A espingardada de Hemingway

A vocação está na ponta de uma espingarda. Pelo menos para Ernest Hemingway. Mario Vargas Llosa cujo espírito paira agora por aí como uma erótica máquina lírica, descobriu que queria ser escritor – essa pulsão que se diz rasgar as entranhas –, ao ler «Madame Bovary», romance de um senhor francês, dado a crises nervosas, chamado Flaubert. O polaco Joseph Conrad alistou-se na então gloriosa Marinha britânica e aprendeu inglês, língua que foi sua musa inspiradora.

Mas que rumor é esse que faz os escritores estarem de bem connosco e de mal consigo? Poetas e romancistas serão inspirados por um demónio ou eleitos de Deus? E existirá essa chusma de musas, que imagino de maminhas veladas por tules a roçarem-se pelas meninges dos escritores? No caso das escritoras, serão faunos de infantis pilinhas divertidamente erectas e que quando dedilhadas fazem dó, ré, mi?

Não sei se querem vir ver Charles Dickens aos 12 anos? O inglês trabalhava já numa fábrica, num labor que alguns dirão ser uma antecâmara da literatura: colava etiquetas em pequenos vasos de graxa para botas.

Pois não, mas que relação terá com a literatura a indústria de cruzeiros nas Caraíbas? Era onde, em 1941, a saltar da vasta piscina para a sala de fumo de 1.ª classe do luxuoso paquete MS Kungsholm, trabalhava o futuro autor dessa indecifrável intriga que é o «Catcher in the Rye». J. D. Salinger era o director do entretenimento, ou seja, o escritor dentro do aquário: nadavam pelos salões centenas de peixinhos à sua volta e ele escrevia secretas «short-stories». Mostrou-as a Hemingway, quando se encontraram na Alemanha, os dois a fecharem as portas da guerra que Hitler abrira, já Salinger saboreara as praias da Normandia no apocalíptico desembarque de Junho. Hemingway adorou as histórias, o recluso Salinger adorou-lhe de volta a gentileza e a humildade de um Hemingway nos antípodas do mito público: o delicado espectáculo do amor entre dois homens é uma prosa forte que faz delirar a noite.

Mas como é que Salinger e Hemingway desenvolveram a aptidão para lidar com a embriagante máquina de fazer frases que é a escrita? Uma «predisposição de origem obscura» chamou-lhe já não sei quem – ou foi Llosa? –, talvez a mesma que arruína a vida do heroinómano, ou que dava inspiração própria e génio às pernas e aos pés de Pelé, Maradona ou Eusébio.

Talvez não seja nada de lancinante a ligar todos os escritores, talvez seja só a branca luz da leitura. Todos eles leram muito. Todos escreveram também muito. Aprende-se a escrever, lendo e escrevendo. Peço que ouçam o conde de Buffon, matemático, naturalista, filósofo e escritor: «Aqueles que escrevem como falam, mesmo que falem bem, escrevem mal.»

Hemingway aprendeu a escrever no liceu de Oak Park, no Illinois. Duas professoras fizeram-no ler Tennyson, Coleridge, Shakespeare, Dickens, Eliot, do melhor da língua inglesa. Ao mesmo tempo que jogava futebol, tocava violoncelo, fazia natação, Hemingway escrevia no jornal do liceu. O repórter que ele era foi um dia vencido pela imaginação. Precisava de preencher uma coluna sem assunto: inventou um Clube do Rifle dos Rapazes do liceu. Foi tão convincente que lhe pediram uma fotografia da rapaziada para o livro de honra do ano. Hemingway chamou cinco amigos, pediram espingardas emprestadas, e fizeram a foto. Nesse dia, a desabrida imaginação deu a volta à mansa realidade. Era um escritor.

Valerá a pena, perguntou T. S. Eliot, espatifar toda uma vida para, afinal, nada? E eu pergunto, mas quem é que espatifa para nada a vida, Camões ou um Elon Musk?

Publicado no Jornal de Negócios, no suplemento Weekend (sai à 6.ª)

O bólide que só virava à direita

O meu amigo Jorge Sá, em Luanda, comprou barato um carro que só virava à direita. E a quem sorria e pense desmentir-me, dizendo que isto são ficções que se me deslargam da cabeça desde que perdi o cabelo, deixo este aviso: eu não tenho um pingo de qualquer tipo de imaginação, o meu encéfalo é uma reles planície prosaica que só se excita com factos. O facto é que o Jorge guiava em Luanda um carro, sei se lá se um Toyota ou um Fiat, que se recusava a virar à esquerda.

A suspensão tinha levado um valente rombo e à tentativa de voltar à esquerda, a carroceria avançava para cima do pneu bloqueando o carro. Ora, isso era para o Jorge um minúsculo e inusitado contratempo. Sempre que era preciso virar à esquerda, ele conseguia-o virando duas vezes à direita.

Proficiente, com o silêncio meio zen com que enfrentava o mundo, o Jorge tinha na cabeça o mapa dessa Luanda que estava a um dedo mindinho de deixar de ser colonial e traçou um milhão de cenários que lhe permitiam circular no obstinado carro de direcção única.

Quem lhe terá aconselhado o insólito bólide? O exímio Nelinho Ramos com quem, de Citroen boca de sapo, de Luanda ao Bié, atravessei em 1976 o túnel de devastação que era a Guerra Civil angolana? Ou terá sido conselho do mais velho Ó Cê Marques, nosso mentor de alta estampa, o único mancebo que circulava em Luanda segurando o volante de um artilhado Seat com a vaidade de umas finas e sumptuárias luvas de pele de dedos cortados, que todas as duias (sim, as baronas, as damas) da cidade cobiçavam acariciar?

Talvez tenha sido eu a salvar o Jorge do suplício de Tântalo, que era virar à direita para a eternidade. Vejamos. O meu amor à estrada começou com o meu primeiro carro anti-nazi, um velho 2 CV. Esse «dois cavalos», descapotável, comprado a meias com o meu amigo Rui, estava tão aberto por cima como por baixo: íamos de Luanda ao Lobito, pelo Sumbe, e víamos o céu limpo sobre as nossas cabeças e, por um rombo no chão, o alcatrão. Chegámos a tentar travar pondo o pé na estrada? Não juro.

Disse anti-nazi e explico. O 2CV estava prontinho para ser dado ao mundo quando os nazis ocuparam a França. Os abençoados engenheiros da Citroen esconderam os planos e os protótipos já fabricados. O 2CV só pisou a estrada, depois da Guerra, e da libertação. O destino do meu dois cavalos foi o inverso: morreu queimado pelos carcamanos e pela Unita que lhe pegaram fogo, deixando-o estorricado ao lado da pastelaria Chá para Dois, no Lobito.

Volto ao Jorge: houve um dia em que um polícia o mandou parar e o quis obrigar a virar à esquerda. O próprio asfalto chorou perante o dilema. A perplexa autoridade, vendo a ordem lógica do seu mundo esvair-se, caiu de joelhos, fechou os olhos e disse ao Jorge: «Senhor faça-se em mim e nessa estrada, segundo a sua vontade! Vire para onde quiser.»

Eu regressara então a Luanda. Para comemorar a independência, comprámos a meias, por umas grades de cerveja e dois quilos de bifes do Lubango, um decadente mas ainda lustroso MG. Britânico, branquíssimo, capaz de virar à esquerda e à direita, num tempo cuja vertigem era ir ao fundo. Ontem, o Jorge veio de Luanda contar-me que, há uns anos, a chapa do chão do MG se rompeu. Tapou tudo com as fraldas de uma das bebés de que é pai. E assim andou mais uns tempos até ir à oficina para um arranjo na chaparia. O mecânico meteu o maçarico à coisa e as esquecidas fraldas arderam, quase consumindo essa obra de arte em que circulávamos independentes, sendo contemplados pelo povo da cidade com o epíteto: «Olha só, os últimos hippies de Luanda!»

Publicado no Weekend esse frágil mas sincero suplemento das sextas do Jornal de Negócios.

Ouvi anjos em Mértola

É tão longe de Mértola a Matala. A Matala fica na Huíla, em Angola, e Mértola é essa pérola alentejana a cujo sono e vigília assiste o Guadiana, ronronando preguiçoso aos pés da alta cama mertolense. E foi em Mértola que há poucos dias foi a enterrar o meu amigo Fernando Venâncio. Nos últimos três anos, eu vi-o – e tanto lhe ouvi a voz cantada – a dialogar com essa novilíngua, que também começo a aprender, a língua da morte.

As línguas, como as línguas do Espírito Santo, estavam-lhe no sangue. De Mértola a Amsterdão, passando por Lisboa, e com paragem no breve apeadeiro que é a Guerra e Paz editores, o Fernando não fez outra coisa que não fosse indagar, provocar, implicar essa língua portuguesa que, com tanta argúcia, roubámos aos galegos: assim nasceu uma língua.

Mas entrem no carro e venham, de Lisboa a Mértola, ao funeral. Está livre o banco de trás. Sentem-se. Ao meu lado, vai o Marco Neves, outro linguista. Saímos com meia-hora de atraso. Estacionar em Mértola não é para meninos, muito menos para velhos. E lá fui a arrastar-me, atrás das pernas jovens do Marco, até chegar à Igreja de Nossa Senhora da Anunciação, bem no cimo, dentro do castelo.

Aconteceu, então, uma coisa maravilhosa: entrámos de supetão na igreja, como há décadas dizia o imenso Nuno Brás que Eusébio entrava na área, e já um padre perorava junto ao féretro onde o Fernando se deixava, paciente, estar em descanso

 O padre era um africano, com um sotaque, que eu logo percebi ser de Angola. Da Matala? Um homem negro de fala cristalina, excelente léxico, dicção perfeita, uma sintaxe primorosa. E, ao contrário de muito do clero que por aí apascenta e apascenta tão mal, com uma oratória tocante. Centrou-se no mérito da defesa que o Venâncio fazia da língua portuguesa. Senti, então, que o Fernando, na urna, longe do sossego, estava num deliciado bulício, todo derretido, entre ironia e inocência, um sorriso que lhe ia do novilúnio ao plenilúnio, encantado com o que, no musical sotaque angolano – e corrijo, umbundo – lhe lavava pela última vez os ouvidos.

Ali estávamos numa igreja alentejana enfiada num castelo, no topo de Mértola, sobre o rio Guadiana, longínquo baluarte mouro, com um africano nascido a milhares de quilómetros, a louvar um linguista tuga e a dançar, ele mesmo, com elegância na língua, na mesma língua.

Voltou, esse jovem padre angolano, a falar no cemitério, em cima da campa, como só se vê nos filmes de John Ford. Foi, então mais confessional: contou que deixara o pai em Angola, um pai ateu, descrente da eternidade. Confessou o desgosto e disse que a esperança que o movia eram os mertolenses. Deixara a sua casa, a família, os amigos, a bênção dos trópicos para vir missionar, espalhar a palavra daquele que ele chamava o Pai, e que este seu sacrifício valeria a pena só e apenas se os mertolenses lhe dessem, a ele, peregrino perdido, prova de fé e de confiança na doce eternidade.

E eu pasmado, eu ex-colono, eu ex-cristão, a lembrar-me que, ali ao pé, de Sagres – ou foi de Lagos? sei lá bem, já não me lembro do que fiz há cinco séculos –, saíram caravelas para ir missionar e espalhar a fé e agora, em boomerang, um jovem homem negro, inteligente, tão bom demagogo como um Demóstenes, vinha do coração de África missionar a descrente e gentia Europa. Tens de convir, querido Fernando, que não podíamos ter tido melhor despedida: nas aladas palavras deste padre umbundo vinha toda a ironia dos anjos. A ironia de uns anjos irreverentes, dos que tu gostavas, a descer e a pousarem brandos e meigos sobre o teu corpo defunto.

Publicado no Weekend, o suplemento das sextas do Jornal de Negócios

Os presos e uma certa gentil flora

D’Annunzio esteve mais tempo preso do que eu. Mas a prisão do escritor circense que era Gabriel D’Annunzio teve pergaminhos: cinco meses por ser amante da digníssima esposa de um nobre napolitano. E não falemos sequer do Marquês de Seda, perdão de Sade, despejado na Bastilha por sodomizar e envenenar cinco venais rameiras. O que mais se aproxima dos meus tormentos de cárcere foi o que aconteceu ao prolixo Honoré de Balzac: na tropa, provavelmente para se dedicar a um clandestino comércio amoroso, baldou-se à sua missão de sentinela. Preso por duas semanas: ora, amendoins!

Eu não me baldei, escrevi. Escrevi a dizer não! Não vou, é que nem que Vossas Excelências fossem tenentes. Explico melhor: tinha ficado em Angola para ver e saborear o que era uma independência. Há, numa crónica de Nelson Rodrigues, uma jovem mulher tuberculosa que está a meio passo da morte. Tísica, magérrima. E é Carnaval. Pede à família, ao médico, para vir à rua – sabem que ela vai morrer, mas que vá. E ela, porque nunca tinha sido beijada, procura um beijo. O primeiro e o último beijo. Beija e morre. Eis o que eu queria: ver, apalpar, beijar uma independência. Fiquei. Pagaria caro a minha erótica perversão.

Voltei a Portugal, situação militar irregular, porém amnistiado, e dirigi-me ao quartel da Graça. Reinspeccionaram-me. Um jovem médico sensibilizado com a minha miopia declarou-me inapto para a tropa. Passam-se três anos e recebo uma carta a convocar-me para a recruta em Mafra. Já eu e a Antónia, passada a fase da papa Nestum da última crónica, começávamos a ver a vidinha virar uma tão linda manhã.

Convencidíssimo, mais do que Paulo depois do tombo na estrada de Damasco, de que a tropa era uma pessoa de bem, escrevi uma carta: «Queridos generais, devem ter-se enganado, estou inapto e a pagar a taxa.» Com prosa de Belzebu, vem a tropa e diz-me: «Mancebo, houve um engano; tal como ninguém, nem Heraclito, se banha duas vezes nas mesmas águas de um rio, também ninguém pode ser inspeccionado duas vezes. Apresente-se!»

Disse-lhes que não ia, viessem buscar-me. Vieram. Um jipe levou-me ao Quartel-General, pernoita na Trafaria, ala para Coimbra e Viseu, com quatro soldados que paravam para beber copos comigo. Por fim, julgamento no tribunal militar de Coimbra. Levei advogado e amigos para testemunhar, um deles, monge beneditino, dizia aos soldados na audiência: «Rapazes, virem as G3 para os juízes, que eles merecem!» Mas a tropa não perdoa e fui condenado a três meses de prisão.

Esperava-me a prisão de Tomar, onde viria a estar o Otelo. Acolhido em fraternidade pelos militares presos, ganhei logo galões: eu era «o professor». O director autorizou-me máquina de escrever e reservou uma sala para que redigisse os trabalhos finais de Filosofia. Convidavam-me, o oficial e o sargento de dia, para jantares melhorados. Era 1980: entre os presos havia quem tivesse descoberto ali a escova de dentes. Mas a verdadeira razão do apreço da população prisional era a minha capacidade de escrever ou melhorar as cartas às namoradas. E, sobretudo, cartas a pedir o envio de uma nota de dez, vinte escudos, a uma gentil flora feminina que escrevia aos presos com uma certa propensão para erotizar a reclusão, as grades e a rija abstinência. Antes quebrar do que torcer, levei até ao fim a minha recusa. Um velho sargento paciente e prático explicou-me, então, que «não é assim que se fazem as coisas: você vai lá com umas garrafas de Johnnie Walker, das pretas, e logo se resolve.» Foi esse o fim prosaico da minha aventura militar.   

Publicado no Jornal de Negócios, no tão simpático Weekend

Money, já diziam os Pink Floyd

E depois nasceu a Rita

Gostava tanto da poesia de Yeats que era capaz de dizer, com celestial angústia, o poema desse guerreiro aviador que, lá das nuvens, não odiava os que atacava nem amava os que defendia. Nessa altura, nem eu nem a Antónia tínhamos um tostão furado, e o que me fazia mesmo rir era lembrar-me do que Yeats dissera ao gajinho da academia sueca que nunca mais acabava de lhe explicar, em rodriguinhos e salamaleques, que ele ganhara o Nobel da literatura: «Homem, páre lá com a tagarelice e, pela graça de Deus, diga-me quanto é que o prémio vale!»

O que nos teria dado jeito um telefonema destes. Tinha regressado da minha aventura africana Mao-Mao Tsé-Tsé punhinho no ar, e viera da Angola já muito independente com uma mala de livros, três camisas de manga curta, calças cor-de-rosa e outras tão púrpuras como a chuva do puto de Minneapolis.

A Antónia conheceu-me à beira-mar, na Costa da Caparica, em 1977. Tendo-me visto em cima de umas socas hippies de dez centímetros, a que acrescia meio-metro de cabelo eriçado, esse todo fazendo de mim um pedaço de homem de alto lá com ele, a Antónia, dizia eu, apaixonou-se.

Ora além de haver partes que não pertenciam ao todo, o todo apresentava-se descapitalizado. É certo que, mais eu do que a Antónia, sabíamos que o dinheiro não dá a felicidade, mas não é exactamente por isso que a maior parte dos pobres são pobres. E ainda menos os meus 24 anos e os 18 da Antónia.

Conseguimos encontrar uma casa, ali para os Anjos, um quinto andar à pata. Enorme, oito divisões: em quatro só se andava de gatas. Eram umas águas-furtadas. Hoje, a miudagem ofende-se por se dizerem certas palavras e chamam psicólogos para lhes afagarem das murchas meninges às frescas nádegas. Pois bem, para alugarmos aquele pardieiro, entrámos com cem contitos que não tínhamos. Issi, uma ofensa. Juntámo-los entre os seis, a comunidade de base que foi habitar o que alegremente chamámos o pombal dos Anjos.

Éramos três–três em sexos. Cada casal tinha uma das divisões em que, em parte, se podia estar de pé. Partilhávamos o que tínhamos: um desprendido e sumptuário sentido de humor.

A Antónia e eu, ambos a estudar, ainda sem trabalho e uns trocos que se vissem, chegámos ao dia em que só tínhamos papa Nestum para comer. Foi uma das nossas refeições mais memoráveis. Não tínhamos cheta, mas sabíamos que há coisas muito mais importantes e maravilhosas do que o dinheiro. O problema, como nos explicou Groucho Marx que vinha então muito lá a casa, é que, para ter essas coisas importantes e maravilhosas, é mesmo preciso uma real pipa de massa.

O pombal dos Anjos era como a fábrica do Andy Warhol: estava sempre cheio e em festa. Às vezes vinte pessoas. E ficavam a dormir em esconsos de onde para se entrar ou sair era preciso rastejar. Nessa altura, e não sei se o pessoal do PAN gostará de ouvir isto, já tínhamos aprendido a calafetar buracos nas paredes com gesso e vidros partidos: rato que tentasse entrar arriscava fatal dói-dói na roedora boquinha toda.   

A primeira oferta de emprego foi um part-time: a Antónia e eu íamos colar selos e fechar cartas ali – olé – para o Campo Pequeno. Era um dinheirinho escasso! Mas a vantagem da falta de pilim é que uma pessoa se habitua a gastar pouco. Lembro-me que tínhamos numa das paredes um poster com Marx, Engels, Lenine, Estaline e Mao. Só mais tarde soube que Karl Marx deixou de escrever e se despediu do New York Tribune, por lhe pagarem mal. Ele gastava muito e gostava. Nunca teríamos colado selos se o barbudo nos tem avisado antes.

Publicado no Jornal de Negócios, no suplemento Weekend

Noite e primeira luz

para dizer adeus ao Fernando Venâncio,
que tantas vezes me vinha aqui pôr um coração

Desassossego. Fica-se ali, espetado na noite, os olhos e todos os sentidos numa rasgada inquietude, enquanto os segundos se roçam pelos minutos, lentíssimos e indecifráveis. A Antónia gosta de ficar assim, acordada noite dentro. Uma ou outra vez já fiquei com ela, à espera de que a manhã venha e nasça, com a sua cabeleira de luz a enxotar a escuridão e os restos das sombras.

Estarei a falar de insónias? Na rede da insónia encontramos irmanados Lincoln, Proust, Marilyn, Lady Gaga, a senhora Tatcher e Bill Clinton. Dessa rede de forçada vigília nasceram os romances de Joseph Conrad e Dickens, mas também os gags de Groucho Marx, as fúrias quadrúpedes de Estaline e Hitler.

Ora, não é de insónias que venho falar, mas sim do prodigioso silêncio da noite. É um silêncio onde moram milhões de micro ruídos: se o dia é animado pelos grandes animais sonoros, feras selvagens a motor, pela alegria e dor dos gárrulos gritos humanos, no insonoro estrépito da noite moram os insectos kafkianos do ruído, uma excessiva metamorfose de larvas, crisálidas e asas. A noite é um rumor entre o som e o não-som – horas devastadoras e tardias! Deambulam pelos corredores da noite seres levíssimos, fulgentes, irónicos: em todos lateja o turbilhão da morte.

Mas é tanta a vida que há na morte. E é essa infinitesimal vida das perdidas e desesperadas horas da noite que inspira e enlouquece, que seduz ou dá sede e fome cósmicas.

Espectros e eléctricos sonhos nocturnos passam-nos a mão pela fronte e apertam-nos, enrolando-se ao coração. Bem podemos rodar no vinil o «Concerto de Colónia» de Keith Jarrett ou o «Water Babies» de Miles Davies: tudo a noite sorve com involuntária doçura (ou voluntária amargura) e tudo se dissolve no seu feroz estômago de eternidade.

Constelações monstruosas e selvagens de deuses dançam nas irrespiráveis colinas da nossa loucura, vestidos com os mesmos véus de seda que despem o rei que vai nu. De onde vinham as vozes interiores que mortificavam Virginia Wolf? E não me digam que eram alucinações. O que muito nos aterroriza é ouvir a noite a pensar, a murmurar o seu vocabulário de dor ou sermos arrastados pelo tumulto imparável da sua locomotiva de indiferença.

E é então – ainda há dias na Serra da Estrela, não foi, Antónia? – que o brilho de um primeiro cabelo louro vem romper o torpor e as geladas cinzas da noite. Só os cativos da noite sabem o que é experimentar a liberdade e a redenção da manhã, desse sol que sai de dentro da água, dos cumes das montanhas, da planície gelada ou do deserto de dunas. Da praia de Altura, também.

A loura luz do dia limpa o ar de espectros, perfuma as janelas e as portas das casas, lava as ruas e nos mercados, nas caixas de gelo, as peixeiras expõem a frescura de camarões, lagostas, cracas quando há, das tão apetecíveis bruxas.

Posto, por fim, em calma e sossego o tumulto nocturno do corpo, sorvido um indeciso café – foi o último ou é o primeiro? – podemos matar o jejum de sono, fechar as janelas e dormir um dia inteiro. Lá fora animam-se jardins e praças, há um reformado que complementa a sua bica com um bagaço na última leitaria de bairro, os engenheiros e os doutores atafulham o trânsito, uma rara abelha recolhe o pólen, há miúdos e miúdas a aprender a ler, a escrever, outros a nadar. Lembram-se das visões do poeta William Blake, visões em que arde brilhante um tigre – tiger, tiger – na floresta da noite? Desaparecido o tigre rumoroso e sanguíneo da noite, o dia ordinário, intranscendental, não tira o sono a ninguém. E é tão doce a primeira luz da manhã.

Publicado no Weekend, do Jornal de Negócios

Fernando Venâncio (18 de Novembro de 1944 – 30 de Maio de 2025)

A 1 de Junho de 2015 chegou-me, de Amsterdão, um texto. Por esse texto, conheci pela primeira vez Fernando Venâncio. Era o prefácio a um livro de Helder Guégués, «Em Português Se Faz Favor», que então publiquei. Depois, um avião trouxe de Amsterdão o Fernando para apresentar um dos primeiros livros que Marco Neves editou com a Guerra e Paz. Entre Neves e Venâncio, entre o Marco e o Fernando, digo, havia uma afinidade intelectual de grande bonomia, uma afinidade expansiva que envolvia mesmo as famílias. Com essa sorte com que os meus deuses africanos, isto é, Kalunga, sempre me acarinham, o Marco e o Fernando adoptaram-me. E, num almoço que fomos fazer a Évora, aconteceu o milagre: o Fernando aceitou ser meu autor. Como uma Santíssima Trindade – terei sido eu o Espírito Santo? – dos mil livros que o Fernando poderia fazer, escolhemos o que viria a ser o «Assim Nasceu uma Língua», prodigiosa digressão pelas origens da nossa língua. O livro conquistou Portugal, seduziu os nossos vizinhos galegos, bem como gerou controvérsia no Brasil.

Vivi com o Fernando a aventura de ver o livro publicado nesses países, o que posso hoje evocar aqui. Há, porém, coisas que transcendem as pequenas glórias editoriais. A amizade autêntica, a extrema confiança, a empatia em circuito aberto, eis o que o Fernando e eu partilhámos, coisas intraduzíveis nesta crónica em que tenho de anunciar a morte de Fernando Venâncio.

Não voltarei a ouvir-lhe a voz cheia de entusiasmo, o riso, o tão bom humor, o seu gosto por uma piada mais ácida aos pequenos disparates do mundo ou ao grande circo da pretensão, pompa e circunstância. Dois grandes livros sobre a língua portuguesa e o seu possível futuro – «Assim Nasceu uma Língua» e «O Português à Descoberta do Brasileiro» – impõem-no como linguista, belíssimo legado que nos deixa. Mas é num romance, que publiquei este ano, «Os Esquemas de Fradique», que vos convido a virem tomar um café com o Fernando. Macacos me mordam se não descobrirem ali paixões doidas – «sabem tão bem!» – um cientista gatuno («gatuno, mas um tipo porreiro») e muito whisky divino. Sirvam-se e não se poupem no whisky. Pode ser que toque, súbito, o telemóvel. E se ouvirem um «Então, já leram?» é o Fernando que está a falar convosco.

A arte de matar

Cortou a cabeça a Luis XVI, mas também aos revolucionários Danton e Robespierre. Apresento-vos Sansão, que só no nome tem semelhança com a figura bíblica. O parisiense Charles-Henri Sanson pertencia a uma família que, por quatro gerações, desempenhou a infame função de carrasco do Estado. Os Sanson serviram, com a mesma isenção profissional, a Monarquia e a Revolução Francesa.  

Há profissões que exigem uma convicta persistência, para não dizer mesmo abnegação. Apesar do odioso estigma social, os Sanson passaram de pai para filho a severidade, a delicadeza e o savoir-faire de matar os seus concidadãos. Sempre em nome da lei, num tempo, digamos, de extrema judicialização da política. Fizeram-no sem hesitações que inquietassem o sossego psicológico dos condenados, ao contrário do que aconteceu em Inglaterra ao grande explorador e escritor que foi Sir Walter Raleigh: perante a hesitação do carrasco de machado na mão, Walter teve de lhe gritar «De que tens medo, homem? Corta! Bate forte!»

Ao contrário dos nossos últimos primeiros-ministros, que assobiam de forma plangente quando se fala de reformas, os Sanson modernizaram o tempo e o modo de exercer a sua profissão. Trabalhando com médicos com preocupações humanitárias (é verdade, nem toda a gente agradece!) Charles-Henri Sanson, que estudou também medicina, fez com o seu pai a transição da horrível forca, e dos seus intermináveis estertores, para a mecânica limpeza e eficiência da guilhotina.

Sanson foi mesmo à Assembleia Nacional legislativa atestando que as experiências feitas com fardos de palha, depois com uns infelizes cabritos, por fim com acomodatícios cadáveres humanos, provavam a quase luminosa rapidez da guilhotina. Sanson era dotado para a música e ocupava os tempos de ócio tocando em dueto com um fabricante alemão de instrumentos musicais. Note-se o gracioso grão de elegância: foi o alemão que o ajudou a fabricar a guilhotina. Preso por roubo e agressão, coube a Nicolas Jacques Pelletier, criminoso de profissão, inaugurar essa nova musicalidade.  

E o que eu queria lembrar é que a morte por execução era, nesse tempo, um espectáculo de massas. O povo, essa multidão em tropel que o cineasta Fritz Lang foi a Hollywood pintar tão bem em «Fury», queria divertimento: a veloz e instantânea guilhotina roubou parte desse «show business», o que as novas instâncias procuraram substituir com a chegada dos condenados em charrete – e já lá vou – e com a sua exposição à turbamulta.

Como enfrenta o cidadão a morte a que o Estado o condena? O filósofo Sócrates reagiu com impressionante dignidade, bebendo imperturbável o veneno. Giordano Bruno, mesmo na fogueira, virou a já contorcida cara ao crucifixo da Igreja que assim o queimava. Já Sir Raleigh, ao ver o machado que o ia dividir em dois, comentou: «Aqui está um remédio bem afiado, vê-se que trata de qualquer doença ou miséria.»

E agora vejam a charrete a chegar ao cadafalso onde Sanson e Paris esperam a próxima vítima. Quem lá vem – o conde de Chârost – não voltará a dormir ao relento no mar. De uma família de filantropos, que se batiam contra privilégios e desenvolveram a agricultura e a indústria, o conde Armand-Louis-François foi condenado pelos khmers rouges avant la lettre da Revolução Francesa. O conde vem a ler. Quando a charrete pára, levanta por fim os olhos para ver a multidão ululante, o carrasco, a galante obra de arte que é a guilhotina. Vai fechar o livro, mas antes, num gesto delicioso e comovente, dobra o canto superior da página. Um dia, um inescapável dia, continuará, sem dúvida, a leitura.

Publicado no Jornal de Negócios