ananás, contra o seu ânimo já enferrujado tenciona dar o falo à IA». Espantoso é como Bárbara Assis Pacheco tão bem ilustra este livro – ofende? Ó se ofende. 

E faço um parêntesis para falar de dor e luto. Filho de Uma Mãe: a solidão e a perda no século XXI, de Adalberto Faria, é um livro confessional sobre o vazio que é a partida de uma mãe. É íntimo, sim. Comovente. E são dois livros num: na segunda parte, Adalberto acolhe 29 depoimentos, de D. Januário Torgal a Bernardino Soares ou António Barreto, passando por Bárbara Reis ou Beatriz Pacheco Pereira.

E sem saber se estou a virar à esquerda ou à direita, falo-vos de outro livro de sabor circense e mágico. Com a parceria do Fundo Cultural da SPA, escreveu-o Cristina Carvalho, que lhe chamou Fabulário ou o Pequeno Circo do Mundo, e ilustrou-o o arquitecto e pintor José Manuel Castanheira. Os autores fazem dele um livro em que o leitor adulto se sente autorizado a voltar a saborear a inocência.

Foi com essa mesma inocência que salvei o meu amigo Jorge. Desafiei-o a comprarmos a meias, em Luanda e já na dipanda, um descapotável, um very british MG. Finalmente, tínhamos um carro que curvava à esquerda e à direita. Cabelos ao vento, passávamos no asfalto e no musseque e os candengues gritavam: «Olha só, os últimos hippies de Luanda!» Os leitores experimentarão essa inocência, descobrindo «os últimos hippies de Lisboa» – ou do Porto – ao lerem O Verão Quente de 1975: Tudo Era Permitido, em que o jornalista e nosso autor Pedro Prostes da Fonseca visita as coisas extravagantes, raras, bizarras, insólitas e excêntricas do PREC, nesse ano em que tudo podia acontecer – e, leiam, aconteceu. 

Outra experiência de inocência é a que Greg Lukianoff e Jonathan Haidt nos propõem em A Infantilização da Mente Moderna. É um de Os Livros Não se Rendem, com a parceria da Fundação Manuel António da Mota e da Mota Gestão e Participações. Um livro que arrasa a ideia de «segurança», «protecção» ou «ofensa» na linguagem e nas ideias nas universidades.

Sem querer ofender ninguém, o que não disse foi como se comprou o MG. Se bem me lembro, foi pago a grades de cerveja e a muitos quilos de carne que uns mais velhos nos arranjaram no Lubango. Coisas como esta não se caçam na IA, mas na IA muitas coisas se podem aprender. Jorge Rio Cardoso oferece a pais, professores e alunos um livro novinho em folha: Mais IA, Melhor Educação: Um guia essencial para pais, alunos e professores. É o que de mais actualizado se pode encontrar, prático e seguro.

E acabo com o que o meu amigo Jorge me contou ontem: lá em Angola, a chaparia do chão do MG abriu buracos. Para a chuva não entrar, atapetou tudo com as fraldas de uma das suas bebés. E assim andou anos. Há dias, foi à oficina fazer um arranjo e o mecânico aplicou-lhe o maçarico. O esquecido fundo de fraldas ardeu como um vulcão e consumiu nas labaredas do inferno esse brinco da minha juventude revolucionária.

Virem à esquerda ou à direita, mas nunca por nunca usem livros para atapetar a fendida e frágil chaparia dos vossos carros. E muito menos estes meus livros de Maio saídos do apagão e do engarrafamento.

Não vos deixo sem uma palavra de auto-ajuda. Na nossa chancela Crisântemo, estreia-se Mafalda Johannsen. Escreveu Vendas Para Quem acha que Não Tem Talento. A Mafalda é especialista em prospecção B2B, o que explica, certamente, o seu notável sentido de humor. O livro tem o talento de nos ensinar que estas coisas se aprendem. Com seriedade e um profissionalismo metódico. As vendas da Guerra & Paz vão aumentar e palpita-me que a Mafalda vai escrever mais livros.

Estreia também, na tão feminina chancela Euforia, é a da romancista Alexandra Cruz. Rivais Prometidos é o título de um livro erótico, que junta inimigos à primeira vista, daqueles que jamais alguém sonha sequer aproximar. Mas juntam-nos. Se há revolta e motins? Há. Há ódios e cheiro de vingança. Uma insidiosa sensualidade, também… o resto, como alguém disse, é literatura.

Manuel S. Fonseca, editor

Pai do próprio pai

Pode um filho ser pai do próprio pai? Para a posteridade literária, o escritor Albert Camus será sempre o pai substituto do professor Louis Germain, pela simples razão de ter sido, como aluno, o seu filho dilecto.

 Serei eu, além de filho da Alice e do Artur, filho também da professora Emília, que amorosamente cultivou, nos meus 9 anos de idade, o gosto de saber nomes de rios e de montanhas, de reis e puríssimos heróis, bem como a arte de ler em voz alta, com som, drama e chama, os poemas e os textos do livrinho salazarista da 4.ª classe?

O que eu nunca fui, por tê-la perdido no rosário do tempo, foi pai dessa minha professora-mãe, ao contrário de Camus, de amarrado cordão umbilical ao professor Germain, trocando com ele, ao longo dos anos, as mais belas cartas de devoção e reconhecimento.

Camus resgatou do anonimato a figura do professor: Louis Germain foi arrancado ao túmulo do esquecimento, renascendo com e por Camus para a pequena imortalidade literária. Os textos de Camus foram o pai que lhe deu a sua nova vida.

O pai morto em combate na batalha do Marne, tinha ele 11 meses, Albert Camus procurava um pai substituto. Ninguém melhor do que Louis Germain sabia do que ele precisava. O pai de Germain morrera tinha ele 4 anos, tal como o meu avô paterno, José Fonseca Alves, deixou aos 7 o meu pai órfão. E tal como o meu pai desarvorou Império colonial dentro, para sacudir das mãos a terra camponesa, a enxada, a dureza da apanha da azeitona e das vindimas, também o encontro de Germain e de Camus aconteceu na colónia argelina.

A minha professora Emília, na Escola da Missão de São Paulo dos italianos Padres Capuchinhos, em Luanda, no seu delírio e fé vocacional, viu em mim uma qualquer luz e conjecturou que eu viria a ser Papa. Ora eu logo recusei pôr um pé que fosse no seminário. Mais rigoroso e severo, o professor Germain viu o diamante da excepcionalidade nesse Camus, também órfão, a tentar escapar-se aos dedos ávidos e ferozes da pobreza. O que o convenceu? A alegria de Camus na escola, a simpatia e o optimismo que irradiava. E tal como a minha Emília fez com os meus pais, levando-me para o templo que era o Liceu Nacional Salvador Correia, Germain convenceu a família do pequeno Albert, de que ele teria de estudar no grande liceu de Argel.

Às asas de professor Germain somaria ainda as asas da aventura e do heroísmo. Já fora ferido na I Grande Guerra. Lutaria, como voluntário aos 58 anos, nos Corpos Franceses de África, juntando-se ao desembarque aliado no Norte de África, na II Guerra Mundial.

Mas foi também músico. Clarinetista em várias orquestras, Germain chegou a professor do Conservatório de Paris, tendo depois sido primeiro clarinetista da Orquestra de Argel. Defendeu a independência, ao contrário de Camus, ficando até à morte em Argel.

Ao ser agraciado com o Nobel da Literatura, Camus fez chegar a Germain uma das mais nobres cartas alguma vez escritas. Camus jurou-lhe que «sem a mão amorosa que estendeu à pobre criança que eu era» nunca o Prémio teria sido seu. Acrescentava: «Não faço alarde deste tipo de honra. Mas esta é pelo menos uma oportunidade de lhe dizer o que o senhor foi e ainda é para mim e de lhe assegurar que o coração generoso que pôs no seu trabalho ainda está vivo em um de seus pequenos alunos.» E despedia-se desse professor que continuava a tratá-lo por «meu pequeno Camus», abraçando-o com todas as suas forças, o que eu palidamente tento imitar com o «abraço rijo» com que me despeço de quem gosto e, hoje, de quem teve a santa paciência de me ler.

Publicado no Jornal de Negócios

A aristocrata fatal

Era tão bonita, era tão casada e era tão viúva. Somerset Maugham, escritor inglês fino e viperino, fascinado pelas sombrias e viscosas profundezas dessa particular espécie de ser humano que é a aristocracia, nos seus tempos de impenitente frequentador da então milionaríssima Côte d’Azur, num almoço festivo, disse: «Consta que vive por aqui, em Cap Ferrat, uma lady que matou os seus quatro maridos!

A lady, a tão bela Enid Kenmare, condessa de Castlerosse ou viscondessa de Furness, e já corrijo, duquesa de Kenmare, estava a dois passos do Maugham, a quem sempre agradecerei a purificadora e tormentosa viagem adolescente que foi ler-lhe o seu romance «O Fio da Navalha». Lady Enid deu esses dois passos e olhou de frente para Maugham: «Acha que pareço uma assassina?»

De uma coisa Maugham teve a certeza, a pele branquíssima, coberta de esmeraldas, tules diáfanos, sedas a esvoaçar à volta do corpo, Lady Enid pareceu-lhe uma Vénus.

E foi o que terá parecido a cada um dos maridos mais velhos com que esta australiana, nascida em Sidney, vaga e distraidamente arrivista, se casou. Amante de um milionário americano, com quem ficou de gentil amizade uma vez consumado o suado e sussurrado comércio amoroso, foi ele que lhe apresentou outro milionário, o primeiro marido, bem mais velho, que no ano seguinte bateu a bota, diria eu, se esta não fosse uma crónica de grande elevação e requinte lexical.

Herdeira do americano, ainda sem o pesadelo das tarifas de Trump, Enid exportou-se: daí em diante só se casou com aristocratas ingleses. Três ao todo: mais três casamentos, mais três funerais. Primeiro o brigadeiro «Caviar» Cavendish, com quem viveu 14 anos acima de qualquer suspeita. Uma vida sumptuosa, roçando até ombros com a família real, o rei George e a rainha Mary. Mas ninguém é de ferro e uma hemorragia cerebral, em Paris, riscou Lord Cavendish do mapa

Duas vezes herdeira, Enid casou com Lord Furness, uma grande fortuna em barcos, viúvo com a suspeita de ter atirado a mulher borda fora do iate, ao largo da bela Côte d’Azur. Ou seja, enfrentavam-se dois amantes que talvez já tivessem dado as mãos ao homicídio. Sete anos depois, Lord Furness tombava, sem apelo nem agravo, também em plena França, mas agora ocupada pelos nazis, em Outubro de 1940.

Enid conseguiu fugir e ainda a guerra não tinha acabado já a embalavam outros nédios braços. Casou-se com o duque de Kenmare, um aristocrata enorme, 116 quilos bem pesados. O bem-disposto Kenmare, distraído, sentou-se um dia em cima de um cão, que logo morreu sufocado. Kenmare também: às mãos de Enid, e com a ajuda de uma seringa, diz-se. O casamento durou menos do que um ano, o fatídico tempo de um governo maioritário de Costa ou de um minoritário de Montenegro.

A Somerset Maugham, de quem Enid ficou amiga para a vida, com muito bridge e confabulação maledicente à mistura, talvez Enid tenha confessado que casou primeiro por amor, a seguir por posição social, em terceiro lugar por dinheiro, e por fim pelo título de nobreza.

Era o que lhe reprovava a intermitente amiga Daisy Fellows, cujo nome de nascimento, Marguerite Séverine Philippine Decazes de Glücksberg, atesta o «pedigree». Quando, em conversa, Enid começou a dizer «as pessoas da nossa classe», Daisy cortou rentinho: «Um momento, Enid: da tua classe ou da minha?»

Mais tolerante e irónico, Maugham, em vez de lhe chamar Lady Kenmare, tratava-a por Lady Killmore. E esse título sim, até Daisy lhe reconhecia: «Vou dar um jantar de seis casais. Cada um dos doze já matou. A presidir vai estar a Enid. Foi a que, de todos, matou mais.»

Publicado no Weekend, suplemento do Jornal de Negócios

A infância é uma vírgula

A jovem de Marraquexe tinha, disse ele, as ancas estreitas de um rapazinho e os seios de uma rija pureza pontiaguda. Mas antes que o insondável perfume feminino nos atordoe, deixemos cair nesta crónica a sonâmbula vírgula da infância.

O pequeno Richard nasceu quando Hitler bombardeava Londres. Era um bebé indesejado, cujo nascimento deixaria a mãe solteira em apuros. Um casal, os Blair, ambos estéreis, adoptaram a criança, criando-a a partir das três semanas. Mas os muito progressistas Blair, que já tinham escapado às perseguições de Estaline, na Guerra Civil de Espanha, onde se tinham batido contra os fascistas, tendo descoberto que não há beleza nenhuma em matar seja quem for, não tiveram melhor sorte com Hitler. Uma das bombas voadoras largada pelos pilotos nazis arrasou-lhes o atónito apartamento em Londres. Um pingo de sorte: não estava ninguém nem o pequeno Richard em casa.

Os Blair, como os meus sempre bem informados leitores sabem melhor do que eu, são Eileen e o seu marido Eric, o autor de «1984», livro que assinou, como «A Quinta dos Animais» e outros, com o pseudónimo de George Orwell. Os Blair levaram Richard para o campo, a viver numa solidão pujante de natureza, de sons maduros, águas e ventos selvagens, dando-lhe de bandeja uma infância que gesticulava de felicidade por dentro.

Mas acho que estou a ir depressa demais, sem dar tempo ao mistério e ao assombro. Vejamos, Eileen estava anémica e perdia sangue. Decidiu, contra a vontade dos médicos, fazer mesmo uma histerectomia. Morreu na mesa de operações. O pequeno Richard perdia assim, em menos de um ano a sua segunda mãe. O que faria agora o desengonçado George Orwell, quase um metro e noventa, com a figura destrutiva, absorvente, totalitária, de um pequeníssimo ser que rasteja?

Orwell ficou devastado com a ignóbil morte de Eileen. Sabia quanto ela queria aquele bebé e o que ansiava pela vida no campo, após tanta guerra. Orwell tomou uma decisão: seria praticamente mãe e pai.

E é difícil imaginar um pai melhor do que Orwell: dava liberdade a Richard para correr os campos. Com botas fortes, por causa das cobras. Faziam caminhadas juntos, levava-o a pescar e quase morreram afogados, quando saíram de bote com mais pescadores e foram apanhados num redemoinho que lhes virou o barco, sendo salvos no último minuto, como no cinema. Orwell escreveu a um amigo: «O miúdo adorou cada minuto daquela luta, salvo quando caiu à água.» Uma foca, curiosa como um deus, esteve sempre a observar a quase tragédia dos dois.

Orwell fazia-lhe, como o meu pai me fez, brinquedos em madeira, e Richard estava em cima de uma cadeira a vê-lo construir um quando caiu sobre uma jarra que lhe deixou uma cicatriz para a vida. Numa festa, apanhou o cachimbo do escritor, encheu-o de tabaco, e acendeu-o à frente dos convidados, tentando fumar e acabando enjoado na cama.

Aos cinco anos, Richard vê o pai retrair-se, quase não lhe tocando mais. O pai desaparece e um mês depois sabe pela BBC que morreu de tuberculose George Orwell. Pelo alarme e transtorno da tia, percebe que aquele Orwell é o seu pai Eric e que está morto.

Richard, que se dedicou aos tractores e à agricultura, como Orwell previra, é hoje um defensor da memória do escritor e da relação dele com Eileen, batendo-se contra as tentativas de cancelamento, que apontam aos antepassados terem tido escravos, e que o acusam de mulherengo, como na viagem do casal a Marraquexe, quando, como presente de aniversário, lhe pediu que o deixasse ir para a cama com a jovem do primeiro parágrafo. «Por amor de Deus, força com isso», sussurrou Eileen.

Publicado no Weekend, suplemento das sextas-feiras do Jornal de Negócios

Nascem livros das mãos como lilases da chuva da Primavera

Com a ajuda compassiva de Séneca e de T. S. Eliot deixo-vos a newsletter com os meus livros de Abril

A nossa pequena vida e o nosso pequeno mundo diluem-se como a miragem de uma cidade irreal. Agarremo-nos como náufragos aos cabelos húmidos da ficção. Neste Abril (o mais cruel dos meses, chamou-lhe alguém), escolho como meus livros esse terrível O Jogo Mais Perigoso, que a prosa certeira e implacável de Richard Connell armadilhou entre caçador e presa. É uma caçada, um jogo mortal: mas quem caça e quem é caçado? Junto-lhe o agitado Amok, do prodigioso vidente que foi Stefan Zweig, livro que nos agarra em peso pondo-nos na fímbria do sacrifício e à beira do alto penhasco do suicídio.

São duas perturbantes narrativas a que se junta o angolano José Luís Mendonça, vencedor com mérito do prémio Guerra Junqueiro. Escreveu agora Um Pássaro na Lua, seu segundo romance na Guerra e Paz, história quase sobrenatural de Kahitu, que nasceu com a síndrome de tetra-amélia, sem braços, nem pernas, mas chega a presidente de Angola. Se queremos falar de tolerância, comecemos por este tão mágico romance de Mendonça.

E agora paremos um minuto, para falar com a figura cordial de António Saraiva. Foi sindicalista e acabou patrão dos patrões. Era preciso fazer-lhe a biografia. Pedro T. Neves assina este António Saraiva, Um Certo Perfil, a que o Presidente Ramalho Eanes acrescenta o prefácio. A Jaba Recordati e Nelson Pires foram nossos bravos parceiros neste projecto.

Há vários anos que, com a Sociedade Portuguesa de Autores, editamos a colecção «o fio da memória». Hoje a colecção transfigurou-se. Entrou nela um pequeno livro, Uma Mesa de Pingue-Pongue e um Pequeno Lago, de que é protagonista Gonçalo M. Tavares. Em diálogo com José Jorge Letria, Gonçalo M. Tavares revela-se. Deixa-nos ver que já foi o rapaz que gostava de «treinar futebol à chuva», que gosta de ter frases «viradas do avesso», e que na infância lhe saiu a sorte de ter uma biblioteca «de filme, com dois pisos e uma escadinha». Sim, também se fala de Céline.

A solo, José Jorge Letria oferece aos leitores as Novas Greguerías. É um livro que nos faz rir, desnorteando-nos. Parecem ser só frases loucas, mas há nelas a paixão do paradoxo, do humor e da intempestiva metáfora, como se a realidade tropeçasse na linguagem: «Quando o mar se evaporar os peixes ganharão asas» ou «A girafa diz à pulga: “Conheço a selva muito por alto.”» são apenas dois exemplos da arte retórica deste livro de engenho e arte.

E se a conversa é de lilases e jacintos, venham comigo à China. Shen Fu foi um simples funcionário público no século XIX. Amou a sua mulher. E a beleza batia nos dois como o sol espanca as manhãs de Verão. Escreveu um livro soberbo de graça, com pingos de erotismo e digressões por leves montanhas e por rios distraídos. O Fio Inconstante dos Dias, Memórias de Uma Vida Flutuante é hoje um (belo, muito belo) clássico traduzido em todo o mundo. Faltava Portugal. História de amor, história de sofrimento: uma pérola comovente.

Continuo assim: Jesus, o Jesus histórico, nasceu fora do casamento. Era um bastardo, um «mamzer», por isso um excluído. O historiador e teólogo Daniel Marguerat escreveu Vida e Destino de Jesus de Nazaré. Num ensaio de alta exigência histórica e filosófica, Marguerat investiga, como num romance policial, a vida de Jesus e o essencial da mensagem que dela resulta: a pureza não é o que entra no ser humano, é o que sai dele! É da colecção Os Livros Não Se Rendem, de que a Fundação Manuel António da Mota e a Mota Gestão e Participações são os grandes mecenas.

Da novíssima colecção, A Minha Estante, chega a História de Jerusalém, assinado pelo arqueólogo francês Michaël Jasmin. É uma expedição a quatro mil anos de vida dessa cidade que já escutou mil sermões de fogo. Cidade Santa – ou será maldita? – magnética, centro dos três explosivos monoteísmos, este pequeno livro é a sua fascinante antecâmara.

E acabo com o livro de uma filósofa portuguesa, Mafalda Blanc, vencedora do Prémio Pen Club para o ensaio. Da Ontologia à Poética é o segundo livro que escreve para a Guerra e Paz. Centrado na sua paixão por Heidegger, Blanc alarga os seus temas ontológicos e metafísicos a Hegel e a Hölderlin, interrogando-se sobre o Ser, o Sentido, a Poética.

Termino, agora sim. Sei que são estes os meus livros de Abril, mas sei lá bem, como perguntava Séneca «que lugar é este, que reino, que território do mundo? Onde estou? Sob o nascente do sol, ou sob o pólo da Ursa glaciar?» Não sei, sei que leio.

Ora, perdido que esteja, não me esqueci da Euforia, a chancela nova e fresca, que já namora os tops. O que a dona da chancela, a Rita Fonseca, este mês descobriu foi que um casamento de conveniência tem tudo para dar certo. Se acham que não, experimentem ler Fica Comigo, o romance de Sara Cate (steamy, diz ela!). Mete bilionários (tri?) e exibicionismo. Digam lá se não é actual?

Manuel S. Fonseca, editor

A ruiva inabalável

«Essa cabra!» Foi o que, levantando-se de um salto do seu leito de morte, exclamou Walt Disney, quando alguém no hospital mencionou, inadvertido, o nome de Maureen O’Hara.

Ruivíssima, tão ruiva como a minha amiga Helena, Maureen era uma irlandesa incandescente, nascida no bairro de Ranelagh, em Dublin, a 17 de Agosto de 1921. À sua beleza incendiária, Maureen juntava um carácter nobre e inabalável. Disney tinha-a contratado para ser a vedeta de um dos seus filmes e quis quebrar o acordo. Em tribunal, Maureen fê-lo mastigar e engolir cada folha do raio do contrato (desta vez, juro que estou a falar em sentido figurado). E explicou: «Prefiro que o Walt me chame cabra em vez de cobarde, como ele foi.»

Nessa altura, já Maureen era uma veterana batida, mas as suas batalhas nos tribunais americanos começaram cedo e chamo à colação duas, que bem poderiam ter sido contadas a Donald Trump quando infante e a sua educação era uma possibilidade.

Maureen precisou, para trabalhar em Hollywood, de se naturalizar americana. Teria vinte e poucos anos. O juiz mandou-a ler um textinho em que declarava «renunciar à sua lealdade à Grã-Bretanha». Maureen recusou. Exigiu renunciar, sim, à sua lealdade à Irlanda. Ora, os tribunais americanos só reconheciam os irlandeses como ingleses. Ela explicou: «Não tire, Excelência, aos meus filhos o orgulho em terem tido uma mãe irlandesa.» Não vergou e foi a primeira vez que um tribunal americano teve de reconhecer um irlandês como irlandês.

A segunda vez em que um tribunal se lhe rendeu, foi no caso com a revista tablóide Confidential Report. Vinha na primeira página que ela fora apanhada, num cinema, o Chinese Theatre, em Hollywood, a fazer acrobático sexo numa das filas do fundo. E, toque xenófobo; com um latino. Num julgamento célere, em seis semanas, Maureen arrasou o tablóide e provou que à data estava a filmar em Madrid.

A glória artística de Maureen O’Hara passou pelo olhar de John Ford, esse Homero da narrativa cinematográfica, e pelos braços de John Wayne. Durante 20 anos trabalharam juntos e há pelo menos duas obras-primas, «The Quiet Man» e «The Wings of Eagles», que fazem deles uma Santíssima Trindade a merecer vida eterna.

John Wayne não hesitou mesmo em dizer: «Como amigos, a companhia que prefiro é a de homens. Mas há uma excepção: Maureen O’Hara.» Ora, era exactamente com John Wayne, em 1952, estava eu a um ano de nascer, que Maureen se preparava para uma das mais belas cenas que os meus pobres olhos já viram, a do beijo roubado e que se deixa roubar, numa noite de tempestade como só na Irlanda. Ford, era o realizador, e meteu naquilo todo o vento, trovões e relâmpagos que tinha à mão. A cena exigia um impossível controle físico dos actores, o vento a bater-lhes no rosto, nos cabelos. Ford, irritado, gritou para Maureen: «Aguenta-me esses malditos olhos abertos!» Maureen, e foi por isso que lhe louvei o carácter inabalável, respondeu-lhe à letra: «O que é que um careca como tu sabe de cabelos a espetarem-se-lhe nos olhos, meu grande cabrão!»

O pessoal no plateau gelou. Nunca ninguém se dirigira ao Grande Criador de forma tão lírica. Ford, que amava Maureen, desatou-se a rir. Num dos dias seguintes vingou-se. Wayne devia arrastar Maureen pelas ruas da vila para, casamento falhado, a devolver à família. Ford mandou atapetar o chão com a caca de um rebanho de ovelhas. No fim da cena, Maureen fedia que até em Lisboa cheirava. Ford repetiu a cena durante todo o santo dia, não a deixando tomar banho. Disse ela: «O que podia eu fazer, senão rir-me também?»

Publicado no Weekend, suplemento do Jornal de Negócios

A escada para o céu

Claro que já dormi, como os Led Zeppelin, no mesmo hotel de Nova Iorque, o Plaza, mesmo em cima do Central Park. Estive lá com o Emídio Rangel, a expensas de Francisco Pinto Balsemão, the best of the bosses. Não tive foi a sorte de coincidir com os Led Zep. Mas contaram-me que a um canto escuro, ali perto da magnífica sala de chá, o guitarrista Jimmy Page e um David Bowie a cair da tripeça, e de visita, se sentaram siderados a ver num televisor, em loop, um filme curto do inglês Kenneth Anger, uma dúzia de brancas e reluzentes linhas na mesinha de vidro em frente, o chá de pituitária da preferência dos dois.

Ah, o filmezinho que estavam a ver era o «Lucifer Rising», um ritual satânico, com música composta por Bobby Beausoleil, condenado a prisão perpétua, por homicídio ordenado por Charles Manson.

Na Luanda colonial, era tudo diferente. Dois amigos meus de um movimento católico progressista organizaram um festival rock no cinema Avis. A grande vedeta foi o Grupo 5, onde brilhavam o cantor Very Nice e o guitarrista Filipe Mendes (que se haveria de chamar Phil Mendrix). Se não foi em 71, foi em 72, e o Grupo 5, ouvidos os cristianíssmos anseios dos organizadores, aceitou um cachet manso e humilde. Mas vingaram-se: foram-se ao Mini Morris amarelo de um dos meus amigos e escreveram a tinta preta e em desajeitadas letras de quarta classe: «Jesus ama-te». Nas duas laterais do Mini, que assim circulou meses na cidade.

Espécie de apresentador, eu subi ao palco, com uma mensagem contra cultural enfeitada de teologia da libertação. Só consegui fazer duas aparições. Os uivos, as cuspidelas, as piadas de fazer corar a Cicciolina mataram no ovo o que era para ser uma carreira que ofuscaria o Billy Cristal dos Oscars.

E agora que já fui a Luanda, volto à velha e boa América e vejamos. Já dormi no Plaza, sim, mas nunca dormi num hotel – e é que nem sequer consegui ainda descobrir que hotel fosse – onde fizessem o que fizeram ao Jimmy Page, o líder dos Led Zeppelin.

 Entrem comigo no quarto. Vemos que Jimmy está muito mais nu do que quando a mãe o pôs neste mundo. Deitaram-no em cima de um carrinho capaz de trazer ao quarto um jantar gourmet, champanhe, caviar, um refinadíssimo tártaro, um soufflé à l’orange en coque. E vejam, vejam, agora estão a cobrir-lhe a nudez de chantilly – quem nesta santa vida não quereria ter a sua nudez refrescada, adoçada e emulsionada pelo alvo creme que é o chantilly? Já o levam, corpo todo chantilizado, pelo corredor e entram numa suite. Peço desculpa por não vos abrir a porta. Está lá um bando de «groupies»: elas querem lamber Jimmy da cabeça aos pés.

Lamberam, não lamberam? Sei que isto só pode ser um hotel da América profunda. Nem Nova Iorque, nem L.A. se dispõem a tanto. Mas o que quero protestar aqui é a minha mais que terna e exaltada devoção pelos Led Zep. Nunca os lamberia, mas dancei, grunhi e gritei com Whole Lotta Love, Rock and Roll, Black Dog, fiquei preso por finos arames aos dedos de Deus com a única balada deles, o Stairway to Heaven, que fizeram de propósito para encantar George Harrison.

Os Led Zeppelin tinham, como todos os tipos brancos que vêm da pobreza, um deslumbramento com a hipérbole: fizeram explodir os decibéis do rock ´n rol, inventando o hard-rock («cantam notas que só os cães aguentam ouvir», queixavam-se os críticos), e elevaram a decadência do estilo de vida das bandas rock à destruição de quartos, pistolas prontas a disparar num avião ou à orgia em que o moby-dickiano baterista John Bohman morreu com uma overdose de vodka. Compraram a escada para o céu.

Publicado há umas semanas no Weekend, do Jornal de Negócios

O insubtil tio Enver

Há na minha cabeça um alvoroço de garfos e relâmpagos e a culpa é do meu amigo Paulo Nogueira, o mais português dos brasileiros, cuja prosa, qual irreverente magnólia, floriu no extinto O Independente, perfumando a crítica de filmes e livros. O Paulo é, agora, meu autor. Trocamos emails e comovidas mensagens, de cá para lá e de lá para cá desse irredutível oceano Atlântico, que eu quero propor a Trump que se passe a chamar Golfo de Portugal e a que o Paulo insiste em chamar Golfo do Brasil.

Ora o Paulo, na sua última mensagem, desencantou do galinheiro marxista um nome gélido, o do insubtil Enver Hoxha. Não é nome que fervilhe hoje em nenhuma memória. Relembro: foi presidente da Albânia 40 anos, da sua acção resultando a triunfal sociedade comunista que erigiu 750 mil bunkers em 28 mil km2 e atingiu um lugar no pódio na competição entre as nações de todo o mundo, como a terceira mais pobre, com um rendimento mensal por habitante que andaria pelos 10 euros (por mês, por mês, que o povo aguenta!). A paixão pela educação era outro nobre desígnio do tio Enver: depois de ter empalado o clero e as migalhas de aristocracia sobrantes, na louvável tradição estalinista expurgou os seus camaradas, em particular os intelectuais, não querendo no partido ninguém que tivesse mais do que uma boa 4.ª classe.

Tudo isso são minudências susceptíveis das mais equilibristas interpretações, como nos dirá o relativista amoral em que se converte qualquer comunista, quando entalado pelos factos. Para provar que nenhum viés ideológico me enxameia ou impele lembro já o que Jacques Chirac disse, em 1988, na Comissão Europeia, depois de Margaret Tatcher azucrinar a cabeça de toda a gente para ser reembolsada de uns sumarentos milhões de libras. Cuidando que o microfone estava mudo e surdo, mon ami Jacques gera o terror na sala com esta frase cristalina e educativa: «Mas o que quer esta megera? Os meus couilles numa bandeja?» E couilles é mesmo o que redondamente estão a pensar.

Já esse émulo de Mário Soares chamado Mitterrand, que um dia disse «O que seria da francofonia se ninguém falasse francês», foi operado à próstata, com a nação gaulesa de olhos postos na delicadeza do órgão. Volta ao Eliseu e pergunta-lhe uma jornalista se achava que depois de tão fulcral cirurgia se sentia autorizado a permanecer no poder. Miterrand não podia ter sido mais claro: «Não creio que me tenham tirado um lobo cerebral, já que não foi bem desse lado que fui operado!»

Não ficaria em paz com a minha consciência se não trouxesse a este incêndio as labaredas de Silvio Berlusconi. Em 2009, em Abbruzo, um voraz tremor de terra mastigou e engoliu as casas. Silvio veio oferecer conforto à população que dormia a céu aberto ou numas espasmódicas tendas. Disse-lhes Sílvio: «Tentem ver o outro lado e pensem que estão num fim de semana a fazer campismo.»

A irreverência de Sílvio nunca dormia. Era dono de um clube, o AC Monza. Antes de um jogo contra um grande de Itália, a Roma ou a Juve, sei lá, galvanizou os jogadores: «Vocês ganham a estes gajos e no fim do jogo têm um autocarro de putas a encher o balneário.

E volto, querido Paulo, a ti. A ti e à ovovivípara citação do inominável Enver Hoxha, que me lembraste. Foi na mensagem de Ano Novo de 1967 e disse ele aos albaneses: «Povo albanês, tenho duas notícias a dar-vos, uma má, outra boa. A má é que o ano que agora começa vai ser mais duro do que o ano passado. A boa, é que este ano será bem mais fácil do que o próximo.»

Ou não fosse o comunismo uma doutrina sempre em progresso.

Publicado no Weekend, no Jornal de Negócios