Havemos de voltar

Vou trazer para esta Página Negra, todas as semanas, a crónica que escrevo na revista do Expresso. O título genérico da coluna é, como alguns fiéis amigos já sabem, “O Cinema Dá o Que a Vida Tira”. Um toque escapista, já se vê.
Uma semana depois da publicação, fica aqui. Agora, gostava muito que comprassem o Expresso e os jornais todos. O papel não deve morrer. Está nas nossas mãos (infelizmente, nos nossos bolsos também) evitarmos uma pequena catástrofe para duas coisas vitais, a liberdade e o prazer. 

Salmo Vermelho
Antes que o Verão acabe, eis uma lista de coisas que gostava de voltar a ver ou a ouvir:

Maminhas como as dos filmes de Miklós Jancsò.
Maravilhosa, a justificação dele: “Há três coisas que não passam de moda. Primeiro, os uniformes, a seguir a nudez e, enfim, os cavalos. É por isso que os uso tanto. Representam um pouco a eternidade.”

O cinismo na ponta da língua.
A história contou-a Elia Kazan, garantindo que não se passou em “The Arrangement”, filme que fizeram juntos. Noutras filmagens, Kirk Douglas, já uma estrela, embirrou com um jovem actor. Fizesse o mocinho o que fizesse, era tudo uma boa merda. A equipa já estava toda lixada, para não dizer constrangida, e um veterano director de fotografia passou-se dos carretos: “Kirk, lembro-me de quando começaste. Eras um puto porreiro. Agora estás feito um grande cabrão”. Kirk tinha uma resposta cabra na ponta da língua: “Estás enganado, fui sempre um grande cabrão, só que agora tenho dinheiro que chegue para o mostrar.”

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Um título de primeira página que sodomize as fake news.
Havia um clássico francês, “Le Jour se Léve”, que fazia chorar Giscard d’ Estaing. O presidente convidou realizador e actores a almoçar no Eliseu. À saída, o fabuloso actor Michel Simon, anarquista, despenteado e mal-amanhado, disse aos jornais: “É muito prático este estabelecimento e além disso é central.” Morreu dias depois. O jornal “Le Canard Enchainé”, libérrimo, satírico e divinamente irresponsável, titulou em primeira página: “Michel Simon morre envenenado no Eliseu.”

O polegar da mão esquerda de Ornella Mutti.
Ah, Mutti, Mutti o que esse teu polegar de “A Última Mulher”, meio-escondido na tua boca sublime, nos fez sofrer e sonhar, num filme em que, exemplo maior da objectificação e exploração sexual do corpo masculino, Gérard Dépardieu conseguia o prodígio de passar muito mais tempo despido do que tu e em nu frontal.

Dos visionamentos matinais na Cinemateca.
Obrigado Edith Clever, minha Marquise d’O, por teres tão mansamente passado a mão pelos meus saudosos caracóis, no escuro da velha e enterrada sala da Cinemateca. Bem sei que estavam as luzes apagadas e o filme de Syberberg, que projectávamos, era só negrume – vinhas por isso a apalpar e pensaste que foi sem querer, e é essa tua ingénua crença no acaso que mais me comove.

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Publicado no Expresso

Adeus, António Escudeiro

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O António à direita, ao lado do Pedro Bandeira Freire. Eu, na ponta esquerda, com o Fernando Lopes ao pé. Com a devida vénia, foto do Correio da Manhã

Fui há pouco dizer adeus ao António Escudeiro, no Alto de São João. Ficarei com esta imagem, o António era uma coluna de fumo cor de África, que saía da chaminé do crematório. Uma coluna breve, que se confundiu com o tremendo calor das 14 horas deste penúltimo domingo de Setembro. Uma brisa levíssima, sopro da boca de Deus, e o fumo dissipou-se, ágil e breve.

Não sei para onde foi o fumo do António. Talvez tenha ido direitinho a esse terminal dos CFB, Caminho de Ferro de Benguela, no cais ferroviário do Lobito, que o António amava ainda mais do que eu. Foi ali que lhe aconteceu a despedida emocional da África a que nunca deixou de pertencer. Fora lá filmar uma cena do seu documentário de memórias. Quando entrou no gabinete do director, descobriu que a fotografia do pai, que fora director colonial dos CFB, estava na parede, acima do director angolano. «O seu pai marcou a história dos CFB, foi ele que permitiu que houvesse maquinistas negros», foi o que o António, comovido, ouviu da boca do director angolano. Depois, nova surpresa: tinham preparado a carruagem nobre e tinham-lhe reservado assento no lugar de honra que noutros tempo fora o do seu pai. O António chorava por dentro, tentando não dar parte de fraco por fora. Sentou-se e o comboio nunca mais partia. Pensou que seriam as burocracias angolanas, esses inenarráveis atrasos aprendidos com os portugueses e exponenciados pelo laissez faire tropical. Até que o chefe de cais lhe vem bater à janela e diz: «Senhor Director, só posso mandar partir o comboio se me der ordem, era assim quando o seu pai estava a bordo, é assim consigo.» Os olhos do António converteram-se num rio.

Hoje, no cais do Alto de São João, partiste, igualzinho a essas locomotivas que cruzavam Angola, do porto do Lobito direitas ao grande coração mineral de África. Dos rapazes do nosso grupo jantarista de Tróia já tinham partido, uns de barco, outros de avião, o Pedro Bandeira Freire, o Alface, o Dinis Machado. Andamos por cá o José Navarro, o António Mendes Lopes, o António Setúbal e eu. As raparigas resistem melhor: só se foi embora a Dulce, tantas eram as saudades do Dinis, e estão cá a Antónia, que ia quase sempre, a Gina Frazão, a Cristina e a Manuel Carona que vinham por vezes.

Morávamos na mesma rua e tínhamos ponto de encontro nos cinema do El Corte Inglès. Não nos voltaremos a cruzar e não te ouvirei dizer, «Pá, a crónica desta semana do Expresso não era má de todo.» Adeus, António.

A página negra de Manuel S. Fonseca

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Esta é uma página bebé, como o Louis, o meu pré-neto, por ser o neto da Faty e do Abilio, meus irmãos de guerra. Já posso pôr aqui a foto dele, que o Louis já está grande e toca piano.

Esta é, a partir de hoje, a minha página na web. Não substitui o Escrever é Triste – que nada substitui o Escrever é Triste, como nada substituiu o É Tudo Gente Morta. Nem substitui a minha futura participação num projecto colectivo, mas não colectivizante, em que hão-de estar a Eugénia de Vasconcellos, o Pedro Norton, o Pedro Bidarra, o Henrique Monteiro, a Rita Vasconcelos, a Teresa Conceição, muitos outros Tristes e outros não-e- nunca-Tristes.

Esta página é uma página de outro tipo. É uma página narcisista, de um narcisismo negro, porventura, mas é sabido que eu entretenho com o negro um romance caravaggiano.

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Eis uma foto de puro e filosófico espanto tirada na amada costa ocidental de África, na casa do Sambizanga, a três passos das alcantiladas barrocas sobre o meu irmão oceano

Vou reunir nesta Página Negra artigos, divagações, entrevistas, jeremíadas, manifestos tonitruantes do passado, acrescentando-lhes sempre alguma coisa de novo, alterações que talvez venham a ser muito mais do que de rodapé.
E nesta Página Negra vão também surgir novos artigos, algumas prosas mais íntimas e confessionais. Dizia o esquecido e afogado Michel Leiris, que a escrita ou era uma arte tauromáquica ou não era nada. Escrever sem que o escrevente se exponha aos nus e afiados cornos do touro não é escrita. E chega de promessas. Passemos aos actos ou não seja esta a Página Negra de Manuel S. Fonseca.

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Este não sou eu. Bateu-me em cheio a arte de Alfredo Cunha