Blog de escrita e de reflexão lúdicas. Um lema: chatices não!
Author: Manuel S. Fonseca
Eis a felicidade: estar sentado num fim de tarde de Verão, na mesa um fino estarrecedoramente gelado e um prato de jinguba. E Deus sentado, ali ao lado, sendo certo e sabido que Deus é Amor e só Amor.
Mas que fome de livros! Vejam bem, no primeiro dia de Feira do Livro a Guerra e Paz vendeu o dobro dos livros que tinha vendido no primeiro dia do ano passado.
Eis os cinco mais vendidos:
1. Contos Tradicionais Portugueses, vários autores (livro do dia) 2.Este Vírus que nos Enlouquece, Bernard-Henri Lévy 3. O Ouriço e a Raposa, Isaiah Berlin 4. Lendas de Amor Portuguesas, vários autores (livro em promoção) 5. Observação da Gravidade, André Osório Extraordinária, a apetência dos leitores por dois dos nossos livros mais recentes, o Este Vírus e o Ouriço e a Raposa. Surpreendente a forma como um livro de poemas em estreia, Observação da Gravidade de André Osório, arrebatou compradores, n verdade, compradores jovens.
Hoje, como livros do dia, nos pavilhões A50 e A52 da feira do Livro, teremos O Pequeno Livro dos Grandes Insultos (8,10€) e a nossa edição crítica do Mein Kampf (15,60€) Como livros em promoção estarão o Piropo Nacional (6,00€) e a edição de Os Lusíadas de capa vermelha (7,80€).
Com ofertas destas só não lê quem não quer. Boa Feira.
Há Guerra e Paz na Feira do Livro de Lisboa. Dois pavilhões, o A 50 e o A 52, lá bem no alto: são exactamente estes, a nossa caixa negra, de que saem livros amarelos, vermelhos, abençoados e malditos. A Feira abre amanhã, 5.ª feira, às 12:30. Estamos lá à sua espera.
Mas para os que estão longe de Lisboa ou impossibilitados de a visitar, nós levamos-lhe a Feira a casa. Vão estar aqui, neste nosso site, muitas das promoções e os mesmos Livros do Dia que pode encontrar nos nossos dois stands. Boa Feira.
João Pereira Coutinho, autor, professor e cronista, escreveu a recensão cuja imagem se junta, de Assim Nasceu uma Língua, no CM, do passado domingo. Coutinho classifica o livro de Venâncio: brilhante. E louva-lhe o mérito de não renegar a maternidade da língua, esse galego que nos fundou. Para lerem, já. A recensão, claro, e o livro de Venâncio, pois então.
A melhor forma de se conhecer um livro é ler o seu começo. O filósofo Isaiah Berlin escreveu um pequeno ensaio, O Ouriço e a Raposa, que logo se converteu numa referência do pensamento do século XX, considerado um dos melhores ensaios de todos os tempos. O livro é de 1953, mas só agora foi traduzido para português. E, no entanto, é um livro actualíssimo e desafiador. O que é cada um de nós, um ouriço ou uma raposa? E o que é ser um ouriço? E o que é ser uma raposa?
Ora leia, Isaiah Berlin.
«Nos fragmentos do poeta grego Arquíloco, encontra‑se um dito que afirma: «A raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe uma coisa muito importante.» Os académicos têm divergido acerca da interpretação correcta destas sombrias palavras, que podem não significar mais do que o facto de a raposa, apesar de toda a sua manha, ser derrotada pela única defesa do ouriço. Mas figurativamente, as palavras podem aferir uma acepção que marca uma das diferenças mais profundas entre escritores e pensadores, e entre os seres humanos em geral. Existe um grande abismo entre, por um lado, aqueles que associam tudo a uma visão única central, um sistema mais ou menos coerente ou articulado, a partir de cujos termos compreendem, pensam e sentem – um princípio organizador único, universal, sobre o qual o significado de tudo o que são e dizem assenta em exclusivo – e, por outro lado, aqueles que perseguem muitas pontas, frequentemente não relacionadas e até contraditórias e, quando relacionadas, apenas nalgum sentido de facto, por alguma causa psicológica ou fisiológica, não relacionada com um princípio moral ou estético.
Estes últimos conduzem vidas, desempenham actos e alimentam ideias centrífugas e não centrípetas; o seu pensamento é disperso ou difuso, move‑se em muitos níveis, agarra‑se à essência de uma vasta diversidade de experiências e objectos por aquilo que eles são, sem, consciente ou inconscientemente, procurar excluí‑los ou procurar que caibam numa qualquer visão unitária interior, imutável, abrangente, por vezes contraditória e incompleta, por vezes fanática. O primeiro tipo de personalidade intelectual e artística pertence aos ouriços, o segundo, às raposas. E, não pretendendo insistir numa classificação rígida, podemos, sem grande receio de contradição, afirmar que, nesse sentido, Dante pertence à primeira categoria, Shakespeare à segunda; Platão e Lucrécio, Pascal, Hegel, Dostoiévski, Nietzsche, Ibsen e Proust são, em graus diversos, ouriços; Heródoto, Aristóteles, Montaigne, Erasmo, Molière, Goethe, Púchkin, Balzac e Joyce são raposas.
É evidente que, como todas as classificações simplistas do género, esta dicotomia se torna artificial, escolástica e, em última instância, absurda quando levada ao limite. Mas, se não constitui uma ajuda à crítica séria, também não deve ser rejeitada como meramente superficial ou frívola: como todas as distinções que integram qualquer grau de verdade, oferece uma perspectiva a partir da qual é possível olhar e comparar, um ponto de partida para a investigação genuína.
Não temos, pois, nenhuma dúvida acerca da violência do contraste entre Púchkin e Dostoiévski, e um leitor perspicaz raramente tem considerado que, em toda a sua eloquência e profundidade, o famoso discurso de Dostoiévski sobre Púchkin revela o génio de Púchkin e não o do próprio Dostoiévski, justamente pela perversidade com que representa Púchkin – uma arqui‑raposa, a maior do século xix – como sendo semelhante a Dostoiévski, que não é outra coisa que não um ouriço. Desse modo, é um discurso que transforma – em boa verdade distorce – Púchkin num profeta dedicado, o portador de uma única mensagem universal, a mensagem que estava no centro do universo do próprio Dostoiévski, mas muitíssimo longínqua das muitas e diversas regiões do génio versátil de Púchkin. Na verdade, não será absurdo dizer que a literatura russa se extrema nestas duas gigantescas figuras – num pólo, Púchkin, no outro, Dostoiévski; e que, para os que considerem útil ou curioso colocar tal questão, as características dos outros escritores russos podem, em certa medida, ser determinadas em relação a estes grandes opostos.»
Ora vejam como um livro de poemas, um livro de poemas que promete estreia fulgurante, pode ter voz. E logo a voz de um Prémio Pessoa.
É uma grande estreia: um jovem poeta, André Osório, publica o seu primeiro livro, Observação da Gravidade, na colecção de poesia da Guerra e Paz editores. Já tínhamos dado a notícia da saída do livro, acrescentando que o lançamento da obra vai ter lugar na Feira do Livro de Lisboa, com a apresentação de outro poeta, Fernando Pinto do Amaral.
Hoje, acrescentamos outra novidade: Observação da Gravidade é um livro que, por um momento, vai ter voz, a voz do Prémio Pessoa de 2019, a voz de Tiago Rodrigues.
Tiago Rodrigues é actor, encenador e director artístico do Teatro Nacional D. Maria II. Estará presente e vai ler poemas do primeiro livro de André Osório na sessão de apresentação, que acontece na Feira do Livro de Lisboa, no dia 28 de Agosto, às 18:00.
O livro chega às livrarias portuguesas já no dia 25 de Agosto.
Tiago Rodrigues (foto roubada, com a devida vénia, no mural do actor
Jean-François Billeter é um profundo conhecedor da cultura chinesa, o mais importante sinólogo suíço. Neste seu Porquê a Europa, Reflexões de Um Sinólogo, Billeter vai às raízes da cultura, da História política e militar, da filosofia chinesas. É um livro escrito com fluência e com tanta admirável simplicidade como fundamento e investigação.
Se queremos compreender as notícias que, neste momento, enchem todos os jornais e todos os telejornais, se queremos compreender o significado da lei de segurança que Pequim impôs a Hong Kong, se queremos compreender a vaga de prisões, se queremos compreender a diplomacia dos lobos guerreiros, é forçoso ler este livro.
Um breve excerto:
“Os ensinamentos de Confúcio que Yang Shangkun contrapõe aos valores cristãos, aos direitos do homem e ao nosso individualismo não são os de Confúcio, mas sim a ideologia que se formou sob os Han e que generalizou o princípio hierárquico e o respeito absoluto pela autoridade. Esse confucionismo, afirma, está há mais de 2000 anos na origem da grandeza e da força da China, isto é, do império chinês. Foi ele que constituiu a base da sua organização social e é ele que deve continuar a ser a base da sociedade chinesa no futuro.
Os dirigentes actuais já não usam esta linguagem, mas não rejeitaram o seu conteúdo, porque o regime reproduz hoje, sob formas alteradas, aquilo que é próprio da tradição política chinesa desde a fundação do Império: no topo, um poder indivisível, de iniciativa estratégica, que recorre em igual medida ao civil e ao militar, que não reconhece qualquer outro contrapoder e não tem, na sua essência, limite. As relações sociais de hoje já não são hierarquizadas como no Antigo Regime, mas o Partido reconstituiu a divisão da sociedade numa esfera dominante e numa esfera dominada. Por meio da propaganda e do controlo do pensamento, ele encerra as mentes num mundo fechado e autóctone. Os atavismos que as forças progressistas combateram fervorosamente entre 1919 e 1989 estão de volta.”
Sem demagogias, fundado num trabalho rigoroso de conhecimento, este é um livro que oferece ao leitor uma lição simples e admirável.
Estes livros estão à sua espera. Estes livros são o prémio que a Guerra & Paz tem todo o gosto em oferecer ao leitor que atinja o maior valor de compras durante o mês de Agosto. Para se candidatarem a este prémio, a estes cinco belos livros, os nosso leitores terão de ultrapassar os 75€ em compras ao longo mês.
Para já, o leitor que está mais próximo atingiu já os 52,44€. E a corrida para o melhor comprador do ano, a quem ofereceremos 50 livros, continua em aberto: há já dois leitores que fizeram compras em valores superiores a 450€. As regras estão aqui. E já sabe, quem lê livros merece ganhar mais livros.