Ouriço ou raposa?

A melhor forma de se conhecer um livro é ler o seu começo. O filósofo Isaiah Berlin escreveu um pequeno ensaio, O Ouriço e a Raposa, que logo se converteu numa referência do pensamento do século XX, considerado um dos melhores ensaios de todos os tempos. O livro é de 1953, mas só agora foi traduzido para português. E, no entanto, é um livro actualíssimo e desafiador. O que é cada um de nós, um ouriço ou uma raposa? E o que é ser um ouriço? E o que é ser uma raposa? 

Ora leia, Isaiah Berlin.

«Nos fragmentos do poeta grego Arquíloco, encontra‑se um dito que afirma: «A raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe uma coisa muito importante.» Os académicos têm divergido acerca da interpretação correcta destas sombrias palavras, que podem não significar mais do que o facto de a raposa, apesar de toda a sua manha, ser derrotada pela única defesa do ouriço. Mas figurativamente, as palavras podem aferir uma acepção que marca uma das diferenças mais profundas entre escritores e pensadores, e entre os seres humanos em geral. Existe um grande abismo entre, por um lado, aqueles que associam tudo a uma visão única central, um sistema mais ou menos coerente ou articulado, a partir de cujos termos compreendem, pensam e sentem – um princípio organizador único, universal, sobre o qual o significado de tudo o que são e dizem assenta em exclusivo – e, por outro lado, aqueles que perseguem muitas pontas, frequentemente não relacionadas e até contraditórias e, quando relacionadas, apenas nalgum sentido de facto, por alguma causa psicológica ou fisiológica, não relacionada com um princípio moral ou estético.

Estes últimos conduzem vidas, desempenham actos e alimentam ideias centrífugas e não centrípetas; o seu pensamento é disperso ou difuso, move‑se em muitos níveis, agarra‑se à essência de uma vasta diversidade de experiências e objectos por aquilo que eles são, sem, consciente ou inconscientemente, procurar excluí‑los ou procurar que caibam numa qualquer visão unitária interior, imutável, abrangente, por vezes contraditória e incompleta, por vezes fanática. O primeiro tipo de personalidade intelectual e artística pertence aos ouriços, o segundo, às raposas. E, não pretendendo insistir numa classificação rígida, podemos, sem grande receio de contradição, afirmar que, nesse sentido, Dante pertence à primeira categoria, Shakespeare à segunda; Platão e Lucrécio, Pascal, Hegel, Dostoiévski, Nietzsche, Ibsen e Proust são, em graus diversos, ouriços; Heródoto, Aristóteles, Montaigne, Erasmo, Molière, Goethe, Púchkin, Balzac e Joyce são raposas.

É evidente que, como todas as classificações simplistas do género, esta dicotomia se torna artificial, escolástica e, em última instância, absurda quando levada ao limite. Mas, se não constitui uma ajuda à crítica séria, também não deve ser rejeitada como meramente superficial ou frívola: como todas as distinções que integram qualquer grau de verdade, oferece uma perspectiva a partir da qual é possível olhar e comparar, um ponto de partida para a investigação genuína.

Não temos, pois, nenhuma dúvida acerca da violência do contraste entre Púchkin e Dostoiévski, e um leitor perspicaz raramente tem considerado que, em toda a sua eloquência e profundidade, o famoso discurso de Dostoiévski sobre Púchkin revela o génio de Púchkin e não o do próprio Dostoiévski, justamente pela perversidade com que representa Púchkin – uma arqui‑raposa, a maior do século xix – como sendo semelhante a Dostoiévski, que não é outra coisa que não um ouriço. Desse modo, é um discurso que transforma – em boa verdade distorce – Púchkin num profeta dedicado, o portador de uma única mensagem universal, a mensagem que estava no centro do universo do próprio Dostoiévski, mas muitíssimo longínqua das muitas e diversas regiões do génio versátil de Púchkin. Na verdade, não será absurdo dizer que a literatura russa se extrema nestas duas gigantescas figuras – num pólo, Púchkin, no outro, Dostoiévski; e que, para os que considerem útil ou curioso colocar tal questão, as características dos outros escritores russos podem, em certa medida, ser determinadas em relação a estes grandes opostos.»

Já escolheu: ouriço ou raposa?

Quem dá voz à Observação da Gravidade?

Ora vejam como um livro de poemas, um livro de poemas que promete estreia fulgurante, pode ter voz. E logo a voz de um Prémio Pessoa.

É uma grande estreia: um jovem poeta, André Osório, publica o seu primeiro livro, Observação da Gravidade, na colecção de poesia da Guerra e Paz editores. Já tínhamos dado a notícia da saída do livro, acrescentando que o lançamento da obra vai ter lugar na Feira do Livro de Lisboa, com a apresentação de outro poeta, Fernando Pinto do Amaral.

Hoje, acrescentamos outra novidade: Observação da Gravidade é um livro que, por um momento, vai ter voz, a voz do Prémio Pessoa de 2019, a voz de Tiago Rodrigues.

Tiago Rodrigues é actor, encenador e director artístico do Teatro Nacional D. Maria II. Estará presente e vai ler poemas do primeiro livro de André Osório na sessão de apresentação, que acontece na Feira do Livro de Lisboa, no dia 28 de Agosto, às 18:00.

O livro chega às livrarias portuguesas já no dia 25 de Agosto.

Tiago Rodrigues (foto roubada, com a devida vénia, no mural do actor

Um livro pode ser uma lição simples e admirável

Jean-François Billeter é um profundo conhecedor da cultura chinesa, o mais importante sinólogo suíço. Neste seu Porquê a Europa, Reflexões de Um Sinólogo,  Billeter vai às raízes da cultura, da História política e militar, da filosofia chinesas. É um livro escrito com fluência e com tanta admirável simplicidade como fundamento e investigação. 

Se queremos compreender as notícias que, neste momento, enchem todos os jornais e todos os telejornais, se queremos compreender o significado da lei de segurança que Pequim impôs a Hong Kong, se queremos compreender a vaga de prisões, se queremos compreender a diplomacia dos lobos guerreiros, é forçoso ler este livro.

Um breve excerto:

Os ensinamentos de Confúcio que Yang Shangkun contrapõe aos valores cristãos, aos direitos do homem e ao nosso individualismo não são os de Confúcio, mas sim a ideologia que se formou sob os Han e que generalizou o princípio hierárquico e o respeito absoluto pela autoridade. Esse confucionismo, afirma, está há mais de 2000 anos na origem da grandeza e da força da China, isto é, do império chinês. Foi ele que constituiu a base da sua organização social e é ele que deve continuar a ser a base da sociedade chinesa no futuro.

Os dirigentes actuais já não usam esta linguagem, mas não rejeitaram o seu conteúdo, porque o regime reproduz hoje, sob formas alteradas, aquilo que é próprio da tradição política chinesa desde a fundação do Império: no topo, um poder indivisível, de iniciativa estratégica, que recorre em igual medida ao civil e ao militar, que não reconhece qualquer outro contrapoder e não tem, na sua essência, limite. As relações sociais de hoje já não são hierarquizadas como no Antigo Regime, mas o Partido reconstituiu a divisão da sociedade numa esfera dominante e numa esfera dominada. Por meio da propaganda e do controlo do pensamento, ele encerra as mentes num mundo fechado e autóctone. Os atavismos que as forças progressistas combateram fervorosamente entre 1919 e 1989 estão de volta.”

Sem demagogias, fundado num trabalho rigoroso de conhecimento, este é um livro que oferece ao leitor uma lição simples e admirável.

Quem lê, merece ganhar

Estes livros estão à sua espera. Estes livros são o prémio que a Guerra & Paz tem todo o gosto em oferecer ao leitor que atinja o maior valor de compras durante o mês de Agosto. Para se candidatarem a este prémio, a estes cinco belos livros, os nosso leitores terão de ultrapassar os 75€ em compras ao longo mês.

Para já, o leitor que está mais próximo atingiu já os 52,44€. E a corrida para o melhor comprador do ano, a quem ofereceremos 50 livros, continua em aberto: há já dois leitores que fizeram compras em valores superiores a 450€. As regras estão aqui. E já sabe, quem lê livros merece ganhar mais livros.

Todos querem África

Todos querem África. Estamos a falar dos nossos leitores, que têm corrido às livrarias ou ao nosso site para levarem para casa este Atlas Histórico de África. No top do El Corte Inglês, está em 3.º lugar, logo a seguir a outro livro da Guerra e Paz, o nosso Este Vírus que nos Enlouquece, de Bernard-Henri Lévy. 

Para quem ainda não tenha a informação, o Atlas Histórico de África é uma obra com a supervisão de Xavier-François Fauvelle, talvez o mais reputado historiador francês especializado em África, e de Isabelle Surun. Outros 22 especialistas participaram nesta obra que fornece uma informação apurada e sistemática sobre  a História de África, da Pré-História aos nossos dias. Ainda não está em sua casa? Não nos diga que está à espera da 2.ª edição?

Um livro a favor da vida

BHL_

Um livro que não nos pede para estarmos de acordo. Um livro vivo, polémico e desafiador sobre a pandemia e sobre o confinamento. Um livro a favor da vida.
Há seis semanas nos tops das livrarias portuguesas, já na 4.ª edição. Obrigado, leitores portugueses

Só apetece lê-los

três_Livros_

Ora vejam, mesmo O Principezinho, que lançámos em Maio, aparece nos tops desta semana. Bem merece, a edição é linda e tem um posfácio original. Que boa escolha dos leitores.

E há dois livros que não largam, agarrados que estão aos tops. São o controverso Este Vírus Que Nos Enlouquece, de Bernard-Henri Lévy, e o magnífico O Ouriço e a Raposa, de Isaiah Berlin, que só agora teve edição portuguesa. Eis, à semana 32 deste ano da graça de 2020, os tops por onde viajam os livros da Guerra e Paz editores

Esta é a semana 32 e estamos em vários tops, a saber:

Top Bertrand Chiado Infantil – 8.º com O Principezinho.

Top Bertrand Chiado Não-Ficção – 10.º com O Ouriço e a Raposa

Top FNAC Não Ficção – 2.º com Este Vírus Que Nos Enlouquece

Top Bertrand Não Ficção – 4.º Este Vírus Que Nos Enlouquece

Top Almedina Ficção – 1.º O Ouriço e a Raposa

Top Almedina Não Ficção – 2.º Este Vírus Que Nos Enlouquece

Top El Corte Inglès Não Ficção – 2.º Este Vírus Que Nos Enlouquece

E o que é bonito é estão nos tops e merecem: são mesmo bons livros.