Os meus livros de Setembro

De onde vem o sal que ainda trago colado ao corpo? Das férias ou restos do velho Império? Esta é, cheia de feridas tratadas a sal, a newsletter da nossa rentrée. Boa leitura.

Que terra assombra de amor-ódio-culpa o imaginário do século XXI português? De onde vêm essas ondas de dor, de nostalgia, de sopro heróico e arrepio pusilânime, que se nos cravam no estômago e baixo-ventre? Dois belíssimos e chocantes romances – sim, romances de amor-ódio-culpa – respondem, e começam aqui os meus livros de Setembro: O Elogio da Dureza, romance cru, rijo como rocha, poético e intempestivo como Rimbaud, da autoria de Rui de Azevedo Teixeira, e Sublevações, romance de seis dilacerados e raivosos monólogos-trovão, de Filipe Súcia Fernandes, assustaram-me e comoveram-me: são trovões que vêm de Angola, com cenas de fúria que se nos espetam como punhais na nossa carne inocente e no raio dos nossos pecados. São muito boa literatura. Vêm das entranhas, não são para meninos ou meninas, são para mulheres e homens bravos, romances que fazem mais forte a forte gente. Repito: Elogio da Dureza, de Rui de Azevedo Teixeira e Sublevações, de Filipe Súcia Fernandes, dois romances diferentes, vestem-nos e despem-nos com fervor e furor, instinto assassino, o nosso incendiado passado colonial, a perplexidade e a amargura da derrota, da expulsão, um lençol de sexo e amor também. São feridas novíssimas e indeléveis abertas na literatura portuguesa. A ler já.

Literatura hoje consagrada é Os Grão-Capitães, de Jorge de Sena, que vem reforçar as Nova Edições de Jorge Sena, que Isabel de Sena me tem ajudado a fazer. Lê-lo ao mesmo tempo que se lêem os romances do parágrafo anterior mostra-nos o quanto Sena antecipou e percebeu das nossas angústias nacionais: Sena sabia já porque é que Capangala não responde. A melhor ficção portuguesa!

E vou parar aqui para deixar José Jorge Letria cantar: em Abril Também se Fez a Cantar, Letria conta-nos mais de 20 episódios do que foi, antes do 25 de Abril e depois, a emergência e a urgência das canções de intervenção e dos cantautores: estão lá todos e, claro, dorme meu menino, José Afonso, estrela d’alva, brilha.  

A um sono profundo decidi arrancar Salazar. Decidi que devia ser Salazar a falar de si mesmo. Salazar, as Citações: Poder, Solidão, Amargura é o livro que dá a palavra ao ditador de meio século. Reuni o que disse Salazar, pus tudo por ordem cronológica e enquadrei, moi-même, Manuel S. Fonseca, as situações que o levaram a dizer o que disse. Deixar falar Salazar diz-nos mais sobre ele do que mil opiniões (de devotos ou de quem o abjure) : descubram-lhe ambições de juventude, o que pensava mesmo sobre os portugueses; descubram-lhe a inteligência financeira, o diplomata, o geo-estratega; descubram-lhe a insensibilidade que roçava a crueldade; entrem com ele, no fim, no quarto escuro da desilusão e do ressentimento. Lê-se como um romance: «Hão-de falar muito mal de mim» pressentiu ele.

Teria Salazar um pé no mal? Sobre o Bem escreveu Iris Murdoch. O seu A Soberania do Bem é um dos grandes livros de filosofia do século XX. Denso, desafiador, explica-nos por que razão o Bem não é uma escolha: o Bem é objectivo, o Bem existe, e é esse o eixo da ética de Murdoch, essa belíssima romancista irlandesa, que era também filósofa: um livro exigente, dos mais bonitos que já publiquei na colecção Os Livros Não se Rendem, de que a Fundação Manuel António da Mota e a Mota Gestão e Participações são parceiros generosos.

E vejamos, há um romancista novinho em folha a chegar a Portugal. Chama-se Pedro Gunnlaugur Garcia e é luso-islandês. O seu romance, Pulmões – exige fôlego, sim – venceu o Prémio Nacional de Literatura da Islândia. Comparado a Günther Grass e Gabriel Garcia Marquez, chega a Portugal, ao mesmo tempo que é publicado na França, Alemanha, Espanha, Brasil e México. A tradução é do Ivan Figueiras.

Outra surpresa é O Tribunal das Almas, romance de Fernando Paulouro das Neves, a começar pela personagem principal: eis que um remoto parente de Fernando Pessoa, Martinho Pessoa, é perseguido pela Inquisição e levado à fogueira no teatro divino do Santo Ofício. «Nesta condição em que estou, ainda sou um homem?» é a pergunta desse surpreendente, e em desoladoras chamas, Pessoa antes de Pessoa.

E antes de me deixar deslizar para as mais doces chamas do ócio, deixem que vos fale das duas chancelas, Crisântemo e Euforia, com que a Rita Fonseca quer descobrir outros caminhos marítimos para a Guerra e Paz.

Na Crisântemo, há um livro de estreia: Atenção na Era da Distracção, de Ana Vargas Santos. A autora é especializada em Psicologia Organizacional e escreveu um livro prático, seguro e utilíssimo com 18 ideias chave para ajudar o nosso corpo e o nosso cérebro a manterem-se «ligados»: afinal, a nossa vida depende da forma como agarramos e usamos a atenção no polvilhado mundo que nos cerca.

Na Euforia, chega um novo romance da saga do rancho Rebel Blue. Depois de Feita e Desfeita, a autora, Lyla Sage, oferece-nos A Lua e a Maré. Nos Estados Unidos é já um «national bestseller», um popularíssimo «best  book of 2024 so far», revelando a magia e a emoção do regresso a um mundo de natureza, cow-boys e cavalos, o mundo do rancho: mas será assim um mundo tão simples e «natural»? Quando se cavalgam sonhos para onde podemos ser arrastados: para tensões dolorosas ou para o mais transbordante dos romantismos? Descubram.

Manuel S. Fonseca, editor

Os mortos que nunca nos morrem

Cada um tem os seus mortos que não morrem. O meu pai, o Artur, faz-me, hoje, dia 15 de Agosto, 102 anos. Mentirão se disserem que morreu há quase 30! O Artur continua a aparecer-me: só um sussurro, às vezes; ou um riso atrás de mim e quando me viro, já se foi embora; ou três límpidas aparições nessa azinheira que é o nosso intranscendente desejo de transcendência e só uma em que vinha de cara triste, barba de dois dias.

À medida que envelhecia ia ficando cada vez mais parecido com Mário Soares, as mesmas bochechas, as mesmas rugas nos olhos. O meu pai nunca foi, nem nunca lhe passou pela cabeça que pudesse ser figura pública. Quarta classe tirada na escola da aldeia, mãos de fazer tudo, mesmo tocar bandolim, o meu pai sabia imensas coisas – que eu nunca saberei –, podar árvores, fazer uma cadeira, plantar batatas, pôr tijolos e levantar uma parede, vindimar, criar patos, gansos e coelhos e curá-los quando estavam doentes, tocar, como Bob Dylan, harmónica. Sabia dançar e perdoar. Sabia o nome das árvores, o nome de quase todos os pássaros, não sabia era o nome dos peixes, ele que tão pessimamente pescava, ignorância de rodapé que me deixou de herança. Sabia dizer-me que sim!

Coisa estranha: queria ser independente. Nasceu numa aldeia da Beira Alta, era proficiente, alegre, quase um artista; podia ser ali um pequeno rei e não lhe bastava a aldeia, o casarão da mãe, duas vinhas e um olival de que era dono. O meu pai não era dos que sempre ficaram. O meu pai era e foi português de se ir embora. Levou-me com ele, à Alice, minha mãe, e à minha irmã, para uma África desconhecida. Ingénuo e idealista, à apolítica maneira dele, vendeu tudo no Portugal da minha avô, as vinhas e os olivais, para comprar uma pequena casa, no fim do asfalto, em Luanda, um musseque em frente. E era em Angola que sonhava morrer, de tanto ter sido ali feliz. Colonialismo? Sabia lá ele que palavrão era esse, ou que colonialismo e anticolonialismo fossem faces eternas da mesma moeda.

Um dia o meu pai descobriu que tinha de voltar. Retornar. Uma mão à frente, outra atrás, um frigorífico, uma moto, camisas de manga curta e um black and decker em três caixotes num barco. Meteu a família, a Alice, filha e neta, num dos aviões que a caridade social-democracia sueca dispôs. Menos eu, então independentista convicto: o abraço que demos, perto da Mutamba, antes de ele e o meu cunhado irem apanhar o derradeiro avião.

E agora me lembro que o meu pai me disse, por outras palavras, a mesma frase que tanto se citou no dia em que Mário Soares morreu, que não era homem de desistir. Aos 52 anos, do nada, de um subsídio do IARN e de uma casa senhorial, tão bonita e abandonada, sem água nem luz, à saída de Pinhel, que sem um centavo de pagamento lhe cedeu o generoso Manuel Vilhena, deputado da ASDI, semi-partido entalado entre o PSD e o PS, o meu pai, obrigado a ser de novo o agricultor que não queria ser, refez, tijolo a tijolo, vindima a vindima, a sua vida. Com estoicismo, por amor à Alice, minha mãe: tantas vezes os vi sentados, mão na mão, entre as árvores, aos pés os lírios do campo.

O Artur faria agora 102 anos. Gostava de ter na mão o meu primeiro brinquedo, um carrinho de madeira que ele mesmo me fez, na casa de cimento incrustada no musseque Sambizanga. Era ainda tão novo, segurava-me a mão e um calor grande, lareira no meu peito, fazia-me dizer baixinho: “Este é o meu pai!” Há por aí quem diga e até escreva que Deus fez o Homem à sua imagem e semelhança: quando penso no meu pai, chego a acreditar que sim.

Publicado no Jornal de Negócios

Abra-se a boca ao actor e olhe-se lá para dentro

Tenho um medo dos actores que me pelo. Lembro-me do senhor Adolfo Gutkin me ter mandado subir ao palco do teatro da Trindade, para me juntar aos exercícios de aquecimento a que esses espectros, a que chamam actores, se dedicavam.

Os exercícios de aquecimento de um actor são diferentes dos de um jogador de futebol. O corpo do actor contorce-se como se fosse uma silhueta de Goya, a voz estridula, enrouquece, balbucia com o desespero e angústia do animal selvagem ferido e acossado.

Apanhei o maior susto da vida, as pernas a abanarem como bandeira negra no meio da revolução. Trabalhava então no Teatro do Mundo na pesquisa de texto: só queria escrever sossegadinho, imóvel e invisível nos bastidores, e o raio do encenador argentino, vindo de Cuba, atira com o meu inexprimível eu para cima de um palco, sem rede.

Nos cinco minutos em que ali estive, perplexo e aterrado, soube que o palco é só para heróis, para os estranhíssimos seres humanos a que damos o substantivo nome de actores, esses mesmo

Um dia – se esticasse um braço podia tocar-lhe –, vi Peter O’Toole no palco, camisa aberta, a gravata quase desarmada, uma ressaca de caixão à cova, o catarro, esse homérico refluxo que um cigarro acalmava, enquanto não conseguia descobrir a bebida, o gin, que lhe limpava o apertado estreito. E era só um actor, era Peter O’Toole a fingir que era Jeffrey Bernard, o jornalista herói (ou anti-herói) da peça “Jeffrey Bernard is Unwell”, que é como quem diz “Jeffrey Bernard não está nada bem”.

Estava ali, à distância de um braço, o bafo do gin no ar, e eu não sabia se era Peter O’Toole se era a personagem Jeffrey Bernard: e o que é assustador (e miraculoso) é essa fusão! Mas qual? A da personagem no actor ou a do actor na personagem? Rendo-me quando não distingo, quando vêm os dois em um: vejo John Wayne no Ethan Edwards do filme “A desaparecida”, de John Ford, e vejo que Ethan Edwards é, inteiro, o corpo, mas também a moral de John Wayne.

Quando penso no ofício do actor volta-me o medo das duas da tarde, no Teatro da Trindade com o Senhor Gutkin. Mais depressa andaria numa montanha-russa no escuro do que quereria fazer a assombrada visita ao interior de um actor.

A questão é mesmo essa: será que se pode ver um actor por dentro? Como se faz? Sobe-se uma escada, abre-se-lhe a boca e olha-se para o escuro que está lá dentro? Quantas mulheres e quantos homens é que estão no quarto escuro, sem janelas, da Greta Garbo? Seria por isso, por estar tão acompanhada, que ela dizia, num filme, o “Grand Hotel”, que queria ficar sozinha, aquele seu célebre “i want to be alone, i just want to be alone”?

Dizem que há uma oficina em que os actores aprendem. Nessa oficina o actor descobre a maneira do corpo pensar por si próprio, acabando na aparência com a tirania da mente.  

Será? Ouvi Charles Laughton, sofisticadíssimo actor inglês, contar outra história. Laughton terá dito do americano e ingénuo Gary Cooper o seguinte: “Vi logo que ele tinha qualquer coisa que eu nunca teria. Aquele rapaz não tinha a mais pequena ideia de como representava bem.”

Charles Laughton, que quando abria a boca se lhe via uma oficina inteira por ali abaixo, percebeu bem: aquele rapaz, Gary Cooper, mexia-se instintivamente como uma criança, mas uma criança cujo corpo pensasse com a inocência animal de um gato.

Eis o que são actores: estranhos seres humanos feitos, como Pinóquio, numa sofisticada oficina ou que já nascem com um animal felino dentro. Que outra coisa podemos fazer que não seja amá-los e ter um louco medo deles?

Publicado no Jornal de Negócios: sempre à 6.ª feira, no Weekend

Esqueçam lá a silly season

Se já estão embalados pela doçura das ondas, as carícias do sol a aflorar a pele, peço desculpa pela interrupção:
mas não deixem é de ler um livro. E obrigado por lerem esta newsletter

«Os meus livros de Agosto» vêm peticionar, subscrever e ovacionar toda e qualquer moção a favor da silly season. Pezinhos na água e um sabor a sal, eis do que a nossa humilde humanidade precisa. E depois, sim, lá para o fim de Agosto procurem estes livros.
A silly season, como gourmet e deliciadamente Jorge de Sena nos lembra no Reino da Estupidez II, já vem de longe: e este é o livro em que um Sena totalmente fora da caixa nos leva a um «festival de besteira». Nunca a prosa de Sena esteve tão inundada de riso, mesmo se o riso roça a amargura: dos ossos de um imperador à reportagem revolucionária numa sessão de esclarecimento durante o PREC, há aqui cavalos de seis pernas, uma entrevista ao fantasma de Camões, e aventuras onomásticas como as do pai que, por promessa à Senhora da Aparecida, se o curasse de impertinente doença de má vida, chamaria, e chamou, à filha Sífilis e ao filho Diagnóstico. 
E tomem lá um livrinho com sabor a sal. É de Victor Correia e perfaz uma tetralogia: às três antologias de poemas eróticos – antiguidade, cancioneiros medievais, frades e freiras, todas da Guerra e Paz – junta agora Sexualidade e Erotismo na Bíblia Sagrada. Se Sena me perdoa o roubo, diria que no livro se erguem episódios e histórias em que «o Homem põe-se e Deus dispõe-se». Fervem adultérios, incestos, nudez, muito pecado, o Senhor seja louvado.
Com um sorriso mais distendido é que se vai ler o gosto de ficção que Luis Alvellos nos oferece em O Ex-Futuro Primeiro-Ministro. O Luis (ele pede-me que escreva sempre sem acento) estreou-se comigo na poesia, Das Margens do Meu Rio, e a prosa confirma a agilidade de escrita, o amabilíssimo humor tintado por breves nuvens de vulnerabilidade e solidão. E há, no livro, um sujeito gordíssimo que gosta de dar – e tem esse direito – um murro no ombro a um ministro. Também gostavam?
Maré vazia, maré cheia, o que nada tem que ver com silly season, é Poucos Mas Bons, Portugal e a Sua Marinha no Combate ao Tráfico de Escravos, ensaio de Jorge Moreira da Silva, especialista na História da Marinha. Conta-nos o lado que agora se tende a ocultar, o da acção proactiva e destacada da nossa Marinha, no século XIX, no combate ao tráfico de escravos. Também temos méritos, haja Deus!
E há viagens mais curiosas do que outras: A Palavra ao Grão-Mestre, Os Desafios da Maçonaria Regular Contados por Dentro desvenda o que a muitos de nós continua a parecer misterioso, porventura insondável. E insondável é o que agora deixa de ser, ao sermos conduzidos em visita pelo autor, Armindo Azevedo, Grão-Mestre da maior obediência maçónica. Vale a pena ouvir.
E eis a pré-rentrée literária. Cai-nos do céu um Machado de Assis, Pai Contra Mãe, que tem pela primeira vez (no mundo, no mundo, diria eu), uma edição individual. O conto é um dos raros confrontos de Machado de Assis com a escravatura, com uma trama que é do mais arrepiante e convulsivo que se possa imaginar, protagonizada por um caçador de escravos fugidos. Outro conto e algumas crónicas, sobre a escravatura do seu tempo e o Dia da Abolição a que assistiu, completam esta obra única de Machado de Assis, que outro autor brasileiro, Paulo Nogueira, prefacia com garbo.
Se me estão a ver a correr pela areia já a mergulhar nos livros de Setembro? Sim, estão! E traremos surpresas, um livro em que Salazar diz o que quer da boca para fora, outro com os eufóricos amores de cavalos e ranchos de A Lua e a Maré, e a conclusão – a tiro, está claro – da trilogia A Vida Aventureira de Um Homem de Letras, de Rui Azevedo Teixeira, em que se fará, comme il faut, o elogio da dureza.

O vestido tão justo de Simone Beauvoir

Se muito falavam, mais bebiam. E choravam. De madrugada, debruçados sobre o Sena. Dois deles tinham uma idiossincrasia de Humphrey Bogart. Eram falsos duros, uma ternura de abade de Priscos por dentro, a virilidade judia de um Norman Mailer por fora. Falo de Arthur Koestler e do seu amigo do peito Albert Camus.

Koestler nascera húngaro e fora comunista. Em Málaga batalhara pelos republicanos, na Guerra Civil de Espanha. Talvez ali tenha descoberto não haver réstia de beleza em matar fascistas por não haver em matar beleza alguma. Preso pelos franquistas, ia ser fuzilado. Teve a experiência mística da grande boca negra da morte. Salvaram-no os ingleses. Em Agosto de 1939, ao ver Estaline e Hitler assinarem o pacto nazi-soviético, que deu conforto a Hitler para começar a II Grande Guerra, abandonou o partido.

Num romance, em 1940, revelou com estética, inquietação e personagens de viva vivida o que era a horrenda ditadura comunista e as suas purgas. Koestler descreveu em Darkness at Noon (O Eclipse do Sol, em português), o que, 80 anos depois, alguma esquerda ceguinha finge não ter existido.

Mas esqueça-se a escuridão e o meio-dia. Nos anos 50, Koestler veio com a mulher de então, Mamaine Paget, a Paris. Sentindo que eram as suas almas gémeas, queria conhecer os existencialistas. Entrou pelo gabinete de Camus, na editora Gallimard, e ficou encantado por ver ali sentado um tipo que parecia um fresco e vigoroso jogador de futebol argelino. Ficaram logo irmãos de armas, unidos pelos livros, pela bebida, pelos jantares. Também pelo lúbrico e desabrido desejo de amarem e serem amados por todas as mulheres do mundo.

Camus disse-lhe onde podia encontrar Sartre e Simone: numa soturna cave do Hotel Pont-Royal. Koestler entrou, viu-os e plantou-se-lhes à frente com um “Alô , eu sou o Koestler”. Mergulharam, depois em jantares e vinte dedos de conversa com que exorcizavam as noites, a madrugada e o nascer do sol. Sartre expunha as teses existencialistas e um audaz Koestler saltava-lhe em cima: “Jean-Paul és melhor romancista do que eu, mas não tão bom filósofo.” E os olhos de Koestler agarravam-se ao vestido firmemente cintado de Beauvoir. Tão justo!

Um dia, o casal francês veio jantar junto à cama de Mamaine, a mulher de Koestler. Trouxeram lagosta, presunto e queijo. Depois saíram os quatro e juntou-se-lhes Camus e Francine Faure, sua mulher. Peregrinos à coisa infecta, foram de bistrot em bistrot, acabando no Shéhérezade, clube de nostálgica música russa, uma caverna onde se dançava na obscuridade. Alguns enlaçados litros de vodka e de champanhe exaltaram Koestler: acusou-os de serem cúmplices da URSS! Mas dançou com as três mulheres, e de onde os meus leitores estão não vêem bem, mas vejo eu que Mamaine, a mulher de Koestler, está de cara colada a Camus e se vão furtivamente beijando. Nessa noite, Koestler, de um urinol a que recorreu, gritou para Mamaine, à espera dele na rua: “Não me deixes, amo-te e sempre te amarei!” Talvez adivinhasse já a noite, essa apoteose existencialista, em que dormiria com Simone. Noite acabada, Sartre e a Beauvoir estão já sozinhos, na margem do Sena, em choro embalado pela convulsão metafísica, a tragédia da condição humana a pesar-lhes como um saco de 100 quilos às costas: “E se nos atirássemos ao rio?” Não se atiraram.

Ao rio do esquecimento atirou-se Koestler, em 1983. Já casado com Cynthia, sua terceira mulher, atacado por Parkinson e uma leucemia, matou-se com barbitúricos. Cynthia também. Deixou escrito: “Sei bem que não posso viver sem Arthur.”

Publicado no Jornal de Negócios

Duas camas

É o que o ácido meio mundo de Hollywood dizia: que Charlie Chaplin era uma víbora. Há um leitor a levantar a mão e a sugerir que o insidioso termo inglês “son of a bitch” talvez fosse mais adequado e não serei eu a desmenti-lo.

Porém, uma das duas camas em que se vai deitar esta crónica está cheia de vontade de nos contar outra história. A cama é a de um miúdo, John Huston. E vejam, a cama está no meio de um quartinho do Alexandra Hotel onde então, no tempo do cinema mudo, dormia meia Hollywood. Pais divorciados Huston vivia com a mãe, e fora diagnosticado com o que se pensava ser uma doença incurável, um fígado miseravelmente atacado por nefrite aguda. O clima da Califórnia talvez fosse um paliativo e ali estavam no hotel da gente que trabalhava nessa coisa nova chamada cinema.

Se me dão licença vai tocar um telefone. É para a mãe do puto John. “Vais ter uma surpresa”, diz ela ao filho. E o John reagiu como o meu neto de três anos: “Qual?” A surpresa bateu à porta e entrou: era Charlie Chaplin. Para um miúdo daquele tempo era como se na minha adolescência os Beatles tivessem vindo a Luanda e me entrassem na casa da Vila Alice.

O que eu quero dizer é que o “son of a bitch” soubera que estava ali um miúdo desconhecido com uma doença incurável e fez o que fez: virou-se para a mãe e com um “a senhora tem de certeza coisas para fazer. Vá à vontade, que esta manhã eu fico com ele.” Huston conta que Chaplin fez mímica, palhaçou e conversou com ele, explicando-lhe como fazia cada número. Que belo “son of a bitch”.

Mais tarde, já Huston era o famoso realizador de “Falcão de Malta”, foram apresentados. Huston, constrangido, não falou do longínquo episódio. Mas tornaram-se amigos e, já mais entradotes, numa recepção do consulado italiano em L.A., John não resiste: “Lembras-te de um dia teres ido encantar um miúdo doente, num quarto do Alexandra Hotel?”

O que foste dizer, John! Chaplin eriçou-se, levantou-se de um salto, pegou na mão da mulher, Ona, e saiu disparado. Nunca mais voltaram a mencionar o incidente. Ficou claro: o que fazia a santa mão direita de Chaplin não era da conta do que fazia a “son of a bitch” mão esquerda dele.

Seduzido pelas duas camas de John, e talvez a segunda não seja dele, esqueci-me de me pôr em bicos de pé para contar como o conheci, a Huston, na cinemateca da UCLA, em Westwood. E de como, a ele que já estava de garrafinha de oxigénio, o ouvi fazer o louvor do vinho tinto, que mais deveria ter bebido do que o Bourbon que o entupiu, se tivesse aprendido a tempo.

E estava Huston com o actor Dennis Hopper, para os lados de Palm Springs, os dois numa campanha promocional de um Bourbon horroroso, com um fotógrafo genial, Victor Skrebneski, quando se lembraram que o cineasta John Ford morava ali perto, em Palm Desert. Velho de mil anos, doente e maniento, Ford não saía da cama há meses. Invadiram-lhe o quarto e Hopper, com aquele estilo que exibe em “Apocalypse Now”, “man, man” e coisa tal, diz a Ford: “Mr. Ford, já falei com a sua mulher e ela autoriza-nos a levá-lo de cadeira de rodas para o Victor nos fazer uma fotografia.”

Numa lição de arte, parecida com a que um dia dera a Spielberg, o velho Ford foi fulminante: “Meu filho, sabes qual é o teu problema? É não teres nenhum sentido do drama. Se tivesses sentido do drama, metiam-se já na cama comigo.”

Huston e Hopper perceberam logo a lição e mergulharam na cama de Ford: e esta imagem, sim, é um ícone da essência de Hollywood. E eis como, de uma cama a outra cama, se viaja da compaixão à beleza.

Publicado no Jornal de Negócios

Não sei se era Brigadoon ou um verde vale

Fim de festa em Brigadoon: casamento de que fui padrinho, a um passo de Angola independente

A primeira vez que bebi uma bica foi – como dizer? – uma estranha decepção. Já conto, mas antes declaro que os anos mais doces da minha juventude foram talvez vividos fora do planeta Terra. Não sei bem, para usar apenas exemplos de filmes, se os vivi em Brigadoon, se nesse Vale que era Verde, do filme de John Ford, que mais chorosamente nos pôs nos olhos a perfeita harmonia. E, entre Brigadoon e o Green Valley, está apresentado o meu bairro de Luanda.

Eram talvez duas da tarde, quando o meu amigo Simão me interrompeu as férias escolares: “Vamos ali ao Miguel, tomar uma bica”. Ora os meus 15 anos nunca tinham ouvido a palavra bica e sabia que, se o meu amigo Simão bebia alguma coisa, era cerveja, branca ou preta, uns finos a estalar, loirinhos ou bem mulatos. A ideia de um fino estupidamente gelado a cortar a suada tarde tropical de Dezembro foi boicotada pela aparição de duas chávenas de café. Em casa bebia-se cevada pela manhã e o meu pai moía café que trazia em grão do Porto de Luanda. Aquilo era mais do que cevada ou café fraquinho. Foi a primeira vez que a estrangeira palavra bica me passou pelo palato, a contragosto, sem adivinhar que poucos anos depois atingiria o recorde de 14 por dia, circunstância a que devo hoje um vago refluxo.

Mas deixemos as mesas do Miguel e vejamos como era o bairro. Ninguém cozinhava só para a mesa lá de casa. As vizinhas gritavam de quintal para quintal, a trocar bolinhos de bacalhau, olhe só como ficaram os meus rissóis de camarão, umas pernas de churrasco, os requintados pudins. Vivia-se em regime de comunismo gastronómico, por vezes objecto de acerba crítica: “Ai, o perú da dona Ausenda, o que é que ela lhe pôs, ficou mole, não dá gosto nenhum comê-lo! Nem com jindungo lá vai.”

Nós éramos uns peregrinos, entrávamos quando queríamos em cada casa, e o meu amigo Abílio era o favorito da minha mãe, porque comia desalmadamente, ao contrário do meu fastio, sendo logo regalado com dois ovos estrelados e vê lá se queres mais um!

Toda a vida era escrutinada, mesmo a mais íntima. Quando o filho de uma das vizinhas desapareceu de casa e, antes de ir para a tropa, se barricou em casa de uma amante mais velha, senhora de vida libérrima, de quintal para quintal a grande dúvida é que água a amante libertina tinha dado a beber ao garboso e aluado rapaz: se água de rosas, se aguinha do cu lavado.

O bairro teve a sua própria quadrilha, a primeira de Luanda a só fazer joalharias, noite calada, e sempre sem vítimas, com entradas espectaculares por uma cave ou pelo andar de cima. Eram quatro rapazes gentis que passavam depois a noite nos nostálgicos cabarets de Luanda.

Tocavam lá os Cunhas, banda do bairro também, que ensaiavam não muito longe do António alfaiate, o primeiro a tirar-me as medidas para um fatinho de casamento, que logo me deixou buelo, despardalado, com a insidiosa pergunta, “então, rapaz, para que lado é que pões a ferramenta, esquerda ou direita?”

Foi nesse doce langor, nessa vida que deslizava ociosa, numa pasmada semi-erecção entre a aurora e o crepúsculo, que um dia a vasta chana da nossa adolescência se derramou, convulsa, vendo o corpo da bela Mimi dentro de um alvíssimo vestido de noiva, a descer as escadas que davam para a mercearia do Adérito. Ia-se embora a jovem mulher que tripulava um londrino triumph descapotável, professora de inglês no liceu, as mais elegantes pernas dos nossos sonhos. Partiam com ela mil dos nossos mais ternos eflúvios. Foi com essa meiga melancolia que descobri a idade adulta e saí de Brigadoon. 

Publicado no Jornal de Negócios

Percebemos melhor quando não percebemos

Desculpem, mas tenho de falar de um dos mais vivos prosadores portugueses dos últimos 50 anos, o João Bénard da Costa.

Leiam os volumes dele que a Cinemateca publicou. Um exemplo: o João está a falar do cineasta alemão Pabst e do filme A Boceta de Pandora e os seus olhos pequeninos e brilhantes descobrem Louise Brooks.

Ó meu santo Deus, a boca do João abre-se rasgando a sua barba branca, o pulposo lábio de baixo já a brilhar com aquela saliva a que João César Monteiro chamou baba divina, e sai-lhe a expressão “o milagre Brooks”.

Qualquer um, agnóstico, ateu, pode usar a palavra “milagre”, mas quando Bénard nos revela que o milagre de Louise Brooks são cenas de beijos, de espelhismos, de dança, de costas nuas, momentos fulgurantes, choques sufocantes, a partir dos quais percebemos melhor por percebermos que nada se pode perceber sabemos que a natureza do milagre, para o João Bénard, é de natureza erótico-cristã, católica portanto.

E sabemos que esse milagre vem nimbado de uma transcendência que o uso trivial da expressão “milagre”, por um agnóstico a descambar para o ateu como eu, em nada cobre.

À escrita do João animava-a essa tinta negra do mistério, essa aceitação exaltada, hagiográfica, do “não perceber”, mas “não perceber” de coração satisfeito, erótico muitas vezes.

O João recusava, já se vê, a vocação totalitária da escrita progressista que tudo quer explicar e encerrar numa História fechada, numa Filosofia sem arestas. Era, avant la lettre, por exemplo, uma escrita anti-woke.

No livro de que vos falo ainda Bénard está em cima de Pabst, ou seja, ainda Bénard está em cima de Louise Brooks, mas já a falar de outro filme, Diário de uma Mulher Perdida, quando descobre nela, na sua lábil carne, no seu olhar tão carregado de tormenta, relâmpagos e sombras, o que o João chama “o desejo do desejo” e o “desejo de pureza”. Estão lá, em Louise Brooks e estão lá juntos esses dois desejos, como gémeos siameses.

A falar de uma cena de beijo-orgasmo-desmaio de Louise Brooks, o João diz que do corpo dessa actriz, do sopro vital que a anima, saem, enlaçados, e cito, “maldição e bênção”, “revelação e perda”, “início e fim”. 

A escrita de João Bénard proclama a fusão de todos os desejos, a busca desse momento pré-Big Bang em que génesis e apocalipse estavam tão sexualmente acoplados como Pai, Filho e Espírito Santo o estão na divina orgia a que os cristãos chamam Santíssima Trindade.

Outro milagre acontece em Rossellini, no filme Viagem a Itália: em plena procissão dedicada à Virgem Maria, perante o milagre de um paralítico que larga as muletas e recupera o andar, um casal desavindo, George Sanders e Ingrid Bergman, descobrem o milagre da reconciliação.

O pouco mais do que adolescente, quase homem, João Bénard foi ao cinema Eden, numa tarde de Outono, tarde de muita luz e muito sol. Viu esta cena, presenciou o milagre e, diz ele, “No fim do milagre desatei a chorar.” Onde os descrentes do cinema, os descrentes de uma estética dos ideais se riem, está o João a chorar.

Toda a sua vida de cinéfilo, de historiador e, acima de tudo, de escritor, o João andou à procura de um milagre: o da verdade que cegue tanto como quando olhamos directamente para o sol. E o João encontrou a verdade.

Cada texto dele soletra essa verdade: percebemos melhor ao percebermos que nada se pode perceber. A verdade do cinema é indizível, a verdade do João é inaudível. Sozinhos, com os escritos do João na mão, a lê-los, é como se estivéssemos no mais fabuloso deserto a olhar as estrelas. Obrigado, João, pelo milagre.

Publicado no Weekend, Jornal de Negócios