Vamos lá falar do Prémio Nobel

Há três anos estava um Prémio Nobel, o economista Jean Tirole, a falar na Gulbenkian sobre o seu livro A Economia do Bem Comum. É uma obra inteligente, que apela à razão e à informação. Um dos títulos de que me orgulho. Recupero o meu texto, mas sobretudo recupero os excertos do livro cuja actualidade continua a ser candente.

É a primeira vez que vou cumprimentar, ouvir e, se conseguir abrir a boca, falar, com um Prémio Nobel. Da Economia – e não me venham dizer que pa-ta-ti- pa-ta-ta não há prémio Nobel da Economia e que isso é um prémio com um nome quilométrico, dado pelo Banco da Suécia em homenagem ao senhor Nobel. O prémio é dado com os mesmos critérios do Nobel e a comunidade dos economistas passou a chamar-lhe  Prémio Nobel tout court e a escarrapachar a designação nas capas dos livros dos premiados. Foi o que este vosso editor fez, seguindo as melhores práticas inglesas, americanas e francesas.

Seja como for, na segunda-feira hei-de estar no aeroporto à espera de Jean Tirole, o economista vencedor do Nobel, de quem vou publicar Economia do Bem Comum. O que mais me agrada, passe o título, o prémio e o mediatismo, é ser Tirole um defensor da razão e um adversário do populismo, seja ele de direita ou de esquerda.

Não posso pespegar aqui o livro, mas fui buscar declarações dele que me deixaram rendido. Eis alguns pontos quentes da argumentação de Jean Tirole.

  1.   Sobre o populismo

“O populismo alimenta-se de frustrações – as crises financeira e europeia, o crescimento das desigualdades – e alimenta-se de medos – a desclassificação económica, as migrações, a desregulação climática e agora a revolução digital. Face aos discursos populista, os especialistas são por vezes vistos como arrogantes, como enviesados, como filhos da mundialização. Atenção, não pretendo exonerar por completo os especialistas de responsabilidades: podem por vezes não ser completamente íntegros, ter conflitos de interesses financeiros, esconder um objectivo político, privilegiar uma imagem mediática… Mas penso que a democracia sem especialistas corre para a catástrofe, porque deixa campo livre às crendices. Seria a derrota da razão.”

  1.   Sobre a imigração

“… uma forte alta da imigração não afecta, ou não afecta quase nada, as taxas de emprego a médio e longo termo, mesmo se isto é sem dúvida um pouco menos verdade a curto termo. Existe por exemplo um artigo académico muito célebre de um economista americano, David Card, mostrando que o afluxo súbito de 125 mil cubanos, em 1980, a Miami – o que era considerável tendo em conta dimensão da cidade – não fez, nem mesmo no curto termo, aumentar a taxa de desemprego, nem fez baixar os salários das populações em concorrência com os cubanos no mercado de trabalho. Porque o trabalho não é uma quantidade fixa. A ideia falsa segundo a qual existe um número finito de empregos condiciona muito o discurso político: essa mão de obra disponível em Miami atraiu investimentos, capacidades de produção novas, ou seja, empregos.”

  1.   A mundialização

“É globalmente uma coisa boa. E é uma coisa boa para os países emergentes como a China e mesmo a Índia, onde fatias inteiras da população saíram da pobreza extrema: pode esperar-se agora que esses países ponham em prática sistemas sociais mais desenvolvidos para completar a mutação, mas só a actual transformação já é impressionante. Para as economias desenvolvidas, fazer o balanço é mais complexo, porque se elas saem globalmente a ganhar com a globalização, encontram-se por vezes ganhadores e perdedores no interior desses países, como o provam vários estudos. Se todos os consumidores americanos beneficiaram da forte baixa de preço dos bens que compram, o operário do Midwest que trabalhava num sector em concorrência com as importações chinesas viu, no melhor, o seu salário estagnar.”

  1.   O proteccionismo

“Se Marine L Pen ou Jean-Luc Mélenchon tivessem vencido as eleições, a França teria saído do euro: uma crise financeira seguir-se-ia após uma especulação contra o “novo novo franco”. Com programas em que os déficits públicos subiriam a mais de 10% do produto interno bruto não se iria muito longe. Para esses soberanistas fazer vir o FMI a Paris a cada 6 meses para salvar o país, teria sido imensamente irónico… Sim, a curto termo protegem-se os empregos criando barreiras alfandegárias aos produtos estrangeiros. Mas não se pode esquecer que os outros farão a mesma coisa em detrimento da nossa indústria exportadora, que, por isso, se verá obrigada a despedir trabalhadores … Sem contar com outros efeitos deletérios a médio e a longo prazo. No começo, eles vão criar poderes de monopólio a nível local, já que a concorrência é muitas vezes estrangeira, o que aumentará os preços. Em seguida, eles vão impedir os seus cidadãos de aceder aos melhores produtos, porque vai limitar-se a oferta aos produtos nacionais. Daí nasce um freio à inovação: quando estão perante uma baixa de concorrência as empresas inovam menos, porque não têm vontade de se “canibalizar”, ou seja, não querem substituir os produtos existentes por outros bens.”

  1.   A revolução digital

“É preciso prepararmo-nos para a revolução digital que chega, sem o que o choque poderá ser muito violento, o que dará alegria e alento aos populistas. É claro que a destruição de emprego se vai acelerar, mesmo se ninguém faz verdadeiramente ideia a que velocidade acontecerá. É preciso que as pessoas que perdem os empregos se requalifiquem para encontrar um novo trabalho… As destruições de empregos existentes desde o século XIX são concomitantes com o progresso técnico, e desde essa época que se pensa que o trabalho vai desaparecer. É um erro porque novos empregos são sempre criados – até Keynes se enganou! Daí a necessidade de se requalificar. Mas a aceleração da destruição de empregos será forçosamente complicada para o nosso sistema social, correndo o risco de fazer crescer desigualdades e constrangendo parte da mão de obra a aceitar trabalhos menos bem remunerados.”

Todos estes temas e teses, que Jean Tirole explanou em recente entrevista à revista Le Point, estão desenvolvidos num livro, Economia do Bem Comum, que é um hino à razão, à clareza argumentativa e à informação fundamentada no pensamento económico, num livro que está bem para lá de “impressões”, opiniões ou crenças ideológicas.

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