
Cada vez tenho mais razões para querer ir para o céu. Foi para lá, agora, o Mário Prazeres, o sô Mário, o meu primeiro barbeiro. Deixem-me compará-lo ao melhor dos barbeiros do cinema, a esse “um certo barbeiro judeu”, que fazia a barba aos clientes ao som da Dança Húngara n.º 5 roubada por Brahams aos ciganos húngaros. Esse “um certo barbeiro judeu” era, como sabem melhor do que eu, um tão versátil Charlie Chaplin, que nesse filme, The Great Dictator, é ao mesmo tempo um humilde barbeiro do ghetto e o ditador Adolf Hitler.
Quantas personagens havia em Mário Prazeres, o sô Mário, o meu barbeiro? Na sua barbearia, um rectângulo com duas cadeiras monumentais, as duas paredes mais longas estavam cobertas na totalidade por espelhos. Paralelos, multiplicavam ad infinitum os clientes, cabelos, tesouras e navalha de barba, multiplicação abominável, diria o cego e luminoso Jorge Luís Borges, se tivesse a honra de lá ter sido cliente.
Era múltiplo, também, o sô Mário? Eram os anos dos Beatles, tinha eu 15 ditosas Primaveras, numa cidade, Luanda, onde só havia Verões e Cacimbos. Eu e os meus kambas juvenis vínhamos sentar-nos nas seis cadeiras de espera só para ouvir as conversas dos mais velhos e ler o jornal Província de Angola e a melhor das revistas, o Notícia. O sô Mário corria-nos, com sotaque alentejano, ao fim de meia-hora de leitura: “Bazem daqui, com esse cabelame, a ocupar as cadeiras todas: quem vem cortar o cabelo dá de frosques, não quer ficar à espera!”
Jamais me esquecendo do número do Notícia com a fotografia da ampla Vanessa Redgrave nua, nuíssima, água do mar a cobri-la da cintura para baixo, o braço direito sobre os seios omitindo protuberâncias, quero acrescentar que o Província e o Notícia não eram a única literatura dessa barbearia do ameno anti-ghetto que era a Rua Alberto Correia, cruzamento com a Fernando Pessoa, em Luanda.
Um dia, Mário Prazeres entendeu que este infante rondava já a idade de homem e, não consigo dizer se foi no mesmo dia, mostrou-me, arrancados do escondido fundo das gavetas de toalhas imaculadas, o primeiro Avante em papel bíblia que vi e uma revista radiosa com enfermeiras escandinavas, batas sem botões, marquesas e transfusões, que fariam qualquer um desejar cuidados intensivos. Como o barbeiro de L’ Armée des Ombres, de Jean-Pierre Melville – um silencioso Serge Reggiani que escondia, a espuma e pincel de barba, o seu cliente dos esbirros da Gestapo – também o sô Mário, não prescindindo de gulosos prazeres, tinha, nesses tempos de PIDE, o seu lado de barbeiro silencioso e combativo.
E volto a Chaplin, o sô Mário poderia ter cortado cabelos e feito barbas, não com Brahms, mas pelo menos com as valsas de Strauss que ganhou numa troca de LPs comigo. Precisava para as minhas inconfessáveis farras de fim de semana de um álbum de Roberto Carlos, e ele sabia que eu tinha uma raridade, apanhada pelo meu pai no porto de Luanda, um LP de Viena de Áustria em que brilhava Strauss. Aceitei a troca. Talvez agora, no improvável paraíso, ele faça barbas ao passo ternário da valsa, tal como Chaplin na soberba coreografia de barba, Brahms e dança húngara de The Great Dictator. E inspirado, lá da poeira cósmica, já o ouço repetir, neste tempo de reacendido anti-semitismo, o discurso do barbeiro judeu: “Olhem para cima. Foram dadas asas à alma humana e, por fim, eis que começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança, para o futuro, para o futuro glorioso que te pertence a ti, a mim, a todos nós.” Fala, Mário, eu acredito.
Publicado no suplemento Weekend do Jornal de Negócios: sai todas as 6.ªs feiras