Blog de escrita e de reflexão lúdicas. Um lema: chatices não!
Author: Manuel S. Fonseca
Eis a felicidade: estar sentado num fim de tarde de Verão, na mesa um fino estarrecedoramente gelado e um prato de jinguba. E Deus sentado, ali ao lado, sendo certo e sabido que Deus é Amor e só Amor.
Soprava uma aragem amena no Parque. Um sol quente de Verão embrulhava as cinco da tarde, na Feira do Livro de Lisboa. Estava agendada uma sessão de lançamento, de um livro de poesia. Previa-se que fosse um lançamento discreto, quase secreto como hoje é quase tudo o que tem que ver com essa primordial arte humana. Mas não, a Observação da Gravidade, de André Osório, encheu o Pavilhão Sul, houve gente a transbordar, a aplaudir com entusiasmo. Nos autógrafos a fila era uma sinuosa serpente e quando a Guerra e Paz deu conta tinha esgotado todo o stock de livros que era suposto durar a feira toda. Um poeta de 21 anos estreou-se e o pequeno livro, esse lírica e consciente Observação da Liberdade encheu de graça e surpresa a Feira do Livro de Lisboa. E hoje já chegaram novos exemplares ao pavilhão A50 e A52, da Guerra e Paz.
Visite-nos. Hoje, sábado, os livros do dia são A Arte da Guerra (7,80€) e o Mein Kampf (15,60€) Em promoção especial estão O Pequeno Livro Vermelho, de Mao Tsé-tung e um maravilhoso romance de Machado de Assis, Dom Casmurro. E temos mais 500 títulos à sua disposição.
Mas que fome de livros! Vejam bem, no primeiro dia de Feira do Livro a Guerra e Paz vendeu o dobro dos livros que tinha vendido no primeiro dia do ano passado.
Eis os cinco mais vendidos:
1. Contos Tradicionais Portugueses, vários autores (livro do dia) 2.Este Vírus que nos Enlouquece, Bernard-Henri Lévy 3. O Ouriço e a Raposa, Isaiah Berlin 4. Lendas de Amor Portuguesas, vários autores (livro em promoção) 5. Observação da Gravidade, André Osório Extraordinária, a apetência dos leitores por dois dos nossos livros mais recentes, o Este Vírus e o Ouriço e a Raposa. Surpreendente a forma como um livro de poemas em estreia, Observação da Gravidade de André Osório, arrebatou compradores, n verdade, compradores jovens.
Hoje, como livros do dia, nos pavilhões A50 e A52 da feira do Livro, teremos O Pequeno Livro dos Grandes Insultos (8,10€) e a nossa edição crítica do Mein Kampf (15,60€) Como livros em promoção estarão o Piropo Nacional (6,00€) e a edição de Os Lusíadas de capa vermelha (7,80€).
Com ofertas destas só não lê quem não quer. Boa Feira.
Há Guerra e Paz na Feira do Livro de Lisboa. Dois pavilhões, o A 50 e o A 52, lá bem no alto: são exactamente estes, a nossa caixa negra, de que saem livros amarelos, vermelhos, abençoados e malditos. A Feira abre amanhã, 5.ª feira, às 12:30. Estamos lá à sua espera.
Mas para os que estão longe de Lisboa ou impossibilitados de a visitar, nós levamos-lhe a Feira a casa. Vão estar aqui, neste nosso site, muitas das promoções e os mesmos Livros do Dia que pode encontrar nos nossos dois stands. Boa Feira.
João Pereira Coutinho, autor, professor e cronista, escreveu a recensão cuja imagem se junta, de Assim Nasceu uma Língua, no CM, do passado domingo. Coutinho classifica o livro de Venâncio: brilhante. E louva-lhe o mérito de não renegar a maternidade da língua, esse galego que nos fundou. Para lerem, já. A recensão, claro, e o livro de Venâncio, pois então.
A melhor forma de se conhecer um livro é ler o seu começo. O filósofo Isaiah Berlin escreveu um pequeno ensaio, O Ouriço e a Raposa, que logo se converteu numa referência do pensamento do século XX, considerado um dos melhores ensaios de todos os tempos. O livro é de 1953, mas só agora foi traduzido para português. E, no entanto, é um livro actualíssimo e desafiador. O que é cada um de nós, um ouriço ou uma raposa? E o que é ser um ouriço? E o que é ser uma raposa?
Ora leia, Isaiah Berlin.
«Nos fragmentos do poeta grego Arquíloco, encontra‑se um dito que afirma: «A raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe uma coisa muito importante.» Os académicos têm divergido acerca da interpretação correcta destas sombrias palavras, que podem não significar mais do que o facto de a raposa, apesar de toda a sua manha, ser derrotada pela única defesa do ouriço. Mas figurativamente, as palavras podem aferir uma acepção que marca uma das diferenças mais profundas entre escritores e pensadores, e entre os seres humanos em geral. Existe um grande abismo entre, por um lado, aqueles que associam tudo a uma visão única central, um sistema mais ou menos coerente ou articulado, a partir de cujos termos compreendem, pensam e sentem – um princípio organizador único, universal, sobre o qual o significado de tudo o que são e dizem assenta em exclusivo – e, por outro lado, aqueles que perseguem muitas pontas, frequentemente não relacionadas e até contraditórias e, quando relacionadas, apenas nalgum sentido de facto, por alguma causa psicológica ou fisiológica, não relacionada com um princípio moral ou estético.
Estes últimos conduzem vidas, desempenham actos e alimentam ideias centrífugas e não centrípetas; o seu pensamento é disperso ou difuso, move‑se em muitos níveis, agarra‑se à essência de uma vasta diversidade de experiências e objectos por aquilo que eles são, sem, consciente ou inconscientemente, procurar excluí‑los ou procurar que caibam numa qualquer visão unitária interior, imutável, abrangente, por vezes contraditória e incompleta, por vezes fanática. O primeiro tipo de personalidade intelectual e artística pertence aos ouriços, o segundo, às raposas. E, não pretendendo insistir numa classificação rígida, podemos, sem grande receio de contradição, afirmar que, nesse sentido, Dante pertence à primeira categoria, Shakespeare à segunda; Platão e Lucrécio, Pascal, Hegel, Dostoiévski, Nietzsche, Ibsen e Proust são, em graus diversos, ouriços; Heródoto, Aristóteles, Montaigne, Erasmo, Molière, Goethe, Púchkin, Balzac e Joyce são raposas.
É evidente que, como todas as classificações simplistas do género, esta dicotomia se torna artificial, escolástica e, em última instância, absurda quando levada ao limite. Mas, se não constitui uma ajuda à crítica séria, também não deve ser rejeitada como meramente superficial ou frívola: como todas as distinções que integram qualquer grau de verdade, oferece uma perspectiva a partir da qual é possível olhar e comparar, um ponto de partida para a investigação genuína.
Não temos, pois, nenhuma dúvida acerca da violência do contraste entre Púchkin e Dostoiévski, e um leitor perspicaz raramente tem considerado que, em toda a sua eloquência e profundidade, o famoso discurso de Dostoiévski sobre Púchkin revela o génio de Púchkin e não o do próprio Dostoiévski, justamente pela perversidade com que representa Púchkin – uma arqui‑raposa, a maior do século xix – como sendo semelhante a Dostoiévski, que não é outra coisa que não um ouriço. Desse modo, é um discurso que transforma – em boa verdade distorce – Púchkin num profeta dedicado, o portador de uma única mensagem universal, a mensagem que estava no centro do universo do próprio Dostoiévski, mas muitíssimo longínqua das muitas e diversas regiões do génio versátil de Púchkin. Na verdade, não será absurdo dizer que a literatura russa se extrema nestas duas gigantescas figuras – num pólo, Púchkin, no outro, Dostoiévski; e que, para os que considerem útil ou curioso colocar tal questão, as características dos outros escritores russos podem, em certa medida, ser determinadas em relação a estes grandes opostos.»
Ora vejam como um livro de poemas, um livro de poemas que promete estreia fulgurante, pode ter voz. E logo a voz de um Prémio Pessoa.
É uma grande estreia: um jovem poeta, André Osório, publica o seu primeiro livro, Observação da Gravidade, na colecção de poesia da Guerra e Paz editores. Já tínhamos dado a notícia da saída do livro, acrescentando que o lançamento da obra vai ter lugar na Feira do Livro de Lisboa, com a apresentação de outro poeta, Fernando Pinto do Amaral.
Hoje, acrescentamos outra novidade: Observação da Gravidade é um livro que, por um momento, vai ter voz, a voz do Prémio Pessoa de 2019, a voz de Tiago Rodrigues.
Tiago Rodrigues é actor, encenador e director artístico do Teatro Nacional D. Maria II. Estará presente e vai ler poemas do primeiro livro de André Osório na sessão de apresentação, que acontece na Feira do Livro de Lisboa, no dia 28 de Agosto, às 18:00.
O livro chega às livrarias portuguesas já no dia 25 de Agosto.
Tiago Rodrigues (foto roubada, com a devida vénia, no mural do actor
Jean-François Billeter é um profundo conhecedor da cultura chinesa, o mais importante sinólogo suíço. Neste seu Porquê a Europa, Reflexões de Um Sinólogo, Billeter vai às raízes da cultura, da História política e militar, da filosofia chinesas. É um livro escrito com fluência e com tanta admirável simplicidade como fundamento e investigação.
Se queremos compreender as notícias que, neste momento, enchem todos os jornais e todos os telejornais, se queremos compreender o significado da lei de segurança que Pequim impôs a Hong Kong, se queremos compreender a vaga de prisões, se queremos compreender a diplomacia dos lobos guerreiros, é forçoso ler este livro.
Um breve excerto:
“Os ensinamentos de Confúcio que Yang Shangkun contrapõe aos valores cristãos, aos direitos do homem e ao nosso individualismo não são os de Confúcio, mas sim a ideologia que se formou sob os Han e que generalizou o princípio hierárquico e o respeito absoluto pela autoridade. Esse confucionismo, afirma, está há mais de 2000 anos na origem da grandeza e da força da China, isto é, do império chinês. Foi ele que constituiu a base da sua organização social e é ele que deve continuar a ser a base da sociedade chinesa no futuro.
Os dirigentes actuais já não usam esta linguagem, mas não rejeitaram o seu conteúdo, porque o regime reproduz hoje, sob formas alteradas, aquilo que é próprio da tradição política chinesa desde a fundação do Império: no topo, um poder indivisível, de iniciativa estratégica, que recorre em igual medida ao civil e ao militar, que não reconhece qualquer outro contrapoder e não tem, na sua essência, limite. As relações sociais de hoje já não são hierarquizadas como no Antigo Regime, mas o Partido reconstituiu a divisão da sociedade numa esfera dominante e numa esfera dominada. Por meio da propaganda e do controlo do pensamento, ele encerra as mentes num mundo fechado e autóctone. Os atavismos que as forças progressistas combateram fervorosamente entre 1919 e 1989 estão de volta.”
Sem demagogias, fundado num trabalho rigoroso de conhecimento, este é um livro que oferece ao leitor uma lição simples e admirável.