Um poema

Larkin

Inspirado pelo exemplo do meu amigo Paulo Nogueira, brasileiro que devíamos roubar ao Brasil e obrigar a ser só o português que ele também é, romancista que devia ser obrigado a só publicar na minha Guerra e Paz oferecendo-nos a glória, trago-vos um poema de Philip Larkin.

Nas palavras meio sofridas do Paulo: «Philip Larkin cai sempre bem. Nesta altura do campeonato, então, nem se fala.»

Eis, em aflita e velhíssima tradução minha, o poema, Aubade, que Larkin publicou, se bem sei, a 27 de Novembro de 1977, no Times Literary Suplement.

Aubade

Trabalho o dia todo e embebedo-me à noite.
Acordado às quatro da manhã, contemplo a silenciosa escuridão.
Logo mais a luz virá bordejar as margens das cortinas.
Entretanto vejo o que sempre lá esteve:
A incansável morte, um dia inteiro mais perto agora,
Tornando impossível pensar noutra coisa
Como, e onde, e quando eu próprio morrerei.
Árida interrogação: e todavia o terror
De morrer, e de estar morto,
Cintila, agulha que desperta e horroriza.
Clarão a esvaziar o espírito. Não pelo remorso
– O bem por fazer, o amor que não demos, o tempo
Desperdiçado – nem pelo desânimo de uma só
Vida levar tanto tempo a percorrer
Nunca se libertando, talvez, do seu errado começo;
Total e eterno vazio,
Essa certa extinção para que caminhamos
E em que ficaremos perdidos, sempre. Não para estar aqui,
Nem em lado nenhum,
Muito em breve: nada mais terrível, nada mais verdadeiro.

Esta é uma maneira especial de ter medo.
Nenhum truque a apaga. A religião tentou-o,
Vasto brocado musical roído pela traça
Criado para fingir que nunca morremos,
Equívoco material que diz Nenhum ser racional
Receará o que nunca vai sentir,
sem ver
Que é isso o que faz medo – não ver, não ouvir
Não tocar, saborear ou cheirar, nada para pensar,
Nada para amar ou nos ligarmos,
Anestésico de que ninguém regressa.

Fica só na finíssima margem da visão,
Pequena mancha desfocada, um frio persistente
Que trava cada impulso e convida à indecisão.
Muitas coisas podem nunca acontecer: esta acontecerá,
E a sua compreensão irrompe
Como um vulcão de medo quando nos apanha
Sem companhia ou bebida. A coragem não serve:
É apenas para não assustar os outros. Ser valente
Não deixa ninguém fora da sepultura.
Uivos de sofrimento ou sereno confronto não mudam a morte.

Lentamente a luz cresce e o quarto ganha forma.
Entra-nos pelos olhos, básico como um armário, o que sabemos,
O que sempre soubemos, que nunca escaparemos,
Ainda que não o aceitemos. A esse encontro, não faltaremos.
Entretanto os telefones encolhem-se, prestes a tocar
Em escritórios cerrados, e um mundo insensível
Intrincado e efémero começa a despertar.
Um céu de branco sujo, sem sol.
O trabalho tem de ser feito.
Os carteiros como os médicos vão de casa em casa.

E agora no límpido e sonoro original:

Aubade
I work all day, and get half-drunk at night.
Waking at four to soundless dark, I stare.
In time the curtain-edges will grow light.
Till then I see what’s really always there:
Unresting death, a whole day nearer now,
Making all thought impossible but how
And where and when I shall myself die.
Arid interrogation: yet the dread
Of dying, and being dead,
Flashes afresh to hold and horrify.
The mind blanks at the glare. Not in remorse
– The good not done, the love not given, time
Torn off unused – nor wretchedly because
An only life can take so long to climb
Clear of its wrong beginnings, and may never;
But at the total emptiness for ever,
The sure extinction that we travel to
And shall be lost in always. Not to be here,
Not to be anywhere,
And soon; nothing more terrible, nothing more true.

This is a special way of being afraid
No trick dispels. Religion used to try,
That vast, moth-eaten musical brocade
Created to pretend we never die,
And specious stuff that says No rational being
Can fear a thing it will not feel, not seeing
That this is what we fear – no sight, no sound,
No touch or taste or smell, nothing to think with,
Nothing to love or link with,
The anasthetic from which none come round.

And so it stays just on the edge of vision,
A small, unfocused blur, a standing chill
That slows each impulse down to indecision.
Most things may never happen: this one will,
And realisation of it rages out
In furnace-fear when we are caught without
People or drink. Courage is no good:
It means not scaring others. Being brave
Lets no one off the grave.
Death is no different whined at than withstood.

Slowly light strengthens, and the room takes shape.
It stands plain as a wardrobe, what we know,
Have always known, know that we can’t escape,
Yet can’t accept. One side will have to go.
Meanwhile telephones crouch, getting ready to ring
In locked-up offices, and all the uncaring
Intricate rented world begins to rouse.
The sky is white as clay, with no sun.
Work has to be done.
Postmen like doctors go from house to house.

2 thoughts on “Um poema”

  1. Permito-me debruar esta ideia, ” ser valente não deixa ninguém fora da sepultura”.
    Está muito lírica a nossa comum fatalidade.

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