Hemingway ressuscitou ao segundo dia

Quem manda aqui são os crocodilos. Peço desculpa, não estou a falar da nossa governação, nem das lavadas lágrimas de Costa e Medina na despedida de Pedro Nuno Santos. Crocodilos ao sol era o que, lá de cima, se via nas margens do rio ugandês, entre o Lago Victoria e o lago Albert.

Lá de cima: do Cessna monomotor em que ia Ernest Hemingway, a mulher, e um pequeno grupo inquieto. O Cessna, dizia o New York Times do mês seguinte, bateu num bando de íbis, o que teria feito as delícias de Fernando Pessoa, que fingia de íbis para os sobrinhos, se ele, no Natal de 1953, não andasse já a aborrecer-se pelo sossego do paraíso. 

O anti-pessoano piloto do Cessna, carente ainda dos conselhos sobre aviação de Pedro Nuno Santos, percebeu que tinha de aterrar de urgência. A margem do rio seria o ideal não fora o mar de crocodilos hostis e de horríveis dentes anti-humanos. Do outro lado, uma selva mais cerrada da que em Maria Teresa e no Zenza de Itombe os meus olhos viram. Pior, uma selva santuário de elefantes. Entre a boca feroz e a tromba pendente, o piloto escolheu: antes a tromba. Com a perícia que a emergência permitiu, escavacou o Cessna, mas salvou os passageiros. Dormiram com os elefantes e no dia seguinte foram salvos.

O casal Hemingway, que viera admirar as recônditas quedas de água de Murchison, foi levado para Butiaba e devidamente enfiado noutro avião. Destino, Entebbe. Também eu, em 1986, ia apanhar um avião. Tinha passado três meses em Los Angeles, essa selva de “see you later, alligator”, estada que me permitiu estudar Coppola e ouvir John Huston, esse Hemingway do cinema, já de garrafinha de oxigénio, a dizer que, a mudar alguma coisa na sua vida, teria bebido muito menos uísque e muito mais vinho tinto. No aeroporto, o Boeing que me levaria a Nova Iorque dirigiu-se para a pista e, sem aviso, as luzes apagam-se e o motor cala-se. Nem ai, nem ui, só escuro. Minutos depois, volta a energia, o piloto avisa que vai voltar à manga e verificar o problema. Tudo recomposto, de novo na pista, já em posição, motores a bumbar e, pimbas, falha toda a energia. Rebéu béu béu, pardais ao ninho, volta a acontecer tudo terceira vez e nós, humildes passageiros, como um bando de íbis, a querer sair pelas janelas se não nos abrissem a porta. Mudaram-nos de avião, como a Hemingway, e voltámos seguros e salvos para Nova Iorque.

Ora, não foi o que aconteceu a Hemingway e era isso, o imparável perigo e a desmedida aventura, que fazia o grande escritor dos anos 50. Entram, a Mary com o seu Ernest, o Ernest com a sua Mary, no avião que os veio resgatar. O avião manda-se com todo o músculo à pista, deslarga-se do chão, vai de bico apontado ao céu, estremece, vem do céu um bang, as chamas tomam conta do aparelho, que se vem esmagar no chão.

Podia ter sido o caixão de Hemingway. Alguns jornais, julgo que mesmo a Associated Press, anunciaram a morte desse escritor que, com “O Velho e o Mar”, ganhara em Maio o Prémio Pulitzer. Dos tascos de Paris às bodeguitas de Cuba, o mundo, mesmo os que nunca o leram, chorou-o comovido.

Mas se o morteiro austríaco que lhe deixou 237 estilhaços no corpo não o matou em 1918, na Grande Guerra, não eram duas quedas de avião que o iam abalar. Dado como morto durante um dia, Hemingway ressuscitou ao segundo dia. Ele e Mary, ambos muito feridos e mal tratados foram levados para Nairobi e um terceiro avião trouxe-o a Nova Iorque. “A minha sorte – disse Hemingway – não podia estar a correr melhor!” Nesse ano, em Outubro, deram-lhe – só podia – o Prémio Nobel.

1 thought on “Hemingway ressuscitou ao segundo dia”

  1. Estas histórias verdadeiras ganham outro paladar se contadas pelo Manuel. Gosta-se de tudo nelas, da ironia bem humorada, das pequenas nuances biográficas, dos pormenores acerca da vida de gente a que só conheço o nome e a obra – e dessa só parte.
    Pois que venham mais histórias, são bocadinhos de vida que nos passam pelos olhos e se detêm.

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