A camarada Greta Garbo

A camarada Greta Garbo ri-se! Do capitalismo ou com o capitalismo?

De que matéria é que se fazem os sonhos? De letras, diria eu. Ora vamos e vejamos, os sonhos dos filmes, antes de serem sonhos, antes de serem aventuras, antes de serem gargalhadas, são palavras escritas. Há, para cada filme, um argumentista, a senhora ou senhor que escreve os textos, que hão de guiar o realizador e ser frases na boca aos actores. Há tempos, os argumentistas mais reputados em actividade elegeram o melhor de sempre na profissão.

Vejam, elegeram Billy Wilder, um austríaco que pronunciava cada palavra inglesa com os pés, mas que tinha ideias e sacava diálogos de uma afrontosa originalidade, para não dizer virgindade. Escreveu coisas geniais e Ninotchka,filme realizado por Ernst Lubitsch, foi uma das obras-primas que saiu da sua máquina de escrever.

Deram-lhe um mote: “Jovem russa impregnada de ideais bolchevistas vai para a assustadora, capitalista e monopolista cidade de Paris. Apaixona-se e passa uns dias de gozo do caneco. Talvez o capitalismo não seja assim tão mau.” Deste briefing, Wilder inventou Ninotchka.

Pois bem, conhecemos a revolucionária Ninotchka na sombria Moscovo e, claro, estamos todos à espera de ver a cena da chegada, a uma gare de Paris, dessa Ninotchka, a que Greta Garbo emprestou rosto, corpo e a rouca voz.

Na gare estão à espera dela três camaradas soviéticos, já inclinados, pela vida que espreitam em Paris, à condescendência social-democrata para a qual, durante os anos da nossa geringonça, até mesmos os inflamados militantes bloquistas se deixaram deslizar, direitinhos ao bolso de António Costa.

Digo isto e não é um despropósito, há qualquer coisa de mortaguiano no primeiro contacto da camarada Garbo com um representante da espécie chauvinista, arrogante, machista, que é o aromático burguês de infeliz produção capitalista. Ela quer estudar a espécie, como um entomologista a sua minhoca.

Como se fosse a inescapável sessão de uma comissão parlamentar, Mortágua, perdão, a camarada Greta Garbo disseca o bicho capitalista e expõe, com uma imbatível lógica escolástica, as misérias que o lacinho de seda, o chapéu de feltro, o delicado fatinho, procuram ocultar. É delicioso ver a comunistíssima Greta Garbo desfazer a miséria do capitalismo.

Parêntesis: verifiquei, com surpresa, tão justa e científica é a previsão do fim do chauvinismo capitalista, que o filme foi, ao tempo, proibido na solaríssima União Soviética, onde julgo que nada era proibido.

 Palpita-me que a culpa foi das palavras que Wilder pôs na boca de Ninotchka, depois dela experimentar uns apaixonados french kisses, arrancados aos lábios e língua do execrável burguês, beijos acompanhados por umas flûtes desse borbulhante champanhe, que faz a glória da França e é a única etílica libação que a minha mulher, a revolucionária Antónia, consente. 

E diz Ninochka, de olhos postos no amado burguês e na taça de champanhe: “Estou tão feliz. Oh, que feliz que estou. Ninguém pode estar tão feliz sem ser castigado. Vou ser castigada. Tenho de ser castigada.

Wilder castiga-a! Se virem o filme, descobrem como: o sólido argumentista austríaco fá-la rir, e rir é o pecado que a velha revolução bolchevista nunca perdoou. Tenho de acrescentar que, hoje, o activismo militante, vetusto, furioso, albardado em culpas, ainda perdoa menos. A conversão de Ninotchka ao riso e ao prazer é o caminho das pedras da sua perdição em Paris e por Paris. As palavras de Wilder fazem com que a camarada Greta Garbo ponha cada pé na pedra certa, ou não fossem as palavras a matéria de que se fazem os sonhos.

Publicado no Weekend, Jornal de Negócios

Seja lá o que isto for

Pode comparar-se um tractorista português a Sir Winston Churchill, que foi primeiro-ministro de Inglaterra, e tinha a extravagância de charutos, bebidas e outros prazeres hoje chibatados na praça pública? Eu diria que sim, se o tractorista português emergir da longa noite que estava mesmo a acabar na madrugada do dia 25 de Abril de 1974.

Mas antes de darmos essa voltinha de tractor, deixemos entre parêntesis Churchill, bora lá à América e sentemo-nos com o escritor Truman Capote, de quem Marilyn Monroe adorava ser confidente. Deliciadamente gay, Capote atraía as mulheres e lá está uma, em Key West, derretida, a pedir-lhe um autógrafo. O já bem bebido marido da dama, afrontado pela “frociagginice” de Capote – essa qualidade que agora o Papa Francisco tornou famosa –, o marido, dizia, veio à mesa do escritor, tirou para fora aquela ferramenta que, nas calças, um homem não sabe se há de pôr para a direita ou para a esquerda, e disse: “Já que autografas coisas, autografa-me isto!”  Ora, “espontâneo” era o nome do meio de Capote, que logo disparou: “Oh, autografar não consigo, mas pôr as minhas iniciais acho que dá!

Seria Churchill tão espontâneo como Capote? Consta que não, que agonizava para encontrar a frase certa, até nos discursos, mas quando a irritação o instigava, a maldade tomava conta dele e feria como um escorpião. À dama que em público insinuou que era uma vergonha a bebedeira com que ele estava, logo Churchill esclareceu: “Estarei desagradavelmente bêbado, milady, tal como a senhora é desagradavelmente feia, mas amanhã eu estarei sóbrio, enquanto a senhora continuará feia.

E agora, música para os nossos ouvidos, prestemos atenção a uma lenda da música clássica do século XX, o maestro inglês Thomas Beecham, a quem devemos um precioso conselho: “Experimentem tudo uma vez, menos o incesto e dançar folclore.” Beecham está ali, no palco, a ensaiar com a orquestra. Mas tem em uma nova violoncelista. O maestro enerva-se com a interpretação dela e grita-lhe, em registo mozartiano: “Minha senhora, tem entre as suas pernas um instrumento que é capaz de dar prazer a mil pessoas e tudo o que é capaz de fazer é arranhá-lo?!

 É altura de subirmos para o tractor: venham dar uma volta com o seu anónimo condutor. Estamos na madrugada do dia 25 de Abril de 1974 e andaremos pelas 4:30 da manhã. Já passou um mês do falhado golpe militar das Caldas e Portugal está uma pasmaceira expectante. Um homem vai no seu tractor e, de Santarém, começa a ver camiões da tropa, tanques de guerra, uma coluna que lhe parece infindável. Passam por ele, ronronantes, e vão em direcção a Lisboa. É, embora ele não o saiba, a coluna militar comandada por Salgueiro Maia, que irá derrubar Marcello Caetano, e com ele a mais velha ditadura da Europa. O tractorista não sabe nada disso. Pára o tractor, contempla esses veículos gigantes que rodam determinados para Lisboa, levanta-se e grita: “Seja lá o que isto for, viva!” Eis o primeiro slogan do 25 de Abril, uma história que talvez seja só lenda, mas se a lenda é bonita e merece passar a facto, imprima-se e deixe-se entrar na história.

O nosso tractorista vale um Churchill e é bem mais prospectivo do que o grande maestro Beecham. Ou mesmo do que Mark Twain. Enquanto o tractorista de Santarém ou lá próximo está aberto ao futuro, Twain corria a esconder o seu humor no passado. Quando lhe perguntaram o que faria se acontecesse o fim do mundo, disse: “Se o mundo estivesse a acabar ia para Cincinatti: é que lá tudo acontece 20 anos mais tarde!

Publicado no Jornal de Negócios, no suplemento Weekend, que sai às sextas. Estou lá, todas as semanas, na última página, já lá vão 5 anos 🙂

Tous les garçons, não é Bob Dylan?

“Não há amores felizes”, canta com uma estóica e tão bela resignação Françoise Hardy. Mas será que pode haver “desamores felizes”? Os amores de Françoise, cinco contadinhos pelos dedos de uma mão, jura ela, foram todos infelizes, estradas acidentadas a desaguar na solidão. Foi na nostalgia de um desamor que Françoise Hardy se consolou, até há poucos dias, até ao dia da sua morte.

Bob Dylan foi esse “desamor feliz”. Lembro que ninguém conhecia Françoise. Vivia, em Paris, não longe do Pigalle, na rua du Aumale, a mesma onde, por menos de um ano, no século XIX, vivera Richard Wagner. Deve ter ficado por ali um acorde da “Cavalgada das Valquírias” à espera, um século depois, de entrar pelo ouvido da pequena Françoise. Ela dormia no quarto com a irmã esquizofrénica, na sala do mirrado apartamento, a mãe, solteira, contabilista pobre e tão infeliz, que tirava prazer de fazer infeliz a filha, capaz de lhe dizer que tinha umas pernas tão magras que lhe ficariam em Guimarães com elas para facas, soubesse Françoise onde era Guimarães.

Interessa é que era Hardy uma menina e começou a cantar. Em 1962, na noite em que a televisão francesa se esgadanhava para analisar os resultados do referendo sobre a eleição por sufrágio universal do presidente da república, sei lá se foi De Gaulle que pediu, aparece num intervalo a menina Françoise e da boca dela ouviu-se uma coisinha moderníssima, a canção que ela escreveu e chamou “Tous les garçons et les filles”. Os ouvidos de França desabrocharam. Escusado será dizer que no dia seguinte, todos os “garçons” e todas as “filles” entoavam, dançavam e se derretiam em tristeza com a encantada jeremiada daquela canção. E derreteu-se a Alemanha, a Inglaterra, a Espanha, e eu em Angola, “la main dans la main”, também.

Do outro lado do Atlântico, soprada pelo vento, chegou às mãos do ainda principiante Bob Dylan, a fotografia de Hardy. Olhou para aqueles ossos a quererem furar as maçãs do rosto, para os seios pequenos, para a cintilante mini-saia e apaixonou-se. E eu, colonialíssimo, em Angola também.

Como eu, Dylan só vira uma fotografia. Como eu, escreveu cartas a essa fotografia, chorou e suspirou nesse tempo em que os tempos tanto mudavam.  Mas eu não canto nem tenho talentos. Bob Dylan, sim. Já Françoise filmava com Hollywood e veio Dylan cantar a Paris, onde também Amália cantou, sala mítica, ao Olympia.

Françoise veio vê-lo. E Dylan, a acústica uma boa merda, falhou. Ao intervalo, recusou voltar ao palco, a não ser que a desconhecida Françoise viesse ao camarim consolar o seu derrotado ego. Ela veio. E tiremos, com a ajuda de Einstein, esses 10 minutos íntimos da fita newtoniana do tempo. No final do espectáculo, Dylan levou Hardy, Johnny Hallyday e mais uma mão cheia de franceses para a soberba delícia que era então o hotel Georges V. De olhos fixados em Hardy, deixou-os a todos menos ela, e na sua suite de americano cantou “Just Like a Woman” e “I Want You” à raptada miúda da rua du Aumale, ali perto do Pigalle.

Se isto não é uma declaração de amor, o que é uma declaração de amor? E eis a minha inquietação:  um tipo do Chega, um tipo do Bloco de Esquerda poderão ainda compreender a gentileza, a doçura, a angústia amorosa que está por trás de tudo isto?

Nada aconteceu, confessa com ternura Françoise, a não ser terem ficado a olhar-se num puríssimo sol, lá, si. Nunca mais se viram, mas Dylan escreveu esta dedicatória num LP: “A Françoise na margem do Sena, sombra gigante de Notre Dame.”

Sim, já houve amor. E que, lá do céu, Françoise continue a ser o “soleil” que tanta falta nos faz.

Publicado na última página do Weekend, no Jornal de Negócios, na minha crónica semanal

Junho quente, livro valente

livros de junho, foicinha em punho

Está a chover sobre o Parque Eduardo VII. Chovem livros! Não obstante, arde o sol no azul do céu, a fechar a Primavera, e já se sabe, Junho quente, livro valente. Aos mil títulos da Guerra e Paz que lá temos, juntamos mais dez novidades. Ora ouçam e venham visitar-nos, que Junho abafadiço sai a abelha do cortiço.

Estamos na zona poente, (nos pavilhões B29, 30, 31 e 32), no alto do Parque, com vista soberba para um preguiçosíssimo e lúbrico rio: é o único sítio de onde se vê o Tejo, descuidado, de robe aberto à brisa!

E nessa jam session que é a Feira do Livro de Lisboa, também a Guerra e Paz, com uma voz de Ella Fitzgerald (ah pois), lançará dois novos romances, ambos de estreia: da brasileira Fernanda Teixeira Ribeiro, um inovador Cantagalo, Prémio Revelação Literária da UCCLA-CMLisboa; do português Pedro Fernandes, um negríssimo Os Filhos de Nihil, Prémio Nacional de Literatura Lions de Portugal. Obrigado UCCLA, obrigado Lions.

Ah, o 10 de Junho! Às 17:00, numa sessão que vai ser universal e nada paroquial, Margarida Braga Neves e António Carlos Cortez falam de Camões-Jorge de Sena, e aí se estreará o talvez mais belo dos 5 livros que comemoram os nossos 500 anos de Camões vistos por Sena. Apoiado pela Gulbenkian, o livro chama-se Babel e Sião: está lá, de Camões, a redondilha Sobre os rios que vão, em papel negro escrita a prata. E está lá o conto Super Flumina Babylonis, no primeiro encontro, no mesmo livro, de Sena e Camões enquanto poetas e criadores. Obrigado, Isabel de Sena, por ter abençoado este encontro comovente.

Nesse livro também está o Salmo 136, Babel e Sião, elegíaca digressão sobre o cativeiro de Israel, que inspirou Camões: esse mesmo salmo é o mote de um outro livro lúcido e pungente de Bernard-Henri Lévy, Solidão de Israel, combativa análise da guerra que o 7 de Outubro, perpetrado pelo ataque do Hamas, desencadeou. João Soares e Henrique Monteiro apresentam o livro, no próximo dia 8, às 14:00.

E, ou não se chamasse esta editora Guerra e Paz, juntámos, com a ajuda da Academia Militar e do Instituto Universitário Militar, os melhores especialistas militares e civis de estratégia: o livro chama-se Entender a Guerra Hoje: Estratégia, Guerra e Política. O título diz ao que vamos e a organização é de Antunes Ferreira, Luis Barroso. António Paulo Duarte.

Mas eis do que Junho estava à espera: agora sim, para os que querem perceber de onde vem a mortal pulsão totalitária que cerca hoje as nossas democracias, está completa a História do Fascismo, de Emilio Gentile. Menos de um mês depois do I volume, chegou o II volume. Volume I e II estão na Feira e, no dia 15, às 17:00, Isabel Alçada e Paulo Portas, falarão dessa obra monumental e da colecção Os Livros Não se Rendem, de que, há dois anos, a Fundação Manuel António da Mota e a Mota Gestão e Participações fazem doação à rede nacional de bibliotecas públicas: já ofereceram cerca de 4 mil livros.

Sim, não temos tabus. Contra os modernos gulags e auschwitzes do pensamento, foi com gosto que publiquei, do meu amigo Pedro Correia, Tudo é Tabu, Cem Casos de Censura, onde, com limpidez, se fala, caso a caso, de cem exemplos do que João Ubaldo Ribeiro chamou o delírio «totalitário, autoritário, asnático, deletério e potencialmente destrutivo» do activismo radical dito «politicamente correcto».

Das novas chancelas, que a Rita Fonseca lidera, na Crisântemo, escolheu ela duas digressões freudianas. Nestes tempos narcísicos, de recalcamento e algum Thanatos, é mesmo bom voltar a ler, do velho Sigmund Freud os sempre novos Do Narcisismo e Além do Princípio do Prazer. As edições estão leves, livrinhos de se meterem no bolso… e estão lindas.

Ora, se houve livro em que a Rita se esmerou, para a chancela de ficção, a Euforia, foi no originalíssimo romance em que volta a haver cowboys e cow-girls, mas contemporâneos, e há amores e desilusões com cores novas e originais, regresso à natureza como quem se fecha num monte no Alentejo. Chama-se Feita e Desfeita (Done and Dusted, no original), é de Lyla Sage, passa-se no Rancho Rebel Blue, e o romance é faiscante e de capa linda. Na América já é um bestseller: quem diria que os cow-boys, como Jesus Cristo, também eram capazes de ressuscitar.

Há mais sessões na Feira. Estão todas aqui, com indicação de dia, hora e local. Façam o favor de vir todos, todos, todos.

Manuel S. Fonseca, editor

Glória aos baixinhos

Um metro e meio basta para pôr o mundo arder. Olhem para Elizabeth Taylor. Por esse metro e meio, de uma geografia alcantilada, diga-se, incendiaram-se corações, mentes e corpos. O pobre Richard Burton, que estava a menos de um dedo do 1,80, tinha todos os centímetros em fogo quando via essa pequena Liz. Pior, ainda mais quando a não via.

Liz Taylor não foi caso único. O metro e cinquenta e dois de Joana d’Arc pareceu gigantesco aos franceses guerreiros que queriam expulsar os ingleses invasores. Baixinhas como ela foram Cleópatra e a Rainha Victoria, o que não as impediu de terem o mundo a seus pés.

E deixem que me meta entre as mulheres. Eu tinha então uns 11 anos cambutinhas, como em Luanda se chamava a gente de baixa estatura, e temia a minha profe de matemática, Maria de Lurdes, a quem, à boca calada, chamávamos Joana Bocarra. Vejam-na a entrar na sala de aula. Levantámo-nos como uma mola, bom dia sô tora, tal qual ordenava o ritual do Salvador Correia, o mais belo liceu do mundo. A sô tora olha para a sala, eu lá bem atrás, para fugir a humilhantes chamadas ao quadro, e ela grita: “O menino lá ao fundo, porque é que está sentado? Levante-se!” O menino lá ao fundo era eu e estava tão de pé quanto podia estar, com o meu 1,64, que tomara a Liz Taylor e a Joana d’Arc. Ganhei a solidariedade da turma, de que passei a ser a mascote.

Baixinhos, cambutinhas eram actores como Charlie Chaplin, Woody Allen, Al Pacino, Richard Dreyfuss. Tom Cruise, que vi, olhos nos olhos, numa ante-estreia num cinema da Wilshire Boulevard, é mais baixo do que todas as mulheres dele, mesmo que elas descalcem os sapatinhos de salto alto.

Billy Cristal é outro dos short guys, o que não o impediu, sem para isso mexer uma palha, de arrancar e se maravilhar com o ultra-exuberante orgasmo de Meg Ryan, uma sinfonia expletiva e enfática num prosaico McDonald (?), pequeno monumento gutural, que podem visitar revendo o filmezinho que se chama “When Harry Met Sally”.

Os atributos do cambuta não são apenas os talentos de actor. Os baixinhos podem ver-se contaminados pela sede de poder. Napoleão Bonaparte tinha menos de um 1,70, Churchill a mesma coisa. Alexandre, o Grande, Benito Mussolini, o imparável Berlusconi eram da minha altura e Estaline tinha só mais um centímetro, tal como Lenine.

Franco, o ditador espanhol, com o seu 1,62, era metade de Salazar, e outro metro e sessenta e dois, o de Ghandi, semi-nu, pouco mais de uma tanga, mudou o mundo, derrubando com fragor o Império britânico. Deng Xiao-Ping, o maoista que livrou a China do maoismo dizendo aos chineses que enriquecer era coisa boa, era cambutíssimo, menos de um 1,50. Era, digamos, o Danny De Vito da política mundial.

Com o devido respeito por Lincoln, De Gaulle e mesmo Bin Laden, todos acima de 1,90, nenhum deles tem o charme, mesmo que por vezes tintado de odioso, dos meus heróis baixinhos.

Tinha muita vontade de falar de Ava Gardner, que era uma mulheraça de 1,68, mas dir-se-ia não ser desta história. E lembrei-me que a primeira vez que dormiu com um homem, foi com Mickey Rooney, que media um rasteirinho 1,57. Vestido, era 1,57 de energia, gags e gargalhadas. Despido, diz Ava, “corta uma mulher ao meio, como faca quente a mousse de chocolate”. Lana Turner, a melhor amiga de Ava, que dormira (se assim se pode dizer) com ele antes, e por ele ter incarnado a mesma personagem, Andy Hardy, em vários filmes, chamava-lhe o “Andy Hard-on”, rija delícia da língua inglesa que não traduzirei, deixando-vos com a mousse de Ava.

Publicado no Jornal de Negócios

Um espectro de 2 metros e 120 quilos

Que maciça silhueta de cavaleiro é que provoca um tão luminoso sobressalto na bela mulher madura, de pele ainda tintada de desejo, que surge à porta da casa? Que tensão, que camuflada distância, congela os dois irmãos que, separados há anos, se apertam as mãos quase com vergonha? Sim, sei bem que sabem, que estou a falar da abertura de “A Desaparecida”, de John Ford.

Viram o beijo de John Wayne à testa da cunhada? Que envio lírico se solta desse beijo e embaraça aquela esposa e mãe, pondo nas nossas faces de espectadores o carmim do rubor? Que antigo romance adivinhamos no pudor desse beijo?

Que Ulisses sem Penélope é este John Wayne, saco de desilusão montado a cavalo, de andar desengraçado, de corpo tão estranho à harmonia familiar? Que deus ou deusa da desgraça o soprou do fundo horizonte, cavaleiro vindo dos mortos, para vir assombrar a plácida rotina dos vivos?

Quem, sem dizer uma palavra, nos conta estas histórias é a prodigiosa e poética realização de John Ford, quem as contas são os olhares, os gestos quase imperceptíveis, as inflexões de voz da personagem de Wayne, Ethan de seu nome, das hesitações e tão bonita discrição do irmão e da cunhada, quem as conta é a ousada intrusão da música de Max Steiner.

É esse o milagre do cinema, do pantagruélico cinema que se alimenta do Homero de há 30 séculos. Tão moderno como Homero, John Ford deixa, em pinceladas rembrandtianas, a sugestão de um romance familiar tabu, deixa cair no rosto de John Wayne e da cunhada a gota de amarga saudade do raio de um desejo talvez nunca consumado. John Ford deixa-nos, enfim, adivinhar o escuro ressentimento de quem, como Ethan, nunca provou a lenta pasmaceira da felicidade doméstica.

Não é para essa felicidade que John Wayne está guardado. Ele traz nos alforges os mesmos ventos que um dos deuses deu a Ulisses. E os ventos vão soltar-se e devastar esta família em harmonia, vão devorar esta mulher que vemos entrar em casa de costas, recuando, para não deixar de olhar para John Wayne, numa coreografia tão bailarina, que até dói no nosso manso coração de espectadores.

Os índios, os terríveis comanches, hão de vir a seguir, numa via dolorosa de destruição e morte. Só sobrevive a filha pequenina, Debbie, que os índios raptam.

Ethan, a personagem de John Wayne, o Ulisses mais carregado de ódio que a história da ficção já viu, John Wayne, essa funda mina de negrume, sem ouro nem lítio, irá, de ilha em ilha, de deserto em deserto, em busca dela, da sobrinha Debbie, para repetir o gesto que fez quando a conheceu: Ethan agarrou na pequena Debbie e levantou-a no ar como quem segura nas mãos, contra o céu, a essência da inocência.

Chamei a esse prodigioso movimento, gesto – qual gesto, é mas é um verso, o primeiro verso, verso suspenso à espera da rima que o feche e feche em redenção um longo poema de raiva, som e fúria.  E é este, depois de obtida a redenção, o fecho de “A Desaparecida”.

A porta que se abriu para que este filme começasse e pela abertura dela percebêssemos ao longe a silhueta fantasma de cavalo e cavaleiro, esse Ulisses fordiano que vem em busca da sua Ítaca, fecha-se agora.

No doce útero que é a casa entram e ficam todos, a nova família, o índio Moses, Debbie que um dia talvez venha a ser outra Penélope. Cá fora, de fora, fica apenas, agarrada ao seu amado cotovelo, olhos a esvaziarem-se no infinito, a solidão irremediável, peregrina e estrangeira de John Wayne, espectro de dois metros e 120 quilos, que dá corpo ao mais pungente dos Ulisses, épico como em Homero, trágico como em Dante.

Publicado em Jornal de Negócios

A minha Baby

Há esses pais que se gabam de beijar as lágrimas dos seus filhos. Do que me lembro do meu pai, que não era comigo de muitos beijos, é da felicidade que retirava dos sorrisos que me punha de orelha a orelha. Estava eu a dar a volta dos 12 para os 13, corria o ano de 1966, e ele julgava que me arrancaria um desses sorrisos, um de Luanda a Moçâmedes, ao oferecer-me uma máquina de escrever. Era uma Hermes Baby, teclado azert, verdinha, de se levar debaixo do braço como hoje se leva um tablet.

Olhei para o monstrinho verde, como quem olha para um extraterrestre, numa reacção pessoana, de primeiro estranha-se e mais tarde se verá se se entranha! Sabia lá eu quem era Fernando Pessoa. E ainda menos adivinhava as aventuras que viveria com essa doce Hermes Baby!

Logo nesse ano, depois de me dedicar a aprender a decorar o teclado, com o mesmo afinco com que chutava a pesada bola de catchú no quintal, e depois de ser capaz de bater um texto à máquina de olhos fechados, a minha Hermes, ó baby, ouviu comigo religiosamente os relatos dos jogos desse Portugal que Eusébio levava ao colo pelos belos relvados ingleses. A minha Hermes gritou, chorou baba e ranho e explodiu em glória quando Eusébio vergou a Coreia do Norte à humilhação da remontada de uns zero três a uns cinco a três, essa conta que Deus fez, por Eusébio, por duas vezes, lhe ter ensinado a tabuada da coisa.

A minha Hermes colou-se-me aos braços, entrou-me olhos dentro, e o meu jovem cérebro habituou-se a deambular pelas 47 teclas e pela barra de espaços, deliciando-se a inventar mentiras e a confessar as poucas verdades que ia descobrindo. Eu já quase não batia nas teclas, os meus dedos acariciavam-nas apenas e, depois de fechar as portadas da janela, no semiescuro, despia um bocadinho a Baby, enrolando-lhe dengosamente a fita de tinta vermelha e negra, enquanto o rolo apertava com firmeza, para não dizer que se roçava, como então dizíamos que jean jacques se roçou, pelas duas folhas de papel separadas por um químico (o que eu sempre gostei de duplicados!).

Tornámo-nos inseparáveis. Aos 15 anos, arranquei-lhe poemas, manifestos, um jornal de rua, os novos estatutos de Os Falcões, um clube de candengues caluandas mal saídos dos cueiros, que era o que nós éramos, ali no cruzamento da Fernando Pessoa com a Alberto Correia. Em 1970, aos meus 17, já essa Baby de 4 anos, escrevia os textos do catolicíssimo e progressivíssimo programa Aguaviva, que a luandense Rádio Ecclésia me deixou fazer. E mais, já o teclado da curvilínea Hermes se metia em conversas de adultos, escrevendo uma rubrica semanal, “O Rei Morreu, Viva o Rei”, no grande programa Equipa, de que o patrão, Carlos Brandão Lucas, fazia a coisa mais moderna e fora da caixa da rádio luandense.

A minha Hermes Baby levou pela mão este ceguinho que eu sou revelando-lhe as assombrosas fendas cósmicas da Guerra Fria, pediu-me que olhasse lá de longe a guerra do Vietname, e de perto a nossa ultramarina guerra colonial. Mas devo-lhe sobretudo os êxtases com que olhou para o que em Brigitte Bardot eram “rondeurs” e um ou outro lábil declive.

A Baby correu comigo o mundo, Paris, Grenoble, Lobito, Los Angeles, San Francisco, Pinhel, San Sebastian. Entrevistou a Glenn Close e a Angelica Huston, o Storaro e o Coppola. Mesmo o George Lucas. Descansa, agora, aqui em casa, caixa aberta para que o teclado brilhe. Que o meu pai saiba – diz-lhe, diz-lhe, Deus! – dos mil sorrisos, daqueles de 700 km de Luanda a Moçâmedes, que esse regalo dos 13 anos, arrancou ao meu coração.

Publicado no Jornal de Negócios

João Bénard da Costa, 15 anos

Foto do meu jantar de despedida da Cinemateca, em Março de 1992. O que estarei eu a tentar demonstrar ao João? E o Manel Cintra Ferreira, à direita do João, em que mundos de sonhos estará mergulhado?

Olá, João! Já sei. Não me vai responder. Há 15 anos, que o João persiste nesse silêncio obstinado. Mas quero dizer-lhe que mesmo quando se cerra nesse mutismo, há frases suas que viajam no ar como se fossem cometas, auroras boreais, um meteorito igual ao do 2001, do Kubrick.

E deixe-me passar-lhe a mão pela vaidade – essa, sei que o João a tinha – há 15 anos que ninguém, mas mesmo ninguém, voltou a conseguir amar e fazer amar os filmes como o João nos ensinou a amá-los. Aquela sua forma de amar os filmes acariciando a língua portuguesa, enleando-se lubricamente nela, enchendo-a de beijos levemente salivados, esse modo misterioso de amor há 15 anos que se eclipsou, como se nos tivessem roubado Brigadoon ou a perfeita harmonia do verdíssimo vale que John Ford criou. Se tenho saudades? O que acha, João…

Publicado no Correio da Manhã, na minha Bica Curta