Estranhíssimos seres humanos

Manuela de Freitas

Faço aqui revelações sobre os meus medos e sobre o quarto escuro que pode ser um palco. Foi a minha forma de apresentar um livro, “Visita Guiada ao Ofício de Actor”, do professor António Branco. Foi na Fnac do Chiado, aqui há uns anos.

Começo com o meu muito obrigado aos amigos, alunos e leitores do professor António Branco, que vieram assistir a esta sessão e que, por tanto confiarem nele, tiveram a paciência de vir ouvir o que eu tenho para dizer, se é que tenho alguma coisa para dizer.

Quero também agradecer ao António Branco o convite que me fez, muito embora deva dizer que há umas semanas estava a rezar-lhe na pele, e eu explico. É que, por ser editor, estou habituadíssimo a convidar, mas não a ser convidado. Estou habituado, nestas sessões de apresentações de livros, a gozar as delícias de ser espectador e jamais a ser actor, que não sou, nem sei ser.

Mas há desafios que não se podem recusar e o António Branco invocou o passado e obrigou-me a ir aos confins da minha memória, quando eu ainda era jovem e ele andava pouco mais do que de bibe, e nos cruzámos numa experiência mais do que vanguardista, numa experiência radicalmente teatral e radicalmente política a que alguém chamou “Teatro do Mundo”.  

Não sei se tenho orgulho ou medo desse passado. Lembro-me, por exemplo, do senhor Adolfo Gutkin, um senhor que aparece neste livro, página sim, página não, me ter chamado para o palco do teatro da Trindade, mesmo aqui ao lado, para integrar os exercícios de aquecimento a que esses espectros a que chamam actores se entregavam. Apanhei o maior susto da minha vida, o coração à velocidade da fórmula um, as pernas a abanarem como uma bandeira negra no meio da revolução. Ora eu, só estava no Teatro do Mundo para fazer pesquisa de texto, eu só queria escrever sossegadinho e estar sentado a uma secretária, imóvel e invisível, e o raio do encenador argentino, vindo de Cuba, atira com o meu pobre e miserável eu para cima de um palco, sem rede.

E agora que confessei tudo, agora que me livrei desse terrível peso do passado, quero, afinal, agradecer ao António Branco por me ter convidado, não propriamente a mim, que sou hoje um ignorante do que seja o Teatro, mas a esse miúdo que esteve cinco minutos – um século – em cima de um palco onde estavam esses heróis ou deuses ou estranhíssimos seres humanos a que damos o substantivo nome de actores.

E vamos então ao que aqui me traz: falar deste livro. Começo pelo título: “Visita Guiada ao Ofício de Actor”. Muito bem, deixem-me dizer: sou como toda a gente, estremeço amorosamente só de pensar em actores. Se vou ao cinema, é pela presença deles. Para ver a Ingrid Bergman no “Notorious”, para ver o Marlon Brando no “Há Lodo no Cais”, a Falconetti, de cabelo rapado, na “Paixão de Joana D’Arc”.

No teatro também: tenho a mais viva lembrança de ver Peter O’Toole no palco, a uns três, quatro metros de mim, camisa aberta, a gravata quase desarmada, uma ressaca de caixão à cova, o catarro, esse homérico refluxo que um cigarro acalmava, enquanto não conseguia descobrir a bebida, o gin, que lhe limpava o apertado estreito. E era só um actor, era Peter O’Toole a fingir que era Jeffrey Bernard, o jornalista herói (ou anti-herói) da peça “Jeffrey Bernard is Unwell”, que é como quem diz “Jeffrey Bernard não está nada bem”.

Portanto, fica estabelecido que eu amo essa imagem do actor. Gosto dessa fusão que, a bem dizer, nem sei se é a da personagem no actor, se é a do actor na personagem. Ou seja, eu gosto quando não distingo, quando vêm dois em um: vejo John Wayne no Ethan Edwards do filme “A desaparecida”, de John Ford, e vejo que Ethan Edwards é, inteiro, o corpo, mas também a moral de John Wayne.

Por causa desse amor à imagem e à presença do actor, eu tinha uma grande vontade de abrir este livro de António Branco. O diabo foi mesmo o título. Em vez do estremecido amor, o título, essa promessa de uma “Visita Guiada ao Ofício do Actor”, fazia-me recuar a tremer. Voltou-me o medo das duas da tarde, no Teatro da Trindade com o Senhor Adolfo Gutkin. Ou seja, mais depressa andaria numa montanha russa no escuro do que quereria fazer a assombrada visita guiada ao ofício do actor. Só pensava: que seres descarnados é que vou encontrar dentro deste livro.

E pensava também esta coisa terrível: que adoráveis e acrisoladas ilusões é que eu vou perder se vir o actor por dentro? Aliás, como é que se vê o actor por dentro? Sobe-se uma escada, abre-se-lha a boca e olha-se para o escuro que está lá dentro? Quantas mulheres e quantos homens é que estão no quarto escuro, de dentro, sem janelas, da Greta Garbo? Seria por isso, por estar tão acompanhada, que ela dizia, num filme, o “Grand Hotel”, que queria ficar sozinha, aquele seu célebre “i want to be alone, i just want to be alone”?

O que eu estou a dizer é que este é, em primeiro lugar, o livro onde se levam pessoas a passear por dentro do actor. Ora, tenho para mim que se há paixão a que não se resiste é a paixão do medo. E foi a cavalgar o medo que eu fui, depois, apaixonadamente por este livro dentro. E talvez este não seja um livro, talvez seja uma oficina. É uma pequena e íntima oficina. Paradoxalmente é tão mais íntima quanto é uma oficina de grupo.

Permitam-me que salte etapas de uma forma anárquica e diga já aqui quais foram as duas mais sedutoras descobertas desta visita em que o António Branco me guiou.

O grupo foi a primeira. Esse actor que vemos gigantesco num grande plano do cinema, que vemos imponente e sozinho em cima do palco, só se descobre no grupo. O seu corpo, em primeiro lugar, define-se pelo contacto, pela fusão ou mistura com os corpos do colectivo que é o grupo.

É no grupo e nos exercícios com o grupo que o actor volta a recuperar uma consciência animal do movimento, volta a ter a fluidez e a organicidade de movimentos que todos reconhecemos, por exemplo, nos movimentos de um gato. Com o grupo, com os exercícios do grupo, brincando, brincando como uma criança, o actor redescobre a maneira do corpo pensar por si próprio, separado do controle do fluxo mental, acabando na aparência com a tirania da mente. Dou um exemplo meu, para se perceber melhor. Parece que Charles Laughton, sofisticadíssimo actor inglês, terá dito do americano e ingénuo Gary Cooper, e com toda a sinceridade, o seguinte: “Vi logo que ele tinha qualquer coisa que eu nunca teria. Aquele rapaz não tinha a mais pequena ideia de como representava bem.” Charles Laughton, que sabia mais do que nós todo, viu bem: aquele rapaz, Gary Cooper, mexia-se instintivamente, como uma criança que pensa com o corpo, com a inocência animal de um gato.

A outra magnífica descoberta que fiz neste livro de António Branco foi uma descoberta que agarrou em mim ao colo. Agarrou em mim em peso, nos meus 61 quilos, e foi sentar-me outra vez nos bancos da Faculdade de Letras de Lisboa, quando eu estava a ouvir o meu mestre de filosofia antiga, o professor José Gabriel Trindade Santos que, não certamente por acaso, é o prefaciador desta obra.

O método que António Branco propõe, e a que ele submete os seus estudantes, é uma verdadeira floresta de etapas que têm a particularidade de ter nomes prodigiosos. Há o “aquecimento”, e há a “incorporação”, a “improvisação” e há a “conversa com o texto memorizado”, nomes quase neutrais, digamos, mas há depois exercícios que se chamam “O Leproso”, ou o “Trapo Queimado” ou “O Cego”, e ainda o “Demoníaco/Angélico” e este que pareceria até estar mais ligado ao comércio de retalho a que ele chama “Carga/descarga”. Estes nomes exuberantes parecem apontar para uma aventura de grande extroversão. Diria que parecem definir um percurso pedagógico que tem a intenção de fazer alguém sair de si mesmo para ser outro, para fingir um fora de si que seria o actor.  

Nada mais errado, todos os exercícios do método que António Branco defende só lhe interessam se forem um processo dialéctico de auto-conhecimento. De repente, o antiquíssimo Sócrates, o ateniense da cicuta, volta à vida e mostra ao actor deitado, ao actor convulso, ao actor enrolado no seu próprio corpo, ao actor caracterizado, ao actor naturalista, que toda a sua aprendizagem se resume à velha máxima: “Conhece-te a ti mesmo”. Ou seja, em cada página que lia, misturada com as letras, com as palavras, apareciam-me sobrepostas a máscara de Sócrates e a cara trocista do meu professor Trindade Santos.

Para mim, portanto, “Visita Guiada ao Ofício do Actor” foi, em primeiro lugar, a descoberta do grupo, do colectivo, como uma fonte de identidade primária, ou primeira, em que o actor recupera o instinto do gato e o gosto pelo lúdico da criança. E foi, em segundo lugar, o reencontro do processo de auto-conhecimento com tudo o que esse “conhece-te a ti mesmo” tem de reencontro com a autenticidade, palavra chave do léxico do professor António Branco.

Bastava-me isso, para estar aqui a afogar de encómios este livro. Sucede, porém, que há outra figura a emergir destas páginas. Já mencionei o encenador Adolfo Gutkin, já referi Sócrates e o professor Trindade Santos. Podia também referir Stanislavski, Grotowski, Brecht ou Fernando Amado, mestre de tantos actores portugueses. Mas acontece que, envolvendo todos estes nomes, comendo e bebendo deles, incorporando-os, por isso, há uma figura tutelar neste livro. É a actriz Manuela de Freitas, mãe ou deusa do Teatro do Mundo. António Branco é autor deste livro, mas o olhar apaixonado dele, às vezes mesmo um olhar de pura devoção, está posto, como os olhos de Mrs. Muir no filme de Joseph Mankiewcz, no fantasma do capitão Gregg. Só que neste livro o capitão Gregg é Manuela de Freitas.

Diria que metade do livro é um périplo por um método em que, a cada passo, irrompe o exemplo de Manuela de Freitas, a sua ética de actriz, essa sua vontade de absoluto que esta citação que retirei do livro bem testemunha: “Um actor é um ser que resolve ter como profissão, conhecer-se totalmente, saber tudo o que tem, o que podia ter, o que é, o que poderia ser, do que é capaz, do que não é capaz.” E ela, a senhora De Freitas, conclui, vicentinamente: “O actor é toda a gente e ninguém.” Ou seja, o actor que Manuela de Freitas quer ser tem nela a máxima universalidade e a máxima despersonalização. Absolutos, sempre.

Na sua proposta modesta de se apresentar como “Uma Visita Guiada ao Ofício de Actor” este livro quer esconder, mas não esconde, que está marcado pela vontade de absoluto, pela feroz exigência de autenticidade de Manuela de Freitas.

E é por isso que toda a segunda parte do livro, cerca de 150 páginas, reúne textos, entrevistas e intervenções públicas da actriz. São 150 páginas turbulentas. Fisicamente turbulentas – preparem-se para a tempestade e para os poços de ar.

Em Manuela de Freitas, com Manuela de Freitas, vida e teatro, política e arte, ética e estética, corpo e alma, carne e mente, são conceitos ferrados uns aos outros à dentada. Doem. Doem por ser sagrados, inseparáveis à nascença. Quando Manuela de Freitas surge, neste livro como em cima de um palco ou num filme de João César Monteiro, sabemos que o espectáculo vai começar. Mas mudem, por favor, o azimute do conceito de espectáculo. Esse espectáculo é um ritual religioso de que ela é a sacerdotisa. Quem se quiser meter nisto, não pense que que se vai amenamente divertir. Preparem-se para ouvir um grito, mesmo se, por vezes ou quase sempre, o grito mais forte e mais profundo é um grito mudo.

Numa das suas entrevistas Manuela de Freitas dizia: “Ganharia muito melhor a fazer telenovelas. Já me ofereceram milhares de contos para fazer de troféu de caça e sou insultada por não ceder.

Este livro é, acima de tudo, a história dessa não cedência. É um livro sobre a integridade. Obrigado António Branco.

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